domingo, 31 de janeiro de 2021

Sobre a quebra de sigilo do psicólogo no comportamento suicida

Estou fazendo uma especialização em Psicologia Forense e Jurídica desde agosto, em uma parceria da Prefeitura de Santos com a Unyleya.

O módulo deste mês é Ética em Psicologia (disciplina que ministrei na UNIP no ano passado!) e uma das tarefas foi escolher um dos princípios fundamentais do Código de Ética em Psicologia e relacioná-lo à prática, experiência profissional ou a um dos campos de atuação do psicólogo da preferência do aluno.

Meu texto foi o seguinte:

"O tema que escolho para esta atividade é a quebra de sigilo, de acordo com o que está preconizado no artigo 10º do Código de Ética Profissional do Psicólogo (2005):

Art. 10 – Nas situações em que se configure conflito entre as exigências decorrentes do disposto no Art. 9º e as afirmações dos princípios fundamentais deste Código, excetuando-se os casos previstos em lei, o psicólogo poderá decidir pela quebra de sigilo, baseando sua decisão na busca do menor prejuízo.

Entre os diversos desafios que a quebra de sigilo impõe ao psicólogo, destaco um tema que aparece muito na minha prática profissional: o risco de suicídio. Muitas vezes, o psicólogo se vê dividido entre respeitar o pedido do paciente para não revelar uma ideação suicida, por exemplo, e ao mesmo tempo, sabe que comunicar o risco a um familiar é uma conduta adequada, não apenas eticamente, mas ainda como fator de proteção – quando os familiares sabem do risco, podem aproximar-se ainda mais da pessoa com comportamento suicida, oferecendo suporte.

De acordo com Botega (2015, p. 165):

'A crise suicida é uma condição clínica muito grave, em que a segurança do paciente toma precedência sobre a confidencialidade. Temos que, desejavelmente, obter sua anuência e comunicar um familiar ou uma pessoa que lhe seja significativa. Essa comunicação é feita com o intuito de se criar uma rede de proteção da qual participam pessoas próximas ao paciente. Entrar em contato com um familiar ou responsável é mandatório não apenas no caso de adolescentes. Se o paciente não concordar com essa proposta, ainda assim temos que nos comunicar prontamente com um familiar ou amigo seu e falar sobre o risco de suicídio'.

Por outro lado, Zana e Kovács (2013, p. 904) defendem que:

'Quando se considera haver risco para suicídio, o Psicólogo pode, com consentimento do cliente, informar a família. Porém, é importante destacar que a quebra do sigilo nestes casos é um direito, não um dever'.

Acredito que estas duas posições mostram as implicações éticas que nossas atitudes exigem de nós, psicólogos. A posição de Kovács assinala que o profissional não tem apenas um dever ético, mas deve também ter o direito de avaliar o momento em que essa quebra de sigilo será feita. Não é indicado passar por cima da vontade do paciente, sem ter um diálogo sobre os motivos para que essa comunicação aconteça (e não se trata apenas de “garantir para o nosso Conselho que agimos de forma correta e ter respaldo legal caso o paciente faça uma tentativa. Trata-se de vínculo, de trabalho terapêutico e de trazer esperança também).

Como foi visto ao longo da disciplina, a ética (e a bioética) tenta expressar e integrar (na medida do possível) os contrastes entre as normas sociais e as especificidades individuais. Às vezes, determinar o certo e o errado não é uma tarefa tão simples, pois existem múltiplos fatores em jogo.

Pessoalmente, uso a consciência ética tanto para justificar meu pedido de quebra de sigilo quanto para tentar sensibilizar o paciente a autorizá-la: ao propor que ele reflita em como se sentiria se soubesse que um ente querido comunicou a alguém que pensa em se matar ... Gostaria de ser informado e tentar ajudar, de alguma forma? Até hoje, todas as vezes que propus esse dilema, consegui chegar a um combinado com o paciente, onde ele escolhia uma pessoa de sua confiança para compartilhar essa questão. Nem sempre foi um familiar ... Em uma ocasião, foi uma amiga. O importante é ajudar a formar essa rede de apoio e também passar para o nosso paciente a certeza de que ele não está sozinho.

O trabalho do psicólogo, nesse caso, também não é apenas comunicar a alguém sobre o risco: é levar informação para essa pessoa, é acolher as angústias e dúvidas que podem surgir, é fazer o encaminhamento para que ela também seja acompanhada, se for necessário (e quase sempre é).

Para mim, a ética perpassa muito pela ideia de conseguir se colocar no lugar do outro".

Referências

BOTEGA, N. Crise suicida. Porto Alegre: Artmed, 2015.

ZANA, A. R. de O. & KOVÁCS, M. J. O psicólogo e o atendimento a pacientes com ideação ou tentativa de suicídio. Estud. pesqui. psicol., Rio de Janeiro, v. 13, n. 3, p. 897-921, 2013. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/epp/v13n3/v13n3a06.pdf.

