domingo, 7 de abril de 2019

Saiba por que devemos parar de dizer que alguém “cometeu suicídio"

As palavras têm mais força do que muita gente pensa, e elas são mais importantes ainda quando se trata de saúde mental. Frases aparentemente inofensivas que dizemos no dia a dia podem causar problemas para pessoas vulneráveis. Um exemplo disso é “cometeu suicídio.”  Essa é uma expressão que muitas pessoas ainda utilizam naturalmente, tanto na imprensa quanto em conversas comuns, mas que pode ser mais prejudicial do que aparenta.

Embora o termo possa parecer inofensivo, ele é, na verdade, carregado de culpa e estigma. Tanto é assim que as diretrizes de relatórios delineadas por organizações de mídia e saúde mental são estritamente contra o seu uso.

“O termo ‘cometeu suicídio’ é prejudicial porque para muitas pessoas, se não a maioria, evoca associações com ‘cometeu um crime’ ou ‘cometeu um pecado’ e nos faz pensar em algo moralmente repreensível ou ilegal”, explica Jacek Debiec, professor do departamento de psiquiatria da Universidade de Michigan, nos EUA, especializado em estresse pós-traumático e transtornos de ansiedade, em matéria do portal Huffington Post.

A frase “cometer suicídio” também ignora o fato de que o suicídio é muitas vezes a consequência de uma doença não tratada, como depressão, trauma ou outro problema de saúde mental. Deve ser considerado da mesma forma que qualquer condição de saúde física, diz Reidenberg. “Você não pode cometer um ataque cardíaco. Em vez disso, você pode ouvir alguém dizer que “morreu de um ataque cardíaco”. Morrer por suicídio é o mesmo. Ao colocar a palavra ‘cometeu’, isso discrimina ainda mais aqueles que perderam a batalha contra uma doença”, complementa na mesma matéria Dan Reidenberg, diretor executivo da organização Suicide Awareness Voices of Education.

Reidenberg acrescentou que a melhor frase a ser usada é “morreu por suicídio”, uma vez que envia a mensagem de que a morte foi causada pela condição de saúde mental. 
Os especialistas defendem que isso é importante a longo prazo. Pode soar exagero se concentrar em apenas duas palavras, mas as escolhas de palavras – intencionais ou não – têm implicações muito mais amplas. Usar o vocabulário correto da saúde mental é crucial para eliminar estereótipos negativos ligados à doença mental e às conseqüências desses estereótipos agora e no futuro – pesquisas mostram que quando há estigma, as pessoas evitam procurar ajuda, o que poderia salvar vidas.

“O fato de que estamos tendo problemas em escolher palavras ao falar sobre suicídio reflete nossos problemas mais profundos com a compreensão da saúde mental em geral. A linguagem que usamos reflete nosso sistema de valores, conscientes e inconscientes. Usar uma linguagem preconceituosa ou degradante nos impede de reconhecer problemas de saúde mental, procurar ajuda e fornecer ajuda”, explica Debiec.

“As palavras têm consequências. Eu encorajo as pessoas que pensam que a linguagem em torno da saúde mental não é importante para pensar sobre suas próprias experiências quando sentem que o julgamento ou as palavras de alguém os ferem injusta e profundamente”, sugere Debiec.

Reidenberg enfatiza que é hora de começarmos a considerar o suicídio como um subproduto perigoso de uma condição de saúde que pode – e deve – ser evitada. “Isso, claro, requer tratamento. Mas também inclui prestar atenção às nossas palavras, para que aqueles que vivem com problemas de saúde mental sintam que não serão alienados por se manifestarem e procurarem apoio”, salienta.

Pessoas em primeiro lugar
O Instituto Internacional de Gerenciamento de Riscos (IRMI) vai além e sugere outras mudanças na forma de tratar pessoas que sofrem com o suicídio. “Usar “suicídio” como substantivo para descrever uma pessoa (“o suicida foi levado para o necrotério”) é considerado desumanizante e reducionista. Quando identificamos uma pessoa apenas por sua doença mental (“Ele é bipolar”), diminuímos a integridade desse indivíduo. Não diríamos: “Ele foi um ataque cardíaco”. Em vez disso, precisamos definir uma pessoa pela sua vida, não pela maneira da morte, e dizer: “Ele foi uma pessoa que morreu de suicídio; ele também adorava jogar golfe, preparar cerveja e escalar montanhas”. Ou: “Ela é uma professora, escritora e amante de animais que vive com uma condição bipolar”. Então, vamos colocar as pessoas em primeiro lugar e focar na sua resiliência. Em vez de ‘tentativa de suicídio’, podemos dizer ‘ele é uma pessoa que viveu uma tentativa de suicídio’”, sugere texto publicado no site da instituição.

“O teste decisivo para falar sobre suicídio é substituir a palavra “câncer” pela palavra “suicídio” para ver se a sentença ainda faz sentido ou se tem uma conotação negativa. Nós não diríamos “cometeu câncer” ou “câncer bem-sucedido” – simplesmente diríamos “morte por câncer” ou “morreu de câncer”. Assim, quando se trata de suicídio, devemos dizer ‘morte por suicídio’ ou ‘morreu de suicídio’”, complementa o texto.

