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sábado, 3 de outubro de 2020

 

Do Facebook da Petra Costa 

"Quando a minha irmã Elena se suicidou, eu conversei pouco com alguém que entendesse o que eu, que ainda era uma criança, estava passando. No colégio, falei uma vez, quando tinha 8 anos, e todo mundo achou horrível que eu tivesse falado em Elena. Foi uma experiência traumática. Lembro de os familiares falarem para eu não chorar, porque a minha mãe já estava triste – e eu ia deixá-la mais triste. Minha mãe me deu bastante atenção, e os terapeutas também, mas faltou um olhar mais atento para o que eu estava sentindo.

Eu fiz terapia desde os 7 anos de idade, mas nunca com alguém que fosse focado na questão do suicídio. Quando fui fazer o filme “Elena”, entrevistei alguns sobreviventes. Particularmente uma mãe, nos Estados Unidos, que tinha perdido o filho e era líder de um grupo de apoio. Quando conversei com ela, foi a primeira vez que eu falei com alguém que entendia a dor pela qual eu e minha mãe tínhamos passado, que falava a mesma língua. Se eu tivesse, naquele tempo, participado de algum grupo de apoio para crianças sobreviventes, teria feito muita diferença, porque a gente passa por coisas muito parecidas. 

Da mesma forma, se a minha tivesse sido com um profissional que tivesse essa experiência, ou em algum dos centros para sobreviventes que existem atualmente, teria me poupado muita coisa. Primeiro, vem a culpa, depois tememos a morte dos outros (eu comecei a temer a morte da minha mãe), depois pensamos que a mesma coisa vai acontecer com a gente. Ninguém me falou que isso eram respostas normais. 

Eu nunca falei com ninguém, até o encontro com aquela mãe dos EUA, 20 anos depois. Por isso, acho importantíssimo encontrar lugares e pessoas com quem se possa compartilhar a dor e buscar pessoas que tiveram uma dor parecida e poderão compreender a dimensão da sua. 

Quando falo que “Elena é minha memória inconsolável” e que é disso que “tudo nasce e dança” quero dizer que ela é um potencial inspirador que me ensina sobre a morte, portanto, sobre a essência da vida.


https://web.facebook.com/PetraCostaOficial/posts/4405395432869252?comment_id=4405517929523669&notif_id=1601656121706743&notif_t=comment_mention&ref=notif





