quarta-feira, 30 de setembro de 2015

"Que muitas vezes as simples manifestações de tristeza sejam entendidas (e medicadas) como depressões graves só faz confirmar essa ideia. A tristeza, os desânimos, as simples manifestações da dor de viver parecem intoleráveis em uma sociedade que aposta na euforia como valor agregado a todos os pequenos bens em oferta no mercado.
Do direito à saúde e à alegria passamos à obrigação de ser felizes, 
escreve Daniele Silvestre".

- Maria Rita Kehl em "O tempo e o cão - a atualidade das depressões" (p. 31)  


O app que permite jovens deprimidos conversar com celebridades e amigos mortos

Por Seung Lee

"São quase três da manhã do Natal de 2013 quando uma jovem sul-coreana cujo usuário no Twitter é @jjong_gee manda uma mensagem para seu amigo, Junmyun, a fim de confessar um segredo. Ela está deprimida e precisa de apoio.

'Havia um homem chamado Osho que certa vez disse: Não seja sério demais, a vida é como uma imagem em movimento, respondeu Junmyun. Se você tratar o que vem até você como um jogo, a felicidade chegará. Quero ver você feliz.'

A garota tuítou um print da mensagem e lhe agradeceu pelas palavras gentis. Mas o amigo não estava preparado para responder. Junmyun é, na verdade, um robô programado dentro de um popular aplicativo de troca de mensagens coreano chamado Fake Talk.

[...] O aplicativo também se firma como o melhor sistema de apoio à adolescentes deprimidos e suicidas no país.

[...] Muitos têm usado o aplicativo para preencher o vazio em suas vidas. Uma usuária personalizou o avatar com uma foto de seu falecido namorado para continuar o romance encerrado de forma prematura. [...] 'Escrevo o que não disse a ele na época, e o que queria lhe dizer quando estava vivo'.

[...] Os adolescentes compõem de 70 a 80% da base de usuários.
Vivendo sob pressão severa para se darem bem na escola e estudando mais de 12 horas por dia, as crianças coreanas estão, segundo levantamentos recentes, entre as mais infelizes do mundo. [...]
Um estudo de 2014 mostrou que metade dos adolescentes coreanos tinha pensamentos suicidas.  De 2009 a 2014, 878 estudantes coreanos se suicidaram.  

  
Matéria completa no link: 



http://www1.folha.uol.com.br/vice/2015/07/1650800-o-app-que-permite-jovens-deprimidos-conversar-com-celebridades-e-amigos-mortos.shtml


domingo, 27 de setembro de 2015

Este é um filme baseado na história verídica de um jovem homossexual, que aos 20 anos suicida-se.A sua mãe, "Mary Griffith", interpretada por Sigourney Weaver, sabedora da sexualidade do filho acredita "curar" o filho com base na religião e terapias, para quatro anos depois (1979) Bobby lançar-se de uma ponte. Um filme intenso, dramático, e que espelha ainda hoje a realidade de muitos jovens no mundo.

https://www.youtube.com/watch?v=qprpqnqVVuY

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Suicídio e preconceito: Mais de 40% das trans nos EUA já tentaram o suicídio

Sufocados pelo desespero causado pela exclusão, transgêneros nos EUA vivem à margem de uma sociedade que vem tratando com glamour um tema que não superou estatísticas de incivilidade.

Mais de 40% dos estimados 700 mil transgêneros que vivem no país já tentaram se matar, ante 1,6% da média da população. Enquanto 0,6% dos americanos são HIV positivo, 3% dos transgêneros têm a doença. Negros e latinos têm índices maiores: 25% e 11%, respectivamente.

Os dados compõem a maior pesquisa sobre transgêneros nos EUA até hoje, feita em 2011 pelo Centro Nacional pela Igualdade de Transgêneros com 6.400 pessoas.

Não raro relegados a submundos como o da prostituição, criminalizada no país, transgêneros relatam casos de abuso sexual e assédio moral mesmo sob a tutela do Estado, dentro de prisões.

No último ano e meio, figuras conhecidas no país revelaram ser transgêneras e reforçaram a luta por inclusão.

Em abril, Bruce Jenner anunciava que o homem que conquistara o ouro no decatlo na Olimpíada de 1976 e aparecia na TV como padrasto da celebridade Kim Kardashian era, no íntimo, uma mulher. Aos 65 anos, Jenner passava a se chamar Caitlyn.