Dan Heidenberg salienta o impacto do suicídio na sociedade americana. “O suicídio é uma grave crise de saúde pública. Mais pessoas morrem por suicídio do que por homicídios, acidentes de carro e câncer de mama. O suicídio é um problema real que deve ser levado a sério o tempo todo”, destaca. Ele afirma esperar que mais pessoas tenham mais compaixão com relação ao suicídio no dia a dia, e não apenas após um suicídio de alguém famoso.

No Brasil, as mortes por suicídio têm uma média menor do que a mundial, mas ainda assim são altas. Segundo matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo em 2018, há um suicídio a cada 45 minutos no país, enquanto no mundo alguém morre por suicídio a cada 40 segundos.

Na mesma matéria, o psiquiatra Jorge Jaber, membro fundador e associado da International Society of Addiction Medicine, especialista no tratamento de dependentes químicos salienta que o suicídio é a causa de morte mais facilmente evitável entre todas as doenças. “Enquanto doenças infecciosas, cardiovasculares e tumores precisam de grande aporte médico e cirúrgico de alto custo, o impedimento médico do suicídio pode ser atingido com remédios bem mais baratos e somente conversando com o paciente”.

“Vamos continuar trabalhando para evitar que tragédias aconteçam, celebrar aqueles que ainda estão vivos e fazer tudo o que pudermos para derrubar o estigma que cerca a saúde mental e o suicídio. É somente falando sobre isso que vamos conseguir que as pessoas se abram antes que uma tragédia aconteça”, defende Heidenberg.

Deixar a frase “cometer suicídio” cair em desuso é parte desse esforço e pode ser um pequeno passo, mas já é um avanço caso ajude que mais pessoas procurem ajuda com o fim do estigma. [Huffington Post, Estadão, IRMI]".

https://hypescience.com/por-que-devemos-parar-de-usar-a-frase-cometeu-suicidio/?fbclid=IwAR3WbGgooBVCmQd7cPCV4QL4y611F92t3QntKNh9gJevnXIJnPoP5qLQXZc






domingo, 31 de março de 2019

Animação: Você está perdido no mundo, assim como eu?



"Uma animação que aborda e propõem uma reflexão acerca da comunicação e troca humana nos tempos de modernidade liquida. A comunicação massificada, o uso e abuso das tecnologias moveis e apego e aprisionamento às mídias sociais e matérias produzidas pela Internet de forma geral. O olhar de uma criança que não consegue se conectar, comunicar, vincular, trocar com os outros  pois estes estão presos à aparelhos celulares e mídias - enxergam o mundo a partir do filtro virtual.

E que tipo de comunicação e troca a virtualidade promove? Quais ganhos e quais perdas? Estamos presos, perdidos, alienados de nós mesmos?"

domingo, 24 de março de 2019

Autópsia psicológica: compreendendo casos de suicídio e o impacto da perda

Dissertação de Mestrado de Tatiane Gouveia de Miranda (2014).

RESUMO

O presente trabalho teve como objetivo realizar entrevistas de autópsia psicológica com os sobreviventes de suicídio a fim de avaliar retrospectivamente fatores clínicos, precipitadores, estressores e motivações que pudessem ter contribuído para que o suicídio se consumasse, além de considerar os impactos do suicídio e da entrevista sobre os entrevistados. Averiguou-se que poucos são os instrumentos disponíveis para realizar autópsias psicológicas, o que também, influência na disponibilidade de conhecimento sobre o perfil do suicida. Para conclusão dessa pesquisa, foi desenvolvida uma entrevista semiestruturada para facilitar a comunicação com os sobreviventes de suicídio, inspirada em estratégias e procedimentos desse tipo de avaliação psicológica, bem como de fatores de risco já obtidos na literatura. Foram realizadas quatro entrevistas com familiares, sendo dois voluntários de cada vítima. Os casos formam analisados pelo método clínico-qualitativo, verificando-se singularidades e divergências em cada caso. Pôde-se avaliar o impacto do suicídio nos sobreviventes, por exemplo, a presença de sentimento de culpa, de ressentimento, da necessidade de entenderem o porquê do suicídio, e de complicação e prolongamento na vivência do luto por anos.



domingo, 10 de março de 2019

Mapa do Luto

No livro "Depois do suicídio", de Sheila Clark (2007), encontramos um 'Mapa do luto" com as emoções mais comuns que são percebidas no luto por suicídio.

"Normalmente, ficamos confusos e sobrecarregados não só porque são muitas as emoções, mas também porque essas emoções são difíceis de lidar. É útil imaginar que cada emoção e questão é uma montanha que precisa ser escalada.

Algumas montanhas podem exigir um esforço supremo ... Às vezes, você sente que está escorregando e, outras vezes, pode conseguir chegar ao cume de um problema e descobrir que há outro ainda mais alto à sua frente.

