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domingo, 30 de junho de 2019

Monografia: "ESPECIFICIDADES DO MANEJO DO LUTO POR SUICÍDIO NA TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL"



Neste mês, apresentei meu trabalho de conclusão do curso de especialização em Terapia Cognitivo Comportamental. 
Agora, a monografia está disponível para leitura. 

RESUMO: Este estudo teve por objetivo compreender as possibilidades da aplicação da Terapia Cognitivo Comportamental no luto por suicídio. Dados do Ministério da Saúde apontam que há uma média de doze mil suicídios notificados por ano no Brasil, enquanto estudos sobre o impacto do suicídio referem que existe uma média de seis a doze pessoas afetadas por cada morte autoprovocada. Estes resultados indicam a importância de dedicar maior atenção aos sobreviventes enlutados, que muitas vezes precisarão de psicoterapia como suporte durante o processo de luto. Considerando que no Brasil há pouca literatura específica a respeito do tema, buscou-se investigar a compreensão da abordagem sobre o comportamento suicida, bem como uma revisão acerca das técnicas da TCC para luto e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), integrando todos estes conceitos, quando necessário, para o tratamento mais adequado no luto por suicídio. 

Palavras-chave: Suicídio; Luto; Transtorno de Estresse Pós-Traumático; Terapia Cognitivo-Comportamental.



https://www.cetcc.com.br/wp-content/uploads/2019/06/Luciana-Fran%C3%A7a-Cescon.pdf



domingo, 16 de setembro de 2018

O suicídio infanto-juvenil na literatura como recurso terapêutico


Imagem do poster que apresentei no II Congresso Brasileiro de Prevenção e Posvenção de Suicídio da ABEPS.

Minha paixão por livros também trouxe outra forma de ter acesso às mais diferentes experiências. Como todo ser humano que se emociona diante de uma música, um filme ou um livro, acredito que a arte nos faz entrar em contato com algo que tem uma dimensão humana coletiva. Inicialmente encontrada nos mitos, a riqueza das histórias são formas de conexão com complexidades humanas. 

Como elemento da terapia popular, as histórias tratavam de conflitos interiores muito antes de a psicoterapia tornar-se uma disciplina científica. [...] Provavelmente o mais conhecido desses exemplos é a coleção de histórias As mil e uma noites, cuja história básica descreve como os contos foram usados para ajudar na cura de um governante que sofria de doença mental. A história pode ser considerada de dois ângulos: primeiro, há o bem-sucedido tratamento da enfermidade do Sultão pela esperta Sherazade; segundo, as histórias são tratamentos dados aos leitores e ouvintes,  que absorvem o conteúdo das histórias, tiram lições delas e incorporam-nas a seus pensamentos (PESESCHKIAN, 2012, p. 28).  

A ligação entre Psicologia e Literatura sempre esteve presente. A Psicologia surge de uma ramificação da Filosofia, na qual as questões existenciais e suas diferentes formas de compreensão sempre foram diversas. 

Este é um trabalho que pretendo aprofundar.

PESESCHKIAN, Nossrat. O mercador e o papagaio: histórias orientais como ferramentas na psicoterapia. Trad. Luis Henrique Beust e Robert Walker. Campinas, SP: Papirus, 1992.

domingo, 13 de maio de 2018

Aproximações e distanciamentos ao suicídio: analisadores de um serviço de atenção psicossocial

RESUMO

Este artigo é produto de uma pesquisa-intervenção de perspectiva cartográfica, cujo objetivo foi investigar a atenção ao suicídio de um serviço de atenção psicossocial em um município de São Paulo. O percurso metodológico foi construído de forma dinâmica, em que as etapas finais foram projetadas em função da análise dos dados produzidos nas etapas iniciais. Os instrumentos utilizados inicialmente foram: estudo de prontuários, análise de fluxos de atendimentos, diários de campo e entrevistas semiestruturadas. As análises revelaram um processo de trabalho centrado em consultas psiquiátricas e na medicalização do sofrimento, no qual a atenção ao suicídio era pouco problematizada. Em um segundo momento, realizaram-se rodas de conversa com trabalhadores para compartilhar os dados e as análises iniciais e discutir as questões que emergiram a partir dessas informações. As intervenções mobilizaram os profissionais a repensarem o seu processo de trabalho. A equipe retomou os espaços de educação permanente, com o objetivo de analisar as ofertas de atenção psicossocial que produziam e, a partir desses encontros, repensou uma oferta de cuidado que valorizasse a escuta e o acolhimento não apenas na atenção ao suicídio, mas ao sofrimento mental. A pesquisa gerou também um blog sobre atenção ao suicídio.

www.falandosobresuicidio.blogspot.com.br

Palavras-chave: Suicídio; Educação Permanente; Saúde Mental; Processo de Trabalho em Saúde

domingo, 11 de setembro de 2016


Papo de Domingo: ‘A dor não pode ser desqualificada’


Diário do Litoral - 10/09/2016

A psicóloga Luciana Cescon fala sobre a importância do Setembro Amarelo, campanha que discute a prevenção do suicídio no Brasil