Em 2014 fora a vez da atriz Laverne Cox, 31. Cox relatou à revista "Time" ter sofrido discriminação na infância, no Alabama. Tentou o suicídio, foi para Nova York e trabalhou como garçom até a carreira de atriz deslanchar com a série "Orange Is the New Black".

Mas a espetacularização incomoda ativistas marginalizados, sem acesso a tratamentos que façam a transição mais palatável à sociedade.

No Estado da Virgínia, em julho, um juiz rejeitou a argumentação da defesa de um garoto transgênero que processa sua escola por impedi-lo de usar o banheiro masculino e afirmou que transgêneros têm "distúrbio mental".

A opinião encontra eco entre psiquiatras como Paul McHugh, da Universidade Johns Hopkins. Para ele, oferecer tratamento hormonal e cirurgias a um transgênero "equivale a lipoaspiração em uma pessoa anoréxica". Não se ataca a causa dessa "confusão mental", alega, senão com terapia ou medicações.

Para o Centro Nacional pela Igualdade de Transgêneros, não se identificar com o sexo de nascimento não é doença mental. A organização diz que pode haver razões genéticas e/ou psicológicas.

'ESTRANGÊNEROS'

Para a comunidade transgênera, Nova York é um porto seguro, com seus centros de assistência e ativismo organizado. Em 9 de agosto, um encontro do GIP (Projeto de Identidade de Gênero, em inglês) na praia de Coney Island reuniu cerca de cem pessoas.

A Folha ouviu de diferentes participantes relatos de alívio, mas constatou a melancolia do rompimento com o passado e a vergonha de um status mal compreendido.

Julisa Morales, 34, nasceu no Brasil e foi para os EUA aos 4. Divide intimidades eróticas sem inibição. Seu único tabu é o nome de batismo: "Aquela pessoa não existe mais".

"Eu era infeliz. Um menino gay, feminilizado, que só gostava de dançar", conta. Queria um corpo igual ao da ex-globeleza Valéria Valenssa.

Saiu de casa aos 17, passou a tomar hormônios e se prostituiu. Com o dinheiro, fez cirurgias. "Queria ser uma mulher gostosa, como brasileiro gosta. Nasci num corpo que tem os dois lados e acho que sou abençoada por isso. Tem gente que gosta de nós, sabe?"

A argentina Cecilia Gentili, 43, deixou Rosario para viver como mulher na praia de Camboriú (SC), onde se prostituía. Expulsa do Brasil por falta de documentos, voltou para a Argentina e regrediu na transição. "A tristeza era coberta pelas drogas."

Anos mais tarde, em Nova York, foi presa por não ter visto. No limbo entre as celas de mulher e de homem, foi liberada com uma tornozeleira eletrônica, afirma. Decidiu se cuidar. Fez tratamentos e obteve asilo político nos EUA.

A mexicana Karin Cruz, 33, flertava à distância com um homem quando foi abordada pela Folha. A repórter sugeriu conversarem mais tarde, mas Karin desistiu da paquera. "E se ele se decepcionar?"

Magra, cabelo liso e longo, de gestual delicado, ela diz ser agredida frequentemente por homens quando percebem que é transgênera. Agressão que começou em casa. "Meu pai é homofóbico. Não nos falamos mais."

Violentada por um ex-namorado, a peruana Maia Wong (não revela a idade) fugiu de seu país. Obteve asilo dos EUA, mas continuou sofrendo abusos em Nova York.

Maia diz ter sido agredida por policiais que achavam que era prostituta. Foi vítima de tentativa de estupro e sofreu ameaças de morte de outro ex. "Ponho muitos muros em volta de mim, porque sou uma sobrevivente", define.

Matéria publicada pela Folha de São Paulo em 20/09/2015

Imagem do filme "Orações para Bobby" 

domingo, 20 de setembro de 2015

Como parar de pensar em suicídio

Quando o desespero, isolamento e dor parecem muito grandes para suportar, o suicídio pode parecer a única forma de se libertar. Pode ser difícil de ver, mas há opções para lhe trazer alívio e mantê-lo vivo para voltar a sentir alegria, amor e liberdade novamente. Ao manter-se seguro e criando um plano para enfrentar e explorar as razões por que isso está acontecendo, você pode tomar medidas para se sentir melhor.