Texto de minha autoria





domingo, 24 de janeiro de 2021

Artigo: O Psicólogo e o atendimento a pacientes com ideação ou tentativa de suicídio

RESUMO 

O atendimento a pacientes com ideação ou tentativa de suicídio provoca grande mobilização no profissional de saúde. No diálogo entre a prática clínica e as proposições do Código de Ética Profissional, surgem dilemas éticos e questionamentos sobre como agir. Este trabalho teve por objetivo compreender como Psicólogos lidam com esses pacientes na prática clínica, bem como investigar as questões éticas envolvidas. A proposta metodológica foi qualitativa. Foram realizadas entrevistas com três Psicólogos clínicos que aceitaram participar do estudo e que atendiam ou já tinham atendido paciente(s) com ideação ou tentativa de suicídio. Foi possível observar como o suicídio mobiliza o Psicólogo tanto do ponto de vista pessoal quanto profissional. A questão da quebra do sigilo a partir do Código de Ética foi apontada como possibilidade. Todos os participantes da pesquisa trouxeram a preocupação com o vínculo terapêutico e o cuidado com o paciente, o que indica a complexidade do tema. Palavras-chave: Suicídio, Psicólogo, Código de Ética. 


" Quando se considera haver risco para suicídio, o Psicólogo pode, com consentimento do cliente, informar a família. Porém, é importante destacar que a quebra do sigilo nestes casos é um direito, não um dever.

Santos (op cit) afirma que o paciente que tenta suicídio precisa de alguém para confiar, por isso o vínculo com o terapeuta é importante. A atuação do profissional deve ser cercada de cuidados, tranquilidade e segurança. O tratamento de forma franca, clara e honesta facilita a comunicação sem interferências, promovendo o estabelecimento da confiança, de modo que, em momentos de crise o paciente se sinta à vontade para entrar em contato com seus sentimentos e conflitos.

Na relação psicoterápica o sigilo é essencial, porque possibilita ao paciente falar de sua intimidade na certeza de que será respeitado e protegido no que se refere à manutenção do que é confidencial. Há casos em que o sigilo precisa ser rompido, como é o caso do suicídio, daí a importância de contratos terapêuticos claros.

Heck (1997) problematiza essa questão, discutindo a posição ética do profissional de saúde, de modo a refletir se a pessoa que tenta suicídio tem direito de tirar sua própria vida ou deve ser impedida pela equipe de saúde, que tem como princípio ético a promoção da vida, considerada como valor absoluto.

Profissionais de saúde têm como objetivo maior salvar vidas, mas é preciso considerar os direitos do paciente, e nessa tensão coloca-se o problema: os profissionais de saúde podem ou devem tentar impedir que o sujeito cometa suicídio?

Um dos princípios da bioética afirma que o indivíduo tem autonomia em suas ações e decisões, e o profissional de saúde não pode ignorar este fato. Na maioria das vezes, a pessoa que tenta suicídio está em sofrimento muito intenso e a questão é como diminuí-lo" (p. 904). 


ZANA, A. R. de O. & KOVÁCS, M. J. O psicólogo e o atendimento a pacientes com ideação ou tentativa de suicídio.  Estud. pesqui. psicol., Rio de Janeiro, v. 13, n. 3, p. 897-921, 2013. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/epp/v13n3/v13n3a06.pdf.





sábado, 16 de janeiro de 2021

 "Carl Gustav Jung nos explicou no seu livro 'Símbolos de transformação' que o ser humano e a ave Fênix têm muitas coisas em comum. Essa emblemática criatura de fogo capaz de ressurgir majestosamente das cinzas da sua própria destruição também simboliza o poder da resiliência, essa capacidade inigualável de nos transformarmos em seres mais fortes, corajosos e iluminados. [...]

Dizia-se que suas lágrimas eram medicinais, que ela tinha muita resistência física, controle sobre o fogo e uma sabedoria infinita. Ela era, em essência, um dos arquétipos mais poderosos para Jung porque seu fogo abarcava tanto a criação quanto a destruição, a vida e a morte…

'O homem que se levanta é ainda mais forte do que aquele que não caiu.'

- Viktor Frankl.

[...]

Está nas nossas mãos nos levantar de novo, recobrar mais uma vez a vida a partir das nossas cinzas em um triunfo sem igual ou, pelo contrário, nos limitarmos a vegetar, a permanecer caídos…

Essa capacidade admirável para nos renovarmos, para retomar o fôlego, a vontade e as forças a partir das nossas misérias e dos nossos cristais quebrados primeiro passa por uma fase realmente obscura que muitos terão vivido na própria pele: falamos sobre a 'morte'. Quando passamos por um momento traumático, todos nós 'morremos um pouco', todos deixamos ir uma parte de nós mesmos que não vai mais voltar, que nunca será igual.

Na verdade, Carl Gustav Jung estabelece nossa semelhança com a Fênix porque essa criatura fantástica também morre, também proporciona as condições necessárias para morrer porque sabe que dos seus próprios restos vai emergir uma versão muito mais poderosa de si mesma.

[...] há um final, de que uma parte de nós também irá embora, se transformará em cinzas, nos restos de um passado que nunca mais vai voltar.

No entanto, essas cinzas não serão levadas pelo vento, muito pelo contrário. Elas farão parte de nós para dar forma a um ser que renasce do fogo muito mais forte, maior, mais sábio… Alguém que talvez sirva de inspiração para os outros, mas que, acima de tudo, nos permita seguir em frente com a cabeça erguida e as asas abertas".


https://amenteemaravilhosa.com.br/mito-fenix-poder-resiliencia/?fbclid=IwAR1hjyiT_ROSmWzO1fP3Cl3pwVFBxcPbU_Wqt7g0nREiACUpYUtwEfcDv_0






domingo, 25 de outubro de 2020

Livro: Suicídio - R. M. S. Cassorla

Sinopse:

"Este livro visa esclarecer e ajudar o leitor que vivenciou situações de suicídio em seu ambiente ou que já pensou em se matar. Também interessa a todos os que se defrontam com situações de sofrimento vinculadas a desejos de morrer, em especial profissionais de saúde, educação, direito e estudos sociais. O comportamento suicida inclui, sempre, um pedido de ajuda. As fantasias inconscientes subjacentes às ideias suicidas se articulam com fatores da sociedade, levando a um sofrimento insuportável. Este se tornará suportável caso seja possível contar com ajuda do ambiente e de profissionais especializados. Ao mesmo tempo, o livro nos estimula a lutar para que os seres humanos possam viver e morrer com dignidade, evitando sofrimentos desnecessários".    


