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domingo, 24 de janeiro de 2021

Artigo: O Psicólogo e o atendimento a pacientes com ideação ou tentativa de suicídio

RESUMO 

O atendimento a pacientes com ideação ou tentativa de suicídio provoca grande mobilização no profissional de saúde. No diálogo entre a prática clínica e as proposições do Código de Ética Profissional, surgem dilemas éticos e questionamentos sobre como agir. Este trabalho teve por objetivo compreender como Psicólogos lidam com esses pacientes na prática clínica, bem como investigar as questões éticas envolvidas. A proposta metodológica foi qualitativa. Foram realizadas entrevistas com três Psicólogos clínicos que aceitaram participar do estudo e que atendiam ou já tinham atendido paciente(s) com ideação ou tentativa de suicídio. Foi possível observar como o suicídio mobiliza o Psicólogo tanto do ponto de vista pessoal quanto profissional. A questão da quebra do sigilo a partir do Código de Ética foi apontada como possibilidade. Todos os participantes da pesquisa trouxeram a preocupação com o vínculo terapêutico e o cuidado com o paciente, o que indica a complexidade do tema. Palavras-chave: Suicídio, Psicólogo, Código de Ética. 


" Quando se considera haver risco para suicídio, o Psicólogo pode, com consentimento do cliente, informar a família. Porém, é importante destacar que a quebra do sigilo nestes casos é um direito, não um dever.

Santos (op cit) afirma que o paciente que tenta suicídio precisa de alguém para confiar, por isso o vínculo com o terapeuta é importante. A atuação do profissional deve ser cercada de cuidados, tranquilidade e segurança. O tratamento de forma franca, clara e honesta facilita a comunicação sem interferências, promovendo o estabelecimento da confiança, de modo que, em momentos de crise o paciente se sinta à vontade para entrar em contato com seus sentimentos e conflitos.

Na relação psicoterápica o sigilo é essencial, porque possibilita ao paciente falar de sua intimidade na certeza de que será respeitado e protegido no que se refere à manutenção do que é confidencial. Há casos em que o sigilo precisa ser rompido, como é o caso do suicídio, daí a importância de contratos terapêuticos claros.

Heck (1997) problematiza essa questão, discutindo a posição ética do profissional de saúde, de modo a refletir se a pessoa que tenta suicídio tem direito de tirar sua própria vida ou deve ser impedida pela equipe de saúde, que tem como princípio ético a promoção da vida, considerada como valor absoluto.

Profissionais de saúde têm como objetivo maior salvar vidas, mas é preciso considerar os direitos do paciente, e nessa tensão coloca-se o problema: os profissionais de saúde podem ou devem tentar impedir que o sujeito cometa suicídio?

Um dos princípios da bioética afirma que o indivíduo tem autonomia em suas ações e decisões, e o profissional de saúde não pode ignorar este fato. Na maioria das vezes, a pessoa que tenta suicídio está em sofrimento muito intenso e a questão é como diminuí-lo" (p. 904). 


ZANA, A. R. de O. & KOVÁCS, M. J. O psicólogo e o atendimento a pacientes com ideação ou tentativa de suicídio.  Estud. pesqui. psicol., Rio de Janeiro, v. 13, n. 3, p. 897-921, 2013. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/epp/v13n3/v13n3a06.pdf.





domingo, 1 de março de 2020

Artigo: Estratégias de prevenção e posvenção do suicídio: Estudo com profissionais de um Centro de Atenção Psicossocial

RESUMO

O suicídio é considerado um problema de saúde pública que vêm sendo mundialmente debatido. No Brasil, a região Sul tem se destacado com altos índices de suicídio, alertando profissionais e pesquisadores sobre a temática. O estudo objetivou investigar o desenvolvimento de estratégias de prevenção e posvenção ao suicídio em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Especificamente, buscou-se verificar ações realizadas referentes à assistência aos sujeitos que tenham ideado, tentado ou cometido suicídio, bem como assistência aos seus familiares, além de investigar sobre as percepções dos profissionais do CAPS sobre o suicídio. Realizou-se um estudo de caso exploratório. Foram entrevistados cinco profissionais do CAPS, e os dados foram analisados com base na Análise de Conteúdo qualitativa. Os profissionais falaram sobre estratégias para manejo do suicídio, citando a importância da atuação em rede e em equipe, do atendimento humanizado e da atenção à família. Também reportaram sentimentos que indicam sofrimento e empatia. Com base nos achados, elaborou-se um modelo de planejamento técnico ilustrando estratégias para a prevenção e pósvenção ao suicídio. Por fim, discute-se a pertinência de políticas públicas voltadas à prevenção e pósvenção ao suicídio, valorizando e qualificando profissionais da saúde.

