domingo, 10 de setembro de 2017

eu sei como dói.
sei que dói e não é de agora.
sei que você já suportou muito e tanto, que às vezes se pergunta “tô suportando tudo isso pra quê?”, porque dentro de ti, já não faz mais sentido.
mesmo que ora ou outra aquela chama ainda acesa (porém pequena) de esperança em alguma coisa mostra que ainda existe
[a gente nem sempre tem esperança na melhora,
às vezes é só num dia melhor,
num momento bom,
às vezes ela aparece naquele riso inesperado,
naquela palavra amiga,
naquele conforto velado,
naquele texto que parece que nos lê ou que foi escrito por mãos parecidas com as nossas de tão parecido com a gente que é,
naquela música que nos acalma, que nos abraça quando ninguém mais faz isso,
naquele pôr do sol que vemos quando lembramos que basta olhar pro céu pra vermos algo novo e bonito].
eu sei que é difícil viver com um parasita dentro da gente que nos faz ver a vida de um jeito distorcido e te faz querer fugir de tudo, mesmo que a dor esteja em você.
e eu sei, eu sei que você chora muito que tem dias que quer chorar e não consegue mais, como se as lágrimas tivessem acabado, o que dói mais do que chorar descontroladamente.
eu sei que deitar a cabeça no travesseiro à noite não te dá sossego, sei que o monstro que te atormenta vem com mais frequência nesse horário e não te deixa dormir, não te dá paz.
sei que as outras pessoas não parecem confiáveis, que o mundo não parece mais mundo, é só um lugar que você está e não quer estar.
eu sei como às vezes parece que o universo quer que a gente desista.
e desistir é tão mais fácil, né? é tão mais fácil só pôr um fim,
mas você é tão forte por não desistir, eu juro pra você que vejo tua força exalando de você até mesmo quando tu chora.
tu não é fraco, tu não é só uma tristeza, tu não é só uma decepção.
tu é tantas & tantas coisas boas, feito até do que ainda não tem nome mas é tão bom te ter no mundo.
eu sei, assim como muita gente sabe, porque eu juro pra você que: tu nunca está sozinho, a tua dor faz parte da nossa.
e o mundo não é horrível como parece, as situações que são.
nem todas as pessoas são as mesmas que te machucaram.
e nenhuma dor dura pra sempre. a sua pode estar durando muito, mas ela vai terminar, você mesmo vai acabar com ela.
não permita que a dor acabe com você,
porque meu bem, a sua batalha está perdurando tanto porque tu é mais forte que ela, não é você quem está desistindo, é você quem está persistindo (mesmo que dentro de você haja um sentimento de derrota, é a sua auto-destruição que não deixa você ver o quão guerreiro tu é, mas toda vez que te vejo vivo, te vejo um vitorioso).
você é mais real do que essa dor que se alojou dentro de você e se espalhou por todos os cantos do teu ser, porque ela PRECISA de você pra existir, VOCÊ NÃO PRECISA DA DOR PRA EXISTIR.
eu tenho fé em você, eu acredito na tua batalha.
tudo bem perder lutas diárias, mas não desista de você. 


- Via Desbotando Tumblr

 

Não é o jogo da baleia azul que está matando os adolescentes, é nossa insensibilidade.




O suicídio já mata mais que homicídios, desastres e HIV em todo o mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde. Isso quer dizer que o seu assassino mais provável é você mesmo.
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Entre os jovens, a incidência é maior: Na faixa etária de 15 a 29 anos, apenas acidentes de trânsito superam o suicídio. Neste grupo, as mais afetadas são as mulheres (não por acaso, o gênero que é treinado para a dependência emocional).
Sintomaticamente, o jogo da Baleia Azul é viral. São 50 desafios que envolvem automutilação e atividades arriscadas em geral. O último desafio é tirar a própria vida: só assim, eles dizem, você ganha o jogo.
“Ganhar o jogo”, para muitos de nossos adolescentes, é se livrar da obrigação de continuar vivendo – e se isso não te choca, bem, eu desisto.
Por que, afinal, é mais provável que as pessoas queiram se matar quando são jovens?
Porque os velhos já se conformaram.