domingo, 7 de junho de 2020

Clube dos Enlutados __________ Terezinha Máximo

"Há alguns dias uma pessoa me perguntou se eu havia entendido o ato da minha filha, e se eu acreditava que iria algum dia conseguir superar a morte dela. E que se a Marina tivesse morrido de outra forma se seria mais fácil aceitar o fato.
Fiquei em silêncio por alguns instantes e respondi que entendia o ato como desespero, mas que não a julgava por isso e que não seria mais fácil aceitar a morte se ela ocorresse de outra forma, hoje tenho certeza disso, pois a saudade dela é a mesma.
O emaranhado de sentimentos que fica após se perder um filho deve ser comum em todos os pais, mas por suicídio há alguns agravantes e que definitivamente não se supera a perda de um filho, o natural são os filhos enterrarem seus pais e não o contrário. 
Esse diálogo mexeu comigo, pois às vezes eu sinto que algumas pessoas acham que o ser humano é descartável, como a morte é a única certeza na vida e que ela ocorrendo,  em um curto espaço de tempo quem fica esquece, não se fala no assunto, como se a pessoa que se foi, fosse apagada da mente e da vida de quem fica em um passe de mágica, e que não é assim.
E isso me fez lembrar que no começo do meu luto eu havia escrito, só que não publiquei,  sobre os meus primeiros contatos com a morte,  na minha infância, pois devido a cultura de não se falar em morte, tentei resgatar e colocar em ordem minhas ideias com relação ao fato,  a primeira vez que vi uma pessoa morta e a primeira vez que fui a um cemitério e que justamente foram mortes de pessoas jovens e que me marcaram para sempre.  
No final dos anos 70, um vizinho foi atropelado em uma tarde de domingo por um motorista bêbado, era uma criança, 7 ou 8 anos não me lembro ao certo, pois eu devia ter uns 5 ou 6 anos. Ele era amigo do meu irmão mais velho, tinham a mesma idade, ia no portão de casa chamar meu irmão para brincar praticamente todos os dias. Ele era o filho caçula, tinha uma irmã mais velha já moça e o irmão também bem mais velho. 
Naquela época, os velórios aconteciam em casa e não havia a preocupação em não deixar as crianças verem o caixão e o morto. A cena do menino morto nunca esqueci, mas prefiro não contar os detalhes. 
Lembro que o atropelador ficou impune. Depois da morte do menino, quase não via mais a mãe dele na rua, mas sempre quando ela encontrava o meu irmão o chamava para conversar. Nós nos mudamos da rua onde morávamos, mas continuamos no mesmo bairro e toda vez que ela encontrava com a minha mãe ou comigo perguntava do meu irmão. Eu achava estranho e acredito que a minha mãe também. 
A primeira vez que fui à um cemitério, creio ter sido na mesma época, só lembro que era final de ano, perto do natal.  O filho de amigos dos meus pais havia morrido afogado na praia, era jovem, bonito e com um futuro promissor pela frente, além dos pais ele deixou uma porção de irmãs e me lembro da choradeira que foi. Um dia ouvi dizer que os pais iam ao cemitério toda semana e em uma dessas visitas o pai passou mal diante do túmulo, foi hospitalizado mas faleceu dias depois.
Eu era muito criança, não tinha uma real ideia do que era a morte, só fui compreender quando meu avô paterno faleceu, mas isso é uma outra história.
O  que quero aqui explicar que hoje eu sei o que aquelas mães sentiram e sentem, consigo dimensionar o sofrimento. Perder um filho é a pior dor que alguém pode sentir e continuar a viver depois de ter que enterrar um filho é muito difícil, independente se for por acidente, doença ou suicídio, a dor da perda é grande, a ausência é sentida todos os dias, passe o tempo que passar.
Hoje eu consigo entender o motivo da mãe do amigo do meu irmão querer falar com ele toda vez que o via,  pois sentia nele um pouco da presença do filho, imaginava como o filho poderia estar, e consigo sentir e entender a tristeza dos pais que visitavam o túmulo do filho e que a tristeza pode ter agravado uma saúde já debilitada e frágil do pai.
E consigo ligar a pergunta sobre a superação e a causa da morte a uma fala de uma amiga enlutada que um dia disse que nós pais que perdemos nossos filhos por suicídio fazemos parte de um clube, o clube dos enlutados, um clube da tristeza, onde o título cai no nosso colo, neste clube não há distinção, nele não há classe social, religião, etnia, somos todos iguais,  e que uma vez nele não se sai, é um título vitalício, não há opção de passar adiante, não tem como doar, ceder, ninguém quer um título deste clube e tão pouco saber como funciona e só quem perdeu um filho sabe realmente como é e que podemos tentar explicar mas somente quem passou pelo mesmo sabe do que estamos falando e sentindo. 
Quem não faz parte deste clube sempre irá imaginar que a superação é questão de tempo, que a ausência pode ser suprida por outro filho, um bichinho de estimação, mudança de residência, cidade, estado e até de país. Não entende que cada ser humano é único e o que um filho representa na vida dos pais nada e ninguém substituirá". 
- Terezinha Máximo



domingo, 5 de abril de 2020

Por lugares incríveis - Netflix (Leia o livro também!!!)

Quando eu soube que a Netflix faria um filme sobre o livro "Por lugares incríveis", de Jennifer Niven, fiquei animada, mesmo achando em 99% dos casos que o livro sempre é melhor do que o filme. Em maio de 2016 eu o li pela primeira vez e ele automaticamente se tornou um dos meus preferidos (tanto no gênero de literatura juvenil que eu tanto gosto quanto para falar de suicídio na adolescência).

Para mim, a forma com que Niven conta essa história tem muito a ver, além do seu talento com a escrita, com o relato que ela traz no final: a autora é uma sobrevivente enlutada por suicídio (boa parte das pessoas que assistiu ao filme não sabe dessa informação).