Palavras-chave: Suicídio, prevenção primária, saúde pública



"Traduz-se a palavra suicídio como sendo a morte de si mesmo. O termo refere-se à morte intencional, com o intuito de fugir de si ou de um grande sofrimento. Tal acepção parece bastar a princípio, porém, é possível perceber em uma reflexão mais profunda que os mecanismos e fatores envolvidos no ato suicida demandam uma conceituação muito mais complexa do termo. Aponta-se que o suicida não está em busca da morte em seu ato, mas vivencia uma fantasia onde matar-se não implica em necessariamente morrer (Cassorla, 1985/2005).
David Émile Durkheim, sociólogo, psicólogo social e filósofo francês, define o suicídio como a morte resultante de um ato, positivo ou negativo, produzido, com o conhecimento das consequências, pela própria vítima. Ou seja, o suicida pode provocar sua própria morte através de uma ação violenta contra si mesmo (ato positivo), como se dar um tiro; como também através da abstenção (ato negativo) como parar de comer, por exemplo (Durkheim, 1982).
Pressupõe-se também, que o suicídio é uma manifestação do ser humano, uma maneira encontrada pelo sujeito de lidar com o sofrimento, uma fuga de sua existência, um escape para a dor. Considera-se que o indivíduo vê o suicídio como uma solução, a qual, ele pode dispor quando não suportar mais viver em sofrimento (Rigo, 2013). Já para Dutra (2010), o suicídio trata-se de uma fuga da ausência de sentido da vida, onde viver torna-se insuportável, um sofrimento, um peso. Assim, é possível perceber a concordância de todos estes autores em dois aspectos principais: a intencionalidade do ato e a fuga, não da vida em si, mas do sofrimento que se vivencia.
Conforme aponta Prieto e Tavares (2005), as experiências negativas de vida como violência física ou sexual, rejeição na infância e dificuldades de relacionamento familiar, podem comprometer o desenvolvimento emocional dos sujeitos, sobrecarregando-os e aumentando a tensão emocional. Neste sentido, percebe-se semelhanças no desenvolvimento emocional das pessoas que cometem ou tentam o suicídio, visto que, a maioria delas passou por estas experiências. As autoras ainda destacam em seu estudo a presença de impulsividade no ato suicida, apontando evidências de que a decisão de se matar é tomada pouco antes do ato.
Porém, Cassorla (1985/2005) afirma que são os eventos desencadeadores que interagem entre si em um momento da vida que motivam o ato suicida. Ou seja, inúmeras situações vividas que agem como um "gatilho" são ativadas juntas em algum momento, levando à tentativa de suicídio. Sobre esse aspecto, Botega (2015), autor de inúmeras produções científicas com a temática do suicídio, alerta sobre a crise suicida que antecede o ato de suicidar-se. O autor aponta que durante a crise suicida, ocorre a exacerbação de uma psicopatologia existente, ou a desordem emocional que precede um episódio traumático vivenciado pelo sujeito. Desta forma, a dor psíquica é tão forte, que o sujeito, no desejo de cessá-la, pode interromper sua vida por meio do suicídio.
Conforme apontam Schlösser, Rosa e More (2014), pode-se compreender o comportamento suicida como o ato carregado de intenção de causar dano a si mesmo, objetivando dar fim a própria vida, abarcando nestes comportamentos ideações e desejos suicidas, tentativas e ato consumado. No que se refere aos fatores de risco apontados pela literatura, deve-se atentar a fatores genéticos que podem ser inferidos a partir da história familiar, como histórico de suicídio e doenças psiquiátricas na família, conferindo risco maior para o comportamento suicida. Contudo, os autores ressaltam que deve haver a distinção entre fatores predisponentes (sexo, idade, história familiar, tentativas anteriores, presença de transtornos mentais ou doenças físicas, histórico de abusos sofridos, desemprego, pertencer a uma minoria étnica ou sexual), que vão aos poucos criando espaço para que os comportamentos suicidas eclodam; e os fatores precipitantes (separação amorosa, rejeição, problemas familiares, perda do emprego, vergonha, culpa), que são desencadeantes do comportamento suicida. Os fatores precipitantes (estressores) de comportamento suicida associam-se a situações de perda, sejam elas reais ou simbólicas (Bertolote, Mello-Santos, & Botega, 2010).
Botega (2015) descreve um modelo de suscetibilidade ao suicídio, incluindo uma propensão genética aliada a fatores psicossociais. O autor aponta alguns dos elementos deste modelo que mais são estudados cientificamente, como os traços de impulsividade, vivências traumáticas da infância como privação materna e abuso físico, rigidez cognitiva, presença de doença mental e fácil acesso a meios letais.
No que se refere às estratégias de prevenção ao suicídio, o Brasil avança no sentido de implantar políticas públicas que norteiam a construção de intervenções em saúde. Em 2006, como Estratégia Nacional de Prevenção ao Suicídio, o Ministério da Saúde lançou o manual Prevenção de suicídio: manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental, intuindo detectar de forma precoce condições associadas ao fenômeno e realizar medidas preventivas. O manual esclarece a importância das equipes dos Centros de Atenção Psicossocial na prevenção do suicídio, descreve acerca dos fatores de risco e informa sobre o manejo das psicopatologias associadas ao risco de suicídio como a depressão, a esquizofrenia, a dependência de álcool ou drogas e os transtornos de personalidade. O manual também auxilia descrevendo a abordagem adequada de potenciais suicidas e as formas de ajudá-los. Além disso, refere sobre o manejo de pacientes e encaminhamento dos mesmos, quando estes estiverem sob risco de suicídio (Brasil, 2006)".




domingo, 10 de novembro de 2019

Artigo: Autópsia psicológica e psicossocial sobre suicídio de idosos: abordagem metodológica

Maria Cecília Minayo é uma das mais importantes referências em pesquisa e tem estudado o suicídio na população idosa.
Neste trabalho, ela integra esta temática à proposta da autópsia psicológica (existem outros artigos sobre o tema nas palavras-chave do blog). 

Resumo: O artigo analisa a qualidade e a consistência de um roteiro de entrevista semiestruturada, adaptado para o estudo do suicídio de pessoas idosas e apresenta o método das autópsias psicossociais que resultou da aplicação desse instrumento. O objetivo é demonstrar como o uso da entrevista em profundidade e sua forma de organização e análise de dados foram testados e aperfeiçoados por uma rede de pesquisadores de vários centros de pesquisa do Brasil. O método envolveu a aplicação do instrumento em que se socializou um manual de instruções sobre a coleta, sistematização e análise de dados. A metodologia foi aplicada no estudo de 51 casos de idosos que faleceram por suicídio em dez municípios brasileiros, e permitiu a verificação da consistência do instrumento usado e a aplicabilidade do seu método, durante o processo e ao final, por meio de uma avaliação em rede. O roteiro aperfeiçoado e as instruções para replicá-lo e analisá-lo são aqui apresentados. Os resultados apontam o rigor e a credibilidade dessa abordagem metodológica testada e qualificada de um modo interdisciplinar e interinstitucional. 

Palavras-chaves: Autópsia psicológica, Autópsia psicossocial, Suicídio de idosos, Rigor e qualidade de instrumentos de pesquisa

"Originalmente, o objetivo das autópsias psicológicas tem sido colher informações post mortem sobre circunstâncias e contexto do óbito de determinada pessoa, em muitos casos apoiando médicos legistas e ajudando-os a concluir se a causa foi natural, acidental, por suicídio ou homicídio. O método da autópsia psicológica foi proposto por Edwin Schneidman nos Estados Unidos por volta dos anos 1950 como um tipo de estudo retrospectivo que reconstitui o status da saúde física e mental e as circunstanciais sociais das pessoas que se suicidaram, a partir de entrevistas com familiares e informantes próximos às vítimas. A autópsia é realizada como uma reconstrução narrativa. E sua consistência depende da qualidade da informação prestada" (p. 2040). 

"Shneidman, embora denominasse o seu método como ¨autópsia psicológica¨ possuía uma visão integrada sobre as dimensões biológicas, psiquiátricas, históricas e sociológicas e é nesse sentido que aqui se utiliza o termo autópsia psicossocial" (p. 2040).

