domingo, 14 de outubro de 2018

"A varanda do quarto em que dormem o funcionário público Miguel Alixandre e a operadora de telemarketing Maricelma Cruz foi coberta por telas de proteção.

Foi de lá que a filha do casal, Aline Oliveira, de 19 anos, se jogou após uma crise de depressão. “Sempre que entro no quarto, lembro da cena”, diz o pai. Foi ele quem correu atrás de Aline quando ela tentou se suicidar. A menina pulou de uma altura de oito metros. E sobreviveu".

Um vídeo com depoimentos de uma adolescente e seus pais sobre a tentativa de suicídio dela e o processo de tentar compreender o que aconteceu e ressignificar também o vínculo entre eles.

Ainda existem culpa e desencontros em algumas falas:

"Eu tenho uma teoria ... que eu acho que o que os meus pais pensavam é que o que eu passava era só coisa de adolescente ... Ah, não tem necessidade ... Psicólogo é pra quem tá doente ... Eu acho que eles começaram a perceber a partir do momento que eu me joguei ..."

"Ela continua fazendo a mesma coisa ... ela não aprendeu nada com isso ..."

Mas podemos ver também o afeto e o desejo de fortalecer o relacionamento familiar.

"Como eu me sentia sozinha, eu achava que ia ser melhor para os meus pais que eu não estivesse mais viva ... porque eu me sentia um peso em casa"

"E os meus pais foram muito julgados na época, sabe? 'Como vocês não perceberam que a sua filha tava doente, como que vocês deixaram sua filha fazer isso', sabe? Mas a culpa não era deles. Então, eu me sinto culpada de culparem eles".

"Eu sempre amei muito eles ... eu nunca quis de fato deixar eles sozinhos e se eu soubesse que aquilo podia machucar eles, eu nunca teria feito aquilo".

"Peço a ela que tenha juízo e que ... eu lembro muito bem que ela falou que vai me dar muito orgulho"

Por isso, quando cuidamos de alguém com comportamento suicida, independente da idade, devemos incluir os membros da família no processo terapêutico e ainda orientá-los e apoiá-los também.

E esse suporte à família também é válido não apenas no consultório, mas também em CAPS, Pronto-Socorro ... ;)



domingo, 7 de outubro de 2018

Quatro maneiras de falar sobre suicídio na escola

Casos recentes acenderam um alerta entre educadores e pais, por isso a pauta é urgente e precisa fazer parte do cotidiano escolar.

A divulgação de casos recentes de suicídio entre alunos de escolas particulares de São Paulo deixou em alerta pais, educadores e adolescentes. E os números são alarmantes: entre 2000 e 2015 os suicídios aumentaram 65% entre pessoas com idade de 10 a 14 anos, e 45% entre adolescentes de 15 a 19 anos, tornando-se a segunda causa de morte desta faixa-etária. Os dados recém-divulgados são do Mapa da Violência 2017, publicado anualmente a partir de indicadores do Ministério da Saúde.

Jovens e adolescentes são também o principal grupo de risco para o desenvolvimento de transtornos mentais, principalmente depressão. Segundo relatório da federação de empresas de seguro de saúde dos Estados Unidos, desde 2013 as taxas de depressão aumentaram 65% entre meninas adolescentes e 47% entre meninos.

As explicações para isso são muitas, como esclarece a psicóloga Alessandra Xavier, da Universidade Estadual do Ceará (UECE). “A adolescência é um período peculiar em que se está construindo uma série de referências profissionais, sociais, de vínculos e orientação sexual. Também são constantes as mudanças no corpo, na rede de amizades e na autoestima”.

Soma-se tudo isso às pressões dos pais e da escola para ingresso no ensino superior e à cultura do consumo e narcisismo, escancarada pelas redes sociais. Assim, segundo a psicóloga, muitos adolescentes acreditam que dar fim a própria vida é solução ou, no mínimo, um ato impulsivo de expressão do descontentamento com a realidade.

“A verdade é que somos todos muito despreparados para lidar com mudanças e angústias. Ficamos vulneráveis a qualquer experiência de dor e sofrimento”, define Alessandra, que articula uma série de ações junto ao ministério público do Estado do Ceará para prevenção do suicídio entre jovens e adolescentes.

