sábado, 16 de janeiro de 2021

 "Carl Gustav Jung nos explicou no seu livro 'Símbolos de transformação' que o ser humano e a ave Fênix têm muitas coisas em comum. Essa emblemática criatura de fogo capaz de ressurgir majestosamente das cinzas da sua própria destruição também simboliza o poder da resiliência, essa capacidade inigualável de nos transformarmos em seres mais fortes, corajosos e iluminados. [...]

Dizia-se que suas lágrimas eram medicinais, que ela tinha muita resistência física, controle sobre o fogo e uma sabedoria infinita. Ela era, em essência, um dos arquétipos mais poderosos para Jung porque seu fogo abarcava tanto a criação quanto a destruição, a vida e a morte…

'O homem que se levanta é ainda mais forte do que aquele que não caiu.'

- Viktor Frankl.

[...]

Está nas nossas mãos nos levantar de novo, recobrar mais uma vez a vida a partir das nossas cinzas em um triunfo sem igual ou, pelo contrário, nos limitarmos a vegetar, a permanecer caídos…

Essa capacidade admirável para nos renovarmos, para retomar o fôlego, a vontade e as forças a partir das nossas misérias e dos nossos cristais quebrados primeiro passa por uma fase realmente obscura que muitos terão vivido na própria pele: falamos sobre a 'morte'. Quando passamos por um momento traumático, todos nós 'morremos um pouco', todos deixamos ir uma parte de nós mesmos que não vai mais voltar, que nunca será igual.

Na verdade, Carl Gustav Jung estabelece nossa semelhança com a Fênix porque essa criatura fantástica também morre, também proporciona as condições necessárias para morrer porque sabe que dos seus próprios restos vai emergir uma versão muito mais poderosa de si mesma.

[...] há um final, de que uma parte de nós também irá embora, se transformará em cinzas, nos restos de um passado que nunca mais vai voltar.

No entanto, essas cinzas não serão levadas pelo vento, muito pelo contrário. Elas farão parte de nós para dar forma a um ser que renasce do fogo muito mais forte, maior, mais sábio… Alguém que talvez sirva de inspiração para os outros, mas que, acima de tudo, nos permita seguir em frente com a cabeça erguida e as asas abertas".


https://amenteemaravilhosa.com.br/mito-fenix-poder-resiliencia/?fbclid=IwAR1hjyiT_ROSmWzO1fP3Cl3pwVFBxcPbU_Wqt7g0nREiACUpYUtwEfcDv_0






domingo, 25 de outubro de 2020

Livro: Suicídio - R. M. S. Cassorla

Sinopse:

"Este livro visa esclarecer e ajudar o leitor que vivenciou situações de suicídio em seu ambiente ou que já pensou em se matar. Também interessa a todos os que se defrontam com situações de sofrimento vinculadas a desejos de morrer, em especial profissionais de saúde, educação, direito e estudos sociais. O comportamento suicida inclui, sempre, um pedido de ajuda. As fantasias inconscientes subjacentes às ideias suicidas se articulam com fatores da sociedade, levando a um sofrimento insuportável. Este se tornará suportável caso seja possível contar com ajuda do ambiente e de profissionais especializados. Ao mesmo tempo, o livro nos estimula a lutar para que os seres humanos possam viver e morrer com dignidade, evitando sofrimentos desnecessários".    