"Dentre as principais dificuldades que apareceram na aplicação dos instrumentos estão: os tabus e não ditos que envolvem o fenômeno do suicídio e que se apresentam sob a forma de estigma, discriminação e vergonha; lembranças associadas à culpa, raiva ou rancor suscitadas por crônicos conflitos familiares; descontentamentos com a falta de apoio em vida aos idosos por parte de órgãos públicos e de assistência; censuras enunciadas por familiares que não se ocupavam diretamente da pessoa que se suicidou; e medo de contar fatos que poderiam suscitar comprometimento legal como recebimento de seguro, de aposentadoria, ou questões policiais. Tais assuntos demandam manejos delicados e é importante que o pesquisador esteja preparado para enfrentá-los, evitando sempre julgar ou tomar partido" (p. 2049-2050).

"O momento da entrevista, em geral, gerou forte impacto tanto nos entrevistadores quanto nos entrevistados. Ao se defrontar com um ‘outro’ tão sofrido, os investigadores contaram que vivenciaram seus próprios limites e frequentemente provaram sentimentos tumultuados por experiências de sofrimento, dor e morte. [...] E a abertura para ouvir além do que o roteiro de entrevista exigia foi fundamental para que a solidariedade com os familiares ocorresse, para que encaminhamentos aos serviços de apoio fossem feitos e para que mutuamente as pessoas se confortassem. Recomenda-se que o instrumento não venha a se sobrepor à necessidade de acolhimento e que os pesquisadores busquem se apoiar mutuamente, uma vez que ninguém está isento de se desequilibrar emocionalmente frente a histórias tão tristes e comoventes" (p. 2050).





sábado, 28 de setembro de 2019

Artigo: Ler livros e assistir filmes como um fator de proteção contra a ideação suicida

Eu amo ler, quem me conhece sabe o quanto sou apaixonada por livros (tenho até um Instagram só para as minhas leituras: https://www.instagram.com/a.biblioteca.da.psicologa/). 

Amei ler sobre esta pesquisa: Kashara-Kiritani e outros autores (2015) fizeram um estudo com 3256 jovens para investigar se livros e filmes poderiam ser fatores de proteção para ideação suicida grave.

De acordo com os autores, uma quantidade substancial de pesquisa foi conduzida sobre a relação entre comportamento suicida e consumo de várias formas de mídia, como jornais, televisão, cinema, música, literatura e, nos últimos anos, diferentes tipos de plataformas de comunicação na Internet. A grande maioria das pesquisas se concentrou na imitação, ou contágio, conhecido como “efeito Werther”, isto é, que a cobertura da mídia sobre o suicídio pode desencadear um comportamento suicida real em indivíduos vulneráveis ​​nas audiências. Alguns estudos também investigaram se as recomendações da mídia sobre relatos responsáveis ​​de casos de suicídio têm uma influência protetora, conhecida como o “efeito papageno”, sobre os consumidores. Niederkrotenthaler, Voracek  realizou estudos que indicam esse tipo de efeito preventivo. Não surpreendentemente, esses tipos de estudos sobre os efeitos da mídia no suicídio concentram-se principalmente na mídia que relata um tema específico do suicídio. No entanto, os efeitos relacionados ao suicídio do consumo mais geral de mídia, como a leitura de livros ou a exibição de filmes com temas não específicos, são em grande parte desconhecidos.

Os fatores de proteção são menos freqüentemente o foco de pesquisas sobre suicídios de jovens em comparação com fatores de risco. As percepções de pertencimento dos adolescentes demonstraram estar relacionadas à depressão, rejeição social e problemas escolares, bem como à tendência suicida, provavelmente devido à falta de apoio social. Neste estudo investigou-se se a leitura de livros e a exibição de filmes podem constituir um fator de proteção em adolescentes que se sentem excluídos. Evidências mostram que a quantidade de leitura impacta nas habilidades sociais, bem como na participação da comunidade. Ler livros ou assistir filmes pode compensar a falta de apoio social se, por exemplo, o leitor puder se identificar de alguma forma com a narrativa, fatores situacionais ou protagonistas das histórias. Através desta identificação, os leitores ou observadores podem sentir-se menos sozinhos, ou podem aprender com essas mídias sobre estratégias de enfrentamento, estratégias de ajuda ou talvez aumentar sua disposição de discutir seus problemas com profissionais de saúde ou outros.

A contribuição da mídia para a mudança comportamental pode ser explicada de várias maneiras. Parece plausível que a leitura de livros ou a exibição de filmes possa, até certo ponto, compensar a falta de contato social. É possível que essas atividades atuem como um fator de proteção contra a ideação suicida, fornecendo apoio social: os adolescentes podem se beneficiar de relacionamento saudável com seus pares, ganhando modelos, apoio emocional ou motivacional, senso de pertencimento, etc. , através de afiliação e identificação. Esses mesmos processos (isto é, afiliação e identificação) também podem estar direcionados a modelos positivos nos personagens livro / filme. Outras explicações plausíveis podem ser que livros e filmes funcionam como uma fuga, ou se afastam dos estressores cotidianos, e servem como ferramenta para desenvolver melhores habilidades de enfrentamento do estresse, através de um aumento na alfabetização em saúde mental, por exemplo, como personagens de livros e filmes lidam com problemas diferentes.

Pesquisas futuras podem querer explorar motivações para os alunos se envolverem em ler ou assistir a filmes para apoiar ainda mais as teorias potenciais propostas neste artigo, por exemplo, foi o motivador uma forma de evitar / escapar, ou um desejo de "pertencer"; o conteúdo da própria mídia, que estava além do escopo deste estudo, também pode fornecer alguma luz para fornecer explicações. O mecanismo específico por trás dos efeitos de ler livros e assistir a filmes, em relação à tendência suicida, precisa de mais investigações. Mais estudos são necessários para especificar o alvo de pertencimento.

Conclusões
Livros e filmes podem atuar como fontes de apoio social ou alfabetização em saúde mental e, assim, reduzir o risco de suicídio constituído por baixo senso de pertencimento. Recomendação de que os alunos com baixo sentimento de pertencimento, que estão em risco de comportamento suicida, devem ler livros e / ou assistir a filmes que possam ter efeitos preventivos.
 