Precisamos falar sobre isso
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 90% dos casos de suicídio podem ser evitados através de ações de prevenção.
É por isso que a escola, espaço no qual crianças e adolescentes vivem grande parte de suas vidas, precisa falar sobre suicídio e outros potenciais desencadeadores, como bullying, depressão, abuso de drogas e violência doméstica. De preferência, de maneira constante para que se desmistifique o tabu que ronda a temática.

Sinais que podem indicar sofrimento psíquico:
  1. Mudança significativa de comportamento ou personalidade (agressividade, irritabilidade, apatia, pessimismo);
  2. Queda brusca de rendimento escolar;
  3. Isolamento, baixa autoestima, excesso de ansiedade;
  4. Abuso de álcool e/ou drogas;
  5. Histórico de transtorno mental (esquizofrenia, bipolaridade ou depressão);
  6. Desejo súbito de concluir ou organizar coisas e deixar mensagens aos amigos e parentes.


O trabalho pedagógico deve envolver os pais e agentes da saúde, levar em conta o contexto de vida de cada aluno e se concentrar em atividades que promovam a interação, o acolhimento socioemocional e a criação de uma cultura da paz. A seguir, confira quatro ações que podem começar a ser implementadas desde já.


  • Valorização do grupo

Promover jogos ou dinâmicas que propiciem o Desenvolvimento de competências socioemocionais. “As rodas de conversas diversa mediadas por um psicólogo ou professor capacitado funcionam bem”, indica Sheila Cavalcante, psiquiatra da Unidade de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Unifesp.
Usando como premissas o respeito à diversidade de opinião e o incentivo ao diálogo, o mediador coloca em pauta temas pertinentes e dá direito a voz e ouvidos a todo o grupo, responsável pela construção de um conhecimento coletivo.

  • Promoção do autoconhecimento

Nem sempre é tão fácil reconhecer aquilo o que se está sentindo. Por isso, a escola pode fornecer informações e uma educação integral que ajude crianças e adolescentes a identificar seus estados emocionais e expressá-los de modo a pedir ajuda. Este é, inclusive, um dos pilares do Programa Cuca Legal, que desenvolve estratégias de melhoria da saúde mental por meio de trabalho científico e educativo.

  • Pedagogia da presença

A escola pode investir na capacitação de profissionais, que podem ser tanto professores como funcionários, para se aproximar dos estudantes de modo a construir vínculos e identificar traços de sofrimento psíquico.
“Uma boa maneira de começar a se mostrar mais disponível e acolhedor é pedir que eles escrevam cartas anônimas sobre sonhos, aspirações e incertezas sobre o futuro”, aconselha a psiquiatra da Unifesp. Aqui você encontra mais dicas de como implementar a pedagogia da presença.

  • Artes e abordagem interdisciplinar

A arte é uma das melhores maneiras de expressas sentimentos, por isso, pode ser mais trabalhada em sala de aula. Além disso, os professores devem se integrar para abordar a temática em suas aulas.
“O professor de História levanta com os alunos os dilemas contemporâneos da humanidade, o de Matemática mostra indicadores de aumento da depressão ou do bullying e aproveita para puxar a discussão em sala. O profissional de aproveita para debater o livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe (1749-1832), que traz a temática”, indica Alessandra.

 O que fazer se houve um caso de suicídio ou tentativa? 
“Estudos mostram quando há um caso de suicídio na escola, duas semanas depois haverá uma segunda tentativa se nada for feito”, aponta Sheila Cavalcante, da Unifesp. “Adolescentes podem encarar o ato de tirar a própria vida como uma espécie de heroísmo ou exemplo a ser seguido”, completa.
Como medida de prevenção, a escola deve convocar um especialista para elaborar o luto de toda a turma e das famílias. “As famílias e a escola devem estar prontas para acolher o jovem, dando espaço para que ele expresse sentimentos como tristeza, raiva e culpa sem julgamentos”, diz a especialista.

Apoio 
No Brasil, o principal meio disponível para quem precisa de ajuda é o Centro de Valorização da Vida (CVV), associação sem fins lucrativos que há 54 anos conta com serviço gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio. O CVV oferece apoio 24 horas pelo telefone 141 e pelo site https://www.cvv.org.br/.