Quanto mais jovem se é, mais coisas são uma questão de vida ou morte. Quando se é jovem, absolutamente tudo parece irreversível.
Na adolescência, então, é sempre tudo ou nada, então não é exatamente estranho querer abandonar um mundo que não te entende e, sobretudo, um mundo que você também não entende.
Deve ter acontecido na sua família. Ou na família de um amigo. Ou com o amigo de um amigo. Ou com o próprio amigo. Não é difícil que você conheça uma história de suicídio ou de tentativa de suicídio: acontece todo dia.
Aconteceu comigo. Na época, morri de vergonha. A única frustração foi não ter conseguido – porque eu não tinha medo de morrer, eu tinha medo de viver.
Disseram que eu só queria chamar atenção. Era falta de Deus. Falta de amor. Falta de porrada. Na verdade, não era nada disso: era depressão. E se eu não tivesse uma família e amigos que compreendem a depressão – compreendiam mesmo antes de 13 reasons why, por exemplo – talvez eu nem estivesse aqui.
Talvez eu nem tivesse descoberto que as prioridades mudam, o sol abre novamente, os anos passam e doenças psíquicas são perfeitamente – embora não facilmente – tratáveis.
Talvez eu nunca tivesse saído daquela fase em que você desiste facilmente porque afinal não há muitas razões para não desistir: você ainda não tem quase nada, você ainda não sabe quase nada, você ainda não é quase nada – e a vida te bate mesmo assim.
A questão do suicídio (entre os adolescentes, sobretudo) é urgente e inadiável. Não dá mais para trata-la como piada, embora tantos insistam. O jogo da baleia azul não é o problema: é apenas uma parte ínfima – quase desprezível – do problema.
Aliás, encaremos os fatos: o problema é que somos uma geração fodida (e enquanto não houver uma verdadeira mudança de paradigmas, as próximas gerações serão cada vez mais fodidas).
A nossa geração ainda se importa pouco com doenças psíquicas, ainda trata como loucos os psicoatípicos, comove-se  com uma série bem feita mas é incapaz de se comover perante o sofrimento dos outros – o sofrimento real.
A nossa geração tem desaprendido muito sobre amor e compreensão: amar é, cada vez mais, para os fracos. Mães e pais despreparados estão, cada vez mais, surtando – por não saberem o que fazer, berram ou simplesmente ignoram.
O que antes eram paixões adolescentes fulminantes, agora são crushes: o bom e velho amor platônico com uma nova roupagem.
Vivemos tempos em que todo mundo tem a obrigação tácita de querer pouco ou nada, todo mundo tem que se bastar, ir em frente, ignorar as próprias dores, se valer sozinho.
Para uma geração que quase vive virtualmente, é pedir demais. A conta não bate.
Há – e que haja! – quem me acuse de exagerada e conspiracionista, mas não é sintomático que, justo nessa geração desapegada, bem-resolvida e feliz sob os filtros do Instagram, a Netflix seja um sucesso absoluto?
Não é sintomático, no mínimo, que a juventude do século XXI esteja trancada em casa maratonando séries no sábado à noite porque já não tem paciência (ou habilidade, nunca saberemos) para relações interpessoais?
Não é sintomático, sobretudo, que a série mais assistida da história da Netflix seja justamente uma série sobre suicídio?
Os nossos jovens estão se suicidando, e cada vez mais, porque a gente não presta atenção neles. A gente também não presta atenção na gente. Estamos preocupados em fazer piada de suicídio na internet e, quem sabe, ganhar uns likes. Na geração dos egos inflados, não sobra espaço pra mais nada.
Não é o desafio da baleia azul que está matando os nossos adolescentes. É a nossa insensibilidade.

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/nao-e-o-jogo-da-baleia-azul-que-esta-matando-os-adolescentes-e-nossa-insensibilidade-por-nathali-macedo/


domingo, 3 de setembro de 2017


Causa de uma morte a cada 40 segundos no mundo, o suicídio começa a perder o status de tabu e passa a ser discutido como questão de saúde pública


reportagem KARINA SGARBI E MISAEL LIMA
arte ALAN MACHADO
A primeira vez foi em 2012. Remédios, muitos deles, hospital, mentiras para esconder – foi apenas um comprimido a mais, confusão na hora de tomar. A vida segue, mas é como se não fizesse diferença, continua a doer. Três anos se passam e tudo volta. Mais forte, mas agora nem mesmo as justificativas que já tinham alcançado sucesso anteriormente são capazes de esconder a verdade.
Fica claro como a luz do dia: trata-se de tentativa de suicídio, pela segunda vez. E não há garantia de que isso deixe de se repetir, conforme a escritora de 41 anos, moradora da região, que conta como é a vida de quem não tem vontade de viver. “Quando tu tá mal, não quer encontrar tratamento. Hoje eu estou OK, tomando medicamentos, mas sinto que eu não mereço mais estar viva”, relata.
Conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio é responsável por uma morte a cada 40 segundos no mundo. No Brasil, em 2013, esta foi a causa de 69.783 óbitos, sendo 3.850 deles no Estado. O tema é tabu na sociedade, na mídia, nas escolas, nas famílias, e ganhou espaço desde o início do mês, com a série 13 Reasons Why, da Netflix, e com o jogo Blue Whale, ou Baleia Azul, que desafia jovens a cumprirem tarefas, sendo que a última delas é tirar a própria vida.
“Não digo que a série foi perfeita ao abordar o assunto, mas isso não exclui o impacto que iniciou uma boa discussão sobre suicídio. Ela trouxe luz ao assunto e isso sim é importante”, afirma a psicóloga Éllen Martins, que trabalha com a prevenção de suicídio. O vazio, a dor, um sofrimento sem fim que nem mesmo quem sente consegue explicar. Para quem sobreviveu a duas tentativas, nem sempre há uma razão que motive o suicídio. “Quando eu tentei, as duas vezes, nunca deixei carta porque achava que não precisava, porque eu não tinha uma razão para fazer aquilo. Era porque eu não queria mais existir e eu não tinha que explicar isso a alguém”, conta a escritora. Diagnosticada com depressão desde 2009, ela relata que há dias em que não passa uma hora sem que pense no assunto, já que, como escreveu num de seus livros, “a infelicidade não tem cura”. “Tu não querer viver não é o mesmo que querer morrer. Não é algo fácil chegar e dizer que vou acabar com a minha vida. Cada um carrega o seu sofrimento”, afirma.

Que série e que jogo são esses?

