Seja bem-vindo!

Este blog é um dos produtos da pesquisa de Mestrado "Cuidado, frágil: aproximações e distanciamentos de trabalhadores de um CAPS na atenção ao suicídio" e inclui sugestões de leitura, frases que me marcaram e vídeos que podem ser utilizados por pessoas ou grupos como disparadores para discussão e reflexão da questão do suicídio – seja na prevenção ou na compreensão dos fatores que podem estar por trás deste fenômeno - buscando compreender o sofrimento que está por trás deste acontecimento.

domingo, 31 de julho de 2016

Tico Santa Cruz, a respeito do suicídio de Fausto Fanti (Hermes e Renato),
no Facebook, em 30 de julho de 2014:


"Só conheci o Fausto como a maioria de vocês. Por seu humor no "Hermes e Renato" - que para falar a verdade nem era um programa que assisti muito. Mas toda vez que algo como o que aconteceu com ele, chega a público, me acerta como um soco na boca do estômago. 
Não só por ser um cara jovem, mas pela forma como decide sair desse mundo. Talvez por pura identificação. 
Não sei exatamente o que o levou a partir, mas há um esgotamento geral de amor no coração das pessoas e acho que nossa geração será marcada por partidas assim! Pela escolha de não querer mais seguir por aqui. 
É preciso ter força sim, ter fé também e ter muito estômago para enfrentar tanta realidade. Não falo por ele, falo por mim ou por muitos que andam por ai cansados, mas que ainda resistem!!! 
Não é feio demonstrar fraqueza. Triste é fingir ser forte quando tudo parece estar te sufocando! 
Mas, se possível for, é preciso tentar encontrar bons motivos para continuar. Seja no que de bom ainda possa estar por vir ou pelas coisas simples do dia dia.
Notícias assim me assustam, me incomodam, me perturbam, talvez por tomar consciência de que há uma atmosfera pesada nos rondando. 
Penso no último minuto, na última respiração, no último pensamento. 
É estranho demais! 
Sem julgamentos, sem penitencias, sem lições de moral. 
Só desejo luz no caminho e força aos amigos e familiares. 
E que nós tenhamos condições de seguir lutando, acreditando e sonhando, mesmo que o coração esteja apertado e a alma com ânsia de escapar!"





domingo, 24 de julho de 2016

Slides


Palestra apresentada no Palácio das Artes -Praia Grande em 22/07/2016. 
lucianacescon@yahoo.com.br



Link para visualização ou download dos slides:

http://www.slideshare.net/LucianaFranaCescon/suicdio-ateno-na-preveno

Ariano Suassuna, Deus, o Suicídio e a Esperança.





"Deus pra mim, é uma necessidade. Se eu não acreditasse Nele, eu era um desesperado", afirma Ariano no final do vídeo.

Ele me fez lembrar a frase de Paulo, O Apóstolo, que dizia: "Se a nossa esperança se resumisse apenas a esta vida, seríamos os mais infelizes de todos os homens".

 O Suicídio é produto da perda da esperança. Somente quem perde a esperança em si mesmo, na vida e nas possibilidades, é que se permite o ato de acabar com a própria vida. ou se permite migrar da possibilidade de um estado de esperança, para a total permissividade da desesperança.

 Todo momento de desespero passa, por mais triste e duro que pareça ser, assim como também é tão frágil, o momento da felicidade.

Gosto da afirmação de Nietzsche,  quando ele fala que a vida é feito de pequenos momentos de felicidade, e não de épocas dela. São partículas e fragmentos de momentos que, aqui e ali, nos alimentam e nos levam para um estado de esperança. Felicidade plena, somente no dia em que meu espírito retornar a Deus (a plenitude), de onde veio.

 Assim nos tornamos menos infelizes, e mais esperançosos. Encaramos a vida como um privilégio, e até os "percalços" que ela trás, podem ser vistos com a esperança de que eles passarão, e que novamente, como um ciclo, mergulharemos ainda em muitos estados de felicidade.

Esta esperança de Ariano, também é a minha, e espero que seja também a sua.

 Porém, muitos de nós preferimos desacreditar.

[...] 

Eu não acredito mesmo que seja Deus quem permite que alguém seja feliz ou não. Eu acredito que Ele só produza em mim o bem e não o mal, pois Ele é Pleno, e o mal só pertence a nossa humanidade e a falta de plenitude que nos habita. Porém acredito que o desejo e vontade de Deus para mim, é que eu escolha os caminhos que me levarão a experimentar a felicidade.

Por isto, me entristece ouvir repetidamente a tal frase: "Porque que Deus permite que alguém nasça defeituoso, ou no corpo ou na mente, porque será que Deus permite o mau?...  Como se fosse Deus, e não nós.

Somos nós e nossa natureza adoecida pelo mal, quem produzimos as próprias deformidades.

E o que pode trazer esperança?... ...Para mim é acreditar no que Jesus Cristo disse: "São os teus olhos a luz do teu corpo; se teus olhos forem bons, todo o teu corpo será cheio de luz (a esperança é filha da luz).

Porém se teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará tomado pelas trevas (De quem é filho o desespero).

Você não correrá o risco de cair em desespero, se puder escolher a janela pela qual você quer olhar a vida.

Quem assim crê, troca todos os desesperos que levam ao suicídio, pela esperança, que leva a um estado de ser muito mais pleno.




 Ana D´Araújo

http://animapsic.blogspot.com.br/2016/05/ariano-suassuna-deus-o-suicidio-e.html

domingo, 17 de julho de 2016

A experiência suicida numa perspectiva fenomenológica

Trabalho de Rocha, Boris e Moreira.

Resumo: Esta pesquisa tem como objetivo compreender a experiência suicida a partir de um referencial humanista-fenomenológico que propõe uma revisão conceitual da psicologia humanista de Carl Rogers a partir da fenomenologia da ambiguidade de Maurice Merleau-Ponty. Partindo da compreensão de que a experiência vivida apenas pode ser adequadamente compreendida em mútua constituição com o mundo, tal perspectiva fenomenológica supera a dicotomia de interno versus externo, tão presente nos estudos sobre a subjetividade. Desta forma, a experiência suicida pode ser reconhecida como uma experiência mundana, uma vez que não é possível compreendê-la sem sua condição de imbricação com o mundo. Foram entrevistados seis pacientes psiquiátricos do sexo masculino que puderam descrever suas tentativas de suicídio por meio de entrevistas semiestruturadas. Identificando como cada colaborador compreendia suas experiências suicidas, foi possível descrevê-las sem as amarras teóricas dos estudos sobre tal tema. Pode-se perceber que a experiência suicida se caracteriza como uma vivência de aniquilamento existencial, e reconhecer, também, que as condições culturais e socioeconômicas em torno do suicídio devem ser sistematicamente consideradas e aprofundadas para que tal fenômeno humano possa ser melhor compreendido como um fenômeno mundano. 