A Sociedade Brasileira de Psiquiatria também disponibiliza gratuitamente um manual completo de prevenção do suicídio.

A lei de combate ao bullying nas escolas, sancionada em maio, altera um trecho da Lei 9.394, de 1996, e amplia as obrigações das escolas no combate à prática.  Além das instituições de ensino, clubes e agremiações têm o dever de desenvolverem medidas de conscientização, prevenção e combate ao bullying.



http://fundacaotelefonica.org.br/noticias/quatro-maneiras-de-falar-sobre-suicidio-na-escola/

domingo, 30 de setembro de 2018

Pedir ajuda não é sinônimo de fraqueza

"Pedir ajuda não é sinônimo de fraqueza ou de vulnerabilidade. Na verdade é justamente o contrário: pedir ajuda é um ato de valentia através do qual conhecemos a importância de assumir nossas limitações e de reconhecer o papel que os outros têm em nosso crescimento.

Nesse sentido, podemos afirmar que pedir ajuda é um ato de humildade e de coragem, pois através do pedido de ajuda reconhecemos o valor das outras pessoas e lutamos contra a habitual pressão em relação a ideia de sermos autossuficientes.

Assim, com comentamos em outras ocasiões, o ser humano e seu complexo sistema psicológico foram desenhados para a cooperação e a relação com o seu entorno em favor do desenvolvimento coletivo.

A confiança, um elemento fundamental
Quando pedimos ajuda também estamos dando um voto de confiança aos outros, pois mostramos uma parte importante do nosso ser para que “outra pessoa cuide dela”. Com esse simples ato, fortalecemos nossos vínculos. Somos honestos e consideramos aqueles que nos cercam quando acreditamos que podem fazer algo por nós.

Tendemos a pensar no pedido de ajuda como uma faca de dois gumes que permitirá que outras pessoas se aproveitem de nós, ou que irá ferir nossa independência, ameaçando gravemente nossa capacidade de fazer as coisas por nós mesmos.

Não nos faltam motivos, mas a verdade é que não podemos viver desconfiados de que uma bigorna vai cair na nossa cabeça enquanto caminhamos pela rua. Com isso queremos transmitir a ideia de que as barreiras que impomos a nós mesmos são úteis quando a situação requer uma defesa, não depois.

Pedir ajuda também é uma boa forma de começar uma relação com alguém, além de ser uma habilidade social básica indispensável para o nosso bem-estar. Desse modo, assim como gostamos de ajudar, os outros também se sentem bem em agir dessa maneira.

Por isso, deixe para trás essa necessidade de orgulho e de se sentir infalível, assim como os cuidados excessivos em compartilhar o que acontece em nosso interior. Por outro lado, a vergonha também não faz sentido em certos momentos.

O medo do negativo é um dos fatores mais transcendentais, pois a possibilidade de sermos julgados e de que os outros vejam em nós alguma suspeita de “fraqueza” que nos torna vulneráveis nos causa pavor. Por isso, para pedir ajuda a alguém são necessárias a confiança e a sensação de conforto diante dos outros. Se não trabalhamos nesses dois pilares, os intercâmbios não fluirão como deve ser.

Por todas estas razões, não vale a pena perder a oportunidade de experimentar a bondade dos outros e de melhorar nossa visão do mundo. Quando pedimos ajuda todos saem ganhando, pois pedir é tão enriquecedor quanto dar. Ajudar é maravilhoso, mas deixar que nos ajudem não é nada mal. Vale a pena tentar".