Referências:

Kasahara-Kiritani et al. (2015) Reading Books and Watching Films as a Protective Factor against Suicidal Ideation. Int J Environ Res Public Health. 2015 Dec; 12(12): 15937–15942. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4690968.



domingo, 1 de setembro de 2019

Artigo: Grupo de Apoio aos Enlutados pelo Suicídio: uma experiência de posvenção e suporte social

É com muita alegria que compartilho o artigo que eu, Karen Scavacini e Elis Regina Cornejo escrevemos e foi publicado hoje pela revista M. Estudos sobre a morte, os mortos e o morrer.

O trabalho foi publicado no Dossiê Suicídio, seus sentidos histórico-sociais e o sofrimento humano hoje.

Resumo

O tabu e o estigma produzidos culturalmente em torno do suicídio impõem interdições e sanções no processo de luto dos sobreviventes do suicídio, o que implica em uma dificuldade na simbolização da perda, devido ao não reconhecimento e validação social desse tipo de morte. Estas características particulares denunciam a falha de suporte social ao sobrevivente enlutado por suicídio que pode contribuir com o intenso sofrimento vivido e para a complicação na elaboração do luto. O presente artigo tem como finalidade apresentar um relato de experiência de pósvenção do suicídio com o Grupo de Apoio aos Enlutados pelo Suicídio, abordando a importância deste espaço para a promoção de um suporte social que habitualmente é frágil ou inexistente no processo de luto destes sobreviventes por suicídio. Esta experiência evidencia o grupo de apoio como um importante espaço para elaboração do luto por suicídio, onde o pesar e o sofrimento são expressos e validados, possibilitando que os enlutados possam encontrar um lugar de fala e pertencimento entre os pares.

Palavras-chave: Luto; Sobreviventes; Grupos de apoio; Suicídio


Link do artigo:



domingo, 21 de julho de 2019

"Hoje eu resolvi deixar o mundo" _____________ Artigo


Nas minhas buscas sobre materiais acerca do comportamento suicida, encontrei este trabalho que chamou a minha atenção pelo título. 

“HOJE EU RESOLVI DEIXAR O MUNDO”: narrativas de suicídio 
em Guarapuava-PR nos anos 1950 

Autora: Kety Carla De March (Doutora em História pela Universidade Federal do Paraná. Professora colaboradora na Universidade Estadual do Centro-Oeste).

RESUMO: Este artigo analisa inquéritos policiais sobre mortes consideradas pela polícia como suicídio em Guarapuava, região central do Estado do Paraná, na década de 1950. Buscamos problematizar as construções discursivas dos suicidas, nas vezes em que deixaram cartas, e das testemunhas ouvidas no inquérito a respeito da morte auto infringida. Essas narrativas sobre a morte estavam permeadas de justificativas para o ato cometido e nelas pudemos adentrar ao espaço do que chamamos de “hierarquia da dor”, ou, aquilo que era considerado como motivo legítimo para uma ação entendida como extrema. Numa sociedade da medicalização dos corpos em que o objetivo principal é postergar ao máximo a morte, o que poderia explicar um suicídio? As narrativas permitem conhecer os aspectos sociais que exerciam pressões sobre os indivíduos e que eram partilhados entre estes e associados especialmente à incapacidade de realização diante dos papéis sociais e sexuais, o que exige diálogo com a categoria analítica de gênero. 

PALAVRAS-CHAVE: Suicídio; Gênero; Masculinidades; Feminilidades.

"O que levava uma pessoa ao suicídio no interior do Paraná nos anos 1950? A perspectiva das relações de gênero, como fenômeno social, permite a problematização das justificativas encontradas pelas testemunhas para os suicídios. Wadi e Souza discorreram sobre a escolha do debate entre suicídio e relações de gênero da seguinte forma: 

Por que um indivíduo resolve abandonar a vida cometendo suicídio? Desencontros amorosos, ciúmes, doenças avançadas, remorso, raiva, vingança, vergonha, orgulho ferido, solidão, problemas financeiros, dívidas, alcoolismo aparecem como motivações de suicídio ocorridos na região da comarca de Toledo, no estado do Paraná. Nas, em geral, curtas e fugazes mensagens de adeus deixadas por alguns dos que cometem a autoviolência provocando a própria morte ressaltam fragmentos autobiográficos que remetem à construção de sujeitos marcados pelas relações socioeconômicas e culturais – entre as quais as relações de gênero – dominantes em certo tempo e lugar" (p. 06). 

"Grande parte dos inquéritos se referia à ação do suicida como ato tresloucado. Nesses casos, houve pouca preocupação por parte da equipe investigativa em determinar as motivações para a ocorrência do suicídio, o que poderia retirar a dúvida sobre a real natureza da morte. Esse silêncio sobre a explicação para a morte voluntária poderia ser resultado de uma instrução processual, assim, delegados quando tomavam depoimentos de testemunhas, não perguntavam a estas se elas conheciam os motivos que teriam levado à morte, ou porque esses mesmos atores ouviam apenas o depoimento dos policiais que atendiam as ocorrências, ou de peritos que analisavam o local do crime. Essas testemunhas muitas vezes não conheciam o suicida e pouco ou nada poderiam relatar sobre as “tristezas” que afligiam a vítima. Para chegar a esse conhecimento era necessário ouvir amigos e familiares do morto, aqueles que com ele conviviam e partilhavam de suas angústias. Muitas vezes eram inqueridas pessoas que apenas tinham ouvido por terceiros relatos da morte" (p. 07). 

"Vejamos o caso da morte de Pedro que não teria suportado ser abandonado pela mulher com quem mantinha relacionamento amoroso após ter ficado viúvo. De acordo com um dos filhos de Pedro, a causa da morte do pai “foi pelo fato de ter sido abandonado por uma mulher que vivia já há algum tempo em sua companhia amasiada; que seu pai era homem forte fisicamente e trabalhador não sofrendo de doença alguma que pudesse desgostá-lo da vida” (fl. 08). O filho de Pedro procurou justificar a ação do pai e ao fazê-lo apresentou algumas das características de um suicídio aceitável: o abandono, a fraqueza física, a ausência de trabalho e a doença incapacitante. Esse jovem, ao contrário da medicina da época, não considerou a loucura como uma das possibilidades de morte do pai. Ele se amparou, para a explicação, em elementos externos que poderiam levar um homem a uma tristeza tamanha a ponto de optar pela morte. Ao fazê-lo, imprimiu ali suas próprias convicções sobre sofrimento, angústia, medo da não adequação que eram recorrentes entre uma parcela da população masculina naquele contexto" (p. 12).