Palavras-chave: Suicídio; Fenomenologia; Psicologia humanista; Carl Rogers; Merleau-ponty.









domingo, 10 de julho de 2016

"Uma jovem que tentou o suicídio após ter perdido o namorado deverá merecer tanto respeito da nossa parte quanto a pessoa idosa que perde o companheiro de muitos anos. Não é possível medir, com uma medida única, o sofrimento alheio; não se pode julgar, nem tirar conclusões.
Respeitar é não usar a minha medida para sentir o sofrimento do outro, 
mas usar a dele próprio. "

- Manual do Voluntário do CVV  

Imagem de Felipo Rolim



Por que uma pessoa se mata? Entenda o suicídio.

 CONTI outra -  12 ago, 2014

O desespero beira o insuportável. A cada dia, o sofrimento – físico ou emocional – fica mais intenso e viver torna-se um fardo pesado e angustiante. Sua dor parece incomunicável; por mais que você tente expressar a tristeza que sente, ninguém parece escutá-lo ou compreendê-lo. A vida perde o sentido. O mundo ao seu redor fica insosso. Você sonha com a possibilidade de fechar os olhos e acordar num mundo totalmente diferente, no qual suas necessidades sejam saciadas e você se sinta outro. Será que a morte é o passaporte para essa nova vida?

Atire a primeira pedra quem nunca pensou em morrer para escapar de uma sensação de dor ou de impotência extremas. Parece comum ao ser humano experimentar, pelo menos uma 
vez na vida, um momento de profundo desespero e de grande falta de esperança. Os adjetivos são mesmo esses: extremo, insuportável, profundo. Mas, aos poucos, os seus sentimentos e idéias se reorganizam. Suas experiências cotidianas passam a fazer sentido novamente e você consegue restabelecer a confiança em si mesmo. Você descobre uma saída, procura apoio, encontra compreensão. Aquele desejo autodestrutivo, aquela vontade de resolver todos os problemas num golpe só, se dilui. E você segue adiante. Muitos, no entanto, não conseguem encontrar uma alternativa. O suicídio, para esses, parece ser a última cartada, o xeque-mate contra o sofrimento, um gran finale para uma vida aparentemente sem sentido, para um presente pesado demais ou para um futuro por demais amedrontador. E eles se matam.
Imperscrutável, no limite, o suicídio não tem explicações objetivas. Agride, estarrece, silencia. Continua sendo tabu, motivo de vergonha ou de condenação, sinônimo de loucura, assunto proibido na conversa com filhos, pais, amigos e até mesmo com o terapeuta. Mas as estatísticas mostram que o suicídio precisa, sim, ser discutido. Trata-se, além de uma expressão inequívoca de sofrimento individual, de um sério problema de saúde pública. Segundo o relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 815 mil pessoas se mataram no ano 2000 em todo o mundo – uma taxa de 14,5 para cada 100 mil habitantes. Isso significa um suicídio a cada 40 segundos. A “violência autodirigida”, como o suicídio é classificado pela OMS, é hoje a 14ª causa de morte no mundo inteiro. E a terceira entre pessoas de 15 a 44 anos, de ambos os sexos. Não pode mais ser ignorada.

Casos de suicídio muitas vezes são deliberadamente mascarados nas estatísticas oficiais. Suicídios de crianças tidos como morte acidental ou acidentes de automóvel, causados por jovens que dirigem alcoolizados e em alta velocidade: para os especialistas, esses são, sim, atos suicidas. “Se você investigar a vida dessas crianças e jovens semanas ou meses antes da morte, pode identificar sinais de que algo não ia bem”, diz a psicóloga Ingrid Esslinger, do Laboratório de Estudos sobre a Morte da Universidade de São Paulo (USP). A poeta americana Sylvia Plath (1932-1963) tentou se matar duas vezes antes de concretizar o suicídio (tais experiências levaram-na a escrever o romance A Redoma de Vidro). Uma das vezes foi um “acidente de carro”. Aparentemente, Sylvia perdera os sentidos no volante e deixara o carro sair da estrada e ir ao encontro de um aeródromo. Segundo o crítico literário Alfred Alvarez, amigo da poeta, a própria Sylvia admitiu que saíra intencionalmente da estrada, com o objetivo de morrer.


“Todos já pensamos em suicídio em algum momento na vida. É um pensamento humano. Se não desejamos nos matar, ao menos cogitamos morrer – morrer para escapar do sofrimento, para nos vingar, para chamar a atenção ou para ficar na história”, diz o psiquiatra e psicanalista Roosevelt Smeke Cassorla, da Sociedade Brasileira de Psicanálise, um dos maiores especialistas brasileiros em suicídio. “Mas resolvemos continuar vivos e melhorar as nossas condições de vida. O suicídio, então, soa como um desatino. A pergunta que fica é: por que algumas pessoas desistem e outras não?”

Por trás do comportamento suicida há uma combinação de fatores biológicos, emocionais, socioculturais, filosóficos e até religiosos que, embaralhados, culminam numa manifestação exacerbada contra si mesmo. Para decifrá-los, os estudiosos recorrem à “autópsia psicológica”, um procedimento que tem por finalidade reconstruir a biografia da pessoa falecida por meio de entrevistas e, assim, delinear as características psicossociais que a levaram à morte violenta.

“Existem causas imediatas predisponentes – como perda do emprego, fracasso amoroso, morte de um ente querido ou falência financeira – que agem como o último empurrão para o suicídio”, diz a psicóloga Blanca Guevara Werlang, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), especialista em autópsia psicológica. “A análise das características psicossociais do indivíduo, porém, revela os motivos que, ao longo da vida, o auxiliaram a estruturar o comportamento suicida. Pode mostrar as razões para morrer que estavam enraizadas no estilo de vida e na personalidade.”

Fenômeno complexo, o suicídio configura um assassinato, em que vítima e agressor são a mesma pessoa. “A definição de suicídio implica necessariamente um desejo consciente de morrer e a noção clara de que o ato executado pode resultar nisso. Caso contrário, é considerado morte por acidente ou negligência”, diz o psiquiatra José Manoel Bertolote, líder da Equipe de Controle de Transtornos Mentais e Cerebrais do Departamento de Saúde Mental e Toxicomanias da OMS.