- A mente é maravilhosa



domingo, 23 de setembro de 2018

Livro: Sobre Viver ______________________________________ Cleisla Garcia

Sobre Viver - Como Jovens e Adolescentes Podem Sair do Caminho do Suicídio e Reencontrar a Vontade de Viver

Sinopse: Quando foi escalada para participar da série de reportagens "Suicídio - Alerta aos jovens", da Record TV, a jornalista Cleisla Garcia não podia imaginar os relatos que ouviria ou os dados aos quais teria acesso. A cada entrevista sobre o tema, uma nova porta se abria e revelava não apenas estatísticas assustadoras - como o aumento de mais de 12% no número de suicídios entre jovens brasileiros em pouco mais de uma década e o crescimento de casos em várias regiões do mundo -, mas também o que é possível fazer para ajudar quem está pensando em tirar a própria vida.
O que leva pessoas aparentemente saudáveis e felizes a cometer suicídio? Quais sinais quem está pensando em se matar emite antes de, de fato, tentar? Como agiam os curadores do jogo Baleia Azul, que recrutavam jovens para seus desafios mortais? Filmes e séries, como 13 reasons why, podem mesmo levar pessoas a cometer suicídio ou, na verdade, servem de alerta para pais e familiares?Em Sobre viver, Cleisla aprofunda sua pesquisa e vai muito além do que foi revelado na TV.
Aqui, ela traz respostas para essas e outras perguntas por meio de relatos de jovens que tentaram tirar a própria vida, familiares que buscam se reerguer após a perda trágica de um ente querido, médicos, psicólogos e voluntários que lutam pela prevenção ao suicídio - causa de morte que já ultrapassa o número de homicídios e mortes em conflitos armados no mundo.Preocupada em seguir as cartilhas da Associação Brasileira de Psiquiatria, do Conselho Federal de Medicina e do Centro de Valorização da Vida (CVV) sobre como divulgar casos de suicídio sem incentiválos, Cleisla nos oferece um relato delicado e transformador sobre como lidar com um assunto que está, infelizmente, cada vez mais presente na nossa vida.

A jornalista Cleisla Garcia, da Record TV, foi escalada para fazer uma série de reportagens quando a "Baleia Azul" e a série "13 Reasons Why" tornaram-se os temas mais comentados em nossa sociedade.

Ao longo do percurso, entrevistou sobreviventes e profissionais da área, como Neury Botega, Alexandrina Meleiros e Robert Paris (do CVV) e tentou compreender o sofrimento emocional por trás da automutilação e do comportamento suicida.

"Para ouvir de coração, sem julgamentos e entender a dor do outro, além de ter vontade, é preciso encarar de frente e curar as próprias dores" (Robert Paris, p. 18).

"Cada um de nós é o resultado de uma combinação singular de biologia e biografia. [...] Procure se concentrar nas coisas boas que já conseguiu fazer e viver. É preciso ter planos, mas não deixe de viver cada dia [...] Problemas e crises, afinal, sempre existirão, basta estar vivo! Procure dentro. A felicidade mora dentro.
[...] ter amigos e ser um bom amigo é uma conquista! É algo que precisa ser cultivado em nossa vida. A felicidade se fortalece na interação com o outro" (Neury Botega, p. 226-227).

A história de Cleisla, no final do livro, também impacta e emociona, ao falar de outras marcas que influenciam percursos.

"Ser um parafuso sabedor da sua função ajuda você a ajustar a máquina da própria existência, romper os lacres, conspirar de forma coletiva para um universo cheio de humanidade, e não só de humanos, curar as próprias feridas" (p. 247).

Recomendo a leitura!


domingo, 16 de setembro de 2018

O suicídio infanto-juvenil na literatura como recurso terapêutico


Imagem do poster que apresentei no II Congresso Brasileiro de Prevenção e Posvenção de Suicídio da ABEPS.

Minha paixão por livros também trouxe outra forma de ter acesso às mais diferentes experiências. Como todo ser humano que se emociona diante de uma música, um filme ou um livro, acredito que a arte nos faz entrar em contato com algo que tem uma dimensão humana coletiva. Inicialmente encontrada nos mitos, a riqueza das histórias são formas de conexão com complexidades humanas. 

Como elemento da terapia popular, as histórias tratavam de conflitos interiores muito antes de a psicoterapia tornar-se uma disciplina científica. [...] Provavelmente o mais conhecido desses exemplos é a coleção de histórias As mil e uma noites, cuja história básica descreve como os contos foram usados para ajudar na cura de um governante que sofria de doença mental. A história pode ser considerada de dois ângulos: primeiro, há o bem-sucedido tratamento da enfermidade do Sultão pela esperta Sherazade; segundo, as histórias são tratamentos dados aos leitores e ouvintes,  que absorvem o conteúdo das histórias, tiram lições delas e incorporam-nas a seus pensamentos (PESESCHKIAN, 2012, p. 28).  