"[...] as pessoas podem se matar ou procurar a morte de forma consciente ou inconsciente. Todos os seres humanos possuem [...] pulsões de vida e pulsões de morte. As primeiras levam a crescimento, desenvolvimento, reprodução, ampliação da capacidade de pensar, sentir e viver. Já as pulsões de morte lutam pelo retorno a um estado de inércia, atacando a capacidade da pessoa de lidar com as adversidades e de viver, desvitalizando as suas relações consigo mesma e com o mundo. Do ponto de vista individual, as pulsões de morte sempre vencem, pois todos os seres humanos morrem. Do ponto de vista coletivo, a vida continua, por meio de nossos descendentes” (p. 13-14).
.
.



“O suicídio parcial também pode se manifestar por meio do prejuízo de funções mentais (sem fatores orgânicos identificáveis), de modo que a pessoa se torna incapaz de aproveitar suas potencialidades emocionais de amar, de trabalhar, de ser criativa. Quase sempre o indivíduo não tem consciência de que suas potencialidades podem ser maiores do que ele se permite usar, de que parte delas está bloqueada, ‘suicidada’ por conflitos emocionais” (p. 14-15).
.
.
“Parte da pessoa quer deixar de existir e outra parte deseja continuar viva. Essa ambivalência faz parte do conflito, tanto de forma consciente quanto – e principalmente – inconsciente. A forma como a pessoa será ajudada ou a falta de ajuda adequada influenciarão a direção que vai ser tomada. O profissional de saúde buscará meios de fortalecer a parte que deseja viver e, ao mesmo tempo, combater a que deseja morrer (p. 30).
.
.
“Por trás das motivações aparentes do ato suicida, existem mecanismos mentais e conflitos não conscientes. O próprio paciente sabe muito pouco de suas motivações: o que ele comunica, de alguma forma, [...] é apenas uma parte do que está vivenciando, e essa parte vem deformada por conflitos e pelo seu estado mental” (p. 38).



sábado, 3 de outubro de 2020

 

Do Facebook da Petra Costa 

"Quando a minha irmã Elena se suicidou, eu conversei pouco com alguém que entendesse o que eu, que ainda era uma criança, estava passando. No colégio, falei uma vez, quando tinha 8 anos, e todo mundo achou horrível que eu tivesse falado em Elena. Foi uma experiência traumática. Lembro de os familiares falarem para eu não chorar, porque a minha mãe já estava triste – e eu ia deixá-la mais triste. Minha mãe me deu bastante atenção, e os terapeutas também, mas faltou um olhar mais atento para o que eu estava sentindo.

Eu fiz terapia desde os 7 anos de idade, mas nunca com alguém que fosse focado na questão do suicídio. Quando fui fazer o filme “Elena”, entrevistei alguns sobreviventes. Particularmente uma mãe, nos Estados Unidos, que tinha perdido o filho e era líder de um grupo de apoio. Quando conversei com ela, foi a primeira vez que eu falei com alguém que entendia a dor pela qual eu e minha mãe tínhamos passado, que falava a mesma língua. Se eu tivesse, naquele tempo, participado de algum grupo de apoio para crianças sobreviventes, teria feito muita diferença, porque a gente passa por coisas muito parecidas. 

Da mesma forma, se a minha tivesse sido com um profissional que tivesse essa experiência, ou em algum dos centros para sobreviventes que existem atualmente, teria me poupado muita coisa. Primeiro, vem a culpa, depois tememos a morte dos outros (eu comecei a temer a morte da minha mãe), depois pensamos que a mesma coisa vai acontecer com a gente. Ninguém me falou que isso eram respostas normais. 

Eu nunca falei com ninguém, até o encontro com aquela mãe dos EUA, 20 anos depois. Por isso, acho importantíssimo encontrar lugares e pessoas com quem se possa compartilhar a dor e buscar pessoas que tiveram uma dor parecida e poderão compreender a dimensão da sua. 

Quando falo que “Elena é minha memória inconsolável” e que é disso que “tudo nasce e dança” quero dizer que ela é um potencial inspirador que me ensina sobre a morte, portanto, sobre a essência da vida.