A data 10 de setembro é considerada o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio e entidades de saúde mental do País estendem essa campanha por todo o mês, intitulada de Setembro Amarelo. Especialista no assunto, a psicóloga Luciana Cescon atua em uma unidade do Núcleo de Atenção Psicossocial (Naps) de Santos, é colaboradora do Instituto Vita Alere, em São Paulo, e possui mestrado em Ciências da Saúde pela Unifesp.
Em entrevista ao Diário do Litoral, a profissional falou sobre as dificuldades enfrentadas ao lidar com a questão na sociedade atual.
Diário do Litoral – Qual é o objetivo do Setembro Amarelo?
Luciana Cescon – A campanha é importante para a conscientização de que o suicídio existe e que falar sobre isso é uma forma de prevenção. Temos que ampliar o debate em sociedade e investir em uma preparação específica para os nossos profissionais de saúde sobre o assunto. O suicídio é um caminho definitivo. Não queremos desqualificar a dor da pessoa, é preciso entendê-la para ajudar. E muitas vezes são casos de problemas concretos no cotidiano e que não serão resolvidos somente com medicação. É preciso falar sobre o que incomoda.

Diário – Quais são os sinais de quem considera cometer suicídio?
Luciana – Muitas vezes não é explícito. A pessoa pode falar de como se sente angustiada e triste. Mudanças de comportamento também são alertas, como perder o interesse por atividades que gosta e se desfazer de objetos ou planos de vida. Precisamos voltar a nos olhar, perceber quando um amigo precisa conversar.

Diário - Como lidar com alguém que se encontra nessa situação?
Luciana - O melhor é oferecer a escuta e dar suporte procurando uma ajuda profissional. É preciso mostrar que a pessoa não está sozinha. Mesmo estudando o tema há algum tempo, também sinto essa dificuldade. Não é fácil receber um pedido de ajuda, pois parece um peso nas costas de quem escuta. A pessoa de fato não quer morrer. Ela só não quer mais continuar vivendo com aquela dor, que está insuportável no momento. Quando a pessoa decide falar sobre o assunto, devemos ouvir, pois já é um primeiro passo para a reflexão. É uma das formas mais eficazes de prevenção.
 
Diário – Quais são as causas mais ­frequentes?
Luciana - Quando alguém diz que tentou tirar sua própria vida, precisamos saber quais são as situações que essa pessoa está passando. Para a maioria dos homens, o mais latente é a questão financeira, a pressão para sustentar a família. E, no caso das mulheres, uma causa frequente é a perda de um ente querido. Nessas questões, somente a medicação não ajuda. É preciso de um espaço seguro e um acompanhamento psicológico para lidar com essa dor.

Diário – Um cotidiano atribulado afeta diretamente esse problema?
Luciana – Sim. Em um mundo onde as agendas estão sempre cheias de compromissos, a família e os amigos convivem entre si, porém, dão mais atenção para celulares e notificações. Falta olho no olho. Existe ainda uma pressão nas redes sociais para que compartilhemos experiências positivas, onde a angústia não rende ‘curtidas’. E vivemos em uma sociedade onde o luto tem um prazo. Você perde um ente querido e tem que estar pronto emocionalmente logo em seguida para ‘tocar a vida’. Isso é desumano.

Diário – E como você avalia o trabalho de entidades como o Centro de Valorização da Vida (CVV)?
Luciana – É um trabalho voluntário de grande valor, pois eles se dispõem a ouvir o desabafo, apesar de não aconselhar. É um espaço sem julgamento, de escuta. Tornei-me voluntária recentemente para conhecer essa vivência. Passei por um treinamento e comecei a interagir via chat. Quando a pessoa que sofre desabafa, é aberto um espaço para ela racionalizar e analisar sua própria situação.
 
Diário – O que pode ser dito nestes casos?
Luciana - A vida da pessoa está na mão dela. Mas somos responsáveis por nossos envolvimentos pessoais. Acredito que precisávamos abrir cada vez mais canais para mostrar que o indivíduo que tem esses pensamentos ruins não está sozinho. O foco é sempre estar alerta para a qualidade da saúde mental e procurar ajuda profissional. Na Baixada, os serviços especializados neste atendimento são os Núcleos de Apoio ­Psicossocial (Naps). E uma palavra acolhedora pode cessar um ato definitivo como esse. Os familiares e amigos de quem já tentou o suicídio também precisam ser orientados. É comum que surjam dúvidas, sentimento de culpa e até vergonha. Mas temos que entender que as pessoas não querem morrer, querem parar o sofrimento. A morte não é a única alternativa.

domingo, 19 de junho de 2016

I CONGRESSO DA ABEPS

ABEPS - ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESTUDOS E PREVENÇÃO EM SUICÍDIO

Realizou seu I Congresso Brasileiro em Belo Horizonte/MG de 16 a 18 de junho. 