O fato de estar consciente de que vai efetuar um ato suicida não elimina, no entanto, o estado de confusão mental que o indivíduo experimenta momentos antes da ação. “Ele não sabe se quer morrer ou viver, se quer dormir ou ficar acordado, fugir da dor, agredir outra pessoa ou, de fato, encontrar o mundo com o qual fantasia”, diz 
Roosevelt. Afinal, o suicida tem diante de si duas iniciativas complexas e contraditórias a conciliar naquele momento: tirar a vida e morrer. O suicídio ocorreria, então, num instante em que a pessoa se encontra quase fora de si, fragmentada, com os mecanismos de defesa do ego abalados e, por isso, “livre” para atacar a si mesma.

Há suicídios e suicídios. Por isso, os especialistas costumam avaliar a tentativa de se matar ou o ato propriamente dito a partir de duas variáveis: a intencionalidade e a letalidade. A primeira diz respeito à consciência e à voluntariedade no planejamento e na preparação do ato suicida. A segunda, ao grau de prejuízo físico que a pessoa se inflige. Existem casos em que o indivíduo demonstra evidente intenção de morrer e alto grau de letalidade, ao optar por um método eficiente. Em outras ocorrências, a vontade de morrer é fraca, apesar de voluntária, e o método escolhido é pouco prejudicial. Ou seja: há casos de suicidas propriamente ditos. E há casos em que a pessoa só está pedindo socorro, implorando para ser resgatada. Claro que há quem não queira enfaticamente a morte mas, por usar um meio perigoso, acabe sendo bem-sucedido.

E outros, cujo objetivo é mesmo acabar com a própria vida, por desconhecimento da maneira mais efetiva de causar danos graves a si mesmos, acabam sobrevivendo. (Aliás, esses, se não receberem tratamento adequado, são candidatos a uma nova tentativa.)

“Minha cabeça não recupera”
Dados da OMS indicam que o suicídio geralmente aparece associado a doenças mentais – sendo que a mais comum, atualmente, é a depressão, responsável por 
30% dos casos relatados em todo o mundo. Estima-se que uma em cada quatro pessoas sofrerá de depressão ao longo da vida. Entre os subtipos, a depressão bipolar – em que fases de euforia e apatia profundas se alternam – parece ser a de maior risco. O alcoolismo responde por 18% dos casos de suicídio, a esquizofrenia por 14% e os transtornos de personalidade – como a personalidade limítrofe e a personalidade anti-social – por 13%. Os casos restantes são relacionados a outros diagnósticos psiquiátricos.

Estudos de autópsia psicológica (feitos com base em entrevistas com amigos, familiares e médicos do suicida) mostram que mais de 90% das pessoas que se mataram no mundo tinham alguma doença mental. Entretanto, doenças psiquiátricas não são condição suficiente para o comportamento suicida, já que outros fatores – emocionais, socioculturais e filosóficos – também entram em jogo. Na verdade, essas doenças provocam uma vulnerabilidade maior ao suicídio. “É comum que a pessoa, quando está com depressão, tenha pensamentos pessimistas, ache que a vida não vale a pena e que talvez fosse melhor morrer”, diz o psiquiatra Humberto Corrêa, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Mas a maioria dos deprimidos não tentará se matar. Somente os mais impulsivos e agressivos procuram o suicídio.”

Hoje, sabe-se que indivíduos com alteração no metabolismo da serotonina – um dos mensageiros químicos mais importantes do nosso cérebro – apresentam maior risco de suicídio que os demais. Em sua pesquisa sobre a genética do comportamento suicida, Humberto analisou pacientes com depressão e esquizofrenia e constatou que todos aqueles que haviam tentado se matar tinham a chamada função serotoninérgica diminuída. (Ou seja, problemas no conjunto das etapas que envolvem a participação da serotonina: sua síntese, sua ligação com os receptores celulares e seu transporte. Se há falha em alguma etapa, a atuação desse neurotransmissor se reduz.)


“Quanto maior a intencionalidade suicida e mais letal o método usado, menor a função cerebral da serotonina”, diz Humberto. O próximo passo é pesquisar que genes ligados ao funcionamento da serotonina – são mais de 20 – poderiam estar mais associados ao comportamento suicida. Diversos grupos internacionais dedicam-se a estudos desse tipo. O psiquiatra Pavel Hrdina, diretor do Laboratório de Neurofarmacologia da Universidade de Ottawa, Canadá, descobriu que pacientes depressivos portadores de uma mutação no gene responsável por codificar um dos receptores da serotonina apresentavam duas vezes mais chances de cometer suicídio que aqueles sem a mutação. “A alteração nesse gene aumenta o risco de ideação suicida e de tentativas de autodestruição em casos de depressão grave”, diz Hrdina. Os cientistas tentam agora entender a relação direta entre a serotonina e o suicídio.

“Há uma forte evidência de que a serotonina inibe o comportamento violento, agressivo e impulsivo. Mas o que sabemos sobre a ligação entre esses comportamentos e o suicídio?”, escreve a psiquiatra americana Kay Redfield Jamison, portadora de depressão bipolar, familiarizada com a ideação suicida (ela mesma já tentou se matar) e autora do livro Quando a Noite Cai. “Embora muitos pacientes tenham planos bem formulados para o suicídio, a cronometragem definitiva e a decisão final para a ação costumam ser determinadas por impulso.” Portanto, os fatores biológicos são particularmente importantes para a decisão sobre quando apertar o botão “morrer”.
A participação genética no suicídio vem sendo pesquisada desde a década de 1920. Um estudo feito na Dinamarca mostrou que os parentes biológicos de pessoas que foram adotadas quando recém-nascidas e que se suicidaram posteriormente tinham taxas de suicídio significativamente maiores que as observadas entre os parentes adotivos. Entre gêmeos idênticos, de acordo com uma pesquisa americana, a possibilidade de um irmão se matar caso o outro já tenha se suicidado gira em torno de 15%. Para os gêmeos não-idênticos, a taxa cai para 2% ou 3%.

Tal componente genético poderia explicar, em parte, os casos de suicídio numa mesma família. Filhos de pais depressivos teriam uma predisposição maior à doença. Por isso, muitos especialistas incluem os parentes de um suicida no grupo de risco. Mas, no caso de padrão familiar para o suicídio, não só a genética pode exercer influência sobre o comportamento, mas também o modelo presente naquele núcleo social. Filhos podem se inspirar na solução que pais suicidas encontraram, por exemplo, de usar a morte como saída para um conflito.