"Em ambos os casos, de homens ou mulheres, observamos que as testemunhas procuravam evidenciar a medida do suportável e aquilo que, ao ver dessas pessoas, poderia levar um sujeito ao suicídio. Essa hierarquia da dor era, podemos entender, partilhada pelas pessoas e não vivida apenas pelo suicida. Ao buscarem justificativas para a ação do suicida, as testemunhas refletiam em suas falas o que também lhes afligia, pois partilhavam com o morto as mesmas experiências e pressões sociais, compreendendo que determinadas pressões poderiam ser insuportáveis. Falar sobre a morte do outro era, para essas testemunhas, um exercício de empatia e de auto regulação" (p. 23).





domingo, 9 de junho de 2019

Dez lições que aprendi ao estudar o comportamento suicida



1.    Existe uma lógica para o comportamento suicida.
As pessoas muitas vezes ficam perplexas com os suicídios, especialmente quando os indivíduos parecem ter tido muito o que viver, como parecia ser o caso de Bourdain e Spade. Minha experiência é que, quando você conhece profundamente as pessoas de forma terapêutica, percebe que, na verdade, o suicídio não é um ato louco e irracional. Pelo contrário, é um ato sobre o qual parecem ser boas razões, pelo menos na época. A chave para entender como isso acontece é perceber que as pessoas têm “estados de self” muito diferentes. Quase todos podem se relacionar com isso em algum grau. Pense em quando você está de ótimo humor. Agora pense em quando você está com um humor ruim e miserável. O próprio eu, o mundo e o futuro parecem muito diferentes, dependendo do humor de cada um.                
                           
2. Comportamento suicida geralmente é motivado a escapar de uma profunda “dor emocional”, que geralmente se origina de uma espiral  depressiva intrapsíquica.
Psychache” foi um termo criado por Edwin Shneidman para descrever a dor profunda e insuportável que faz com que muitos se envolvam em experiências de comportamento suicida. O que causa essa dor? Normalmente, uma interseção de três coisas: 1) circunstâncias difíceis, resultando em grande estresse ou trauma; 2) um temperamento neurótico ou sensível; e 3) um "narrador" interno que odeia e ataca os sentimentos negativos. Juntos, esses elementos resultam em uma espiral horrível ou um loop depressivo. Por exemplo, a pessoa perde o emprego ou um ente querido. Então eles são inundados com sentimentos negativos que eles primeiro tentam evitar, porque eles odeiam os sentimentos e têm medo de serem dominados por eles, e ficam envergonhados ou envergonhados por eles (escondendo-os dos outros). Então, eles tentam persuadir-se e persuadir-se a fazer qualquer coisa que lhes permita não sentir os sentimentos. Mas eventualmente os sentimentos pressionam sua psique, que é experimentada como intolerável. Essa narração de que os sentimentos são horríveis e intoleráveis ​​apenas alimenta os sentimentos negativos, elevando-os e criando um círculo deprimente e depressivo para baixo em um inferno particular.

3. Existem “modos” suicidas que ativam uma “tríade negativa” central.
Embora não seja uma característica bem conhecida de sua teoria cognitiva, Beck caracterizou os diferentes estados de self que descrevi acima em termos de “modos”. Um modo era uma mentalidade particular que incluía metas, esquemas perceptuais, esquemas emocionais e roteiros narrativos. . Estes podem estar latentes a maior parte do tempo e, em seguida, são ativados por um acionador. Muitas pessoas que vi seriam “boas”, ou pelo menos não suicidas, a maior parte do tempo. E então um estressor iria bater, e o modo se tornaria ativado. Enquanto em um modo suicida, eles exibem o que eu vim a chamar de “fundamentalismo de tríades negativas”. A tríade negativa foi o termo de Beck para pensamentos negativos sobre o self, o mundo e o futuro. O que quero dizer com o fundamentalismo tríade negativo é que as pessoas no modo suicida teriam crenças negativas rígidas e absolutas nesses domínios que não teriam em outras ocasiões.

4. Os modos suicidas resultam em “ocultadores”; as pessoas suicidas muitas vezes só podem ver a dor do presente.
O modo suicida é um lugar emocional intenso e brutal. Quando os indivíduos são sobrecarregados pela psique, a única coisa direta e real é a própria dor. O futuro é difuso e escuro. As únicas lembranças de que eles têm acesso imediato são outras vezes em que estavam no modo, e assim isso se torna seu mundo no total. Por causa disso, as pessoas não são boas solucionadoras de problemas e não pensam de maneira flexível ou adaptativa quando estão neste lugar. Em vez disso, são muitas vezes rígidos e absolutos em seu pensamento sobre a dor, e a única solução que parece clara é escapar pelo suicídio.

5. Isolamento, vergonha e uma divisão público-privada estão frequentemente presentes. A dor não é apenas intolerável, mas também é experimentada secundariamente como vergonhosa. Para complicar o problema, normalmente as pessoas que têm feridas profundas que resultam em psique também são solitárias e isoladas e não têm o tipo de relacionamentos íntimos, seguros e íntimos que permitem que esses tipos de sentimentos sejam processados. Então, sentindo vergonha e isolado para começar, e aterrorizados por sobrecarregar os outros e serem julgados como “loucos”, “fracos” ou “tóxicos”, eles escondem sua dor dos outros. Isto é agravado pelo fato de que a dor experiencial central é geralmente, em sua raiz, alguma forma de baixo valor relacional - isto é, não se sentir conhecido e valorizado por si mesmo ou por outros importantes de uma maneira nutritiva. Tudo isso significa que muitas pessoas que lidam com a escuridão suicida “dividem” sua dor particular de sua aparência pública e exterior, e apenas se sentem mais isoladas ou alienadas ao fazê-lo. Esse sentimento persistirá mesmo que, de uma perspectiva objetiva e externa, o indivíduo pareça ser valorizado.

 Portanto, há uma lógica a ser seguida. Agora, vamos voltar às cinco principais lições que aprendi sobre tratamento para reduzir o comportamento suicida.