Estivemos lá com três trabalhos e pudemos assistir a diversas palestras e apresentações de trabalhos relacionados ao tema.






quinta-feira, 12 de maio de 2016

Link da minha Dissertação de Mestrado

"Cuidado, frágil: aproximações e distanciamentos de trabalhadores de um CAPS 
na atenção ao suicídio"

RESUMO


Este trabalho investigou a atenção ao suicídio em um dos NAPS (Núcleos de Atenção Psicossocial) de Santos/SP, visando propor intervenções que possam qualificar a atenção a estes casos. Trata-se de uma pesquisa-intervenção de abordagem cartográfica, na qual foram utilizados diversos instrumentos para a produção dos dados. Pretendeu-se inicialmente compreender a organização do processo de trabalho para atender a esta demanda e para tal foram realizados levantamentos dos registros de atendimentos da triagem no período maio de 2012 a dezembro de 2013,  estudo de prontuários com relato de tentativa de suicídio e/ou ideação suicida e análise do fluxo de atendimento do usuário no serviço. Foram realizadas também entrevistas semiestruturadas com trabalhadores de saúde envolvidos nesse atendimento para compreender suas concepções a respeito do tema. Esses materiais, bem como a implicação da pesquisadora, que também integrava a equipe desta unidade foram analisados em espaços de orientação individual e coletiva. Constatou-se que as ofertas de atenção estavam centradas na medicalização do sofrimento mental e a organização do serviço era predominantemente centrada na oferta de consultas médicas. No que diz respeito ao suicídio, percebeu-se que havia uma simplificação da problemática relacionada ao tema e que seria importante ver de uma forma mais complexa as diferentes perspectivas sobre o suicídio e como oferecer cuidado nesses casos. Os dados iniciais dispararam questionamentos que motivaram a construção de um material que também se constitui como produto de pesquisa, denominado como caixa de afecções (com livros, artigos, filmes, músicas e poesias) que traz diferentes percepções sobre suicídio e foi utilizado nas rodas de conversa, podendo ser consultado e/ou utilizado por profissionais, estudantes e outros que se interessem pelo tema – disponibilizado no blog Falando sobre suicídio (http://falandosobresuicidio.blogspot.com.br). Na fase seguinte da pesquisa, foram realizadas quatro rodas de conversas com a equipe, nas quais os materiais e as questões sistematizadas foram apresentados e dispararam novas conversas que permitiram problematizar as concepções predominantes sobre o tema e repensar o processo de trabalho da equipe na unidade, não apenas em relação à atenção ao suicídio, mas também para as outras demandas de sofrimento mental. Também emerge como aspecto importante, tanto nas entrevistas individuais quanto nas rodas de conversa, o sofrimento dos trabalhadores desse equipamento e a medicalização do sofrimento. Posteriormente, foram entrevistados também os psiquiatras da unidade, dada a importância da consulta médica e da prescrição de medicamentos na organização do serviço para atender a esta e outras demandas. Esta etapa produziu novos dados que contribuíram para a ampliação dessa discussão. As intervenções construídas por esta investigação ocorreram desde os momentos iniciais da pesquisa e se expressam no protagonismo dos trabalhadores, que se mobilizaram para a criação de espaços de encontro e de educação permanente, com o objetivo de analisar seu processo de trabalho e o cuidado produzido. Espera-se contribuir para a reflexão e propostas de cuidado para este importante problema da saúde pública.

Palavras-chave: Suicídio, Educação Permanente, Saúde Mental, Processos de Trabalho em Saúde.




http://www2.unifesp.br/centros/cedess/mestrado/baixada_santista_teses/027_bx_dissertacao_lucianacescon.pdf



quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Apresentação: Cuidado, frágil: atenção ao suicídio de crianças e adolescentes

Estes slides foram apresentados no dia 23/11, a convite do Projeto Voz do Silêncio.
Este importante projeto de Cubatão tem como objetivo atender "crianças, adolescentes que tiveram seus direitos sexuais violados, bem como seus familiares. Além de oferecer atendimento psicossocial, psicológico e jurídico, no ano de 2014, foram feitas palestras e sensibilizações nas escolas da rede municipal de ensino e campanhas de conscientização e prevenção ao abuso e exploração sexual, no terminal rodoviário e nos pátios de caminhões onde transitam um grande número de caminhoneiros."

As diferentes violências (sexual, psicológica, doméstica) aumentam significativamente o risco de suicídio.

Não encontrei livros sobre o assunto, portanto usei artigos como referência.


 Link dos slides:

http://www.slideshare.net/LucianaFranaCescon/preveno-ao-suicdio-infncia-e-adolescncia

sábado, 3 de outubro de 2015

Apresentação da Palestra: Cuidado, frágil: falando sobre atenção ao suicídio


Apresentação da palestra apresentada na XLII Semana de Psicologia da Unisantos, em 02/10/2015.

Para acessar os slides, clique no link acima ;)





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Vídeos que fizeram parte da apresentação:
1) CVV - Decisão

2) Daniel

3) Raul Seixas - Tente outra vez


4) Enquanto houver sol - vídeo feito por mim, com frases e a linda música dos Titãs



quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O suicídio e sua interface com as questões de gênero


Este texto foi construído para a disciplina eletiva “Gênero e Sexualidades”, ministrada pela professora Cristiane Gonçalves, e foi incluído na pesquisa por trazer um viés a mais na discussão da atenção ao suicídio.