“Desculpa, não consegui”

O escritor italiano Cesare Pavese (1908-1950), 12 anos antes de se matar com barbitúricos, tinha escrito: “Ninguém nunca deixa de ter um bom motivo para o suicídio”. A angústia existencial do suicida sempre vai fornecer justificativas para a sua morte. Ele sempre poderá enxergar a vida sem sentido ou ver prevalecer em si 
um sentimento neurótico de desvalia, derrota e de baixa auto-estima. Daí a criação de fantasias em torno da morte. Como se trata de um fenômeno pouco entendido e também considerado tabu, o suicídio geralmente é recriado de acordo com as expectativas do indivíduo. O suicida não pensa, por exemplo, que vai se decompor e virar pó.

“O suicídio é um ato de linguagem, de comunicação. Como vivemos numa rede de relacionamentos, a nossa morte significa algo para as outras pessoas”, diz a psicóloga Maria Luiza Dias Garcia, coordenadora da Clínica de Psicoterapia Laços, em São Paulo, que analisou mensagens (bilhetes, cartas, gravações) deixadas por suicidas no livro Suicídio – Testemunhos do Adeus. “Constatei, pelos discursos, que o suicida está num quadro de embotamento, como se estivesse afogado nas próprias emoções. Ele não aproveita os vínculos sociais para partilhar seus sentimentos e vê o mundo de uma maneira muito própria.” O suicídio, então, torna-se um meio de expressão, uma fala que não pôde ser dita.

Os especialistas costumam diferenciar as tentativas de suicídio do ato em si, uma vez que, de acordo com a intencionalidade e a letalidade, o gesto pode assumir sentidos diferentes. As tentativas de se matar são vistas como um grito por ajuda, sintoma de uma falha tanto no sistema familiar quanto no grupo social. “O indivíduo não consegue pedir socorro de outro modo, então opta por um ato extremo”, diz a psicóloga Denise Gimenez Ramos, da PUC de São Paulo. “Por que ele não foi ouvido? Todos dão conselhos, mas ninguém ouve o que ele tem a dizer. Esse indivíduo, portanto, fica com a impressão de que não existe para o mundo.”

Incapazes de comunicar a própria dor, os suicidas recorrem a algumas fantasias para justificar a si mesmos a autodestruição. A busca de uma outra vida é uma das mais 
comuns. O indivíduo enxerga no suicídio a oportunidade de interromper uma existência infeliz e recomeçar, com uma nova chance para acertar. Matar-se também pode ser um jeito de acelerar o reencontro com pessoas queridas já mortas – o pai, a avó, um amigo, o cônjuge. Outras fantasias comuns acerca do suicídio: gesto de vingança ou rebeldia, castigo e autopenitência. “A ideia da não-existência é tão insuportável que a mente humana inevitavelmente recorre às fantasias para levar adiante o projeto de auto-aniquilamento”, diz Roosevelt Cassorla. Mas o indivíduo nem sempre tem acesso consciente a essas fantasias.

O psicólogo Valdemar Angerami-Camon, do Centro de Psicoterapia Existencial, chefiou por quatro anos o Serviço de Atendimento aos Casos de Urgência e Suicídio da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo e constatou como tais fantasias estão presentes na mente daqueles que querem se matar. “O que me impressionava eram as pessoas que tentavam suicídio dizerem que não queriam morrer”, diz Valdemar. “Como alguém tenta o suicídio e diz que não quer morrer? Na verdade, queriam acabar com uma situação de desespero. Como não conseguiam ver outra alternativa, recorriam ao suicídio. Mas, ao depararem com a possibilidade concreta da morte, percebiam que não queriam, de fato, morrer.”

O psiquiatra Claudemir Rapeli, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), autor de dois extensos trabalhos sobre suicídio, também constatou esse sentimento em boa parte dos suicidas que atendeu no Hospital das Clínicas de Campinas. “O arrependimento é imediato. Reconhecem que foi uma atitude impulsiva, desesperada, ansiosa.” Claudemir conta a história de um rapaz de 18 anos que tentou suicídio tomando um agrotóxico letal. (A substância provoca, em algumas semanas, uma espécie de fibrose pulmonar que impede a respiração normal e o indivíduo morre sufocado.) “Quando ele começou a sentir que não ia melhorar, que os médicos não podiam fazer mais nada, o pânico dele foi comovente”, afirma. “A motivação foi banal – uma briga com a namorada por achar que ela o estava traindo. Tomou o veneno para livrar-se da rejeição, mas não queria a morte. Ele pedia a todos os médicos que não o deixassem morrer.”

Você pode argumentar que muita gente se vê em situações de grande desespero ou solidão existencial e, mesmo assim, não busca o suicídio. O que faz a diferença? Na verdade, não existe uma personalidade suicida – existe, sim, uma vulnerabilidade emocional (que pode ser trabalhada com o apoio de um parente, um psicoterapeuta ou um amigo). “Quem tem uma estrutura de ego frágil pode não suportar uma grande perda ou um momento de crise e, num impulso, acaba cometendo o suicídio”, diz Ingrid Esslinger. O ego se constitui a partir dos primeiros vínculos afetivos, do modo com que o bebê foi cuidado pelas figuras de apego e da educação que a criança recebeu. Um ego fraco não tolera a frustração, não tem capacidade de espera, não suporta lidar com a impotência, com os limites e com os “nãos” que a vida impõe.

“O sistema mata!”

Mesmo sendo resultado de uma escolha individual, o suicídio também é visto como uma questão social. O pioneiro no estudo desse campo foi o sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), com o clássico O Suicídio, de 1897. “Existem vários estudos comprovando a influência da cultura, do ambiente e da religião sobre as taxas de suicídio, seja como facilitadores, seja como limitantes”, afirma José Manoel Bertolote. Ele e a equipe do Departamento de Saúde Mental e Toxicomanias da OMS publicaram recentemente um estudo, numa revista científica norueguesa, mostrando que as taxas de suicídio mais baixas encontram-se em países islâmicos, seguidos de países hinduístas, cristãos (mais baixas em católicos que em protestantes) e budistas, nessa ordem.

As taxas mais altas vêm de países “ateus”, que compunham o antigo bloco comunista: Lituânia, Letônia, Estônia, Rússia, Cuba e China. A religião aparece, portanto, como um mecanismo de “proteção” contra o comportamento suicida (todas as crenças religiosas condenam, em maior ou menor grau, o suicídio).