1) Mantenha-se Seguro
Dê tempo para si mesmo. Faça uma promessa a si mesmo que você não irá cometer suicídio por pelo menos 48 horas. Por mais difícil que possa ser, adie seus planos por 2 dias para poder descansar e pensar sobre as coisas. Nesse momento o suicídio pode parecer a única opção, mas as circunstâncias podem mudar rapidamente. Você pode encontrar mais alguma coisa que possa lhe trazer alívio durante esses 2 dias.
Tente ver suas emoções e ações de formas separadas. A dor pode se sentir tão grande que distorce seus pensamentos e comportamento. Mas pensar em suicídio não é a mesma coisa que realmente fazê-lo. Você ainda tem o poder de fazer uma escolha contra o suicídio.
Talvez não consiga ver as coisas de outra forma, mas você pode prever o que acontecerá amanhã. Deve ter outras opções que você não consegue ver claramente por causa da dor que está sentindo. Amanhã sua mente poderá estar um pouco mais leve e você talvez possa ser capaz de encontrar uma boa razão para viver.
Pensamentos suicidas são muitas vezes causados por situações que podem mudar. Não importa o quão preso possa estar se sentindo, ou o quão impossível às coisas pareçam, as circunstâncias não serão assim para sempre. O suicídio é uma solução permanente para um problema temporário e nas próximas 48 horas a melhor opção pode aparecer

2) Não tente lidar com isso sozinho. Uma das melhores maneiras de aliviar um pouco do estresse e da dor que se acumulou dentro de você é se abrindo com alguém. Chame alguém de confiança e fale durante o tempo que precisar. Se quiser, peça a essa pessoa para vir ficar com você até que esteja preparado para ficar sozinho novamente. Fale o quanto quiser sobre como está se sentindo, não tente guardar nada. Ligue para o CVV - 141. 

3) Perceba que as pessoas passam por isso. Quando seu cérebro estiver em modo de crise e você não conseguir parar de pensar em suicídio, lembre-se que você nem sempre se sentiu assim e não se sentirá assim para sempre. Muitas pessoas já se sentiram tão mal quanto você e viveram para contar a história. Muitas pessoas já tiveram pensamentos suicidas e encontraram maneiras de lidar com elas. Você pode conseguir isso também.