"[...] as pessoas podem se matar ou procurar a morte de forma consciente ou inconsciente. Todos os seres humanos possuem [...] pulsões de vida e pulsões de morte. As primeiras levam a crescimento, desenvolvimento, reprodução, ampliação da capacidade de pensar, sentir e viver. Já as pulsões de morte lutam pelo retorno a um estado de inércia, atacando a capacidade da pessoa de lidar com as adversidades e de viver, desvitalizando as suas relações consigo mesma e com o mundo. Do ponto de vista individual, as pulsões de morte sempre vencem, pois todos os seres humanos morrem. Do ponto de vista coletivo, a vida continua, por meio de nossos descendentes” (p. 13-14).
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“O suicídio parcial também pode se manifestar por meio do prejuízo de funções mentais (sem fatores orgânicos identificáveis), de modo que a pessoa se torna incapaz de aproveitar suas potencialidades emocionais de amar, de trabalhar, de ser criativa. Quase sempre o indivíduo não tem consciência de que suas potencialidades podem ser maiores do que ele se permite usar, de que parte delas está bloqueada, ‘suicidada’ por conflitos emocionais” (p. 14-15).
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“Parte da pessoa quer deixar de existir e outra parte deseja continuar viva. Essa ambivalência faz parte do conflito, tanto de forma consciente quanto – e principalmente – inconsciente. A forma como a pessoa será ajudada ou a falta de ajuda adequada influenciarão a direção que vai ser tomada. O profissional de saúde buscará meios de fortalecer a parte que deseja viver e, ao mesmo tempo, combater a que deseja morrer (p. 30).
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“Por trás das motivações aparentes do ato suicida, existem mecanismos mentais e conflitos não conscientes. O próprio paciente sabe muito pouco de suas motivações: o que ele comunica, de alguma forma, [...] é apenas uma parte do que está vivenciando, e essa parte vem deformada por conflitos e pelo seu estado mental” (p. 38).



sábado, 3 de outubro de 2020

 

Do Facebook da Petra Costa 

"Quando a minha irmã Elena se suicidou, eu conversei pouco com alguém que entendesse o que eu, que ainda era uma criança, estava passando. No colégio, falei uma vez, quando tinha 8 anos, e todo mundo achou horrível que eu tivesse falado em Elena. Foi uma experiência traumática. Lembro de os familiares falarem para eu não chorar, porque a minha mãe já estava triste – e eu ia deixá-la mais triste. Minha mãe me deu bastante atenção, e os terapeutas também, mas faltou um olhar mais atento para o que eu estava sentindo.

Eu fiz terapia desde os 7 anos de idade, mas nunca com alguém que fosse focado na questão do suicídio. Quando fui fazer o filme “Elena”, entrevistei alguns sobreviventes. Particularmente uma mãe, nos Estados Unidos, que tinha perdido o filho e era líder de um grupo de apoio. Quando conversei com ela, foi a primeira vez que eu falei com alguém que entendia a dor pela qual eu e minha mãe tínhamos passado, que falava a mesma língua. Se eu tivesse, naquele tempo, participado de algum grupo de apoio para crianças sobreviventes, teria feito muita diferença, porque a gente passa por coisas muito parecidas. 

Da mesma forma, se a minha tivesse sido com um profissional que tivesse essa experiência, ou em algum dos centros para sobreviventes que existem atualmente, teria me poupado muita coisa. Primeiro, vem a culpa, depois tememos a morte dos outros (eu comecei a temer a morte da minha mãe), depois pensamos que a mesma coisa vai acontecer com a gente. Ninguém me falou que isso eram respostas normais. 

Eu nunca falei com ninguém, até o encontro com aquela mãe dos EUA, 20 anos depois. Por isso, acho importantíssimo encontrar lugares e pessoas com quem se possa compartilhar a dor e buscar pessoas que tiveram uma dor parecida e poderão compreender a dimensão da sua. 

Quando falo que “Elena é minha memória inconsolável” e que é disso que “tudo nasce e dança” quero dizer que ela é um potencial inspirador que me ensina sobre a morte, portanto, sobre a essência da vida.