Pode ser difícil ver a direção em que está seguindo ou a distância que já percorreu. Você pode achar que não está progredindo, porque está lidando com uma emoção particularmente difícil. [...] quando estiver lidando com suas emoções, será importante encontrar o caminho mais adequado para você" (p. 55).




domingo, 3 de março de 2019

Livro: Vidaa

O manejo do comportamento suicida na TCC (terapia cognitivo comportamental) propõe técnicas baseadas em evidências. Entre elas, destaca-se o plano de segurança (uma pequena lista de comportamentos de proteção) e este livro recém lançado pela editora Sinopsys é uma proposta desta ferramenta.
« Muitas vezes quando tudo parece dar errado, o suicídio surge como uma possível solução, e as pessoas não recebem o que elas mais precisam: acolhimento, seja pela falta de entendimento sobre o assunto, pelo suicídio ainda ser um tema tabu ou por vergonha de expor o que sente ».
« Agora é importante que você tenha compaixão consigo, que se respeite e não alimente pensamentos que prejudicam e agravam o momento em que está passando, que já é carregado de sofrimento ».
Os cinco passos são apresentados no acrônimo VIDAA:
- V: VEJA quando precisa de ajuda
- I: Imagine motivos para viver e para não morrer
- D: Distraia-se sozinho ou com outras pessoas
- A: Ampare-se e busque amparo
- A: Abrace-se, você venceu.

Em uma linguagem acessível, o material é voltado para pessoas com ideação suicida, com espaços em branco para reflexões a partir das perguntas propostas.
« Quando falamos dos motivos que nos mantêm vivos, estamos falando daquilo que ainda temos para viver [...] ‘O que eu ainda tenho para viver?’. Já os motivos para não morrer são aqueles que fazem com que a gente não queira tirar a nossa vida [...]’O que aconteceria com as pessoas que amam você?’, ‘O que você perderia?’ (p.18).
« Pense em uma pessoa que você goste. O que diria para ela se estivesse na mesma situação que você? »
Pode ser um complemento do processo terapêutico, mas vai depender muito da gravidade do comportamento suicida.
É um livrinho de pouco mais de 60 páginas e pode ser o primeiro passo para que alguém que esteja pensando em desistir da vida se fortaleça e procure ajuda.



domingo, 24 de fevereiro de 2019

A cena mais triste da minha infância - Fabrício Carpinejar


O garoto da mochila amarela tirou a sua vida e se arrependeu. Porque buscava tirar a sua dor e não a sua vida

11/09/2018 

Na minha infância, uma das cenas mais tristes foi o suicídio de um adolescente no edifício da Rua Palmeiras.

O assunto tomou conta da minha meninice. Não se falava em outra coisa na escola, na vizinhança, na família. Até porque era o edifício mais alto do Petrópolis, formado praticamente por residências, e onde morava o zagueiro uruguaio Hugo De León, do Grêmio.
Fui assaltado por um luto de presidente. Nunca tinha ouvido alguém se matar. Lutava-se contra a morte na minha concepção pueril, jamais a favor dela. Você não queria morrer — a lei da sobrevivência consistia em adiar o máximo possível o fim, para a esperança aparecer um dia e contrariar as desilusões. Queria que todos que eu amava envelhecessem até os cem anos.


Não conhecia o garoto, apenas de vista, quando entrava no ônibus com a sua mochila amarela. Aliás, a mochila amarela monopolizou a minha curiosidade. Tampouco achava que existisse mochila de outra cor, que não a azul e a preta da aula.

Ficou sendo o meu primeiro contato com a palavra nebulosa e sombria "suicídio". Palavra proibida e temerária.

Escutava a conversa dos adultos por algumas frases e tentava montar a história. Por aquilo que me lembro, ele se separou da sua namorada e avisou que não viveria sem ela. Ela não acreditou na chantagem. Então, ele pulou, na madrugada, da janela do terceiro andar.

O zelador ainda o encontrou respirando e, de acordo com relato desesperado, o adolescente murmurava:

— Me ajude, eu desejo viver!

Ele tirou a sua vida e se arrependeu. Porque buscava tirar a sua dor e não a sua vida. As duas se confundiram por um momento e ele entendeu o recado errado de

seu coração. Pensou que o seu sofrimento e a sua biografia fossem extensão de uma mesma frequência. Agiu por desatino, encalacrado nas suas miragens.

O engano custou a pureza do bairro. Não teve como voltar atrás, não contou com uma segunda chance e uma reabilitação para aplicar a sua experiência derradeira e diferenciar as suas emoções.

Subiu precocemente aos céus como mais uma vítima inocente da angústia, esse sentimento que simula precipícios e becos e fecha as saídas com a pressa e a ansiedade.

Com o suicídio, por mais que pretendamos chamar a atenção, não nos tornamos importantes para ninguém, nem para nós.

https://gauchazh.clicrbs.com.br/donna/colunistas/carpinejar/noticia/2018/09/a-cena-mais-triste-da-minha-infancia-cjlwsoqng026c01mnhk1hib00.html