Combinada a outras influências, a religião pode ser também fator de estímulo para os “suicídios altruístas ou heroicos”, na definição de Durkheim. Cada membro do grupo está disposto a sacrificar a sua vida em prol das crenças. “Os casos mais recentes são os dos homens-bomba entre os palestinos e dos suicidas de 11 de setembro, relacionados a situações políticas muito específicas e à crença religiosa islâmica”, afirma Maria Cecília de Souza Minayo, doutora em Saúde Pública e professora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro.

Embora as mulheres sejam mais propícias a ter pensamentos suicidas que os homens, as taxas de suicídio masculino são mais elevadas. E os métodos que eles usam são mais definitivos e violentos, como uso de arma de fogo e enforcamento. Em média, ocorrem cerca de três suicídios masculinos para um feminino – com exceção de algumas regiões da Ásia, em especial na China, onde o número de mulheres que se matam supera o de homens e há mais casos no meio rural que nas cidades –, o que também contraria o padrão mundial.
Cada sociedade tem uma taxa mais ou menos constante de suicídios. No caso do Brasil, a média é de 4,5 suicídios por 100 mil habitantes nos últimos 20 anos (dados de 2000). Número relativamente baixo, se comparado à taxa da Finlândia, por exemplo, que é de 23,4 casos em 100 mil pessoas. As taxas brasileiras de suicídio se elevam conforme a idade dos indivíduos, até atingir sua máxima expressão na faixa de 70 anos ou mais, quando chegam a 7,3 suicídios em 100 mil habitantes. Dentro de um país, o Brasil ou outro, as taxas mais altas vêm da comunidade indígena e dos imigrantes, principalmente dos núcleos que perderam muito da sua identidade cultural. Segundo a OMS, há fatores que claramente aumentam a probabilidade de suicídio no grupo social. Taxas de suicídio são altas durante épocas de recessão econômica e de forte desemprego. Também se elevam em períodos de desintegração social e instabilidade política.

“A adolescência e a velhice são os dois momentos mais propícios tanto para a ideação e as tentativas de suicídio quanto para concretização do ato, por razões diferentes”, diz Cecília. Na velhice, os motivos com freqüência se devem à depressão, a sentimentos de rejeição e abandono e à dificuldade de aceitar certas enfermidades dolorosas e incapacitantes, como o câncer. “Na adolescência, os problemas de conflito familiar, de dificuldades de identificação, os sentimentos de perda ou de inferioridade, a baixa auto-estima, em casos específicos de personalidades com tendências depressivas e de isolamento, podem se associar e resultar em tentativas ou em atos de suicídio”, afirma ela.
O cansaço existencial e as crises constantes também alimentam o desejo de morrer.

“Eu não deveria existir”

Para o filósofo e escritor argelino Albert Camus (1913-1960) só há um problema filosófico verdadeiramente sério sobre o qual o homem deve refletir: o suicídio. Segundo ele, a questão fundamental da filosofia é responder se vale a pena ou não viver. “O homem vive num clima de absurdo e pouco pode esperar da história. Esses obstáculos colocam a existência como um problema. Novamente, a pergunta se impõe: viver vale a pena?”, diz o filósofo Franklin Leopoldo e Silva, da USP. “Na perspectiva de Camus, o suicídio está sempre no horizonte do indivíduo porque a pergunta sobre a validade da vida é permanente. Isso não significa que a morte é a única solução. A saída pode ser o enfrentamento lúcido, ainda que um tanto solitário, desse clima de absurdo.”

Uma reflexão filosófica mais profunda da contemporaneidade revela que a vida não é mais considerada um valor – pois, diante da moderna sociedade de consumo, perdeu gravemente o caráter sagrado – e, por isso, o suicídio também foi banalizado. Tornou-se alternativa descartável. “Já não representa mais um ato de contestação ou um ato exemplar nem parece resultado de uma dor psíquica insuportável, como foi no passado. O significado do suicídio também se perde nessa tendência ao não-pensamento que assola o mundo contemporâneo”, diz a filósofa Olgária Mattos, também da USP. A sociedade de consumo é falsamente hedonista: promete gratificação imediata e, ao mesmo tempo, frustra as próprias perspectivas que oferece. O suicídio seria também uma conseqüência dessa impulsividade: uma reação às promessas não cumpridas de felicidade e satisfação instantâneas e à decepção que daí decorre. “O suicídio, hoje, vem da dificuldade de entrar em contato consigo mesmo.”

O autoconhecimento dá trabalho, exige empenho e tolerância à frustração”, diz Olgária.

A pergunta fundamental de Camus continua a nos martelar. “O suicídio agride porque nos diz o tempo inteiro da nossa possibilidade de escolha. Porque, se o outro faz isso, eu também posso ter essa escolha. Porque eu terei de me haver com o meu próprio potencial suicida, ou com o meu próprio desejo de morte”, diz Ingrid Esslinger.

Levado às últimas conseqüências, o suicídio também pode parecer um ato de afronta a Deus. “Tirar a própria vida dá, ao indivíduo, a sensação de fazer algo que é divino e entrar em contato com o mistério”, afirma Denise Ramos. “O suicida passa da extrema impotência – não posso mudar nada – à extrema potência – acabo com a minha vida quando e como eu quero. Nesse momento, em sua fantasia, se iguala a Deus por provocar também um ato que vai além da natureza humana.”

Para o teólogo e filósofo Renold Blank, da Pontifícia Faculdade de Teologia de São Paulo, tal atitude de achar-se o único responsável pela própria vida ultrapassa os limites éticos. “Do ponto de vista ético, a vida de cada ser humano tem sentido não só para si mesmo mas para os outros também”, diz ele. “Por meio da minha vida, dou sentido à vida dos outros e, assim, a minha existência ganha significado. Se acabo com a minha vida, acabo com todas as possibilidades de dar sentido à vida de outras pessoas. Falho em minha responsabilidade com os demais.” As ações de cada indivíduo repercutem no grande sistema de relações sociais e ganham uma dimensão histórica – o que é feito hoje, mesmo em âmbito pessoal, tem sempre uma conseqüência futura. O suicídio funciona, então, como uma brusca ruptura dessa rede.