https://web.facebook.com/PetraCostaOficial/posts/4405395432869252?comment_id=4405517929523669&notif_id=1601656121706743&notif_t=comment_mention&ref=notif





domingo, 13 de setembro de 2020

Setembro Amarelo: cuidados para contribuir com a prevenção do suicídio

"Fica o convite à reflexão aos que pretendem falar sobre suicídio neste mês (mas não somente nele).
No dia 10 de setembro acontece o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, proposto em 2003 pela Organização Mundial da Saúde e a International Association for Suicide Prevention (IASP) com o objetivo de incentivar ações de conscientização e prevenção do suicídio. Desde então, diversas atividades são realizadas nesta data em todo o mundo.
No Brasil, inspirados por este marco, o Centro de Valorização da Vida (CVV), o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) criaram em 2015 a campanha Setembro Amarelo, expandindo essas ações até então concentradas no dia 10 para todo o mês de setembro.
A partir de então, nota-se um crescente aumento de eventos e profissionais das mais diversas áreas propondo atividades de prevenção do suicídio. Embora falar sobre o suicídio seja fundamental para a quebra do estigma e para a construção de políticas públicas, é necessário que se tenha responsabilidade e ética aliados ao conhecimento científico para tratar de um tema tão complexo. Infelizmente, percebe-se a cada ano o aumento de eventos com propostas e narrativas equivocadas, irresponsáveis e sem um compromisso teórico e ético com o tema, deixando de lado objetivo central da campanha: a prevenção do suicídio e o suporte aos que estão em intenso sofrimento.
Durante o III Congresso Brasileiro de Prevenção realizado pela ABEPS neste ano (2020), o Dr. José Manuel Bertolote, um dos idealizadores do Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, trouxe um importante alerta ao apontar que um mês inteiro voltado para ações em prevenção pode trazer uma fadiga da data e um esmorecimento dessas ações. Nesse sentido, é importante reavaliarmos a qualidade das ações ofertadas durante este mês para que não tenhamos um efeito iatrogênico, intensificando assim o sofrimento daqueles que já estão demasiadamente fragilizados".








Autora: Elis Regina Cornejo, psicóloga e fundadora do site "Posvenção do Suicídio"

domingo, 6 de setembro de 2020

Setembro está chegando. Então aqui vão algumas dicas importantes:

1. Não fale nem entre em discussão sobre métodos de suicídio (sobre o que mata mais, ou sobre o que é mais ou menos letal).

2. Se você vai falar para alguma audiência que não trabalha com saúde mental, esteja certo de que há planos a serem seguidos caso alguém se sinta angustiado com alguma coisa que você venha a falar (onde a pessoa pode buscar ajuda, ou o que fazer se ela não se sentir bem). Inclua número de telefone e emails ou sites de organizações de caridade ou saúde que possam atender a pessoa caso algo aconteça.

3. Se for fazer slides, *não* - por favor! - não use imagens de pessoas se autolesionando, ou em frente a um precipício, ou qualquer outra imagem que sugira um método de suicídio. Da mesma forma, evite fazer descrições sobre os detalhes de um suicídio ou de episódios de autolesão. Pessoas que sobreviveram a uma tentativa de suicídio (e estarão na tua palestra) podem desenvolver uma crise de TSPT evocada pela tua palestra (eu já vi isso acontecer em congressos!).

4. Tente (se conseguir) não usar termos considerados estigmatizantes pela comunidade de sobreviventes do suicídio: "cometer", "obter sucesso", "fracassar", "automutilador", "pessoas suicidas", etc.

5. Não fale sobre suicídio com crianças (a menos que seja uma situação altamente específica - e se for fazer, faça-o sob supervisão/orientação de algum especialista).

6. Cuidado ao falar sobre suicídio ou autolesão com adolescentes! Em geral, suicide clusters ocorrem mais entre adolescentes do que em pessoas de outras faixas etárias.

7. [Essa dica talvez não vai agradar a muitos]: Se você não é um profissional da área de saúde mental, evite se voluntariar ou aceitar convites para falar sobre o tema. Ofereça ajuda para organizar o evento (ou palestra que seja) e a convidar pessoas que tenham experiência com esse tema - mas não seja 'o palestrante'.

8. Cuidado com algumas "mensagens positivas" e prescrições comportamentais (i.e., "faça isso" ou "não faça aquilo"). É comum que tais mensagens contribuam com que o ouvinte se sinta pior do que está.

- Tiago Zortea:Suicidologia (Facebook)