No final do livro, como "Nota da autora", ela escreve o seguinte:

"A cada quarenta segundos, alguém no mundo se suicida. A cada quarenta segundos, quem fica tem de lidar com a perda.
Muito antes de eu nascer, meu bisavô morreu devido a um ferimento a bala que ele mesmo causou. Seu filho mais velho, meu avô, tinha só treze anos. Ninguém sabia se tinha sido intencional ou não — e como eram de uma cidadezinha no sul do país, meu avô e sua mãe e suas irmãs nunca discutiram isso. Mas aquela morte afetou nossa família por gerações.
Há muitos anos, um menino que eu conhecia e amava se matou. Fui eu quem o encontrou. Eu não queria conversar sobre essa experiência com ninguém, nem com as pessoas mais próximas. Até hoje, vários familiares e amigos meus não sabem muito sobre isso, se é que sabem de alguma coisa. Durante bastante tempo, era doloroso até mesmo pensar nisso, quanto mais falar, mas é importante conversar sobre o que aconteceu.
Em Por lugares incríveis, Finch se preocupa muito com rótulos. Existe, infelizmente, um estigma em torno do suicídio e de transtornos mentais. Quando meu bisavô morreu, as pessoas fofocavam. Apesar de sua viúva e seus três filhos nunca falarem sobre aquele dia, eles se sentiam julgados e, em certa medida, discriminados. Meu amigo se matou e um ano depois perdi meu pai para o câncer. Eles estavam doentes durante a mesma época e morreram com um intervalo de catorze meses, mas a reação a suas doenças e mortes não poderia ter sido mais diversa. As pessoas raramente levam flores para um suicida.
Foi só ao escrever este livro que descobri meu próprio rótulo — 'sobrevivente pós-suicídio' ou 'sobrevivente do suicídio'. Felizmente, há muitas fontes para me ajudar a dar sentido a esse acontecimento trágico e entender como ele me afeta, assim como há muitos recursos para ajudar qualquer um, adolescente ou adulto, que esteja lutando contra problemas emocionais, depressão, ansiedade, instabilidade mental ou pensamentos suicidas.
Muitas vezes, transtornos mentais e emocionais não são diagnosticados porque a pessoa com os sintomas sente vergonha, ou porque as pessoas próximas não conseguem ou escolhem não reconhecer os sinais. De acordo com a Mental Health America, estima-se que haja 2,5 milhões de pessoas com transtorno bipolar nos Estados Unidos, mas o número verdadeiro deve ser duas ou três vezes maior que isso. A quantidade de pessoas com a doença que não são diagnosticadas ou que são mal diagnosticadas chega a oitenta por cento.
Se você acha que algo está errado, fale.
Você não está sozinho.
Não é sua culpa.
Existe ajuda para você" (p. 321-322).

Em janeiro de 2017 fiz um post aqui no blog sobre o livro:

[ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS].

No dia 28 de fevereiro o filme foi lançado e tem recebido críticas positivas de quem não conhecia a história. Mas para boa parte dos leitores, a adaptação perdeu muito, pois já no começo há uma mudança importante na forma com que os dois personagens, que já se conheciam de vista, se encontram e se enxergam de verdade: no filme, Finch encontra Violet em uma ponte, enquanto que no livro os dois se surpreendem ao se encontrarem na torre do sino da escola, ambos pensando que talvez pular dali fosse uma boa ideia. Finn começa a conversar com Violet e, quando as pessoas percebem que os dois estão lá em cima, ele faz de tudo para que pensem que ela havia subido para salvá-lo. 
O diálogo dos dois depois de descer da torre: 

"— Eu só estava sentada ali — ela diz. — No parapeito. Não subi aqui pra…
— Deixa eu te perguntar uma coisa: você acha que existe um dia perfeito?
— O quê?
— Um dia perfeito. Do início ao fim. Quando nada de terrível ou triste ou comum acontece.
Você acha que é possível?
— Não sei.
— Você já teve um?
— Não.
— Também nunca tive, mas estou em busca dele.
Ela sussurra:
— Obrigada, Theodore Finch.
Fica na ponta dos pés e me dá um beijo no rosto, e sinto o cheiro do xampu, que lembra
flores. Então, diz no meu ouvido:
— Se contar a verdade a alguém, mato você" (p. 17-18).