4) Não se critique por ter pensamentos suicidas. A culpa por ter esses pensamentos não é sua. Não há nada para se envergonhar ou se sentir culpado, e isso não faz de você uma pessoa ruim ou fraca. Você provavelmente está carregando um fardo muito maior do que a maioria das pessoas está carregando e, para que possa se sentir melhor, você precisa ser gentil consigo mesmo. Se Culpar e sentir vergonha são sentimentos negativos que complicam ainda mais pensamentos pesados, fazendo com que seja muito mais difícil de encontrar uma maneira segura de se livrar deles.
  • Tente pensar em si mesmo como outra pessoa, alguém que você ama. Se alguém muito querido estivesse com pensamentos suicidas, como você o trataria? Você o trataria com bondade e preocupação. Você faria qualquer coisa para impedi-la de cometer suicídio. Mas nesse caso você é a pessoa que precisa de ajuda e merece ser tratado com o mesmo carinho e amor que daria a alguém.
  • Existem alguns mitos sobre o suicídio que podem deixar as pessoas com pensamentos suicidas se sentindo pior ainda. É um mito que o sentimento suicida é egoísta e que as pessoas que cometem suicídio fazem isso sem se preocupar com as outras pessoas. Conhecer esses mitos e saber separá-los da realidade pode ajudá-lo a ser mais gentil consigo mesmo quando estiver se sentindo assim.
5) Passe tempo com pessoas que não sejam críticas. Seu sistema de apoio é muito importante quando se está lidando com pensamentos suicidas. Você precisa de pessoas que podem ouvi-lo sem julgá-lo e que não tentarão dar conselhos que podem magoar mais do que ajudar. Pessoas bem intencionadas muitas vezes dizem coisas como 'isso não é uma boa razão para ser suicida' ou 'sua vida é boa por que você está tão triste?'. Ouvir esse tipo de coisa pode fazer você se sentir culpado por ter esses pensamentos e isso é a última coisa de que precisa. É importante ter pessoas com quem você pode contar e que entendam que ser suicida não funciona dessa maneira - não é algo que pode simplesmente desligar.
  • Às vezes é mais difícil falar com pessoas mais chegadas do que falar com um terapeuta ou conselheiro. Você pode não querer preocupar sua família ou talvez ache que eles não conseguirão entender pelo que está passando. Conselheiros e terapeutas têm muita experiência em trabalhar com pessoas suicidas e eles podem ajudar você a encontrar ferramentas para lidar com esses pensamentos, sem julgá-lo ou adicionar mais sentimentos a misturar.
6) Pense no que você ama. Faça uma lista de tudo que o enche de bons sentimentos ou algo que associe com bondade e amor. Anote tudo que o ajudar a se lembrar por que você queria viver antes de se sentir suicida. Escreva os nomes das pessoas que ama, seus filmes, livros e música favoritos, assim como seus lugares, alimentos e experiências mais amados.
  • Também escreva o que ama sobre si mesmo. Anote as coisas de que se sente orgulhoso, como realizações, elogios que recebeu e traços favoritos de sua personalidade.
  • Escreva as coisas que deseja fazer no futuro. Anote os planos que você fez, experiências que sempre quis ter, pessoas que deseja conhecer melhor, lugares que quer visitar.
7) Faça uma lista de boas distrações. Outra coisa que ajuda as pessoas que se sentem suicida é ter distrações que ajudam a dar à mente um descanso. Existe algo que fez no passado para se sentir melhor? Qualquer coisa que dê alívio a sua dor e ajude a remover os pensamentos de suicídio é uma boa distração. Aqui estão algumas coisas que ajudaram outras pessoas:
  • Chamar um amigo para conversar
  • Comer sua refeição preferida
  • Passar tempo com seu animal de estimação
  • Escrever, pintar ou fazer música
  • Ir ao cinema
  • Assistir uma maratona de seu programa de TV favorito
  • Comer uma sobremesa deliciosa
  • Fazer uma viagem com os amigos
  • Fazer uma longa caminhada ou corrida
  • Passar tempo na natureza
  • Jogos videogame
  • Ser voluntário na comunidade
  • Assistir vídeos engraçados na internet
8) Escreva os nomes das pessoas que você pode chamar. É bom ter uma lista de nomes e números de telefone das pessoas que terão tempo para falar com você sempre que puderem. Escreva o nome das pessoas que ama e confia. Anote pelo menos 5 ou mais nomes, pois se alguém não puder falar, você poderá ligar para outra pessoa.
  • Inclua o nome e número de seu terapeuta e conselheiro de crise, caso se sinta confortável para ligar para eles.

9) Faça um plano de segurança para eliminar os pensamentos quando eles aparecerem. Este é um plano personalizado que você pode usar para parar de pensar em suicídio quando seus pensamentos forem demais para suportar. Quando se tem pensamentos suicidas, é difícil tomar decisões ou ter ideias, mas se você tiver um plano de segurança, tudo que precisará fazer é segui-lo. Complete todos os itens da lista até se sentir seguro novamente. Aqui está um exemplo de plano de segurança:
  • 1. Ler a lista de coisas que ama. Lembre-se de coisas que ajudaram a acabar com os pensamentos de suicídio no passado.
  • 2. Ler a lista de boas distrações. Tente fazer coisas que o fizeram se esquecer dos pensamentos suicidas antes.
  • 3. Ligar para alguém da lista de pessoas que você pode chamar. Continue ligando até encontrar alguém da lista que pode conversar com você pelo tempo que precisar.
  • 4. Adiar meu plano por 48 horas e deixar minha casa segura. Prometa não cometer suicídio sem antes pensar em todas as outras opções.
  • 5. Pedir para alguém vir ficar comigo. Se ninguém puder vir, vá para algum lugar onde se sinta seguro.
  • 6. Ir para o hospital. Dirija você mesmo ou peça para alguém leva-lo.
  • 7. Ligar para o 141 ou 190.
10) Encontre a raiz do problema
  • Certas circunstâncias podem fazer com que você se sinta impotente, isolado ou desgastado mental e fisicamente - sentimentos que muitas vezes levam a pensamentos suicidas. Você pode se sentir como se já cometeu muitos erros ou que pessoas demais já o magoaram e que você não quer mais viver. Mas, apesar de ser impossível ver isso agora, essas circunstâncias são temporárias. As coisas vão mudar e a vida vai ficar melhor novamente.