Ao escolher essa disciplina, meu interesse inicial era obter mais conhecimento sobre estas temáticas, já que durante a graduação em Psicologia não tive aulas que abordassem essas questões, tão essenciais quando se fala em ser humano ou saúde.   Embora no começo eu não tivesse identificado nenhuma relação da disciplina com a minha pesquisa, quando a professora Cristiane perguntou acerca disso, logo me lembrei de um aspecto do levantamento de dados do meu trabalho que havia chamado minha atenção: como estou investigando a demanda de casos de ideação suicida e tentativa de suicídio nos casos que chegaram ao serviço de Saúde Mental onde atuo, estudei os prontuários de usuários que tinham essa característica. E nos dados que coletei, boa parte dos homens trouxeram como uma das motivações para esse ato ou intenção de morte o fato de terem perdido o emprego ou estarem doentes, enquanto as mulheres justificavam seu sofrimento por terem perdido um ente querido ou ainda pelo fim de um relacionamento afetivo. Esse resultado parecia demonstrar qual seria o sentido da existência para algumas pessoas, aquilo que era identificado como significado de suas vidas, e que uma vez ausente, tiraria o sentido de viver. Para os homens, a questão de poder prover; para as mulheres, o sentido era ter um relacionamento, uma família. 

Ao longo das aulas, foi ficando mais claro que a questão de gênero tem uma forte marca cultural e social, que é construída. Talvez este aspecto não seja determinante dentro do contexto do suicídio, porém ele existe e deve ser considerado como significativo em alguns casos. A seguir, trago alguns recortes de casos que chegaram ao serviço. Observe que algumas vezes, há uma discrepância no que aparece como motivação para essa perda de sentido de vida e os motivos mais comuns, que elenquei acima: 

W., mulher de 62 anos. Após o falecimento do filho (há 24 anos), apresentou alteração de comportamento, agressividade, tentativas de suicídio.
M., homem de 58 anos. O filho de 16 anos suicidou-se por enforcamento há mais de um ano. M. refere insônia, isolamento e diz que já pensou em “se enforcar só um pouco, para entender o que o filho estava sentindo”. 

T., mulher de 62 anos. Diz que quando lembra do que sofreu (traição, violência doméstica), fica muito nervosa. “Penso em me jogar embaixo de um ônibus para acabar logo com isso”.

M, homem de 47 anos. Diz que trabalhava em um ambiente estressante, viu colegas de trabalho adoecerem e começou a sentir ansiedade, insônia, “vontade de ir embora”. Refere três tentativas de suicídio (com faca e medicamentos).

S, mulher de 35 anos. Refere ideação suicida. Relata falecimento da mãe em 2009 e suicídio do ex-marido em 2011, com veneno de rato. Ela chegou a testemunhar a morte dele, tentando socorrê-lo.

M., homem de 43 anos. Tentou suicídio cortando os pulsos, após fim de um relacionamento.  

W., homem de 49 anos. Divorciado, mora com a mãe e recebe auxílio-doença. Refere insônia, medo, angústia, sentimento de inutilidade, vontade de morrer. 

Fiz questão de colocar uma mulher que aponta seu fracasso profissional e um homem que fala sobre a perda de um filho como motivos para a ideação suicida, justamente para quebrar também qualquer ideia cristalizada de que somente os homens sofrem pelas questões profissionais e somente as mulheres adoecem por perdas de pessoas significativas. Mas reforço que é mais comum que cada um destes grupos aponte esses motivos para a ideação suicida ou tentativa de suicídio, talvez até porque se espera, socialmente, que estes sejam os fatores de maior sofrimento, causando uma perda de identidade. 

Lopes (2007) faz um estudo que procura problematizar as possíveis diferenças no discurso médico do século XIX sobre o suicídio cometido homens e mulheres, questionando as constituições das identidades consideradas próprias aos homens e às mulheres, estudando assim a diferença entre o que era considerado naquele momento como pertencente ao campo do “masculino” ou do “feminino”. Pela lógica da época, o casamento seria a realização definitiva e absoluta dos papéis sociais, sexuais e naturais destinados a homens e a mulheres. O homem, envolvido com as responsabilidades de chefe da família, marido e pai, não se entregaria tão facilmente ao suicídio por saber que sua família — mulher e filhos — dependia dele. Seus deveres como "pai" e "marido" apontavam na direção de ser responsável pelo sustento da família. A mulher, por sua vez, ocupando-se de suas tarefas de "esposa-dona-de-casa-mãe-de-família" se afastaria do suicídio para cumprir sua obrigação familiar. O homem, compreendido como um ser dominado pela razão teria a inteligência, ousadia e ímpeto como armadilhas contra sua própria vida - por estar constantemente envolvido em grandes trabalhos intelectuais, por concentrar toda sua força, inteligência, pensamento e energia em ocupações que lhe são "próprias", tornaria-se mais vulnerável ao suicídio. Por outro lado, as mulheres, dominadas pela emoção, não teriam a coragem e a força para o suicídio. Dessa forma, pode-se perceber uma tendência: a de pensar o suicídio como uma manifestação essencialmente masculina. 

O texto de Lopes dialoga com “A construção da diferença sexual na medicina” (RODEN, 2012). A autora afirma que a partir do Renascimento concebeu-se a noção de diferença entre sexos. “Em termos de estereótipos, os homens seriam sérios e pensativos e as mulheres, frívolas e emotivas” (p. 204). Interessante como a autora aponta que nesse modelo, os efeitos “inferiores” da sensibilidade, como melancolia, por exemplo, passam a ser vistos como característicos apenas de mulheres, ou no máximo, de homens “degenerados” ou “efeminados”. 