6. O comportamento suicida pode ser direcionado diretamente.
Em contraste direto com o apelo de 2013 do diretor do NIMH, Thomas Insel, de pensar em problemas psiquiátricos como doenças cerebrais, consideramos o comportamento suicida como um comportamento mental que era mal-adaptativo. Isto é, embora fosse obviamente profundamente problemático, havia, de fato, uma lógica baseada nos processos psicossociais razoavelmente padronizados descritos acima. Claro, sabíamos que os estados depressivos mudavam a função cerebral. Mas também adormece e se apaixona - claramente, essas doenças não são do cérebro; eles simplesmente representam a lógica do cérebro como um sistema de investimento comportamental. Sob essa luz, os deslocamentos depressivos foram concebidos como estados de paralisação psicossocial, que emergiram porque o indivíduo percebeu sua situação como sem esperança e eles mesmos como desamparados e foram apanhados em viciosos laços intrapsíquicos. A chave era entender a lógica psicológica e ajustar os padrões comportamentais e contingências de acordo. Dito isto, nós certamente às vezes encorajamos as pessoas a tomarem medicamentos antidepressivos, uma vez que estes demonstraram reduzir os sintomas depressivos. Mas eles não curam uma doença cerebral depressiva, ao contrário, evitam sentimentos negativos intensos. (Nota: Eu considero Bipolar I e Esquizofrenia como justificadamente conceituadas como doenças mentais.)

7. O tratamento requer presença e envolvimento por parte do terapeuta.
Como terapeutas, precisávamos entrar no espaço do indivíduo. Tivemos que entrar em contato com a sensação sentida de isolamento e desespero, e precisávamos testemunhar sua dor de uma maneira autêntica e empática. Os pacientes precisavam saber que estavam profundamente unidos por outro ser humano que podia ver e se importar com a dor. O aconselhamento superficial sem profunda empatia era geralmente inútil e prontamente descartado. Isso faz sentido, já que o sentimento dos pacientes é que ninguém consegue entender sua dor. (A propósito, isso pode ser brutal e duro com os terapeutas. Eu ainda experimento o que pode ser chamado de "trauma vicário" de entrar no mundo de muitas pessoas feridas e desesperadas, que muitas vezes, muito compreensivelmente, não vêem saída.)

8. . Uma compreensão compartilhada tanto do comportamento suicida quanto da situação em que a pessoa está é fundamental.
Aprendi que as chaves para iniciar um tratamento eficaz eram uma avaliação minuciosa com foco na compreensão da lógica do comportamento suicida que era compartilhado com o paciente. Se, como era frequentemente o caso, o comportamento suicida era uma solução para escapar da psique, bem, então precisávamos entender de onde isso veio em detalhes ricos. O paciente era o especialista nos detalhes de sua história e nos principais momentos de sua história que definiam essa dor. Eu era o especialista nos domínios de sua psique e no ciclo de feedback entre sentimentos e narração e isolamento social, e como sua história pode estar impactando-os hoje. Juntos, construiríamos uma imagem clara de ambos e da função do comportamento suicida.

9. As pessoas podem elevar o embasamento do sofrimento aprendendo estratégias para causar um curto-circuito no circuito depressivo.
Buda percebeu há 2500 anos que o sofrimento era uma função da dor, juntamente com uma atitude de resistência e um desejo de evitar ou escapar. O ódio da dor e, em seguida, o ódio do ego por não ser capaz de lidar com a dor e, em seguida, o ódio de não ser capaz de escapar da dor leva o indivíduo para o abismo do inferno. Embora não possamos controlar nossos sentimentos diretamente, podemos, com treinamento, aprender a controlar nossas reações aos sentimentos. Podemos aprender a estar presentes, podemos aprender a alcançar, podemos aprender a tolerar a aflição, podemos aprender a falar de forma diferente para nós mesmos, podemos aprender a falar de forma diferente para os outros. Todas essas coisas podem causar um curto-circuito no circuito depressivo e, como diríamos, colocar um “porão” na miséria que poderíamos aprender a levantar. Note que essa metáfora significa que as pessoas ainda terão um porão de dor e ainda assim se encontrarão lidando com uma dor profunda por algum tempo. A dor psíquica não é eliminada - de fato, a dor psíquica, como a dor física, é uma parte inevitável da vida, especialmente para aqueles que são ricos em traços de neuroticismo com longas histórias de depressão. Mas, com treinamento e estratégias e técnicas eficazes que são praticadas, elas podem ser contidas e reduzidas.

10. Aceitação, integração e conexão são fundamentais para a cura a longo prazo.
Embora eu não tivesse a linguagem para isso na época, eu essencialmente fui guiado em meu trabalho com as tentativas de suicídio pelo que agora chamo de princípios do CALM MO. Ou seja, encontrei indivíduos que tinham psiques fragmentadas, cujo narrador e estratégias de enfrentamento eram geralmente orientados para escapar, evitar e esconder dos outros. Isso os deixou vacilando entre agir como se tudo estivesse bem e mergulhar em ataques profundos de desespero. O que era necessário era uma abordagem diferente. Precisávamos ajudar o indivíduo a desenvolver uma perspectiva de observador meta-narrativa (ou meta-cognitiva) (o MO) que pudesse começar a ver todas as partes do humor e estados de self do indivíduo. E precisamos tentar integrar e conectar essas partes, para que elas não sejam tão disparatadas e fragmentadas. E precisávamos conectar o indivíduo com outras pessoas que poderiam ajudar a processar os sentimentos de solidão, isolamento e vergonha.

Três outras descobertas principais
Aqui estão outras lições importantes:
- A população de pessoas que tentaram o suicídio tinha perfis de sintomas muito mais intensos em 2000 do que nos anos 1970, e era muito mais provável que fizessem tentativas subsequentes.
- Uma história de múltiplas tentativas de suicídio é um marcador importante para a psicopatologia e as tentativas subsequentes. É um marcador muito mais fácil e melhor do que um diagnóstico de transtorno de personalidade borderline.
- Os problemas enfrentados pelas pessoas que entraram no estudo eram generalizados e o DSM Diagnostic System não estava à altura da tarefa.
O comportamento suicida é subfinanciado e não é discutido o suficiente. Se as tragédias recentes aumentarem de forma produtiva as nossas discussões sobre este tema difícil, então pelo menos estas perdas trágicas podem resultar em algumas consequências positivas para os outros que estão sofrendo.

Texto original em: https://www.psychologytoday.com/ca/blog/theory-knowledge/201806/10-lessons-i-learned-studying-suicidal-behavior




domingo, 14 de abril de 2019

Artigo: Arriscar morrer para sobreviver Olhar sobre o suicídio adolescente

 ESTRATÉGIA DE DESESPERO VS ESTRATÉGIA DE SOBREVIVÊNCIA

"Os comportamentos de risco surgem como meio de afirmação, por perturbação ou para ir mais além. Procuram-se sensações cada vez mais fortes, vertiginosas, onde a emocionalidade se joga nos limites da vida, despertando reações profundas, contraditórias, tanto de pavor como de prazer quase absoluto, na ausência, quase total, de referenciais consigo mesmo e com a vida (Rodrigues, 1997). 