Lançada em 31 de março pela Netflix, a produção 13 Reasons Why é baseada em um livro de mesmo nome. Na história, o adolescente Clay Jensen volta da escola e encontra uma caixa com fitas gravadas pela amiga Hannah Baker, que cometeu suicídio duas semanas antes. Nas gravações ela explica as 13 razões pelas quais decidiu tirar a própria vida. Blue Whale ou Baleia Azul é um suposto jogo do qual se tem pouca informação ainda. Teria surgido na Rússia, com 50 desafios repassados em grupos do Facebook e WhatsApp, onde o último consiste em se jogar de um prédio. Em todo o mundo, diversos casos – tanto de suicídio quanto de tentativas – estão sendo investigados por possível relação com o desafio, mas ainda não há confirmações.




Mestre em disfarce



Nem sempre a dor é aparente. “A gente se torna mestre em disfarce, porque na verdade quando as pessoas perguntam se tá tudo bem, elas não querem saber se tá bem ou não realmente”, comenta a escritora. Seu diagnóstico foi feito ao consultar um psiquiatra antes de uma cirurgia. “Começa por aí, tu nem sabe que tem a doença. A pessoa com depressão tem momentos bons, momentos felizes, mas na maior parte do tempo é uma angústia, um sofrimento que não dá pra explicar”, relata. A primeira tentativa de tirar a vida ocorreu em 2012. “Quando eu tentei, não deu certo, eu me apavorei e fui para o médico. Disse para a minha mãe que tinha tomado medicamento para dor, uma dose a mais, e ela não soube que era uma tentativa de suicídio”, conta.
Depois disso, no mesmo ano, ela foi ficou internada em uma clínica por 29 dias, recebendo atenção adequada e cumprindo o tratamento. Em 2015, houve nova tentativa, desta vez no trabalho. “O sentimento que eu tinha era de desesperança, de que nada ia melhorar e que, se é pra ser assim, não tem razão continuar aqui.”
Ela chegou a ser xingada por um psiquiatra durante o atendimento. “Ele perguntou por que eu não tinha me jogado de um prédio, se queria morrer”, lembra. Hoje, mesmo recebendo ajuda, sente a questão do suicídio presente, mas afirma que poder compartilhar o que sente tem trazido um alívio. “Eu vejo que hoje eu consigo falar muito sobre isso, porque percebi que quando começo a falar e a pessoa ouve sem julgar, eu me sinto amparada”, diz.

"O sofrimento é muito particular"



Mediadora do grupo de estudos sobre Suicídio do Núcleo de Atendimento Psicológico (NAP), que começará as atividades em 31 de maio, a psicóloga Janete Maria Ritter destaca que os sinais que indicam a tendência ao suicídio variam de pessoa para pessoa. “A manifestação do sofrimento é muito particular. Pode-se observar se há mudança de comportamento muito brusca, isso independente da idade. Quando tem alguém que muda o comportamento muito bruscamente é um sinal de alerta”, comenta.
Ela destaca ainda que essa dor pode não ter uma explicação. “Acho que é preciso falar cada vez mais sobre suicídio. Se eu percebo que alguém falou, numa roda de amigos, que não tem vontade de viver, por exemplo, é importante perguntar o que quer dizer com isso. Não perguntamos porque não queremos saber a resposta. E isso tem que ser feito num tom de ouvir, não de julgar, e com interesse”, orienta.
A psicóloga Éllen Martins critica o tabu que envolve o tema. “O mito mais comum é de que falar de suicídio induz ao suicídio, o que não é verdade. Quanto mais informação houver sobre os meios de prevenção, mais pessoas podem ser ajudadas”, afirma.

  Uma capivara para enfrentar a baleia

Com o rápido crescimento dos desafios da Baleia Azul, o blog Capinaremos criou um desafio para valorizar a vida. O grupo Capivara Amarela no Facebook, criado pelo gaúcho Sandro Sanfelice, já reúne mais de 5 mil pessoas com desafios e curadores que auxiliam aqueles que sofrem com males como depressão e ansiedade e que já cogitaram a possibilidade de tirar a própria vida. “Ela é basicamente o oposto da Baleia Azul, um jogo do bem, também composto por 50 desafios diários, mas com o objetivo de fazer com que a pessoa tenha outra perspectiva da vida. Temos desafios iniciais dentro da zona de conforto do participante, os intermediários que buscam criar laços sociais com outras pessoas, como passeios e jantares e os finais, que são de introspecção e empatia com o outro, ver que o mundo é um coletivo”, comenta. Ele afirma que o grupo tem o apoio de profissionais da área e se utiliza de materiais do CVV, e que, de forma alguma, substitui a busca por um profissional especializado. “O curador não trata ninguém, ele está mais para um ombro amigo, alguém para ser empático”, explica. “Atualmente, já temos mais de 500 curadores cadastrados. E cerca de 700 desafiantes. Com a ajuda de profissionais da área, elegemos 100 desafios ‘oficiais’”, detalha.