Acredito que parte dessa construção se mantém até hoje, pois a depressão e outros sofrimentos mentais ainda são vistos por uma parcela da sociedade como “frescura”, especialmente quando se trata de homens. Trabalhando na Saúde Mental, vejo como essas representações aparecem fortemente no discurso dos próprios usuários que procuram o serviço. Uma parte significativa das pessoas que procuram atendimento expressa em sua fala as críticas que recebem de conhecidos e familiares, que não compreendem seu sofrimento e parecem acreditar que basta “força de vontade” para que estes usuários consigam retomar sua vida. Ao fazerem isso, causam novo sofrimento à pessoa que sofre de depressão, ansiedade ou qualquer outro tipo de quadro; pois se agrava o adoecimento com uma culpa que a própria pessoa passa a sofrer por sentir que é responsável por não conseguir dar conta sozinha de seu sofrimento, sua angústia. Esta sensação pode contribuir para o desespero daquele que sofre, e a morte pode parecer ser a única solução para sair do sofrimento.

Trevisan e outros (2012) fizeram um estudo sobre o perfil de mulheres que tentaram suicídio e foram atendidas em um Centro de Intoxicações no Paraná. Em 2008, foram atendidos 444 casos de tentativa de suicídio, sendo que 308 (69,36%) eram mulheres. Os autores observaram 145 (61,4%) mulheres encontravam-se sem ocupação formal (estudantes, donas de casa e aposentadas) e diante disso, trouxeram a hipótese de que a dificuldade em conquistar um emprego, problemática comum aos jovens que estão tentando entrar no mercado de trabalho, poderia gerar um sentimento de incapacidade que levaria à tentativa de suicídio.  

Um exemplo disso pode ser o caso de M., mulher de 37 anos, que chega ao serviço referindo insônia, choro e ideação suicida. Durante a triagem, ela diz que sente muita frustração por não ter conseguido uma colocação em sua área. “Com o suicídio, eu resolveria o problema de muita gente, porque antigamente eu era o orgulho da minha mãe, por ter conseguido cursar Direito ... agora, sou uma fracassada.”

O alto número de casos evoluídos para a ‘cura’ (289 casos, ou seja, 96,33%) representou, para os autores, que as mulheres geralmente não desejam o suicídio no sentido de destruição, aniquilamento, mas como fuga, esquecimento, escapatória de sua vida presente. Essa seria a explicação para o uso de instrumentos como medicamentos e nas tentativas de suicídio de mulheres, enquanto que os homens utilizam frequentemente métodos mais violentos, como armas de fogo e enforcamento. Ainda de acordo com Trevisan e outros (2012), as mulheres apresentam diferenças hormonais, metabólicas e estruturais (mulheres apresentam na composição corpórea menos água e mais quantidade de tecido gorduroso do que os homens) que as tornariam mais susceptíveis aos prejuízos associados ao consumo de substâncias psicoativas, principalmente em relação aos danos à saúde e aos contextos sociais, cujos resultados são mais graves. 

O estudo “Gênero e Suicídio no Rio de Janeiro”, de Soares e outros (2012) cita um estudo de 1969, que apontava que havia uma diferença entre suicídios, parassuicídios (o nome técnico dado às tentativas fracassadas de suicídio) e pacientes com alto risco de suicídio).  Esta pesquisa afirmava que o índice mais alto de pessoas que efetivamente se suicidam seria de homens, idosos, casados, que [numericamente] vieram de lares desfeitos, que são mais independentes, socialmente menos ativos [com baixo capital social], com saúde pobre, bem sucedidos vocacionalmente e que fizeram menos tentativas [porém] mais letais do que os pacientes.

Braga e Dell’Aglio (2013), em uma pesquisa sobre suicídio na adolescência, citam estudos que apontam que mulheres fazem mais tentativas do que os homens. Porém, haveria fatores protetores que contribuiriam para a menor ocorrência de suicídios consumados, como baixa prevalência de alcoolismo, religiosidade e/ou espiritualidade, propensão a buscar ajuda em momento de crise e redes de apoio social e afetiva mais amplas para elas do que para os homens. Por outro lado, havia papéis atribuídos à masculinidade que poderiam predispor os homens a terem comportamentos suicidas, como competitividade, impulsividade e maior acesso a armas letais. Acrescentava-se a esses fatores maior sensibilidade dos homens a aspectos relacionados ao desemprego e ao empobrecimento.