É a partir desse encontro singular que ambos se aproximam e passam a conhecer o mundo do outro, muito mais detalhado no livro do que no filme, obviamente. A orelha do livro traz o resumo da história:

"Violet Markey tinha uma vida perfeita: amigos populares, um namorado lindo, um futuro estudando escrita criativa em Nova York e várias ideias para a revista on-line que dividia com sua irmã, Eleanor. Mas todos os seus planos deixam de fazer sentido quando as duas sofrem um acidente de carro e apenas Violet sobrevive. Sentindo-se culpada pela morte da irmã, Violet para de escrever, se afasta de todos e tenta descobrir como seguir em frente.
Theodore Finch encarna um personagem diferente a cada semana [...]. Essa personalidade imprevisível não raro acaba lhe trazendo problemas, e logo ele se torna o esquisito da escola, perseguido pelos valentões e chamado de 'aberração' por onde passa. Para piorar, o garoto é obrigado a lidar com longos períodos de depressão, um pai violento e a apatia do resto da família.
Enquanto Violet conta os dias para o fim das aulas, quando poderá ir embora da cidadezinha onde mora e aplacar o luto que sente pela ausência da irmã, Finch pesquisa diferentes métodos de suicídio e imagina se conseguiria levar algum deles adiante. Em uma dessas tentativas, ele vai parar no alto da torre do sino da escola e, para sua surpresa, encontra Violet, também prestes a pular.
Um ajuda o outro a sair dali, e essa dupla improvável se une para fazer um trabalho de geografia: visitar os lugares incríveis do estado onde moram. Eles vão até o ponto mais alto de Indiana, a um parque de bibliotecas que funcionam dentro de trailers antigos. a uma lagoa onde dizem não ter fundo, a montanhas-russas construídas por um senhor viciado em adrenalina, entre vários outros locais grandiosos ou pitorescos. Nessas andanças, Finch encontra em Violet alguém com quem finalmente pode ser ele mesmo, e a garota para de contar os dias e passa a vivê-los".


Depois de perder Finch, Violet passa pelo processo de luto com os questionamentos que são comuns para os sobreviventes enlutados: 

"Meu calendário está jogado em um canto. Abro, estico as páginas e olho pra todos os incontáveis dias em branco, que não risquei com um “X” porque foram dias que passei com Finch.
Penso:
Odeio você.
Se eu soubesse.
Se eu tivesse sido suficiente.
Eu decepcionei você.
Eu queria ter feito alguma coisa.
Eu devia ter feito alguma coisa.
Foi minha culpa?
Por que não fui suficiente?
Volte.
Eu amo você.
Sinto muito" (p. 291-292).

Também acho de uma delicadeza ímpar como Violet continua visitando e (re)visitando os lugares que havia visitado com Finch, na esperança de encontrar alguma mensagem que ele tivesse deixado para ela. A visita à Capela aparece no filme, mas não com toda a beleza descrita no livro:
    
"Caminho até o altar, e alguém digitou e plastificou a história da igreja, que está apoiada em um dos vasos.

A Capela de Oração Taylor foi criada como um santuário para que viajantes cansados parem e repousem. Foi construída em memória daqueles que perderam a vida em acidentes de automóvel e para ser um lugar de cura. Lembramos daqueles que não estão mais aqui, que nos foram tirados cedo demais e que manteremos para sempre em nossos corações. A capela é aberta ao público de dia e de noite, inclusive em feriados. Estamos sempre aqui. 

Agora sei por que Finch escolheu este lugar — pra Eleanor e pra mim. E pra ele também, porque ele era um viajante cansado que precisava repousar. Alguma coisa aponta pra fora da Bíblia — um envelope branco. Viro a página e alguém sublinhou estas palavras: brilhais como estrelas no Universo.
Pego o envelope e ali está meu nome: “Ultravioleta Markante”.
Penso em levá-lo pro carro pra ler o que tem dentro, mas em vez disso sento em um dos bancos, grata pela madeira sólida que me segura.
Estou pronta para ler o que ele pensava sobre mim? Pra ler o quanto o decepcionei? Estou pronta pra saber exatamente quanto o machuquei e como poderia... deveria tê-lo salvado se simplesmente prestasse mais atenção e interpretasse os sinais e não abrisse minha boca grande e o ouvisse e fosse suficiente e talvez o amasse mais?
Minhas mãos tremem quando abro o envelope. Tiro três folhas de partitura grossas, uma coberta de notas musicais, as outras duas de palavras que parecem a letra de uma música. Começo a ler.

Você me faz feliz,
Sempre que está perto, estou seguro em seu sorriso.
Você me faz belo,
Sempre que sinto que meu nariz é grande demais.
Você me faz especial, e Deus sabe o quanto esperei pra ser o tipo de cara que se quer por perto.
Você me faz te amar,
E essa deve ser a maior coisa que meu coração já foi digno de fazer…

Choro — alto e soluçando, como se tivesse segurado a respiração por muito tempo e
finalmente tivesse ar de novo.