https://web.facebook.com/PetraCostaOficial/posts/4405395432869252?comment_id=4405517929523669&notif_id=1601656121706743&notif_t=comment_mention&ref=notif





domingo, 13 de setembro de 2020

Setembro Amarelo: cuidados para contribuir com a prevenção do suicídio

"Fica o convite à reflexão aos que pretendem falar sobre suicídio neste mês (mas não somente nele).
No dia 10 de setembro acontece o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, proposto em 2003 pela Organização Mundial da Saúde e a International Association for Suicide Prevention (IASP) com o objetivo de incentivar ações de conscientização e prevenção do suicídio. Desde então, diversas atividades são realizadas nesta data em todo o mundo.
No Brasil, inspirados por este marco, o Centro de Valorização da Vida (CVV), o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) criaram em 2015 a campanha Setembro Amarelo, expandindo essas ações até então concentradas no dia 10 para todo o mês de setembro.
A partir de então, nota-se um crescente aumento de eventos e profissionais das mais diversas áreas propondo atividades de prevenção do suicídio. Embora falar sobre o suicídio seja fundamental para a quebra do estigma e para a construção de políticas públicas, é necessário que se tenha responsabilidade e ética aliados ao conhecimento científico para tratar de um tema tão complexo. Infelizmente, percebe-se a cada ano o aumento de eventos com propostas e narrativas equivocadas, irresponsáveis e sem um compromisso teórico e ético com o tema, deixando de lado objetivo central da campanha: a prevenção do suicídio e o suporte aos que estão em intenso sofrimento.
Durante o III Congresso Brasileiro de Prevenção realizado pela ABEPS neste ano (2020), o Dr. José Manuel Bertolote, um dos idealizadores do Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, trouxe um importante alerta ao apontar que um mês inteiro voltado para ações em prevenção pode trazer uma fadiga da data e um esmorecimento dessas ações. Nesse sentido, é importante reavaliarmos a qualidade das ações ofertadas durante este mês para que não tenhamos um efeito iatrogênico, intensificando assim o sofrimento daqueles que já estão demasiadamente fragilizados".








Autora: Elis Regina Cornejo, psicóloga e fundadora do site "Posvenção do Suicídio"

domingo, 6 de setembro de 2020

Setembro está chegando. Então aqui vão algumas dicas importantes:

1. Não fale nem entre em discussão sobre métodos de suicídio (sobre o que mata mais, ou sobre o que é mais ou menos letal).

2. Se você vai falar para alguma audiência que não trabalha com saúde mental, esteja certo de que há planos a serem seguidos caso alguém se sinta angustiado com alguma coisa que você venha a falar (onde a pessoa pode buscar ajuda, ou o que fazer se ela não se sentir bem). Inclua número de telefone e emails ou sites de organizações de caridade ou saúde que possam atender a pessoa caso algo aconteça.

3. Se for fazer slides, *não* - por favor! - não use imagens de pessoas se autolesionando, ou em frente a um precipício, ou qualquer outra imagem que sugira um método de suicídio. Da mesma forma, evite fazer descrições sobre os detalhes de um suicídio ou de episódios de autolesão. Pessoas que sobreviveram a uma tentativa de suicídio (e estarão na tua palestra) podem desenvolver uma crise de TSPT evocada pela tua palestra (eu já vi isso acontecer em congressos!).

4. Tente (se conseguir) não usar termos considerados estigmatizantes pela comunidade de sobreviventes do suicídio: "cometer", "obter sucesso", "fracassar", "automutilador", "pessoas suicidas", etc.

5. Não fale sobre suicídio com crianças (a menos que seja uma situação altamente específica - e se for fazer, faça-o sob supervisão/orientação de algum especialista).

6. Cuidado ao falar sobre suicídio ou autolesão com adolescentes! Em geral, suicide clusters ocorrem mais entre adolescentes do que em pessoas de outras faixas etárias.

7. [Essa dica talvez não vai agradar a muitos]: Se você não é um profissional da área de saúde mental, evite se voluntariar ou aceitar convites para falar sobre o tema. Ofereça ajuda para organizar o evento (ou palestra que seja) e a convidar pessoas que tenham experiência com esse tema - mas não seja 'o palestrante'.

8. Cuidado com algumas "mensagens positivas" e prescrições comportamentais (i.e., "faça isso" ou "não faça aquilo"). É comum que tais mensagens contribuam com que o ouvinte se sinta pior do que está.

- Tiago Zortea:Suicidologia (Facebook)




domingo, 30 de agosto de 2020

Lançamento: Cartilha Posvenção - Vita Alere

Tem novidade no site do Vita Alere!
.
A equipe do Instituto desenvolveu um material especial para compartilhar informações e orientações, disseminar conhecimento, possibilitar reflexões e oferecer cuidado e acolhimento a quem passa por um luto por suicídio.
.
A Cartilha de Posvenção - Cuidado ao Luto por Suicídio traz definições importantes sobre o que é a posvenção e a sua importância, além de abordar processo e os tipos de luto por suicídio, instruções para quem quer ajudar, o que fazer, como fazer, como tratar deste tema com crianças e adolescentes, como quem divulga informações desta natureza pode realizar um trabalho seguro e correto e muito mais!
.
Este material é indicado a enlutados por suicídio,profissionais que trabalham com estas pessoas e para quem está à frente de canais de mídia e precisa de mais informações sobre as práticas corretas para tipo de abordagem.
.
A cartilha é mais um movimento no sentido de afirmar e reafirmar que ninguém está sozinho!
.
Para baixar a cartilha, acesse o site www.vitaalere.com.br (na área Materiais Online / Cartilhas e Manuais) e compartilhe esse post com todo mundo que possa se interessar!
.


domingo, 23 de agosto de 2020

Como ajudar alguém que sofre de ideações suicidas? Por Tiago Zortea

"[Alerta: este texto possui conteúdo sobre temas perturbadores. Caso você não se sinta emocionalmente bem para lê-lo, recomendamos que o faça quando se sentir melhor].