domingo, 27 de agosto de 2017

Tico Santa Cruz em 14/04/2017

Eu lido com a ideia do suicídio desde a adolescência. Fantasio essa morte. Perdi a conta de quantas vezes só me faltou coragem para ir adiante. Os motivos sempre foram dos mais variados. Não sofri Bullying na escola, na minha época o Bullying não tomava as proporções que a internet potencializou. Minha questão estava relacionada com a sensação de rejeição que eu sentia por parte das pessoas próximas. Da incompreensão. Da não aceitação da minha maneira de ver o mundo de viver a vida. Dos conflitos intermináveis que vivi dentro da minha casa com minha família. Do sentimento de que esse lugar aqui é hostil demais para mim.
Lembro quando sentei na janela do prédio onde morava e fui vasculhando cada espaço entre os miolos do meu cérebro para encontrar o impulso que desse fim ao meu sofrimento. Não consegui. Me senti um covarde.
Eu me imaginava fincado na grade de segurança do prédio. No fundo eu queria me vingar do mundo, das pessoas.
À medida que fui crescendo, o pensamento nunca deixou de frequentar minha mente. Nos momentos mais complicados, e não foram poucos, só essa saída me parecia viável.
Não quero expor outras pessoas, mas fiz contato com o suicídio ou a tentativa dele por gente que eu amo muito, algumas vezes.
Quando comecei a fazer sucesso como artista, você pode imaginar que a realização do meu sonho me daria milhares de motivos para continuar a viver. Eu tive um filho e uma companheira forte e corajosa. Mas o contato com o outro lado da cortina - os bastidores - me revelou ainda mais farsas, falsidades, mentiras, egocentrismos, vaidades, manipulações e muitas limitações. Isso
me conduziu a um quadro de depressão e ansiedade. Comecei a ter crises de pânico diante de tantos compromissos, noites sem dormir, pequenas pressões, brigas, desgastes infinitos.
Quando tudo isso atingia o meu limite, começava a buscar novamente minha saída de emergência.
E fantasiava cortando os pulsos numa banheira, entupido de remédio e álcool para não sentir dor.
É o desespero. A falta de esperança. A falta de caminhos, perspectivas e a dificuldade de buscar outras formas de resolver as questões que mais inflamavam minha existência.

Ainda está aí?
Foi então que resolvi procurar uma terapia. Era isso ou a morte. Porque eu já sentia que estava bem perto de conseguir concretizar meu objetivo.
E encurtando um pouco outros episódios, foi que comecei a administrar meus fantasmas e meus anseios mais obscuros.
Sim!!! Foi a terapia quem me salvou. Foram os dias e dias, semanas, meses, anos de uma rotina terapêutica com a ajuda de uma especialista, que soube me conduzir a um encontro comigo mesmo que me ensinou a domar e lidar com essa questão.

Até hoje tenho meus pensamentos suicidas! Não sei... É algo que de fato está presente na minha cabeça. Contudo estou muito mais preparado para lidar com eles. E nunca tive vergonha de pedir ajuda. Ajuda mesmo!
Nestes três anos que se passaram onde eu entrei no olho do furacão dessa loucura que virou a questão política do Brasil, tive minha imagem exposta de diversas formas horríveis. Fui humilhado, bloqueado em meu trabalho, acusado de receber dinheiro que nunca recebi, rejeitado, apontado, ofendido, difamado, inclusive pelos meus próprios fãs. Exposto a linchamentos públicos por pessoas que considerava meus amigos. Minha família foi AMEAÇADA de morte, recebi milhares de mensagens de ódio com conteúdos absurdamente doentios. Vi tudo que eu havia construído com muita dedicação e amor, ser atingido por todo tipo de ataques.
Só que eu já me conhecia bem. A Terapia me deu todas as armas que eu precisava para lutar contra esse caos.
Você não tem a menor ideia do que é ser uma pessoa pública, um artista, e se ver diante de tanto ódio e tanta exposição negativa.
Calhou também de eu ter optado por ficar limpo, não estar usando nenhuma droga nesse período. Porque a droga te mina, deixa sua cabeça mais fraca, te fragiliza, te dá paranóias. Então se eu estivesse usando drogas nesse momento que passei, certamente não teria conseguido segurar a onda.
Teria dado um tiro na cabeça e resolvido tudo.

Porém, eu sou forte. Aprendi a ser forte! Encarei meus desafios de cabeça erguida. Continuo encarando. A ideia do suicídio ainda aparece para mim? Sim... Mas eu sei lidar com ela, graças a terapia.
Ver essa série que trata sobre o esse ponto tão delicado da existência humana, tem mexido muito comigo. Eu sei o que é aquilo ali, de forma diferente, mas sei. Me angustia profundamente. Eu choro sem querer. Me identifico. Lido com um turbilhão de sensações. Não consigo assistir mais de 2 capítulos seguidos. Ainda não terminei.
Mas me motivou a abrir essa parte da minha vida publicamente. Para dizer que apesar de tudo, vale a pena continuar vivendo e lutando contra meus monstros. Vale a pena seguir acreditando que seja possível vencer as barreiras, as rejeições, o ódio, e todo esse cenário de medo e desespero que estamos vivendo.

Tenho razões claras para dizer a você que assim como eu já pensou ou já chegou bem perto de dar fim a própria vida. Procure ajuda! Lute! Não desista!
A gente está aqui para aprender e o sofrimento nos ensina muito! A maturidade vem. É possível seguir!
Acredite em mim.




https://www.facebook.com/ticosantacruz/posts/1113477672118205 

domingo, 20 de agosto de 2017

Quais perguntas fazer a alguém que se sinta suicida?