Em uma das entrevistas com os trabalhadores do serviço onde atuo, uma psicóloga traz como experiência marcante o seguinte relato:

“Eu tive uma experiência [...] que marcou assim, a certeza do desejo do suicídio. Não era uma pessoa psicótica, não tinha nenhum quadro psicótico, e foi um desespero social, de não ter mais emprego, de não ter mais como levar comida pra casa, e essa pessoa tentou suicídio esfaqueando o abdômen, e foi pra UTI e assim que ele recobrou a consciência, ele com as próprias mãos arrebentou os pontos ... Pra “retentar” o suicídio. Então eu digo que são vários suicídios. Que alguns que eu já vi nessa história de Saúde Mental, algumas tentativas, a pessoa referindo um arrependimento posterior, e esse não tinha o arrependimento, tinha o desejo marcante dele, por ele tentar com as próprias mãos dentro de uma UTI. Um homem, um pai de família com desemprego há muito tempo. É, tem muito a ver eu acho que com o homem como provedor, esse papel que ele tem na sociedade, de prover a família, então faz, perde o sentido, né, ele não deve se achar mais ninguém, e tenta ser ninguém dessa forma brusca. Depois ele seguiu no NAPS e o pessoal da Assistência Social conseguiu lá uma colocação pra ele e aí ele foi saindo desse quadro pela questão social, não era uma questão psiquiátrica em si, né. Acabou sendo.

Avanci, Pedrão e Costa Junior (2005), citam um estudo em Ribeirão Preto, no qual delineou-se um perfil epidemiológico de 60 casos de tentativa de suicídio atendidos no setor de Urgência Psiquiátrica de um Hospital Universitário no ano de 1993, que constatou que as pessoas que tentam suicídio são na maioria mulheres entre 15 e 29 anos, solteira, casada ou em "união irregular", que pratica o ato suicida em locais familiares, de modo mais impulsivo do que planejado, em decorrência de estados emocionais imediatos a situações de perdas ou transtornos nas relações sócio-familiares, utilizando, ao contrário dos homens, de métodos menos violentos. A pesquisa dos autores, com 72 adolescentes atendidos em uma Unidade de Emergência que tentaram suicídio, trouxe 56 casos (77,8%) do sexo feminino e 16 casos (22,2%) do sexo masculino. A discussão destes resultados interpretou os dados, com destaque para a faixa etária com maior índice de tentativas (44 casos entre 15 a 19 anos) concluindo que neste período seria característico o início de relacionamento afetivo com o sexo oposto, o que também é um fator de grande importância na geração de conflitos e frustrações, podendo predispor a uma tentativa de suicídio. Acreditou-se que as mulheres, principalmente na idade mencionada e em condições econômicas mais humildes atribuem maior valor ao estabelecimento de um vinculo afetivo com um parceiro do sexo oposto, o qual representa segurança e autonomia. A conseqüente perda desse parceiro associado ao período vulnerável e impulsivo em qual se encontra, são fatores predisponentes à tentativa de suicídio, o que contribuem para o aumento na freqüência de tentativa de suicídio para as mulheres.

No levantamento de casos do serviço onde atuo, V., mulher de 42 anos, procura o serviço chorando muito, refere dificuldade para dormir desde que se separou do marido, há nove meses. “Já pensei em fazer algo contra mim mesma, porque eu estou sofrendo muito sem ele, mas não fiz ainda porque não quero deixar o meu filho sozinho ...”.   

M, mulher de 55 anos, refere ideação suicida, diz que fica o tempo todo no quarto e não tem vontade de sair. Relata ter ficado viúva no final de 2009, e só depois disso soube que seu marido tinha uma amante e acabou perdendo vários de seus bens para essa outra pessoa.  
  
No estudo de Marin-Leon e Barros (2003), o resultado apontou que a sobremortalidade masculina foi superior a 2,7 suicídios masculinos para cada suicídio feminino. Em 1980-1985 as maiores taxas foram observadas nos adultos de 55 anos e mais; já em 1997-2001 as taxas são mais elevadas nos adultos de 35-54 anos. Entre os homens, os meios mais utilizados são o enforcamento (36,4%) e as armas de fogo (31,8%). Entre as mulheres predomina o envenenamento (24,2%), seguido pelas armas de fogo e enforcamento (21,2% cada); este último ocorreu predominantemente no domicílio (75,7%); já as mortes por arma de fogo e envenenamento ocorreram em maior proporção em hospitais. Diferentemente dos homicídios, os suicídios não apresentam aumento progressivo das taxas com a diminuição do nível socioeconômico.

Há ainda outra questão na temática do suicídio que também pode ser analisada sob esse aspecto de gênero e sexualidades. O preconceito e a intolerância às diferenças ainda geram muito sofrimento às pessoas que são discriminadas e podem contribuir para o adoecimento e o desejo de morte.

M., mulher de 20 anos, chega ao serviço após tentativa de suicídio por medicamentos. Refere que há alguns anos revelou à mãe que era homossexual e foi aceita, porém acreditava que sua mãe não aceitava sofrer esse desgosto e por isso havia tentado suicídio. 

Um artigo de Bercito (2011), publicado na Folha de São Paulo,  aponta que a discriminação surge como ingrediente-chave nas pesquisas que apontam para a relação entre homossexualidade, juventude e suicídio. “A homofobia está na sociedade e faz com que o gay ache que ele vale menos do que os outros”, explica Lula Ramires, coordenador do Grupo Corsa, que defende a diversidade sexual. Já Alexandre Saadeh, psiquiatra do Hospital das Clínicas, diz que “É um sofrimento muito grande se sentir fora da norma. A discriminação, para alguém que é humilhado em casa, por exemplo, pode se tornar insuportável”.    