A expressão “precisamos falar sobre suicídio” tem se propagado pelas mídias sociais, contribuindo para que o tema saia do status de “tabu” e entre na lista das questões sociais que precisam ser tratadas com seriedade. Há implicações decorrentes do falar sobre suicídio, no entanto. Surgem dúvidas sobre o que falar, o que não falar, e – principalmente – como abordar o tema quando alguém próximo sofre de ideações suicidas. Algumas direções sobre o que é apropriado e inapropriado em mídias sociais podem ser conferidas no texto “Suicídio, Mídia, e Epidemia”. No presente texto, introduziremos alguns princípios básicos de como iniciar e conduzir uma conversa difícil sobre ideações suicidas. Para isso, precisamos entender um pouco sobre o comportamento suicida a fim de identificar possíveis sinais que nos permitam iniciar a conversa.

Ideações suicidas: o que perceber?
Popularmente associam-se ideações suicidas à depressão. De fato há uma associação forte entre esses dois fatores. No entanto, não há concordância entre os pesquisadores sobre o quanto a depressão explica a emergência de ideações suicidas, uma vez que a depressão é também efeito de outras variáveis. Há também casos de ideações e tentativas de suicídio com os quais a depressão não está associada [1]. De todo modo, notamos uma alteração no humor da pessoa, e o porquê desta alteração está geralmente associada às circunstâncias de sua vida. Diversos estudos têm mostrado que a formação de ideações suicidas está relacionada ao surgimento de pensamentos e sentimentos de fracasso na vida, derrota (e.g., a pessoa lutou o máximo que pôde e não obteve sucesso no que almejava), desesperança (e.g., não consegue visualizar boas perspectivas de futuro em nenhum aspecto – resultado do fracasso), e aprisionamento (e.g., sente que não há mais saída nem solução para o contexto vivido) [2].

Esses sentimentos e pensamentos poderão ser identificados através de frases (ou variações de tais frases) como:

“Eu não consigo mais ver sentido nenhum na minha vida”
“Não vejo mais nenhuma saída para mim”
“Eu quero sumir desse mundo”
“Se eu pudesse, eu dormiria para nunca mais acordar”
“A minha vida não tem mais jeito”
“Eu não deveria ter nascido”

Em geral, a expressão verbal da visão negativa não se restringe a um problema particular, mas é generalizada para todas as dimensões da vida da pessoa que sofre de ideações suicidas. Um exemplo seria uma pessoa que tem dificuldades para encontrar relacionamentos e está à procura de uma relação estável há muitos anos, mas não obtém sucesso em encontrar. Por mais que sua vida profissional seja de imenso sucesso, haverá uma tendência de a pessoa generalizar o problema para todas as outras áreas da vida, ainda que tal expressão verbal não coincida com o que de fato acontece. Isso se dá devido ao processo psicológico de aprisionamento, cuja percepção (discriminação) torna-se extremamente restrita como efeito das inúmeras experiências de derrota, inflexibilidade psicológica e pobre repertório comportamental de enfrentamento. O sofrimento é intenso e terrível. A pessoa precisa ser ajudada.

Como iniciar uma conversa?
Antes de iniciar uma conversa, é necessário estar ciente de posturas fundamentais que serão base de qualquer interação com quem sofre: respeito, empatia, conexão, compartilhamento e disponibilidade. Caso estas posturas estejam ausentes, o efeito da conversa poderá ser oposto e, ao invés de ajudar, é bem possível que o resultado será a intensificação do sofrimento e aumento do risco de suicídio.

Se alguém pedir para conversar, a interação se iniciará de modo mais fácil. No entanto, se você está preocupado com a saúde mental de alguém, então você terá de abordar a pessoa para iniciar a conversa. Perguntas que iniciam a interação envolvem, por exemplo:

“Olá, como você está?”
“Como estão as coisas contigo?”
“O que você tem feito ultimamente?”
“Eu tenho notado que você não tem se sentido bem recentemente, e eu queria saber se você gostaria de conversar sobre isso”.

Se disser que não quer conversar, que está tudo bem, ou outra resposta que interrompa ou modifique a direção da abordagem, é importante dizer que está tudo bem e, de certa forma, deixar “a porta aberta” para futuras conversas. Caso a pessoa responda positivamente, a conversa então evoluirá para tópicos mais sensíveis e alguns pontos importantes devem ser destacados:

Tente encontrar um lugar mais quieto e reservado para conversar.
Sendo amigo, parente ou conhecido, sua função é ouvir ativamente.
Evite falar sobre você. Reserve outro momento para compartilhar suas questões.
Não tente resolver os problemas da pessoa. Se assim o fizer, há chances de que você aumente a intensidade dos sentimentos de aprisionamento vividos por ela.


Como fazer perguntas e prosseguir com a conversa?
Faça perguntas abertas. Evite perguntas cuja resposta se resuma a “sim” ou “não”. É importante que suas perguntas funcionem como um mecanismo que incentive, de forma respeitosa e não invasiva, a pessoa a falar sobre o que está vivendo e sentindo. Alguns exemplos são: “Quando você percebeu que isso estava acontecendo?”, “O que mais aconteceu?”, “Em que lugar isso aconteceu?”, “Como você se sentiu?”, “Que coisas se passaram na sua cabeça naquele momento?”. [3]

Não pergunte “Por que”. Perguntar sobre o porquê soa muito crítico (a pessoa pode se sentir julgada por você), e pode produzir dois efeitos: a pessoa não se sentirá compreendida e tenderá a reagir de modo defensivo, além de fazer com que a conversa se interrompa, já que a pessoa não se sentirá mais confortável em falar o que se passa.