Quando uma pessoa querida, um familiar ou amigo, está pensando em suicídio, às vezes pode ser difícil saber o que fazer ou dizer diante dessa situação.
Talvez um colega de trabalho lhe tenha expressado, de passagem, sentir que ninguém notaria se ele desaparecesse para sempre. Talvez um membro da família tenha manifestado que o melhor seria se ele pudesse dormir e nunca mais acordar. Ou talvez um amigo tenha contado a você sobre um plano concreto para acabar com a própria vida. Seja qual for a situação, esse tipo de conversa é séria e não deve ser ignorada.
Queríamos saber quais perguntas fazer a alguém que se sinta suicida, então pedimos aos membros do nossa comunidade de saúde mental para compartilhar uma pergunta que eles desejaram que lhes tivessem sido feitas quando se sentiram suicidas. É importante lembrar que cada pessoa que experimenta pensamentos suicidas tem sua própria necessidade. As perguntas podem ser um excelente ponto de partida, mas não deve ser a única medida para conseguir uma aproximação. A atitude que deve seguir a estas perguntas é que pode realmente ajudar as pessoas a se sentirem compreendidas e amadas.
Eis o que eles tinham a dizer:
1. “Você quer sair? Muitas vezes, em meus piores momentos, sempre me senti isolada e sozinha. Foi a partir deste ano que as pessoas realmente começaram a perceber e passaram a me convidar quando eu começava a me sentir isolada. "- Kira M.

2. “Posso me deitar aqui com você? Não precisava de mais conversa. Minha cabeça já estava cheia o suficiente. Eu precisava era de um abraço para saber que sim, eu existia para alguém. "- Michelle M.

3. “Qual é a pior coisa que você está pensando ou sentindo agora? Quando me sinto muito mal, vejo-me obrigada a esconder o que sinto das pessoas. Seria um alívio saber que eu posso conversar e falar abertamente sobre isso com alguém. "- Elizabeth M.

4. "Eu queria que alguém me perguntasse o que estava acontecendo ou como eles poderiam ajudar. Eu queria que alguém me ouvisse. No meio em que vivo as pessoas não dão a mínima atenção se o assunto não for conveniente para elas. É triste, tentei falar com alguns amigos sobre suicídio, mas eles empurraram o assunto para debaixo do tapete. "-Ashley M.

5. "Eu queria que eles simplesmente me perguntassem se eu pensava em suicídio. Sempre me fazem pergunta tipo: “Como você está”?" 'Você está bem?' "Algum mau pensamento?" "Você está tendo um dia bom ou ruim?" E tantas outras perguntas que parecem evitar a palavra " suicídio ". Quando essas pessoas evitam dizer a palavra suicídio ou se constrangem em perguntar se estou me sentindo suicida, penso logo que não querem saber como estou realmente me sentindo. "- Makayla F.

6. “Posso segurar sua mão esta noite? Eu acho que é importante poder sentar-se com alguém que é suicida e, não, procurar colocar um band-aid... Apenas sente-se sem julgamento e deixe a pessoa sentir que há alguém de verdade ao seu lado. "- Gyna R.

7. “Como posso ajudar? E se eu não sei o que dizer, porque, realmente, quando me sinto assim eu não sei como ser ajudada, apenas esteja lá. "- Jessi W.

8. “Por quê? Uma pergunta simples que nunca me fizeram de uma maneira sincera. Sem julgamento, sem nenhuma tentativa distorcida de fazer com que meus problemas pareçam menos importantes do que eu sinto que são. Perguntar por que com a verdadeira intenção de entender. Cuidar de mim sem me odiar por meus pensamentos. É o que eu precisaria. O que ainda preciso às vezes. "- Lydia D.

9. “Posso ficar com você? Às vezes, quando eu estou suicida, tudo o que preciso é que alguém esteja ao meu lado, que fisicamente não me deixe sozinha e que eu possa sentir a presença de uma outra pessoa que deseje realmente  que eu permaneça viva. "- Alyse R.

10. “Você está realmente OK? Se alguém tivesse dito isso me olhando dentro dos olhos e estivesse aberto em ouvir tudo o quanto eu gostaria de dizer, teria sentido que alguém se importou de verdade comigo. Ninguém nunca tentou ultrapassar a resposta de sempre: "Sim, estou bem", e eu realmente queria que alguém tivesse. "- Kacey K.

11. “Posso ir / posso ir buscá-la? Eu tenho (um filme / jogo de tabuleiro / jogo de cartas / maquiagem nova / etc e / pipoca / doces / bolo / etc). Seria bom estar com alguém que só queira estar comigo. Não precisa querer me “ajudar” ou “me tirar do fundo do poço”. Apenas esteja lá. Literalmente. Distraia-me. Faça com que me divirta. "- Brianne O.

12. “Você quer ajuda com algumas de suas tarefas? Você pode falar comigo sobre isso? Como você está se sentindo? Você pode me dizer o que está acontecendo para que eu possa entender o que você está passando? Existe alguma coisa que eu possa fazer para apoiá-lo nessa sua luta? Qualquer um destas perguntas seria bem vinda. "- Devin L.

13. “Você quer que eu procure um profissional para você se tratar? Eu nunca falo porque não quero ser um fardo e preocupar as pessoas, mas eu apreciaria se alguém levasse o que sinto a sério e me fizesse essa pergunta. "- Valentina V.

14. “Como posso te ajudar? As pessoas costumam ouvir que eu sou suicida, mas digo que não é nada disso, peço desculpas e desapareço por um tempo até que eu fique "melhor". Eu não precisaria de uma ajuda grandiosa, coisas até bobas - um texto ou uma visita à minha casa quando eu estou ansiosa para ver alguém, que enviem um meme tolo, mas pelo menos me perguntem: “Como eu posso te ajudar”?" Mas eu nunca vou contar a ninguém nada disso. "- Ciara L.