“O suicídio é um ato privado que não representa somente uma violência contra si mesmo mas também contra mais, pelo menos, seis pessoas. Elas são forçadas a conviver com os sentimentos de vingança, vergonha, culpa, sofrimento psicológico, medo de enlouquecer e de também cometer o suicídio”, afirma o suicidologista australiano Diego De Leo, diretor da Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio (IASP, na sigla em inglês), organização não-governamental que reúne profissionais e entidades envolvidas no estudo do comportamento suicida.

“Sei que voceis me perdoarão”

No núcleo familiar e comunitário, a melhor prevenção é falar sem temores sobre suicídio e saber identificar os pedidos de socorro das pessoas próximas. “Ninguém precisa dar uma solução para os problemas do outro, deve apenas aprender a ouvir. As pessoas encontram as soluções dentro de si quando conversam e refletem sobre seus conflitos e emoções”, diz Denise.

Apostando nessa fórmula, existe o serviço de prevenção ao suicídio do Centro de Valorização da Vida (CVV), uma entidade não-governamental de atendimento humanitário criada há 40 anos e presente em todo o Brasil. O CVV segue os moldes dos Samaritanos, de Londres, uma entidade fundada no início dos anos 1950 para atender pessoas angustiadas que precisavam de apoio psicológico. Todos os voluntários são treinados para ouvir seus interlocutores (por telefone, carta, e-mail ou pessoalmente) sem nenhum tipo de julgamento e respeitar sua decisão, mesmo que seja a de cometer o suicídio. “Respeitamos o sofrimento de quem nos telefona. Ele tem a liberdade de falar sobre o que quiser durante o tempo que for necessário”, conta Adriana, voluntária do Posto da Vila Carrão, em São Paulo, e assessora de comunicação do CVV. “Estamos disponíveis para ouvir o que cada um tem a dizer sobre seus medos, dificuldades e angústias e ajudar a revalorizar a própria vida.”

O serviço atende, em média, 1 milhão de ligações por ano. Isso revela a necessidade que as pessoas têm de falar sobre seus conflitos. Quando o assunto é suicídio, abrir-se pode ser terapêutico.
A experiência do CVV, dos Samaritanos e de outros programas semelhantes demonstra que o primeiro passo para evitar o suicídio está no resgate do sentido da existência. “O que motiva o suicida é a falsa ideia de que sua vida não tem mais valor nem para si mesmo nem para os outros”, diz Renold Blank. O verdadeiro desafio parece fazer com que as pessoas percebam que sempre existe saída, não importa a situação. Que há como se reinventar e trabalhar em si mesmo aspectos de que gosta menos. Que nossa vida é importante para os outros também. E que sempre há alternativa, mesmo que, a princípio, seja dolorida. Afinal, a única coisa para a qual não há remédio é a morte.

“Tive medo de ser o próximo”

“Era de manhã quando recebi o telefonema avisando que meu irmão tinha se suicidado. Enforcou-se. Levei um susto muito grande, foi um choque. No caminho até minha casa, senti vergonha por ser da família de um suicida. Tenho três tias velhinhas, que são de uma geração em que o suicídio era ainda mais estigmatizado – e disse a elas que devíamos contar para todos que o meu irmão havia se suicidado. Preferi não ocultar. O gesto dele me trouxe uma sensação dolorida de que também poderia acontecer comigo. Tive medo de ser o próximo. Fiquei muito assustado. Venho de um núcleo de morte – minha mãe morreu jovem, de câncer, quando eu era criança, e meu pai sofreu um infarto agudo há alguns anos. Não acredito que tenham sido mortes naturais, talvez eles quisessem mesmo morrer.

Me senti muito culpado, foi inevitável. Pensei que talvez pudesse ter feito alguma coisa. O suicídio é uma violência muito grande. Parece uma bomba, uma explosão. Era meu irmão mais velho. Acho que ele nunca desejou alguma coisa com empenho. Tudo, para ele, tanto fazia, qualquer coisa estava bem. Era uma situação crônica. Ele entrou em várias faculdades e não terminou de cursar nenhuma. Tentou vários empregos, mas saiu de todos eles. Foi casado, separou-se, tinha uma namorada. Aparentemente sua vida estava estruturada. E ele não era depressivo. Talvez não estivesse vendo perspectivas. As razões do suicídio são um mistério. Pensei muito em quais teriam sido os motivos. Só relaxei quando assumi que não podia entendê-los. No enterro, senti uma raiva muito, muito grande. Naquele instante, experimentei uma profunda sensação de abandono. Nunca tinha sentido isso antes. Meu irmão foi enterrado no mesmo túmulo onde já estavam os meus pais.

Fiquei sozinho. Tenho muita vontade de viver. Acho que é uma espécie de resistência – gosto de festas, brigo pela vida, vivo intensamente, tenho amigos, curto meu trabalho, sou afetivo… Sempre fui assim, mas o suicídio me fez ver de maneira mais consciente que a vida é uma só. Não sou nada religioso, mas acho que todos nascemos para ser felizes, para desfrutar.

Pensei muito nisso, logo depois do suicídio. Um dia, fiquei parado uns 15 minutos diante de uma avenida onde os carros vinham em alta velocidade e não havia faixa de pedestres. Era só um passo, tão fácil, e tudo se acabaria. Depois, ao visitar um novo apartamento, também contemplei a janela demoradamente… Num ato poderia resolver tudo, todos os meus problemas. Mas prefiro os meios mais difíceis. Não acredito em outra maneira.”
E.S., médico e professor universitário, 45 anos

Por Maria Fernanda Vomero




domingo, 3 de julho de 2016

Conheça o santuário onde mais de mil pessoas desistiram do suicídio - sem julgamentos, com empatia
The Huffington Post UK  |  De Rachel Moss
Publicado: 23/06/2016 14:31 BRT 


“Cheguei sem esperança alguma e saí de lá carregando uma semente de esperança no coração.”

Oito anos atrás, Sarah* entrou pela porta da frente do Maytree, o primeiro “santuário para pessoas suicidas” no Reino Unido.

Ela passou quatro noites e cinco dias expondo seus pensamentos mais tenebrosos aos voluntários ali presentes. Era um momento em que ela não via razão para continuar vivendo.

Aquela estadia curta transformou sua vida.

Depois de deixar a casa, Sarah conheceu o amor de sua vida, mudou-se para Nova York e conseguiu emprego novo. Recentemente, deu à luz seu primeiro filho.

A diretora da Maytree, Natalie Howarth, comenta, emocionada: “Acho que pôr uma vida nova no mundo, quando alguns anos atrás você estava pensando em pôr fim à sua própria vida, é uma coisa muito forte”.