Você me faz adorável, e é tão adorável ser adorado por aquela que adoro…

Leio e releio as palavras.

Você me faz feliz…
Você me faz especial…
Você me faz adorável…

Leio e releio até saber as palavras de cor, então dobro os papéis e guardo de volta no
envelope. Fico sentada até as lágrimas pararem, e a luz começa a mudar e desaparecer, e o brilho suave e rosado do entardecer enche a capela.

[...] Não preciso me preocupar com o fato de Finch e eu não termos filmado nossas andanças. Tudo bem não termos recolhido lembranças nem tido tempo de organizar tudo de um jeito que fizesse sentido pra outra pessoa. O que percebo agora é que o que importa não é o que a gente leva, mas o que a gente deixa (p. 314-316).


Desculpem pelo textão, mas eu quis trazer a riqueza da narrativa escrita de Niven que não aparece como deveria no filme.
Minha dica: se você gostou do filme, leia o livro quando puder. Vou reler, mais uma vez!


domingo, 23 de fevereiro de 2020

LUTO POR SUICÍDIO: COMO AJUDAR



Cada pessoa fica enlutada de sua maneira. O luto é uma experiência pessoal e única e o luto por suicídio é um luto bem mais longo e de difícil elaboração. Portanto se você quer ajudar alguém que perdeu um ente querido por suicídio, veja algumas dicas.

por: No m'oblodis
















Você conhece o No m'oblidis? Canal dos queridos Terezinha Maximo e Joseval Maximo, pais da Marina, sobreviventes enlutados pelo suicídio, onde eles generosamente compartilham sua experiência e muita informação.
Para refletir, sensibilizar e ajudar a entender muito mais do que o suicídio e seu luto: entender a vida e o amor.


  

domingo, 18 de agosto de 2019

Parece empatia, tem cheiro de empatia … mas não é!



Uma das palavras mais utilizadas ultimamente, a empatia pode ser resumida na ideia da habilidade de sentir como as outras pessoas sentem.
O poder da empatia:

De acordo com Krznaric, no livro “O poder da empatia“, ela “é a arte de se colocar no lugar do outro por meio da imaginação, compreendendo seus sentimentos e perspectivas e usando essa compreensão para guiar as próprias ações” (p. 10).


Mas o autor destaca que certa compreensão da empatia também tem um risco: alguns usarão a sua visão de mundo para avaliar a experiência alheia, e fazem aquilo que gostariam que fosse feito caso estivessem no lugar do outro, supondo que suas necessidades seriam iguais às suas. Isso não é ser empático/empática.
Quando alguém diz: “Eu lidei com uma experiência tão difícil quanto essa e superei, tenho certeza que você também irá conseguir!”, é importante lembrar que cada dificuldade ou perda será sempre única, pois, cada pessoa tem sua história. Ao dizer “Eu sei como você se sente” estamos na verdade fazendo um julgamento e reduzindo um sofrimento individual.

Por exemplo:
Eu perdi meu pai há quatro anos e não pude me despedir dele. Todas as pessoas que perderam o pai lidaram com seu luto da mesma forma, tiveram o mesmo tempo de enlutamento e passaram pelo mesmo processo que eu? Posso me comparar com alguém que perdeu o pai por um um câncer, ou que perdeu um filho por suicídio, apenas porque passei por uma experiência de luto?

O mesmo tipo de experiência poderá ser vivenciada de milhares de formas diferentes, e não existe o certo ou o errado, mas o possível dentro de cada momento.
A empatia poderá ser demonstrada na escuta, no acolhimento, no não julgamento … em um abraço que nada diz, além de “Estou aqui”.

Texto de Luciana França Cescon



domingo, 11 de agosto de 2019

Livro____________________ O suicídio de meu pai, de André Penteado





"Em 31 de janeiro de 2007, já morava em Londres havia um ano, quando recebi um telefonema do Brasil. O meu pai, José Octávio, havia se suicidado. Na manhã seguinte, voei para São Paulo para me despedir dele.

Duas semanas após o enterro, peguei todas as roupas de meu pai e as levei para um estúdio, onde me fotografei vestindo-as. Elas ainda tinham fios do seu cabelo e o cheiro de seu perfume. Foi como se o abraçasse pela última vez".