A ligação entre Psicologia e Literatura sempre esteve presente. A Psicologia surge de uma ramificação da Filosofia, na qual as questões existenciais e suas diferentes formas de compreensão sempre foram diversas. 

Este é um trabalho que pretendo aprofundar.

PESESCHKIAN, Nossrat. O mercador e o papagaio: histórias orientais como ferramentas na psicoterapia. Trad. Luis Henrique Beust e Robert Walker. Campinas, SP: Papirus, 1992.

domingo, 9 de setembro de 2018

Vídeo: A incrível história de Kevin Hines


Na véspera do Dia Internacional de Prevenção do Suicídio, compartilho com vocês a história incrível de Kevin Hines, que também faz parte, em outro momento, do documentário "A Ponte", disponível no Youtube, no link https://www.youtube.com/watch?v=RQgcXTUvJJQ.

domingo, 2 de setembro de 2018

Suicídios: o que ainda precisa ser dito _____________Maria Júlia Kovács

Suicídio é tema tabu, mesmo sendo um evento presente na história da humanidade desde a Antiguidade. O ato suicida pode ser visto como liberdade, domínio, autonomia e controle. Mas ainda é frequentemente julgado e condenado, visto como fraqueza ou covardia.

Toda e qualquer resposta simplista sobre suicídios tem grande possibilidade de erro. Nos últimos anos, observamos mudança na mentalidade de que o suicídio precisa ser ocultado. Não falar sobre suicídio não diminuiu seus índices, pelo contrário, eles têm aumentado. A perspectiva atual é falar sobre o tema, trazendo números e porcentagens, quais são as pessoas em risco, diferenças de gênero e, no extremo, chega-se a falar do número de tentativas de suicídio em minutos, dias, meses ou anos.

Os dados epidemiológicos servem como alerta e fomentam programas de intervenção. Os índices de suicídio nos convocam a prestar atenção nas pessoas ao nosso redor. Junto com programas de prevenção temos que desenvolver, em nosso meio, também programas de posvenção (termo ainda pouco conhecido no Brasil), que têm como objetivo principal cuidar do sofrimento de pessoas com ideação e tentativa de suicídio e familiares enlutados, oferecendo acolhimento e psicoterapia.

Levando-se em conta o que foi apresentado acima, vamos trazer outras questões para reflexão, agora considerando as pessoas já atingidas pelo fenômeno do suicídio, por ideação ou atos suicidas e pelos familiares que perderam pessoas queridas por esse evento. Essas pessoas necessitam de escuta, apoio, acolhimento e cuidados a longo prazo, não querem saber de números, estatísticas ou porcentagens. Precisam falar de seu sofrimento existencial.

Toda e qualquer resposta simplista sobre suicídios tem grande possibilidade de erro. Nos últimos anos, observamos mudança na mentalidade de que o suicídio precisa ser ocultado. Não falar sobre suicídio não diminuiu seus índices, pelo contrário, eles têm aumentado.

Estatísticas apontam tendências, dados epidemiológicos, estatísticas, fundamentando programas de saúde mental. Pessoas afetadas pelo suicídio precisam de particularização, singularidade, respeito pela sua história que tem um início e que ainda não foi finalizada. Pessoas com ideação, tentativa de suicídio e familiares enlutados demandam atendimento de qualidade com profissionais capacitados, psicólogos, psiquiatras, psicoterapeutas, que possam acolher o sofrimento humano, cujo objetivo principal não deve ser evitar o suicídio a todo custo. Exemplificando, a atenção só voltada para impedir o suicídio pode restringir o sujeito, restringindo sua autonomia e liberdade.

Em casos extremos, pessoas podem ser amarradas no leito para que não realizem qualquer ação que possa colocar sua vida em risco. Essas ações podem resultar na diminuição do número de suicídios, mas o que podemos falar sobre a dor, falta de opção ou sofrimento dessa pessoa? Como profissionais de saúde mental nunca incentivaremos o suicídio, mas será que o impedir a todo custo não aumenta o sofrimento e a dor?