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Por que evitamos falar em suicídio?


Medo de contágio, sensação de culpa e ignorância criaram um nocivo tabu social. Chegou a hora de tratar o assunto como uma questão de saúde pública
ISABEL CLEMENTE E NELITO FERNANDES

Ignorado, por medo ou culpa, o suicídio permanece no limbo dos assuntos que o brasileiro evita. À sombra do silêncio, porém, as ocorrências aumentam em ritmo assustador. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revela que, em 15 anos, de 1990 a 2004, o número de casos saltou 59%, superando de longe o aumento do número de mortes no trânsito (17%) e até o de homicídios (55%). Segundo dados do Ministério da Saúde, é um problema crescente entre jovens de ambos os sexos, de escolaridade diversa e de todas as camadas sociais. Na faixa etária de 15 a 25 anos, é a quinta causa de morte. Pelo menos 8 mil brasileiros se mataram em 2004. Para cada suicídio, a Organização Mundial da Saúde estima que outras dez pessoas tentam se matar, sem sucesso. Sobreviver, nesses casos, pode deixar seqüelas profundas, como incapacitação física ou conseqüências psicológicas terríveis. Já as vidas que se encerram dessa forma deixam um legado de dor e danos sociais e financeiros.

É possível estancar essa face oculta da violência? "Suicídio é um problema de saúde pública que pode e deve ser combatido", diz o médico Carlos Felipe Almeida D'Oliveira, coordenador da Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio, do Ministério da Saúde. Ele está à frente de uma iniciativa inédita no país: um plano nacional para reverter a escalada dos suicídios e suas tentativas. Ainda em elaboração, o plano prevê várias linhas de ação, do treinamento dos profissionais da saúde a sugestões de intervenções arquitetônicas nos locais preferidos pelo suicidas, como pontes e vãos em shopping centers. Outra idéia é mobilizar a imprensa. Na visão do Ministério, ela vem erroneamente menosprezando o assunto, como se ele não existisse. "Não falar, não debater, não mostrar que esse é um problema de saúde pública só agrava o quadro", afirma D'Oliveira. "Falar abertamente tira a vergonha e a culpa."

No Brasil, a taxa de suicídios é de 4,5 casos por 100 mil habitantes. Ela pode ser considerada baixa para os padrões internacionais, de 16 óbitos por 100 mil habitantes. A média do país não chama a atenção, mas há regiões em que a incidência de comportamentos suicidas preocupa. No Rio Grande do Sul, o índice de suicídio entre a população masculina chega a 15,5 por 100 mil pessoas. Entre a população masculina idosa é ainda pior: são 30 casos por 100 mil habitantes. Só para comparar, a aids matou seis pessoas em cada 100 mil habitantes em 2005. 

Na cidade fluminense de Valença, a 160 quilômetros do Rio de Janeiro, casos recentes de suicídio deixaram a população assustada. Nas ruas, os moradores falam em até oito mortes nos últimos 40 dias. A Prefeitura reconhece duas, número que é confirmado pela Polícia Civil, mas o Ministério da Saúde já sugeriu um estudo epidemiológico na região. "O que mais se ouvia, no passado, era 'fulano só está fazendo isso para chamar a atenção'", diz D'Oliveira, sobre os sinais emitidos por potenciais suicidas antes de cometer o ato. "É verdade, ninguém se mata se não estiver sofrendo. Se a pessoa tenta chamar a atenção, e não a recebe, o risco de ela se matar aumenta." Às vezes, as ameaças são para valer.

Foi esse o caso de um dos suicidas de Valença. "Mãe, eu fui porque não agüento mais tudo." A frase é uma das poucas que se pode compreender da caligrafia nervosa de Sebastião Edson, o Dinho, de 24 anos, filho da dona de casa Jânia Maria de Fátima. Com lágrimas nos olhos, a mãe passa as mãos sobre o caderno e mira a janela como se buscasse a resposta para a pergunta que a atormenta há dois meses: por que Dinho se matou? A 1 quilômetro dali, outra família sofre o mesmo drama. Por que Paulinho, de 17 anos, escolheu a morte? "Dezessete anos e desistir de viver? Ele não conhecia nada. Não consigo entender", diz a tia do rapaz, Edna Lopes.