O livro de André Penteado é composto principalmente de fotos. As primeiras, são das imagens que ele começa a registrar no caminho da viagem que faria para despedir-se do pai. Na sequência, vêm as fotos que tirou com as roupas do pai, como ele mesmo diz, como se fosse um último abraço.

Existem diferentes formas de se elaborar o luto; a arte é uma delas, exatamente porque existem sentimentos que estão além do alcance das palavras. Como artista que trabalha com fotografias e vídeos, André utilizou este recurso para falar de seu pesar.

"Tornar conhecido O suicídio de meu pai ao grande público é o mesmo que trazer à existência e sepultar todos os dias o ritual de passagem carregado de ausências. É despedir-se incessantemente do inesperado, do súbito. Também é revisitar-se, é permitir-se em catarse diante de um mundo que tenta matar hodiernamente aquilo que acreditamos ser imortal: o amor.
A obra de André Penteado é uma declaração de amor à vida, pois ressiginifica a morte através do suporte da fotografia" - Elaine Pinho (p. 134-135).

"A arte é sinônimo de expressão e, conhecidamente, um instrumento de acesso aos sentimentos profundos, conscientes e inconscientes. [...] Aquilo que é traduzido em imagens e palavras ganha forma e torna-se menos assustador. Ao identificar vivências e sentimentos semelhantes, o enlutado sente que tem seu sofrimento testemunhado e compartilhado e que não está só na sua dor.
André Penteado, filho e artista, rompe toda e qualquer barreira entre o que foi sentido e o que é falado. [...] ele escancara a dor, o medo, a inquietude, a curiosidade e toda a transformação advinda de sua perda e, surpreendentemente, aquilo que poderia chocar nos acolhe e nos convida a olhar para a morte por suicídio com menos medo e mais empatia" - Gabriela Casellato, Maria Helena Pereira Franco, Luciana Mazorra e Valéria Tinoco (p. 136-138).


 Este trabalho venceu o Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger em 2013.


 

domingo, 16 de junho de 2019

A morte muda tudo

Neste final de semana, apresentei a monografia que fiz sobre o luto por suicídio.
Para finalizar minha apresentação, escolhi um trecho do texto de Terezinha Máximo, sobrevivente enlutada, que compartilho na íntegra aqui:


"A única certeza que temos na vida é a morte que um dia chegará e a morte muda tudo. Não sabemos, quando onde e como, mas ela virá.  E o assunto morte é tratado como tabu em nossa sociedade. Ninguém quer falar sobre isso e não estamos preparados para morrer e tão pouco para perder alguém.

Confesso que fazia parte deste meio que odiava falar sobre morte, papo chato, triste e dolorido. E quando eu me vi frente a frente com a realidade dura e cruel de perder para sempre alguém que eu amo,  senti o quão eu sou vulnerável e que  não sou nada diante de algo tão grande. 

Já havia perdido algumas pessoas queridas em minha vida, tias, avós, avôs, primos, mas a realidade era outra, sofri com essas perdas, sentia saudades, chorava com lembranças, mas nada comparada com o que vivencio com a morte da minha filha, uma dor sem igual que sou incapaz de descrever.

"Não consigo descrever primeiro porque trata-se de uma  filha e segundo que sua morte foi decorrente de suicídio, pois além da dor da perda ter que lidar com a dúvida se haveria ou não a possibilidade de ter evitado ou tentar descobrir  em que parte eu errei na missão de cuidar e proteger é torturante. E só quem passa ou  passou por algo semelhante consegue imaginar o que estou sentindo.

É muito difícil uma mãe ter que enterrar um filho, não é natural, deveria ser o contrário. Quando me tornei  mãe tive  a esperança de criar meus filhos para uma vida plena e feliz, queria ver a  Marina formada, bem empregada, com uma família, qualquer que fosse a forma de família que ela achasse conveniente e a realizasse, que ela viajasse muito como ela sempre desejou, que vivesse  rodeada de amigos, que eu ficaria com meus cabelos branquinhos e cheias de rugas vendo nossas fotografias e rindo de nossas lembranças, mas infelizmente nada disso irá acontecer a morte levou a Marina cedo demais e desfez os meus sonhos e  mudou tudo.