Vista por fora, Maytree é uma casa como outra qualquer, numa rua comum da zona norte de Londres. Na realidade, quando fui para lá, passei pela casa sem nem perceber. Mas, quando ouço Howarth contar mais histórias como a de Sarah, percebo que as pessoas que trabalham nesta casa modesta estão realizando coisas extraordinárias.

natalie howarth
Natalie Howarth, diretora da Maytree

Desde que abriu suas portas a homens e mulheres prestes a cometer suicídio, 14 anos atrás, a Maytree já recebeu mais de 1.300 hóspedes. Desde então, pelo que Howarth sabe, apenas sete dessas pessoas acabaram por se matar.

“Enquanto estão aqui, os hóspedes têm um espaço para descansar, refletir e falar livremente sobre os sentimentos e emoções sofridos com que se debatem”, explica a diretora. Estamos sentadas em uma das salas de estar da casa.

“Não damos conselhos às pessoas e não tentamos ‘resolver’ nada.

Por isso, muita gente me pergunta: ‘O que diabos vocês fazem, afinal?’”

“Fazemos algo que acho que é bastante difícil para um ser humano dar a outro: ficamos sentados com uma pessoa que está vivendo um momento realmente tenebroso. Não a julgamos. E manifestamos empatia e preocupação por ela.”
A casa já serviu de abrigo temporário para pessoas de todas as origens sociais e profissões, incluindo agentes de condicional, professores, médicos e desempregados. Qualquer pessoa que esteja tendo pensamentos suicidas pode contatar a equipe da Maytree pelo telefone ou por e-mail e combinar um encontro inicial.

Depois disso, a pessoa é convidada para uma estadia única e gratuita de cinco dias na casa.

“Sempre me perguntam: ‘Como é a cara de um suicida?’. Eu digo: ‘O suicida parece você, eu, seu vizinho, seu amigo’. O suicídio afeta todo o mundo”, diz Howarth.

quarto

Ela chegou à direção da Maytree em 2011, depois de passar anos trabalhando no setor voluntário, mas o conceito foi idealizado por Paddy Bazeley e Michael Knight, que Howarth descreve como “dois rebeldes corajosos” que tinham trabalhado anteriormente com a organização Samaritans (entidade beneficente britânica que dá apoio a pessoas que correm o risco de suicídio).

Bazeley e Knight viram a necessidade de alguma coisa que preenchesse o vazio entre o serviço de atendimento telefônico a pessoas com pensamentos suicidas e a internação hospitalar. Quando a Samaritans disse que não tinha condições de abrir um abrigo desse tipo, os dois decidiram criá-lo por conta própria.

Maytree é muito diferente de uma enfermaria hospitalar. Além do clima de calma e paz, há o som familiar de uma máquina de lavar funcionando na casa. Há toalhas felpudas e roupas de cama brancas em cada um dos quatro quartos para hóspedes, e nos fundos da casa há um jardim pequeno e tranquilo.

“Temos botões de alarme em cada quarto. Desse modo, se o hóspede estiver sofrendo muito à noite, por exemplo repassando coisas na cabeça, sem conseguir dormir ou se sentindo muito vulnerável, basta apertar o botão e um dos voluntários que estiver de plantão virá dar uma olhada e ver como ele está”, explicou Howarth.

“Se for o caso, o voluntário o levará para a cozinha, fará um chá e ficará conversando com ele até as 2h ou até a hora que for – até a pessoa se sentir bem o suficiente para voltar para a cama.”

Materiais de limpeza, tesouras e facas ficam trancados quando os funcionários da casa não os estão usando, e todas as janelas têm traves, de modo que só podem ser abertas até determinada altura.

Televisão, rádio e internet não são permitidos na casa, para dar aos hóspedes a oportunidade de refletir realmente, sem distrações. O entretenimento que há é feito de quebra-cabeças e jogos de tabuleiro à moda antiga.

“Foi preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre criar um ambiente seguro e aconchegante, de lar – quanto menos clínico, melhor -, mas também reduzir o acesso a ferramentas e objetos com os quais as pessoas poderiam se ferir”, diz Howarth.

equlibrio

O conceito pode soar simples, mas funciona. A Dra. Pooky Knightsmith se hospedou em Maytree em fevereiro de 2016 e conta que saiu da casa tendo redescoberto a esperança.

“Eu morria de medo de ir para lá, mas senti que não tinha alternativa”, ela conta. “Eu já não sentia confiança em poder chegar até o dia seguinte em segurança. Queria ir para algum lugar onde eu pudesse me sentir em segurança por alguns dias e dar uma folga à minha família.”

Knightsmith disse que a quebra com sua rotina, somada à “gentileza incondicional” dos profissionais de Maytree, a ajudaram a visualizar uma escolha diferente para sua vida.

“Ninguém esperava nada de mim, então o sentimento de culpa por eu não ser a esposa, mãe, amiga ou funcionária que eu achava que devia ser era aliviado por alguns dias”, ela diz.

“Houve inúmeras coisinhas que ajudaram. Eu poderia ficar falando disso por horas. Mas o principal é que não é como se eu tivesse chegado lá doente e saído saudável. Cheguei lá sem esperança alguma e saí carregando uma sementinha de esperança e a compreensão de que, com muito esforço e deixando que me dessem apoio, eu poderia encontrar um caminho para avançar.”
sementinhas de esperança

Uma das coisas mais surpreendentes de Maytree é que as pessoas que trabalham ali são quase todas voluntárias. Elas fazem um treinamento aprofundado de seis semanas, antes de poderem interagir com os hóspedes. Alguns dos voluntários perderam entes queridos que se suicidaram ou já ficaram na casa anteriormente, eles próprios, como hóspedes.

“O fato de que muitos voluntários tinham experiência em primeira mão de nutrir sentimentos suicidas, e o fato de agora estarem se virando bem no dia a dia, era tremendamente inspirador”, comenta Knightsmith.

“Não eram exemplos perfeitos de pessoas que tinham vidas incríveis. Eram pessoas normais, honestas, com empregos um pouco chatos, pessoas que vivem em casas desarrumadas, com aquecedores prestes a quebrar. Pessoas normais que em dado momento sentiram mais vontade de morrer que de viver, mas essa proporção se inverteu. Isso me fez acreditar que também comigo ela poderia se inverter.”
Hoje a casa tem 103 voluntários e nove funcionários assalariados. Pode parecer muito, mas, como a casa funciona 24 horas por dia, 365 dias por ano, Howarth está sempre à procura de mais pessoas para ajudar no trabalho.