Teixeira-Filho e Rondini (2012) citam estudos que mostraram que a taxa de suicídios entre adolescentes homossexuais é elevada. Nos Estados Unidos, os jovens homossexuais (de ambos os sexos) representam um terço de todos os suicídios juvenis (enquanto os homossexuais constituem, no máximo, 5 ou 6% da população). A partir de pesquisas de diversos autores, o panorama atual compreende que adolescentes que sentem desejo erótico em relação a pessoas de mesmo sexo biológico podem vir a sentir medo da exclusão e da injúria, acabam se afastando da sociedade, tornando-se vulneráveis à depressão e, em alguns casos, a pensamentos e tentativas de suicídio. 

Estes dados apontam que realmente há também, entre os diversos fatores que entram no contexto do suicídio, uma relação com a questão de gênero, e que vale a pena pensar sobre isso nos estudos que abordam a prevenção e da atenção ao suicídio.

Obs: Os dados em itálico fazem parte do levantamento da pesquisa “Cuidado, frágil: aproximações e distanciamentos dos técnicos de um CAPS na atenção ao suicídio”.




Referências

AVANCI, R. de C.; PEDRAO, L. J.; COSTA JUNIOR, M. L. Perfil do adolescente que tenta suicídio em uma unidade de emergência. Rev. bras. enferm.,  Brasília ,  v. 58, n. 5, out.  2005 .   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71672005000500007&lng=pt&. Acesso em outubro de 2014. 

BERCITO, D. Discriminação leva jovens homossexuais ao suicídio. Folha de São Paulo. 01/112010. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folhateen/822698-discriminacao-leva-jovens-homossexuais-ao-suicidio.shtml. Acesso em outubro de 2014.

BRAGA, L. de L. e DELL’AGLIO, D.D.  Suicídio na adolescência: fatores de risco, depressão e gênero. Contextos Clínicos, 6(1):2-14, janeiro-junho 2013. Disponível em: http://revistas.unisinos.br/index.php/contextosclinicos/article/view/ctc.2013.61.01. Acesso em outubro de 2014.

LOPES, F. H. Medicina, educação e gênero: as diferenciações sexuais do suicídio nos discursos médicos do século XIX. Educar, Curitiba, n. 29, p. 241-257, 2007. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/er/n29/16.pdf. Acesso em outubro de 2014.

MARIN-LEON, Leticia  e  BARROS, Marilisa B A. Mortes por suicídio: diferenças de gênero e nível socioeconômico. Rev. Saúde Pública [online]. 2003, vol.37, n.3, pp. 357-363. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsp/v37n3/15865.pdf. Acesso em: outubro de 2014. 

RODEN, F. A construção da diferença sexual na medicina. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19 (Sup. 2). 201-212, 2003. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/csp/v19s2/a02v19s2.pdf. Acesso em outubro de 2014.

SOARES, G. e outros. Gênero e suicídio no Rio de Janeiro. Cadernos de Segurança Pública. Ano 4. Número 3. Maio de 2012. Disponível em:  http://www.isp.rj.gov.br/revista/download/Rev20120304.pdf. Acesso em outubro de 2014.

TEIXEIRA-FILHO, Fernando Silva  e  RONDINI, Carina Alexandra. Ideações e tentativas de suicídio em adolescentes com práticas sexuais hetero e homoeróticas. Saúde soc. [online]. 2012, vol.21, n.3, pp. 651-667. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/sausoc/v21n3/11.pdf. Acesso em fevereiro/2015.

TREVISAN, E. P. T. e outros. Tentativa de suicídio de mulheres: dados de um centro de assistência toxicológica do Paraná. Rev. Mineira de Enfermagem. 2013 abril/junho. Disponível em: http://www.reme.org.br/artigo/detalhes/659. Acesso em outubro de 2014.



domingo, 30 de agosto de 2015

Suicídio: aspectos sociais, históricos e religiosos

"Na Idade Média, por exemplo, o suicídio era compreendido como crime, porque lesava os interesses da Coroa: os bens do suicida eram confiscados e seu corpo era pendurado pelos pés, queimado, ou enfiado em tonéis e jogados em rios, etc, em uma espécie de punição social. No aspecto religioso, foi principalmente a partir de Agostinho de Hipona (Santo Agostinho), que a morte autoinflingida passou a ter uma conotação pecaminosa (NETTO, 2013). Muitas vezes os suicidas eram excomungados e privados de funerais religiosos (CASSORLA, 1984). Ainda hoje, a maioria das religiões têm tabus em relação à morte auto-inflingida – para os espiritualistas, por exemplo, acredita-se que os suicidas sofrem após a morte por sentirem seus corpos decompondo-se e após um longo e sofrido desprendimento da matéria em decomposição, eles seriam levados para um local referenciado em muitos livros psicografados como “Vale dos Suicidas” (SILVA e QUEIROS, 2010).  Para o catolicismo, o suicídio é um pecado grave, pois  “somos administradores e não os proprietários da vida que Deus nos confiou” (SILVA, 2011).