Todos os dias eu sinto falta do olhar dela, do sorriso, da sua voz, das gargalhadas que ela dava e a alegria que ela transmitia. Sinto falta de nossas conversas, do seu perfume,  de seu abraço, dos  nossos cafés, de nossas trocas de experiências, eu contando minhas histórias ela contando as dela, rindo das besteiras e  da minha demora  em acompanhar alguns assuntos.

A morte muda tudo, agora eu não sou a mesma pessoa de antes. Outro dia li que a morte é um buraco e que depois que perdemos alguém querido, passamos a ser carregadores de ausências.  Sim, passei a viver com um buraco. Não me tornei uma pessoa amarga, mas passei  a ver o  mundo de uma forma diferente, de repente tudo ficou cinza, não há mais cor, parece que fiquei na escuridão.

Mas estou aprendendo que  o tempo do luto cada um tem o seu e o luto por  suicídio é mais complicado e  ele deve e precisa ser vivenciado e acolhido para que se possa aos poucos encontrar uma nova forma de enxergar as cores e  a luz que outrora se via".

- Terezinha Máximo
https://nomoblidis.com.br/a-morte-muda-tudo/




domingo, 26 de maio de 2019

Grupos de apoio a pais que perderam filhos ajudam a lidar com a dor

Em Santos existem três grupos, dois deles voltados a enlutados de suicídio


Lá está você vivendo sua vida e, de repente, ela chega sem avisar. Ela não leva em conta seus sentimentos, faz pouco dos seus projetos e mostra que você não tem controle sobre nada e nem ninguém. Falar sobre morte é um tabu para 73% dos brasileiros, é o que mostrou uma pesquisa inédita encomendada pelo Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep), em setembro de 2018. Oitenta e dois por cento dos entrevistados acham que não há nada mais sofrido do que a dor da perda de alguém. 

Embora não seja possível comparar e nem mensurar a dor de pessoas que tenham perdido alguém amado, é comum escutar que o sofrimento é maior quando se trata de um filho. "Não é o curso natural da vida", dizem.

A psicóloga Juliana Matias, de 36 anos, conviveu com essa dor quando seu primogênito Henrique faleceu em 2013, oito dias após o nascimento. “Senti uma tristeza profunda, um vazio imenso. Mas também senti muito amor e gratidão por ser a mãe dele”, conta.

Para lidar com o trauma, Juliana passou a ler muito sobre luto e decidiu fazer terapia. “O enlutado vai sentir a perda até o fim da vida, mas acredito que falar sobre isso minimiza a dor”. E foi para oferecer um espaço às pessoas que também perderam seus filhos, independentemente de como isso ocorreu e da idade que tinham, que em 2017, ela criou junto a outros voluntários, o Grupo Lado a Lado, que promove encontros gratuitos sempre no último sábado do mês, das 10h às 12h, no Estúdio Lobo, na Vila Mathias, em Santos.

As reuniões costumam receber de cinco a dez pessoas, além de Juliana e de outras duas psicólogas com experiência no assunto. “Tem gente que não quer falar, só quer participar e estar junto de quem partilha da mesma dor e tudo bem. É um espaço sem julgamentos. O enlutado pode chorar, rir, colocar para fora suas angústias e falar o que vem à mente. O mais importante é que as pessoas saibam que existe um lugar em que possam buscar apoio”, observa.

A aposentada Cristina Miguel, 63 anos, é uma das mães que frequenta o grupo desde que ele foi criado. “Minha única filha se suicidou em 2013, aos 23 anos. Os encontros me ajudam a falar sobre minha saudade, porque nós, mães que perdemos um filho, seja por qualquer motivo, ainda mais por suicídio, ficamos muito isoladas. Os amigos desapareceram, assim como muitos familiares, então temos umas às outras”, desabafa.

Cristina também participa de um outro grupo de apoio, mas voltado a pais enlutados sobreviventes do suicídio. Juntamente ao oficial de justiça Ivo Oliveira, que em 2014 perdeu a filha de 18 anos, coordena o Luta em Luto, que também acolhe pessoas que convivem com pensamentos suicidas ou que já tentaram tirar a própria vida.

As reuniões ocorrem na primeira segunda-feira de cada mês, das 19h às 21h, na Subsede do Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal no Estado de São Paulo (Sintrajud), na Vila Belmiro, em Santos.