Paulo Ricardo Lopes, o Paulinho, estudava na mesma escola na qual Sebastião Edson, o Dinho, era inspetor de alunos. Paulinho se matou dois dias antes de Dinho. Os dois se conheciam, mas não eram amigos íntimos. Dinho resolveu se matar depois de descobrir que fora traído por sua namorada. Paulinho suicidou-se após tentar reatar o relacionamento com sua primeira namorada. Ambos eram populares na cidade e são descritos como pessoas felizes pelos amigos e familiares.

Dinho era alto, forte, campeão de capoeira. Fazia natação e jiu-jítsu. Estava organizando um campeonato de capoeira na cidade. Seu padrasto, Mestre Cid, figura conhecida em Valença por causa das escolinhas de capoeira, diz que o enteado tinha "uma penca de mulheres atrás dele". Há quatro anos, ele mantinha um relacionamento instável com uma moça da cidade. O relacionamento era conturbado. Por causa da mulher, Dinho havia simulado o suicídio duas vezes. Numa delas, comeu pó de café e disse ter ingerido um veneno conhecido como chumbinho. Em outra, simulou ter cortado os pulsos. Na terceira vez, ele não estava fingindo. Um dia antes de seu suicídio, um amigo mostrou a ele uma foto da namorada abraçada com outro homem. Os dois discutiram, a moça negou que o houvesse traído e ainda avisou a família que Dinho estava falando em se matar. O padrasto deu uma bronca no rapaz. Na manhã seguinte, chegou à casa a notícia de que um homem cometera suicídio e estava pendurado numa árvore perto dali. "Quando cheguei lá, vi que era ele. Dinho usou a corda da capoeira para se enforcar", diz Jânia. Ela acredita que seu filho estivesse tentando apenas dar mais um de seus sustos na família, mas calculou mal e acabou morrendo. 

A tia de Paulinho pensa o mesmo sobre o suicídio do sobrinho. Para ela, o garoto queria apenas chamar a atenção. O rapaz fazia parte de um grupo popular de hip-hop na cidade e era bastante querido. Edna diz que ele também era muito procurado pelas garotas do local, mas tinha fixação em sua primeira namorada. Um dia antes de se matar, Paulinho pediu à tia que fizesse estrogonofe, seu prato predileto. Ela respondeu que faria no dia seguinte, mas ele insistiu. "Ele me disse: amanhã não vai dar", diz Edna. O rapaz faltou à aula no dia de sua morte, tomou um banho demorado e foi até a casa da namorada tentar reatar o namoro, que acabara havia três meses. Quando chegou lá, viu a ex com um novo namorado. Ele entrou no porão da casa da garota, pegou uma corda e saiu dizendo que iria provar seu amor. O rapaz se enforcou em uma árvore, exatamente como Dinho faria dois dias depois.

Além da frustração amorosa, outra possível razão para o suicídio de Paulinho é o fato de ter sido abandonado pela mãe, aos 3 meses de idade. O pai morreu quando o garoto tinha 6 anos, num acidente de carro. O menino foi morar com os tios e nunca mais viu a mãe. "Ele se perguntava por que a mãe, sabendo que ele existia, nunca apareceu aqui", diz a tia.

A estratégia nacional de prevenção ao suicídio foi lançada no segundo semestre do ano passado, durante o primeiro seminário nacional sobre o assunto, realizado em Porto Alegre. A ação conta com a ajuda de especialistas, universidades e do Centro de Valorização da Vida (CVV), entidade pioneira na prevenção de suicídios no Brasil. Inaugurado há 45 anos, o CVV existe graças ao trabalho de 2.500 voluntários que se identificam apenas pelo primeiro nome. Eles se revezam em plantões de quatro horas semanais para atender, pelo telefone 141, 1 milhão de chamadas por ano. É uma ligação a cada 35 segundos. "Aqui, a única coisa que importa é que a pessoa ligou para desabafar e foi ouvida. São pessoas angustiadas, deprimidas, solitárias, que precisam de alguém para ouvi-las", diz Antonio, empresário que há dez anos dirige a entidade. Para ampliar os atendimentos e dialogar com jovens, o CVV está agora usando a internet.