15. "A única coisa que sempre, sempre e sempre preciso ouvir é isso: Eu não vou deixar você. "-  Krystal S.

Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 141.

Texto original: By Juliette Virzi  https://themighty.com/2017/07/questions-to-ask-someone-suicidal-thoughts/ via @TheMightySite.

 Texto livremente traduzido e adaptado.

domingo, 13 de agosto de 2017

Prevenção do suicídio: Como podemos ajudar as Hannahs da vida real?

Difícil mensurar com precisão, mas a impressão é de que nunca se falou tanto em suicídio. O assunto mais marginal da imprensa vazou os tabus que o confinavam ao silêncio e avançou principalmente nos comentários do público. A discussão foi puxada pela série de ficção 13 Reasons Why, da Netflix, sobre a qual refletimos aqui, e estendida com o desafio da Baleia Azul, cujos boatos e realidades exploramos aqui.
Com mais de 11 milhões de tweets em 20 dias, 13 Reasons Why é a série mais comentada de 2017 até agora no Twitter, segundo dados obtidos pela revista norte-americana Variety. Na trama, Hannah, uma garota de 17 anos, grava em fitas K7 os 13 motivos pelos quais ela decidiu se matar. Os 13 episódios da série mostram o que ocorre após o suicídio, com uma narrativa que cruza o tempo presente - e os efeitos dolorosos vividos por seus pais e por quem a amava - com o passado dos relatos de sofrimento da garota.
Para além da ficção e dos temores com o Baleia Azul, o suicídio apareceu nas conversas com uma preocupação: o que pode ser feito para ajudar uma pessoa querida que esteja pensando ou planejando se matar?
Para que tal auxílio ocorra, é preciso que o assunto encontre um espaço sem julgamentos para ser falado, e isso faz toda a diferença para a prevenção.
"Conversar abertamente sobre suicídio é importantíssimo e pode ajudar muito aqueles que estão em grande sofrimento psíquico e vendo a morte como uma alternativa para dar um basta ao seu sofrimento", explica ao HuffPost Brasil a psicanalista Soraya Carvalho, coordenadora do Núcleo de Estudo e Prevenção do Suicídio (NEPS), na Bahia, membro da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (Abeps) e autora do livro A morte pode esperar? Clínica psicanalítica do suicídio (Campo Psicanalítico, 2014).
O ideal é que a pessoa seja escutada por um profissional especialista no assunto ou por voluntários do CVV (Centro de Valorização da Vida), que recebem treinamento para abordar pessoas em risco de suicídio. Entretanto, a família, um amigo ou um professor podem ajudar muito sem que tenham um preparo especial para lidar com tal assunto, desde que sigam algumas recomendações básicas e fundamentais.
É crucial partir do pressuposto de que a pessoa está mergulhada em grande sofrimento e de que ela mais precisa ser ouvida do que ouvir nossos conselhos, explica Carvalho. Portanto, é preciso escutar mais do que falar. "Acolher o sofrimento, escutando com atenção, neutralidade, respeito e interesse."
Segundo a especialista, podemos fazer isso a partir de duas perguntas essenciais:
1. O que há com você, o que está doendo?
2. Como posso lhe ajudar?
"Mas só pergunte se você puder escutar. Caso contrário, melhor nem iniciar o diálogo", pondera Carvalho. Ela explica o que significa poder escutar:
  • Não fazer julgamentos prévios e preconceituosos, baseados em ideias como "quem ameaça não se mata" e "quem quer morrer não avisa";
  • Não fazer interpretações como "suicídio é um ato para chamar atenção, manipular, de fraqueza, de covardia, de coragem, de falta de fé, de Deus ou de amor";
  • Evitar rótulos como "pessoa fraca" ou "desequilibrada";
  • Nunca minimizar, desvalorizar, comparar, rotular, abandonar, incentivar ou desafiar;
  • Sempre levar a sério, escutar sem julgamento, oferecer ajuda e acompanhar.
Um hábito comum, mas não recomendado, é sugerir que a pessoa precisa ter pensamento positivo, que ela tem que se ajudar ou reagir.
Nunca conheci alguém que tenha desistido da ideia de se matar porque recebeu um conselho desse tipo. Muito pelo contrário. O depoimento de pacientes é que este tipo de abordagem faz que se sintam ainda piores, uma vez que se sentem incapazes de melhorar porque isso não depende da vontade deles. Por isso me pergunto para quem serve este tipo de incentivo: para quem dá ou para quem recebe?