Ivo também participa de encontros do Centro de Valorização da Vida (CVV), em São Paulo e do Instituto Vita Alere, que promove reuniões em Santos sempre na terceira segunda-feira do mês, das 18h às 20h, no bairro da Encruzilhada.

"Fora dos grupos somos julgados a todo instante. As pessoas perguntam como não percebemos que o familiar estava precisando de ajuda. Lembro que no começo, antes de ir para as reuniões do CVV, eu passava em frente a um viaduto e pensava em encerrar aquela agonia. Mas na volta eu não tinha essa sensação, estava fortalecido. Os grupos são uma forma que encontrei de viver melhor, dando significado à minha vida e à morte da minha filha”, constata Ivo.

Luciana Cescon, psicóloga voluntária responsável por trazer o Vita Alere para Santos em 2017 – o Instituto, fundado em 2013, também atua em São Paulo e no Rio de Janeiro – esclarece a principal diferença entre os grupos e a terapia individual. “Ouvir e acolher o outro ajuda também a se ouvir e a se acolher”.

Luto precisa ser vivido

Angélica Gawendo, psicóloga e professora universitária pós-graduada em Perdas e Lutos, acredita que o luto no mundo atual é um tabu pelo fato de a tristeza e o sofrimento serem vistos como coisas totalmente indesejáveis.

“É claro que o sofrimento não é gostoso, mas pode não ser ruim e nos fazer crescer. O luto é a dor pela perda de alguém que amamos, que tivemos a felicidade de ter na vida por algum tempo. Leva um tempo para a dor se transformar em saudade, só que hoje temos pressa. O luto precisa ser vivido e compreendido”, analisa.

Os grupos de apoio são muito mais procurados por mulheres do que homens, o que mostra que o machismo também influencia na questão. “Embora esteja mudando aos poucos, culturalmente o homem é menos incentivado a demonstrar seus sentimentos”, observa.

É comum que diante da morte seja difícil saber o que dizer ou o que fazer. Os entrevistados nesta reportagem foram unânimes em dizer que se deve ficar ao lado do enlutado, porém, sem julgamentos, dando a liberdade para que ele viva a situação como quiser ou puder. Estar disponível para compartilhar e vivenciar a dor é de grande valia para quem sofre.

Grupos de apoio a pais enlutados

Lado a Lado – último sábado do mês
Horário: 10h às 12h
End: Rua Luis de Camões, 12, Vila Mathias, Santos
Facebook: Grupo de Apoio Lado a Lado

Luta em Luto (sobreviventes do suicídio) – primeira segunda-feira do mês
Horário: 19h às 21h
End: Rua Adolpho Assis, 86, Vila Belmiro, Santos
Facebook: Luta em Luto

Vita Alere (sobreviventes do suicídio) – terceira segunda-feira do mês
Horário: 18h às 20h
End: Rua Barão de Paranapiacaba, 233, 5º andar, Sala B, Encruzilhada, Santos
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domingo, 19 de maio de 2019

Documentário: O silêncio que mata






O documentário Suicídio: O silêncio que mata foi produzido pelas jornalistas Paula Larissa e Dayane Dias e entregue como trabalho de conclusão de curso em Jornalismo - Comunicação social. A nota obtida pelo produto foi dez.

O conteúdo visa trazer a importância de se falar sobre o ato, além de entender o que acomete a mente de um suicida em potencial e apurar como a mídia pauta o tema.
Sinopse:
Desânimo, falta de expectativa e medo são sentimentos presentes em dias ruins e um dos primeiros sintomas presentes em indivíduos que quer dar fim à vida. Pesquisas da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que o suicídio é atualmente um problema de saúde pública presente no mundo todo. Trata-se da segunda causa de morte entre a faixa etária de 10 a 24 anos.

Além disso, a cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio e para cada suicídio ocorrem 11 tentativas, totalizando 800 mil mortes por ano.
Baseado em histórias reais, o documentário aborda a importância de se falar sobre o suicídio, que ainda é visto como tabu na sociedade. E além disso, sobre o papel que a mídia possui ao pautar o tema trazendo informação à sociedade de como zelar pelo seu bem-estar. Sendo assim, apresenta soluções, expõe fatos e evidencia a prevenção e o combate ao silêncio que mata.
Duração: 21 minutos

domingo, 30 de dezembro de 2018

Do luto à luta: Morte de filhos leva pais cearenses a investirem em projetos sociais