O que deve ser evitado:
Reações de surpresa, choque ou susto. Algumas expressões verbais que exemplificam tal reação incluem: “Meu Deus!”, “Não acredito que você está me dizendo isso!”, “Vira essa boca pra lá!”.
Reações que rechacem a pessoa, seus sentimentos e comportamentos: “Pare de falar besteira!”, “Para quê você fica falando essas coisas?”.
Expressões de incompreensão através de verbalizações supostamente positivas: “Não entendo isso. Você sempre teve tudo na vida”; “Olhe para as coisas boas da vida”, “Você precisa pensar positivo”. Vale ressaltar aqui que “pensamento positivo” não se caracteriza em si como fator protetor contra ideações suicidas. De fato, há evidências de que determinados “pensamentos positivos” podem contribuir para a recorrência de comportamentos suicidas [4].
Outras expressões a serem evitadas são: “Não chore!”, “Isso não faz sentido nenhum”, “Eu entendo perfeitamente como você está se sentindo”, “Será que podemos conversar de modo mais rápido?”, “Seja forte!”, “Levante a cabeça!”.
Intervenções de cunho religioso: “Você precisa é de Deus!”, “Isso é coisa do inimigo na sua vida”, “Deus sabe de todas as coisas e ele vai te ajudar”, “Isso é falta de fé. Você precisa ter mais fé em Deus”.
Evite fazer qualquer tipo de interpretação do que está se passando na vida da pessoa. Como alguém que dá suporte, não é sua função fornecer interpretações nem formular explicações sobre as circunstâncias de vida da pessoa. Se você quer ajudar, por melhores que sejam suas intenções, apenas ouça e incentive a pessoa a falar.

 Como ouvir ativamente?
Há cinco passos para se ouvir ativamente [3]:

Faça questões abertas (como visto anteriormente)
Resumir. Resumir um determinado trecho da conversa demonstra que a pessoa tem sua plena atenção e que você está entendendo o que está sendo dito. Exemplo: “Entendo. Você está sendo tratado terrivelmente pela sua esposa, mas você ainda a ama”.
Refletir. Repetir uma palavra ou uma frase pode encorajar a pessoa a continuar a se abrir. Por exemplo, se a pessoa disser “As coisas estão muito difíceis recentemente”, você pode manter a continuação da conversa refletindo sobre esta frase e dizendo “Eu sinto que você tem vivido momentos muito difíceis”.
Clarificar. Se a pessoa com quem você está conversando passar por cima de algum ponto importante, você pode dizer algo como “perdão, você poderia me falar mais sobre…” ou “esse parece um tópico difícil para você”. Isso pode ajudar a esclarecer alguns pontos não só para você, mas também para a própria pessoa.
Reagir. Não ouça como um robô. Demonstre empatia, respeito, e demonstre que você está ouvindo atentamente o que está sendo dito.


Como abordar a questão do suicídio?
Se você suspeita que a pessoa está vivenciando ideações suicidas, simplesmente pergunte: “você está vivenciando sentimentos suicidas?”.
Se a resposta for sim, continue a conversa pedindo por mais informações sobre esses sentimentos. Exemplo:
“Quando você vivenciou sentimentos suicidas pela primeira vez?”,
“O que você acha que está fazendo você se sentir assim?”,
“Você já conversou com alguém sobre esses sentimentos?”
“Você sabe onde e como buscar por ajuda?”
Depois dessas questões, é importante ajudar a pessoa a buscar por ajuda e mantê-la segura. Encoraje a pessoa a marcar uma consulta com um psiquiatra ou um psicólogo. Se ofereça para ir com ela.
Se a pessoa possui um plano suicida imediato (planejou como acabar com a própria vida) e afirma que está certa de que irá fazê-lo, não deixe a pessoa sozinha. Busque por ajuda imediatamente ligando para um médico, levando a pessoa a um serviço de saúde mental ou pedindo orientações ao Centro de Valorização da Vida, no telefone 141. Esteja certo de que a pessoa está em um ambiente seguro e sob suporte profissional.
Conte para alguém que você confia. Lidar com suicídio é uma experiência extremamente difícil e você não deve fazer isto sozinho. Encontre alguém da sua confiança para que você possa falar dos seus próprios sentimentos.
Ajudar alguém sob situação estressora pode ser estressor em si mesmo. Se você está ajudando alguém que se sente suicida, lembre-se de que você também deve cuidar de si mesmo. Se você precisa conversar sobre como você está se sentindo, ligue para o Centro de Valorização da Vida (141) ou converse com um profissional de saúde mental [5].



*Se você está vivendo um momento muito difícil e se identificou com alguma parte deste texto, converse agora com um profissional do CVV (Centro de Valorização da Vida) através do telefone 141 ou via internet (chat, Skype ou email) através do site: http://www.cvv.org.br/site/index.php. Os profissionais desta ONG (uma das mais antigas e reconhecidas instituições no país) estão disponíveis 24 horas para ajudar e acolher".



Referências:
[1] Joo, J., Hwang, S., & Gallo, J. J. (2016). Death ideation and suicidal ideation in a community sample who do not meet criteria for major depression. Crisis, 37(2), 161–165.

[2] O’Connor, R. C., & Nock, M. K. (2014). The psychology of suicidal behaviour. The Lancet Psychiatry, 1(1), 73–85.