Luta-se por uma identidade, arrisca-se, às vezes com enorme perigo. Sendo o risco juvenil glorificado, as condutas auto-destrutivas revelam tentativas de dominar a morte, com o sonho íntimo da(na) imortalidade. Assim, o gesto suicida é, em simultâneo, um grito desesperado e um anelo de sobreviver (e.g., Blackburn, 1982; Hanus, 1998; Oliveira, 2001; Sampaio, 1991, 2000; Schneidman, 1981). 

«A autodestruição surge após múltiplas perdas, fragmentos de dias perdidos ao longo dos anos, rupturas, pequenos conflitos que se acumulam hora a hora, a tornar impossível olhar para si próprio. O suicídio é uma estratégia, às vezes uma tática de sobrevivência quando o gesto falha, tudo se modifica em redor após a tentativa. E quando a mão, certeira, não se engana no número de comprimidos ou no tiro definitivo, a angústia intolerável cessa naquele momento e, quem sabe, uma paz duradoura preenche quem parte. Ou, pelo contrário e talvez mais provável, fica-se na dúvida em viver ou morrer, a cabeça hesita até ao último momento, quer-se partir e continuar cá, às vezes deseja-se morrer e renascer diferente» (Sampaio, 2000, p. 152)".

http://www.scielo.mec.pt/pdf/aps/v19n4/v19n4a03.pdf


domingo, 24 de março de 2019

Autópsia psicológica: compreendendo casos de suicídio e o impacto da perda

Dissertação de Mestrado de Tatiane Gouveia de Miranda (2014).

RESUMO

O presente trabalho teve como objetivo realizar entrevistas de autópsia psicológica com os sobreviventes de suicídio a fim de avaliar retrospectivamente fatores clínicos, precipitadores, estressores e motivações que pudessem ter contribuído para que o suicídio se consumasse, além de considerar os impactos do suicídio e da entrevista sobre os entrevistados. Averiguou-se que poucos são os instrumentos disponíveis para realizar autópsias psicológicas, o que também, influência na disponibilidade de conhecimento sobre o perfil do suicida. Para conclusão dessa pesquisa, foi desenvolvida uma entrevista semiestruturada para facilitar a comunicação com os sobreviventes de suicídio, inspirada em estratégias e procedimentos desse tipo de avaliação psicológica, bem como de fatores de risco já obtidos na literatura. Foram realizadas quatro entrevistas com familiares, sendo dois voluntários de cada vítima. Os casos formam analisados pelo método clínico-qualitativo, verificando-se singularidades e divergências em cada caso. Pôde-se avaliar o impacto do suicídio nos sobreviventes, por exemplo, a presença de sentimento de culpa, de ressentimento, da necessidade de entenderem o porquê do suicídio, e de complicação e prolongamento na vivência do luto por anos.



domingo, 13 de maio de 2018

Aproximações e distanciamentos ao suicídio: analisadores de um serviço de atenção psicossocial

RESUMO

Este artigo é produto de uma pesquisa-intervenção de perspectiva cartográfica, cujo objetivo foi investigar a atenção ao suicídio de um serviço de atenção psicossocial em um município de São Paulo. O percurso metodológico foi construído de forma dinâmica, em que as etapas finais foram projetadas em função da análise dos dados produzidos nas etapas iniciais. Os instrumentos utilizados inicialmente foram: estudo de prontuários, análise de fluxos de atendimentos, diários de campo e entrevistas semiestruturadas. As análises revelaram um processo de trabalho centrado em consultas psiquiátricas e na medicalização do sofrimento, no qual a atenção ao suicídio era pouco problematizada. Em um segundo momento, realizaram-se rodas de conversa com trabalhadores para compartilhar os dados e as análises iniciais e discutir as questões que emergiram a partir dessas informações. As intervenções mobilizaram os profissionais a repensarem o seu processo de trabalho. A equipe retomou os espaços de educação permanente, com o objetivo de analisar as ofertas de atenção psicossocial que produziam e, a partir desses encontros, repensou uma oferta de cuidado que valorizasse a escuta e o acolhimento não apenas na atenção ao suicídio, mas ao sofrimento mental. A pesquisa gerou também um blog sobre atenção ao suicídio.

www.falandosobresuicidio.blogspot.com.br

Palavras-chave: Suicídio; Educação Permanente; Saúde Mental; Processo de Trabalho em Saúde

domingo, 19 de novembro de 2017

Suicídio e manejo psioterapêutico em situações de crise: uma abordagem gestáltica


 Autoras:
Karina O. Fukumitsu e Karen Scavacini

RESUMO

O suicídio é um gesto de comunicação e, ao mesmo tempo, de falta de comunicação, de recusa e de surpresa. O artigo tem como objetivo apresentar relações entre o suicídio e a Gestalt-terapia, bem como a compreensão dos mecanismos neuróticos e do manejo e das intervenções em situações de conflito e crise experienciados pela pessoa que percebe, no suicídio, uma alternativa para eliminar seu desespero e sofrimento. Além disso, pretende-se incentivar a discussão do tema e suas repercussões nas lides acadêmicas, principalmente nos cursos que lidam com o humano, pois se trata dos aspectos relacionados à vida, e o profissional, ao deparar com o desespero existencial do cliente, pode perceber sua falta de instrumentalização para manejar situações de crise. O conflito, segundo o aporte gestáltico, é configurado como um distúrbio do campo e significa a possibilidade de crescimento, uma vez que oferece ao indivíduo o confronto com novas figuras.


Palavras-chave: Suicídio; Intervenção na Crise; Prevenção do suicídio; Gestalt-terapia.