Ao final da Idade Média, com a separação entre a Coroa e a Igreja, o poder médico passa a ocupar um lugar privilegiado no controle da sociedade, de maneira que, a partir de então, são os “médicos” que definem a negatividade da morte voluntária, deslocando o fenômeno do pecado à patologia e qualificando-o como loucura (NETTO, 2013).

No contexto do Direito, podemos refletir acerca da intervenção  policial diante de uma ameaça de suicídio. Pode-se prender alguém que ameaça suicidar-se, não com o objetivo de puní-lo, mas para “protegê-lo de si mesmo”, pois a leitura que se faz em nossa sociedade é de que apenas alguém com sérios problemas psíquicos tentaria tirar a própria vida. Portanto, para evitar que essa pessoa tente se matar logo em seguida, a polícia pode optar por prendê-lo para entregá-lo às autoridades de saúde, “para que elas possam olhar por seu bem estar até que ele possa voltar a cuidar de si mesmo”. Ainda no contexto judicial, existem três possibilidades de prisão relacionadas ao suicídio: ao tentar matar-se, a pessoa pode acabar matando ou ferindo outra pessoa, ou ainda danificando propriedade alheia, o que é crime, portanto essa pessoa poderia vir a responder criminalmente pelo dano aos direitos alheios. É o caso do suicida que se atira e acaba caindo e destruindo a propriedade alheia, ou o suicida que abre o gás, causando uma explosão no prédio no qual mora, mas não morre. Na legislação brasileira, cometer suicídio não é crime, mas instigar, auxiliar ou induzir alguém a cometer suicídio é, se a pessoa de fato tentar se matar. É o caso das pessoas que fornecem a arma para que o suicida se mate ou das pessoas que gritam, incentivando para que o suicida se atire do alto do prédio. Instigar, auxiliar ou induzir alguém ao suicídio é um crime contra a vida, e é julgado pelo tribunal do júri (FOLHA DIREITO, 2013).

No contexto social, o suicida escolhe a forma de morte que vai ter e com isso faz um forte contraponto ao tabu da morte que impera em nossa sociedade – valorizamos a saúde,  a estética, o corpo perfeito, a eterna juventude. Ariès (2012) publicou em 1975 o livro “História da Morte no Ocidente”, com ensaios que apresentavam a história das transformações sobre a percepção social da morte. O autor observa que na Idade Média, a morte era naturalizada, aceita e integrada na vida comum dos indivíduos – ela fazia parte do ciclo vital e era aceita como tal. Culturalmente, podemos considerar que a evolução das sociedades ocidentais modernas fez com que a morte deixasse de ser vista como uma etapa de um processo natural e passasse a ser cerceada e combatida por profissionais especializados, ocorrendo principalmente dentro de hospitais. A morte passou a ser compreendida como fracasso – dos recursos médicos, de uma vida que deveria estender-se em plenitude infinitamente.  

A este respeito, Ariés (2012) observa:
Uma causalidade imediata aparece prontamente: a necessidade da felicidade, o dever moral e a obrigação social de contribuir para a felicidade coletiva, evitando toda causa de tristeza ou de aborrecimento, mantendo um ar de estar sempre feliz, mesmo se estando no fundo da depressão. Demonstrando algum sinal de tristeza, peca-se contra a felicidade, que é posta em questão, e a sociedade arrisca-se, então, a perder sua razão de ser (p. 89). 

Se a morte natural passa a ter esse peso, que dizer então do suicídio, que parece questionar com ainda mais força essa felicidade idealizada que nossa cultura nos impele a buscar? Passa a ser visto como uma morte inaceitável: 

Uma morte aceitável é uma morte que possa ser aceita ou tolerada pelos sobreviventes. Tem o seu contrário: a embarrassingly graceless dying, que deixa os sobreviventes embaraçados porque desencadeia uma emoção demasiado forte, e é a emoção o que é preciso evitar, tanto no hospital quanto na sociedade de um modo geral (Ariès, 2012, p. 87)."

- Trecho da dissertação "Cuidado, frágil: aproximações e distanciamentos de trabalhadores de um CAPS na atenção ao suicídio", de Luciana França Cescon (2015).

Referências:

ARIÈS, P. História da morte no Ocidente: da Idade Média aos nossos dias. Tradução de Priscila Viana de Siqueira. [Ed. Especial]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.  

CASSORLA, R. M. S. O que é suicídio. São Paulo: Brasiliense, 1986.

FOLHA DIREITO. Suicídio e crime. 12/06/2013. Disponível em:     http://direito.folha.uol.com.br/blog/suicdio-e-crimes. Acesso em abril/2015.

NETTO, N. B. Suicídio: uma questão de saúde pública e um desafio para a Psicologia Clínica. In:CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). O Suicídio e os Desafios para a Psicologia. Brasília: CFP, 2013.

SILVA, J.W.F. O suicídio segundo a igreja católica. 30/08/2011. Disponível em: http://coracaodejesusemaria.blogspot.com.br/2011/08/o-suicidio-segundo-igreja-catolica_31.html. Acesso em abril/2015.

SILVA, N. e QUEIROS, N. O que acontece com o suicida. 16/junho/2010. Disponível em: http://paradigmaespirita.blogspot.com.br/2010/06/o-que-acontece-com-o-suicida.html. Acesso em abril/2015.



domingo, 28 de junho de 2015