[3] NHS Scotland (2015). The art of conversation. Choose Life.

[4] O’Connor, R.C., Smyth, R., & Williams, J.M.G. (2015). Intrapersonal positive future thinking predicts repeat suicide attempts in hospital treated suicide attempters.  Journal of Consulting and Clinical Psychology, 83, 169-176.

[5] Samaritans. (2016). What should I do if I know someone who is feeling suicidal?.




domingo, 16 de agosto de 2020

Crescem publicações sobre suicídio no Brasil durante a pandemia; veja como buscar ajuda

Posts relacionados a suicídio foram provocados pelo isolamento social, segundo pesquisa


Por Marcella Franco

"Desde que se mudou para o mesmo terreno em que mora toda a família do marido, no interior do Paraná, Helena* (o nome foi trocado a pedido da entrevistada), de 23 anos, não conseguiu mais ser feliz. Longe de seus pais e dos irmãos, diz que detesta o lugar e que se sente sozinha.
O marido nunca foi 'do tipo que para em casa', diz ela. 'Recentemente descobri umas coisas dele que ainda fizeram tudo piorar'. Na pandemia, é ela quem cuida sozinha dos dois filhos de quatro anos e da bebê de nove meses.
Para se distrair, Helena participa de um grupo no Facebook. O objetivo lá é encontrar e divulgar perfis de pessoas que já morreram. Na semana passada, diante do nome e da foto de uma mulher um pouco mais velha que ela e que cometera suicídio, Helena comentou: 'Queria ter essa coragem'.
'Tem horas que vem uma angústia. Dá vontade de sumir, de morrer, de se matar. Fazer alguma coisa para tirar isso de dentro. Meu marido tem espingarda, mas penso nos meus filhos. O menino é muito apegado a mim', diz.

Publicações como a de Helena engrossam um levantamento feito pelo ComunicaQueMuda (CQM), plataforma digital da agência nova/sb que tem como foco propor debates sobre temas considerados polêmicos. Este é o terceiro ano que o suicídio suscita pesquisa do CQM.
Por meio de menções no Twitter, no Instagram, no YouTube, no RSS e no Facebook, foi possível comparar que, enquanto em 2017 a principal conexão do tema era com o jogo 'Baleia Azul', e, em 2018, com a série '13 Reasons Why', em maio passado os posts relacionados a suicídio foram provocados pelo isolamento social atual.

'O tema, assim como a tristeza, começou a aumentar nas postagens dos internautas. Em 2017, o assunto ainda era tabu, mesmo com quase 800 mil vítimas por ano, um suicídio a cada 40 segundos no mundo, e outras 20 tentativas para cada caso', diz Bia Pereira, diretora da agência e coordenadora do CQM.

De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), em 2014, 10.631 pessoas cometeram suicídio no Brasil. A maioria é masculina: a cada dez suicídios, oito são de homens e dois, de mulheres. Para a OMS, 90% dos casos aqui e no mundo todo poderiam ter sido evitados.

Para obter os novos resultados, o CQM monitorou as redes brasileiras ao longo de 29 dias em maio de 2020 e contabilizou 103.923 menções ao tema. Dentro deste número, registrou aumento no número de depoimentos e relatos. De 6,3% em 2017, passaram para 23,5% em 2020.      
'Isso mostra que as pessoas estão mais confortáveis em falar sobre como se sentem', diz a coordenadora. O número de notícias a respeito do suicídio, por sua vez, subiu de 7,5% para 42%, enquanto a frequência de piadas sobre o assunto diminuiu. Antes contabilizavam 34% das postagens, e agora são apenas 3%.

A pesquisa avaliou também as publicações que disseminam conteúdo positivo, como reflexões acerca da seriedade da depressão ou que incentivam a busca por ajuda. Enquanto em 2017 elas representavam 28,8% do total, em 2020 passaram para 63,5%.
'Esses comentários abrem uma porta para que essas pessoas compreendam que podem falar sobre como se sentem, que tem alguém para ouvi-las. Também são fundamentais para equilibrar o debate do tema nas redes, que é infestado por haters e desinformação', completa Pereira.

'Não tenho ninguém para conversar. Minha família mora muito longe, e não converso com os parentes do meu marido. Só tenho meus filhos mesmo, e não gosto de falar muito sobre mim porque as pessoas não entendem, conta Helena, que diz nunca ter cogitado fazer terapia.

'Suicídio tem a ver com um sofrimento insuportável que a pessoa acha que não vai acabar nunca. É preciso mostrar que é possível transformar essa esperança na morte em esperança de que a pessoa pode ser tratada, pode buscar outros caminhos, entender as coisas e reagir a elas', explica Karen Scavacini, psicóloga cofundadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio.

Qualquer pessoa pode pensar em suicídio em algum momento da vida, de acordo com a psicóloga, mas, para a maioria, é um pensamento que, assim como chega, vai embora. 'Mas, quando a pessoa começa a pensar muito em morrer, não consegue afastar esses pensamentos e vê o suicídio como uma saída viável, aí é o momento de pedir ajuda'.

Scavacini afirma que, ao se deparar com uma publicação como a de Helena, é preciso agir. No caso de desconhecidos, a melhor recomendação é utilizar as ferramentas de denúncia da plataforma onde o comentário foi postado. 'Vão analisar e mandar mensagem sem que a pessoa saiba quem fez a denúncia', diz.