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672013000200007



domingo, 17 de setembro de 2017

Artigo: Tentativas de suicídio e o acolhimento nos serviços de urgência: a percepção de quem tenta

Resumo

A maioria dos casos de tentativa de suicídio é atendida em serviços médicos de emergência, o que deveria ser uma excelente oportunidade para que os profissionais de saúde realizassem alguma intervenção preventiva e terapêutica. No entanto, nem sempre essa oportunidade é aproveitada pela equipe, que geralmente exibe condutas caracterizadas por hostilidade e rejeição. Este trabalho pretende investigar, a partir da percepção do usuário, como se dá o acolhimento ao indivíduo que tenta suicídio e sugerir estratégias que possam favorecer o vínculo com a equipe de saúde. Trata-se de um estudo descritivo com abordagem qualitativa, desenvolvido com pacientes ambulatoriais referenciados pelo serviço de urgência de Barbacena, Minas Gerais. Foram entrevistadas 28 mulheres com histórico de tentativa de suicídio. A identificação e a classificação das unidades de análise fizeram emergir três categorias: discriminação, negação do ato, encaminhamento. Cada categoria foi submetida à análise qualitativa. A baixa capacitação das equipes de atendimento e as deficiências estruturais dos serviços induzem os profissionais a se posicionarem de maneira impessoal e com dificuldade de atuação de forma humanizada. A análise dos dados indica a necessidade de melhorar a formação dos profissionais da saúde, em especial os que trabalham nos serviços de pronto atendimento.

Palavras-chave: tentativa de suicídio; pesquisa qualitativa; saúde mental; medicina de emergência.

 "Eles  falaram  assim  “não  é  possível,  tanta  coisa  pra  gente  fazer e socorrer e fulano tentando morrer... e tem que fazer lavagem, que frescurada, aí é que dá vontade de matar mesmo”.  As  pessoas  acham  que  é  sem-vergonhice.  Eles  não vêem o que se passa na nossa mente". (P8)

"No  hospital  eu  lembro  que  o  médico  chegou  perto  de  mim, bateu no meu ombro, falou que eu não tinha nada, que eu era uma moça bonita, pra viver minha vida, que era pra arrumar um namorado
". (P7)


 "As enfermeiras falavam 'toma chumbinho, água de bateria, não adianta vir pra cá, tomar remédio, só dá trabalho pra gente'. Eu me sentia um rato quando tentava, quando elas me falavam ficava pior ainda. Por que elas não falaram que eu precisava era de um psiquiatra? Elas falavam 'vai pra casa e dorme bastante, isso não é nada, isso vai passar' ”.

"Lesões   autoprovocadas   sem   intenção   suicida   também   são  atendidas  em  serviços  de  urgência.  A  incidência  desses  agravos  tem  aumentado  nos  últimos  anos e  esse  comportamento  pode  ser  um  fator  de  risco  para  ideação  suicida. Independente  do  grau  de  intenção  suicida,  os  pacientes  que  exibem comportamento    autoagressivo    representam    um    grande desafio para a equipe de atendimento e podem gerar atitudes ambivalentes na condução do tratamento".

"A  reação  das  pessoas,  dos  médicos,  quando  eu  tomava  remédio e ia pro hospital, sempre que eu chegava, as enfermeiras  e  o  médico  falavam  ‘tem  juízo  não?  vaso  ruim  não quebra, entra na frente de um trem [...] remédio não mata não, remédio melhora". (P12)

"Mas aqui não tem nada pra ajudar os deprimidos, aqueles que tentam. Lá no postinho também é assim, parece que a receita já ta pronta. O médico não quer escutar a gente".

"A equipe reage com descaso, deve ser por eles acharem que é errado tentar, deixam a gente jogado, ficam fazendo comentário entre eles, ficam rindo, no dia que fizeram a lavagem eles falaram 'tá doendo? na hora de tomar os remédios não doeu, né?' "

"Avaliar um paciente suicida comumente desperta fortes sentimentos no médico examinador, especialmente ansiedade  por  um  erro  de  conduta  e  temor  das  consequências.  O  profissional  pode  experimentar  também  sentimentos  de  impotência e mobilizar emoções de caráter negativo".


Link do trabalho completo: http://www.scielo.br/pdf/cadsc/v21n2/02.pdf

 

domingo, 9 de julho de 2017

Artigo: O suicídio e sua essência transgressora

"Resumo: Este ensaio pretende discutir como o suicídio pode ser concebido por meio de suas características de transgressão do domínio da vida privada e do padrão ocidental de morte. Para demonstrar essa hipótese, nós discutiremos alguns eventos suicidas: fragmentos de cenas de suicídios privados, um suicídio público e um suicídio ocorrido no limite do espaço público-privado. Nossas análises apontam para o suicídio como transgressão em sua essência, no qual abordaremos as reações, de sujeitos e instituições, derivadas desse ato processual de violação de tabus que é o suicídio.

Palavras-chave: suicídio, comunicação, morte, tabu, cultura".

"Os eventos de suicídios talvez sejam uma das poucas situações nas quais é possível uma experiência com a morte na sociedade contemporânea, para além dos rituais de afastamento programados na cultura. Nestes rituais que envolvem um número de aparatos diversos, como velórios em lugares externos às residências, maquiadores profissionais, preparadores do “corpo”, crematórios, enterramento organizado por especialistas, e, principalmente, a morte no hospital; raras vezes a muralha em torno da morte pode ser transposta. Enfim, o fenômeno da morte tornou-se discreto e afastado dos olhos dos vivos, mas o suicídio não. Dessa forma temos, com o suicídio, uma transgressão da morte interdita".



domingo, 17 de julho de 2016

A experiência suicida numa perspectiva fenomenológica

Trabalho de Rocha, Boris e Moreira.

Resumo: Esta pesquisa tem como objetivo compreender a experiência suicida a partir de um referencial humanista-fenomenológico que propõe uma revisão conceitual da psicologia humanista de Carl Rogers a partir da fenomenologia da ambiguidade de Maurice Merleau-Ponty. Partindo da compreensão de que a experiência vivida apenas pode ser adequadamente compreendida em mútua constituição com o mundo, tal perspectiva fenomenológica supera a dicotomia de interno versus externo, tão presente nos estudos sobre a subjetividade. Desta forma, a experiência suicida pode ser reconhecida como uma experiência mundana, uma vez que não é possível compreendê-la sem sua condição de imbricação com o mundo. Foram entrevistados seis pacientes psiquiátricos do sexo masculino que puderam descrever suas tentativas de suicídio por meio de entrevistas semiestruturadas. Identificando como cada colaborador compreendia suas experiências suicidas, foi possível descrevê-las sem as amarras teóricas dos estudos sobre tal tema. Pode-se perceber que a experiência suicida se caracteriza como uma vivência de aniquilamento existencial, e reconhecer, também, que as condições culturais e socioeconômicas em torno do suicídio devem ser sistematicamente consideradas e aprofundadas para que tal fenômeno humano possa ser melhor compreendido como um fenômeno mundano. 

Palavras-chave: Suicídio; Fenomenologia; Psicologia humanista; Carl Rogers; Merleau-ponty.