Atenção aos sinais

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), tirar a própria vida é a segunda principal causa da morte entre pessoas de 15 a 29 anos e já mata mais que o HIV. A cada dia, pelo menos 32 brasileiros se matam. Se houvesse prevenção, nove entre dez pessoas ainda estariam vivas.
"Todos podem prestar atenção aos sinais de que uma pessoa próxima pode estar pensando em se matar", afirma Carlos Correia, voluntário do CVV, entidade sem fins lucrativos que oferece apoio emocional gratuito e voluntário e prevenção do suicídio há 55 anos.
No fim de abril, o CVV, em parceria com a Safernet Brasil e o Facebook, lançou o guia "Ajude um Amigo em Necessidade", com dicas para identificar sinais de que um amigo pode estar enfrentando dificuldades emocionais e do que fazer para ajudar em situações como essa. Algumas das "pistas" aparecem em mensagens, fotos ou vídeos nas redes sociais com o usuário dizendo que se sente sozinho e desamparado. Irritabilidade ou hostilidade fora do comum também são indícios de que essa pessoa pode precisar de ajuda.
Mas alguns alertas podem ser bastante sutis, destaca a psicóloga Blanca Guevara Werlang, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), em um artigo para a Fapesp:
Elas [as pessoas] podem dar indícios mais diretos e dizer: 'Não quero mais viver', 'Um dia eu vou sumir' ou 'Vocês ainda vão sentir minha falta'. Ou dar pistas indiretas como alterar hábitos, começar a distribuir objetos pessoais ou visitar amigos e familiares que há muito tempo não vê.
O guia destaca a importância de demonstrar que não é errado pedir ajuda e de mencionar que há opções de assistência, como as oferecidas pelo CVV e pela Safernet, por meio do site www.canaldeajuda.org.br. Além disso, é fundamental buscar ajuda profissional com um psicanalista, psicólogo ou psiquiatra. "Se a pessoa fizer uma ameaça explícita de suicídio, deve-se ligar para o 190 ou para uma linha direta para prevenção de suicídio como a do CVV", reforça o serviço voluntário.

Ouvidos atentos

Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 141, para o CVV - Centro de Valorização da Vida, ou acesse o site. O atendimento é sigiloso e não é preciso se identificar.
O movimento Conte Comigo oferece informações para lidar com a depressão. No exterior, consulte o site da Associação Internacional para Prevenção do Suicídio para acessar redes de apoio disponíveis.



domingo, 6 de agosto de 2017

Por que você deve conversar com seus filhos sobre suicídio

O lançamento da série da Netflix 13 Reasons Why (baseada no livro homônimo, traduzido em português como Os 13 Porquês) e a divulgação de casos de mortes de adolescentes brasileiros com possível ligação com o desafio da Baleia Azul, nos últimos meses, colocaram em pauta o tema do suicídio entre jovens. O seriado conta a história de uma jovem que sofre bullying, abuso sexual e problemas na escola e, por isso, decide se matar. Antes, grava fitas para serem ouvidas pelas pessoas que considera culpadas por sua decisão. Já o desafio – que não se sabe ainda se é real e é alvo de investigação policial – tem sido divulgado como uma série de tarefas que um curador de grupo de WhatsApp envia para os membros, sendo que a última seria uma ordem de tirar a própria vida.

Diante desses dois eventos e de todas as discussões em torno deles (se a série foi feita de maneira educativa, se a cena de suicídio deveria ter sido tão expositiva, como evitar que jovens entrem no desafio…), pais têm se questionado sobre se e como devem abordar o assunto com os filhos. Encontro conversou com dois especialistas a respeito da questão. Eles apontam os problemas da série e a forma como o tema tem sido abordado, mas concordam que discutir o assunto em casa é essencial. Aliás, já seria, mesmo sem esses acontecimentos. 

ENTREVISTA 1 

Humberto Corrêa - Professor titular da Faculdade de Medicina da UFMG, vice-presidente da Associação Mineira de Psiquiatria, presidente da Associação Brasileira para o Estudo e Prevenção do Suicídio e presidente da Associação Latino-Americana de Suicidologia

Deve-se contar histórias de suicídio, especialmente em obras voltadas para o público jovem?
Falar sobre o assunto é fundamental, pois suicídio é questão de saúde pública no Brasil e no mundo. Na maioria dos países, está entre as principais causas de morte, e tem-se observado o aumento da mortalidade por suicídio na população entre 15 e 29 anos – no Brasil inclusive. Então é preciso falar do tema, sim, e sempre. Até porque é um assunto negligenciado, tabu. Contudo, há formas adequadas e inadequadas de se falar sobre isso. O seriado, em alguns aspectos, aborda o tema de maneira muito negativa.

Seria negativo o fato de a série mostrar o suicídio da protagonista de forma detalhada?
Sim. A série é destinada a adolescentes, que são um público mais propenso ao que chamamos de contágio do suicídio. Esse é um efeito que já se conhece há séculos. Sabe-se, por exemplo, que em uma escola, quando ocorre um suicídio, nos dias e semanas seguintes, aumentam a ideação suicida dos alunos, as tentativas e os suicídios. E a série mostrou o ato de forma detalhada. Isso é a primeira coisa que não se deve fazer: mostrar meios de se matar, porque isso dá o exemplo a outras pessoas.

A pessoa que tiver essa intenção não vai procurar formas de fazê-lo?
A maioria dos suicídios é impulsiva. Um exemplo concreto: qualquer medida de restrição do acesso ao método reduz a mortalidade por suicídio. Se a pessoa não tem acesso àquele meio na hora, a ideia passa e ela não se mata.

Como os pais podem lidar com o desafio da Baleia Azul?
Nós não temos a exata dimensão do que seja esse jogo no Brasil. Mas os adolescentes, que estão passando por um momento de formação de personalidade, têm essa tendência de se identificar em grupo, e às vezes é difícil para os adultos penetrar nos códigos que eles criam entre si. Isso faz parte do processo de individualização, e pode-se perceber que num grupo sempre há líderes e seguidores. Então isso faz parte do processo, mas é preciso estar atento. Se o pai perceber que o filho está envolvido em algo do tipo, é preciso dar um "não" imediatamente e chamar a polícia, pois quem promove esses desafios está cometendo um crime.