Não existe um dia típico em Maytree, mas os voluntários geralmente dividem seu tempo entre tarefas domésticas, como a cozinha e a faxina, atender o telefone, responder a e-mails de possíveis hóspedes e “fazer amizade” com os hóspedes atuais.

dave bain

Uma pessoa que já dedicou horas de seu tempo ajudando na casa é Dave Bain, que começou a trabalhar como voluntário quando era estudante de psicoterapia. Cinco anos mais tarde, ele continua a trabalhar aqui.

“É um privilégio poder acompanhar alguém que passa por uma transformação tão grande em apenas cinco dias”, ele diz.

“Trabalhar aqui às vezes é difícil, mas, por outro lado, é profundamente recompensador.”

Bain insiste que a vida na casa não é feita apenas de sofrimento e angústia. Na realidade, as conversas com os hóspedes podem até ser sobre coisas como futebol.

“Muitas das pessoas que chegam aqui vivem muito isoladas. Às vezes elas estão há três, quatro ou seis meses sem falar com ninguém”, ele explica.

“Você simplesmente encontra uma pessoa em um nível muito humano e reconhece a humanidade dela, assim como ela reconhece a sua. E às vezes isso tem um efeito poderoso.”
Para Bain e os outros voluntários, cuidar da própria saúde mental é tão importante quanto ajudar a melhorar o bem-estar mental dos voluntários.

Eles perguntam uns aos outros sempre como estão. Trabalham em equipe, para que seja mais fácil perceber quando alguém está precisando de uma folga.

“Nós aqui trabalhamos muito no momento presente”, diz Bain. “Quando entro por aquela porta, minha própria vida e todas as outras coisas ficam lá fora. Minha atenção fica focada aqui dentro.

“E é muito importante que, quando você sai no final do dia, não leve com você aquilo que ficou ouvindo naquele dia.”

Está claro que voluntários como Bain estão fazendo uma diferença positiva enorme na vida de pessoas. Há obras de arte espalhadas pela casa que hóspedes passados criaram para dizer “obrigado”, e Howard guarda um tesouro de cartas de familiares agradecidos.

“Uma carta que recebemos foi de um garotinho cujo pai passou uns dias aqui conosco. Era uma cartinha escrita em giz de cera. O menino tinha só uns 5 ou 6 anos”, diz Howarth.

“A carta dizia: ‘Querida Maytree, obrigado por fazer meu pai ficar bom de novo, agora ele brinca comigo’.”

Ouvir relatos como esses me provoca reações ambíguas. Não consigo deixar de me sentir indignada porque Maytree é o único abrigo desse tipo em todo o país.

À medida que a casa vem ficando mais conhecida, graças a seu envolvimento com documentários, incluindo “Professor Greene: Suicide and Me”, a equipe vem sendo inundada de ligações de potenciais hóspedes.

E é pouco provável que a demanda por vagas diminua no futuro próximo. As cifras mais recentes mostram que o suicídio ainda é a maior causa de morte de homens de até 45 anos no Reino Unido; 2.997 homens se mataram em 2015. Infelizmente, o número de mulheres que se suicidam no país também está aumentando constantemente; 902 mulheres morreram de suicídio em 2015, contra 832 em 2014.

Está mais que evidente que os serviços de saúde mental no país precisam de mais apoio. Mas há uma falta grave de verbas para o setor.

As doenças mentais representam 28% dos custos totais incorridos com doenças no Reino Unido a cada ano. Apesar disso, apenas 13% do orçamento do NHS (Serviço Nacional de Saúde) é dedicado a elas.

A Maytree funciona graças a financiamento de entidades como a Loteria Nacional britânica e a ONG beneficente Comic Relief, além de doações públicas. Howarth espera que uma segunda Maytree seja aberta nos próximos dois anos, esta na zona sul de Londres.

Mas o plano já ficou parado outra vez no passado devido à falta de recursos, então não existem garantias.

maytree

É claro que uma maneira de reduzir a sobrecarga de Maytree seria reduzir o número de pessoas, especialmente homens, que chegam ao ponto de querer cometer suicídio.

Howarth acha que um dos fatores que contribuem para os números preocupantes é a relutância dos homens em se abrirem sobre sua saúde mental.

“Pode ser uma generalização, mas os homens em geral têm grande dificuldade em falar de seus próprios sentimentos, porque eles se pautam mais pela lógica. E eles têm menos probabilidade de procurar ajuda. As mulheres têm mais probabilidade de conversar com suas amigas sobre como se sentem e de procurar o médico”, diz ela.

“Acho que isso tem muito a ver com a educação e a sociedade – a expectativa de que os homens devem aguentar tudo, dar conta de tudo, encarar os golpes da vida e não se abalar.”
Com campanhas de conscientização sobre saúde mental, como Time to Change e Heads Together, ganhando atenção crescente, Howarth tem a esperança de que a próxima geração de jovens, homens e mulheres, saiba falar abertamente sobre sua saúde mental, antes de chegar a um momento de crise.

Por enquanto, porém, está claro que ainda é preciso trabalhar muito para acabar com o estigma que cerca os problemas de saúde mental e romper o muro de silêncio que cerca o suicídio.

“Ainda há pessoas na sociedade que encaram o suicídio como um ato de tremendo egoísmo e pessoas que o veem como pecado –acham que a vida não nos pertence e que não temos o direito de acabar com ela”, fala Howarth.

“Então imagine que você se sente isolada e tem pensamentos suicidas, mas que sua comunidade julga os suicidas tão mal. O que você pode fazer? Com quem pode conversar?”

Os funcionários e voluntários da Maytree podem garantir refúgio seguro para quatro pessoas a qualquer dia, pessoas para quem a estadia na casa pode representar uma transformação em suas vidas.

Considerando o número muito grande de pessoas que chegaram à casa prestes a cometer suicídio e saíram de lá sentindo esperança no futuro, está claro que a casa é um modelo que funciona.

Com o número de suicídios aumentando, é imperativo que o governo, os serviços sociais ou as prefeituras sigam o exemplo da Maytree, procurando maneiras alternativas de aprimorar os serviços de saúde mental.

Os funcionários e voluntários da Maytree puderam ajudar algumas poucas pessoas de sorte, mas não têm como ajudar a todos.

Para saber mais sobre a Maytree, entre no site da casa na Internet ou entre em contato pelo e-mail: maytree@maytree.org.uk ou, ainda, pelo telefone: 020 7263 7070. 

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