Temos poucas opções de cuidados contínuos em hospitais, Centros de Atenção Psicossocial e nas Unidades Básicas de Saúde. Entre as ONGS, cabe destacar o Centro de Valorização da Vida, que realiza de maneira exemplar o trabalho de atendimento em crise e o acolhimento. É fundamental que o “Setembro Amarelo”, além de programas de prevenção proponham também a contratação e capacitação de profissionais especializados para atender em continuidade pessoas em sofrimento existencial, que buscam a morte para aplacar a profunda dor psíquica que estão vivendo. Alertamos que o atendimento psicoterápico e psiquiátrico deve ser realizado por profissionais competentes e especializados e não por estagiários ou voluntários.

É preciso diferenciar acolhimento em crise realizado pelo Centro de Valorização da Vida, que é muito importante, por ser, em muitos casos, o primeiro passo para o atendimento de pessoas com ideação ou tentativa de suicídio de um atendimento especializado como, por exemplo, o atendimento psicoterápico e medicamentoso. Em muitos casos é necessário o atendimento psicológico e psiquiátrico especializado para lidar com a difícil tarefa de compreender emoções intensas, a ambivalência entre o desejo de viver e morrer, ampliar a visão estreita que considera a morte como única solução para o sofrimento. Sentir-se aceito, compreendido e não julgado, ter o sofrimento respeitado podem ser caminhos importantes para pessoas encontrarem sentido para continuar vivendo.

Temos poucas opções de cuidados contínuos em hospitais, Centros de Atenção Psicossocial e nas Unidades Básicas de Saúde. Entre as ONGS, cabe destacar o Centro de Valorização da Vida, que realiza de maneira exemplar o trabalho de atendimento em crise e o acolhimento.

Gostaria de tecer reflexões sobre os familiares enlutados pelo suicídio de uma pessoa próxima. No “Setembro Amarelo”, a ênfase recai sobre números, prevenção de suicídios e os sinais de alerta que precisam ser observados, podendo aumentar o sofrimento de um familiar que com todo empenho não conseguiu evitar o suicídio. As cartilhas apontam que sinais devem ser observados, acirrando a culpa daqueles que sentem que foram descuidados, por não percebê-los a tempo. É preciso enfatizar que os sinais tão claros nas cartilhas, não são tão claros na realidade. Esses familiares sofrem muito no Setembro Amarelo porque a ênfase recai principalmente sobre a prevenção e não sobre o cuidado ao sofrimento, que estão vivendo. É evidente que os programas de prevenção devem continuar, mas é fundamental agregar nas campanhas a prevenção do sofrimento daqueles atingidos pelo suicídio, em políticas de posvenção. Devemos desenvolver campanhas de cuidados também, e ajudar no difícil processo de luto de quem perdeu pessoas pelo suicídio, que são vistos, em alguns casos, como aqueles que provocaram o suicídio.

Ao final desse texto, chamamos atenção para os cuidados oferecidos nos pronto-atendimentos e enfermarias de hospitais para pessoas que tentaram pôr fim à vida. Eles são tratados de forma pouco atenciosa, descuidada ou até com violência, porque alguns profissionais sentem seu trabalho desvalorizado porque foram formados para salvar vidas. Além de serem tratados dessa forma, pessoas que tentaram suicídio só recebem cuidados clínicos, recebendo alta, sem preocupação com seu sofrimento psíquico e dor emocional. Essa abordagem incompleta e violenta pode, ao contrário de cuidar, estimular pessoas desesperadas a tentar suicídio de formas ainda mais letais. Além da prevenção do suicídio, precisamos também falar daqueles que buscam consumar o ato suicida, de forma impulsiva ou planejada e que não morreram: e dos familiares que os acompanham, também desesperados, sem saber o que fazer. Observamos poucas referências sobre a questão dos cuidados nos documentos da Organização Mundial da Saúde (OMS), nas políticas públicas do Ministério da Saúde e nas cartilhas apresentadas. Esperamos um Setembro Amarelo que também enfoque os cuidados a pessoas em situação de sofrimento e dor.