A que sinais os pais devem estar atentos?
Sabemos hoje que praticamente 100% dos suicidas tinham uma doença mental no momento em que se mataram. Em termos absolutos, a mais importante é a depressão. No adolescente, muitas vezes se pode identificar a depressão por mau desempenho na escola, isolamento, irritabilidade, mudanças no padrão de comportamento. E muitas vezes ele pode expressar tristeza, ideia de morte. E aí deve-se procurar ajuda profissional rapidamente.

Qual a importância de não se banalizar as questões pelas quais os jovens estão passando?

Alguns motivos podem nos parecer fúteis, mas não o são para eles. Na Inglaterra, estudiosos acompanharam adolescentes que haviam tentado suicídio por ter brigado com a namorada, tomado bomba na escola… Acompanharam esses jovens por dois anos. Depois desse tempo, 75% deles tentaram de novo, mesmo aquele motivo não existindo mais.

Políticas públicas de prevenção de suicídio têm efeitos consideráveis?
Países que definiram estratégias nacionais de prevenção têm conseguido, do ano 2000 para cá, reduzir 10%, 15%, 20% da mortalidade por suicídio. As estratégias variam, mas normalmente incluem, entre outras coisas, restrição ao método. Na Inglaterra, nos anos 1970, por exemplo, 90% das pessoas se suicidavam com gás de cozinha. Eles modificaram a fórmula do gás, e as pessoas deixaram de se matar assim. Houve uma pequena migração para outros métodos, mas inferior ao número de óbitos que conseguiram evitar. O Brasil, infelizmente, não tem nenhuma política nesse sentido.

ENTREVISTA 2

Juliana Marques Caldeira Borges - Psicanalista, presidente do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, vice-presidente do Círculo Brasileiro de Psicanálise e especialista na área da infância e adolescência

O que acha de o tema suicídio ter vindo à tona por causa da série e do desafio da Baleia Azul?
É um tema preocupante e que deve ser discutido, mas não pelo viés do sensacionalismo. Senão, perdemos a oportunidade de pensar na seriedade e profundidade da questão. O suicídio na adolescência não está restrito a esse momento da série ou do desafio. Abrange outras questões. E não é o mesmo ato para todos os adolescentes. Têm de ser levados em conta a particularidade do jovem e o momento pelo qual ele está passando.

Por que a senhora diz que não se pode tratar a questão de forma sensacionalista?
Existem estudos que apontam que mais de 90% dos suicídios na adolescência envolvem algum problema psíquico. Então, se o adolescente está adoecido psiquicamente e começa a ver que há muita notícia em torno de uma cena de suicídio, de um jogo, de algo que capta a atenção de toda a sociedade, ele também vai se interessar. Pode buscar aquilo que está vendo como ponto de identificação. Pode pensar "estou sofrendo como essa menina" ou "estou perdido como os jovens que participam do desafio".

Como os pais podem abordar o tema?
O grande engano dos pais é imaginar que falar sobre temas tabus fará com que filhos passem a ter uma ideia na cabeça que não tinham antes. Nenhum jovem vai fazer alguma coisa porque os pais chamaram para conversar sobre aquilo. Muitas vezes o adolescente já discute o tema fora de casa e não fala com a família, porque não achou espaço. Então os pais devem, sim, conversar, e de maneira que respeitem o jovem. Isso porque muitas vezes a conversa é unilateral - na verdade é só um sermão. Só se o filho se sentir respeitado, terá o desejo de compartilhar seu pensamento.

O que os pais devem esperar da adolescência?
Quando o filho é criança, os pais são referência. Nessa fase o filho escuta o que eles determinam sem muito questionamento. Na adolescência ele reflete sobre "quem eu sou", "meu desejo", "quem eu quero ser". Para lidar com isso, o jovem muitas vezes se afasta, pode apresentar-se um pouco arredio, sem querer estar perto dos pais ou aceitar sua fala. Nesse momento, o grupo de amigos é importante. Eles se juntam, fazem programas, têm comportamentos semelhantes. E os pais precisam entender que é importante respeitar esse grupo. Muitas vezes, os pais fazem críticas a um colega, como se estivessem desconsiderando a importância do grupo para o jovem. O filho pode se sentir ofendido e vai se afastar mais ainda da família.

E quais são os sinais de que existe um problema?
Costumo dizer que tudo que vem em exagero merece atenção. Agressividade acentuada, nervosismo grande, impaciência demais, comportamento que muda rapidamente… Isso pode apontar para uma questão psíquica mais séria ou para uso de drogas ou bebida. Da mesma maneira, um jovem que começa a se isolar demais, ficar só no quarto, que não tem nenhum amigo pode ser indicativo de que algo não vai bem. Também pode ser preciso ajuda para reconstruir o laço familiar, quando pais sentirem que não conseguem se aproximar dos filhos.

Como se envolver mais na vida do jovem sem que ele sinta que isso é uma invasão de sua privacidade?

Uma das características da adolescência é o sentimento de onipotência, de que nada de errado vai acontecer. Por isso os jovens têm tanta resistência quanto aos pais os monitorarem de perto. Então, isso tem de ser construído na família. Pais têm de conversar, orientar e dizer: "Se você perceber que está envolvido em algo complicado, tem de confiar em nós e talvez tenhamos de ver as mensagens juntos". Mas tudo é caso a caso. Não há uma norma geral. Se a situação ficar realmente complicada, podem também procurar a ajuda de um profissional.

http://www.revistaencontro.com.br/canal/revista/2017/05/por-que-voce-deve-conversar-com-seus-filhos-sobre-suicidio.html