Se a publicação for de um amigo, ofereça ajuda falando de forma privada, sem que ele seja exposto.
'Estamos em uma época de muitas perdas, é algo que mexe com todos. Quanto mais estresse uma comunidade passa, mais afetada será sua saúde mental. E, quanto pior a saúde mental, maiores são as chances de o suicídio acontecer'.

E, caso quem precise de ajuda seja você mesmo, Scavacini sugere a conversa com pessoas próximas e uma pesquisa por locais com atendimento gratuito online durante a quarentena.
'Tente também respirar fundo e fazer planos para, se possível, colocá-los em prática quando a pandemia acabar. Mas, mais do que tudo, seja atendido e avaliado por um profissional da área da saúde mental'.

Sinais de alerta
- Falar sobre querer morrer, não ter propósito, ser um peso para os outros ou estar se sentindo preso ou sob dor insuportável
- Procurar formas de se matar
- Usar mais álcool ou drogas
- Agir de modo ansioso, agitado ou irresponsável
- Dormir muito ou pouco
- Se sentir isolado
- Demonstrar raiva ou falar sobre vingança
- Ter alterações de humor extremas

O que fazer
- Não deixe a pessoa sozinha
- Tire de perto armas de fogo, álcool, drogas ou objetos cortantes
- Leve a pessoa para uma assistência especializada
- Ligue para canais de ajuda

188 é o telefone do Centro de Valorização da Vida (CVV). Também é possível receber apoio emocional via internet (www.cvv.org.br), email, chat e Skype 24 horas por dia.
 







domingo, 12 de julho de 2020


#EuEstou Vida Real - Carla
Muitas pessoas acham que o suicídio precisa de uma razão muito grande para acontecer. Mas isso está longe de ser verdade. A Carla é uma sobrevivente que está aqui para nos contar a sua história e como algo que pode ser banal para alguns, pode ter um peso enorme para outros.

Se você acha que não tem ninguém na sua volta que pode te ajudar, procure ajuda profissional com um psicólogo ou psiquiatra ou ligue no CVV no 188 (ligação gratuita de qualquer telefone do País) ou fale com eles pelo chat CVV.ORG.BR

#EuEstou - Foi criado por M.M. Izidoro e PC Siqueira com o apoio da Dra. Karen Scavacini (@karensca) e do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio


https://www.facebook.com/watch/?v=458059328257585

<iframe src="https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2FEuEstou%2Fvideos%2F458059328257585%2F&show_text=0&width=267" width="267" height="476" style="border:none;overflow:hidden" scrolling="no" frameborder="0" allowTransparency="true" allowFullScreen="true"></iframe>




domingo, 5 de julho de 2020

Sabe a empatia? Pulou da ponte hoje

"Mais um dia de Terceira Ponte fechada. Acidente? Engarrafamento? Ninguém ali sabia ainda. Sob um sol escaldante, dezenas e dezenas de carros e motos começam a se enfileirar. Alguns motoristas já desligam seus veículos e tentam ver o que está acontecendo. Rapidamente o congestionamento cria dimensões imensas sobre a rotina da cidade.
 
Policiais se aproximam. Bombeiros também. “Alguém está tentando atentar contra a própria vida”, explica um deles. “Libera uma das faixas, não tenho nada a ver com esse cara”, gritou um dos motoristas parados. Pacientemente o policial explica que isso não seria possível, já que sempre tem gente que passa gritando gracinhas, tirando fotos, falando alguma coisa. Isso poderia atrapalhar todo o trabalho dos policiais que estavam ali para ajudar o homem a sair daquela situação delicada.
 
O tempo passa e o sol não perdoa. A explicação do policial parece não ter convencido muita gente ali. O coro engrossa e começam a surgir opiniões estúpidas sobre o fato. Alguém grita que a culpa é da Dilma. Outro esbraveja que, se Bolsonaro fosse eleito, isso deixaria de acontecer. Mais um aparece e, do alto de seus setenta e poucos anos, com uma camisa do Convento da Penha e uma medalhinha de Nossa Senhora, solta um: “Tem mais é que matar esse bandido!”. Curioso, um dos bombeiros pergunta ao senhor como ele tem tanta certeza de que o sujeito é bandido. “Não sei, mas tem de matar!”, decreta, arrancando alguns gritos de apoio.
 
A operação policial para salvar um homem se transformou, a poucos metros dali, em uma espécie de minitribunal repleto de “especialistas” em psicologia, comportamento humano, gerenciamento de crise e tudo mais. A cada minuto que passava crescia o número de pessoas que votavam por uma solução “rápida e fácil” para se livrar do “problema” e seguir o fluxo. Você deve imaginar qual.
 
Toda essa polêmica, claro, veio acompanhada de inúmeras histórias de WhatsApp que brotaram como num passe de mágica, carregando várias teorias e desfechos para o caso.
 
Felizmente existe o outro lado. Uma equipe de policiais, bombeiros e outros profissionais especializados em casos assim. Passaram horas ali, conversando e argumentando. Trabalho difícil, mas extremamente necessário. Conseguiram tirar o homem da ponte com vida, que aliás para um policial ou bombeiro deve ter o mesmíssimo valor da minha ou da sua vida. Espera-se que o personagem principal da trama de hoje receba tratamento adequado e retome suas atividades.
 
Mas tem algo cada vez mais evidente: o amor ao próximo está definitivamente em falta no mercado. Nesta tarde vi a empatia pular da ponte sem olhar para trás".