Os números do Centro de Valorização da Vida mostram a carência de um atendimento público apropriado. Registros na literatura internacional mostram que 40% dos suicidas procuraram algum serviço de saúde na semana anterior à morte. Para atender à demanda que o Brasil oculta, o Ministério da Saúde resolveu adotar uma estratégia que inclui até marca própria, Amigos da Vida. Ela prevê medidas como treinamento dos profissionais da área de saúde para identificar grupos vulneráveis. Hoje, sabe-se que idosos, usuários de drogas e álcool e pessoas que sofrem de esquizofrenia e depressão aparecem em maior número nas estatísticas de suicídio. Mas os mecanismos que levam um indivíduo a acabar com a própria vida são variados e de difícil compreensão.

A mensagem que o Ministério da Saúde quer passar com toda essa campanha é que, seja qual for o motivo, o suicídio é um fenômeno crescente na sociedade desenvolvida, mas pode ser evitado.

Nesse sentido, alguns países têm adotado ações simples. Na semana passada, as autoridades sanitárias americanas determinaram que os antidepressivos tragam na embalagem um alerta sobre o risco de suicídio em consumidores entre 18 e 24 anos. Ainda não está claro se os remédios podem ser culpados por tentativas de se matar dos jovens. Mas análises estatísticas sugerem que a ocorrência de pensamentos suicidas e suicídio propriamente dito é ligeiramente mais elevada entre os jovens que tomam antidepressivos que entre os tratados com pílulas sem efeito terapêutico (placebo). É possível que a própria depressão e outras desordens psiquiátricas que acometem os consumidores dos remédios sejam a causa dos suicídios. Enquanto esse ponto não é esclarecido, a agência que regula medicamentos nos Estados Unidos - a Food and Drug Administration (FDA) - achou prudente exigir o alerta nos rótulos. No grupo de pacientes com mais de 65 anos, o efeito é oposto. Os estudos demonstram que o uso de antidepressivos reduz o risco de comportamento suicida.

Outra linha de ação que começa a ser adotada no Brasil está nos núcleos de apoio aos familiares. O ComViver é um projeto piloto no Rio de Janeiro, financiado pelo Ministério da Saúde. O trabalho começou há cinco meses e, durante esse período, 71 pessoas já foram atendidas. Duas psicólogas fazem o atendimento individual e em grupo dos familiares, chamados por elas de "sobreviventes". Os interessados recebem tratamento gratuito. Quando procuram a organização, são atendidos sozinhos. Depois, passam para a terapia em grupo. Hoje, oito parentes de suicidas estão sendo atendidos. "É importante o tratamento em grupo porque a maioria acha que isso só acontece com eles", diz Ana Maria Ferrara, uma das coordenadoras do ComViver.  

Ela afirma que é imprescindível levar a sério qualquer ameaça de suicídio. "Se uma pessoa está dizendo que quer se matar é porque está precisando de ajuda. É preciso ouvir e ajudá-la a resolver seus problemas." A psicóloga aconselha a impedir que o amigo ou parente tenha acesso a objetos e remédios comumente usados em tentativas de suicídio.

Isabel Quental, outra coordenadora do projeto, diz que as famílias de suicidas freqüentemente se sentem culpadas pela morte. "A família se envergonha e se recolhe, porque acredita que falhou em sua missão de cuidar dos seus." Segundo ela, o luto pelo suicídio é muito maior que o das outras mortes. Enquanto a recuperação pela perda de um parente dura de seis meses a um ano, em média, a dor pela morte por suicídio pode até mesmo atravessar gerações. "Já atendemos casos de pessoas que não se recuperaram de suicídios de parentes que aconteceram há dez anos." Às vezes, os parentes de suicidas ainda sofrem o estigma social. "Já tivemos relatos de mães que foram apontadas por pessoas que disseram: 'Aquela é a mãe do suicida'."
Isabel diz que o sentimento de culpa aumenta porque é muito freqüente um suicida repetir a ameaça várias vezes, sem concretizá-la. Ou fazer tentativas frustradas antes de consumar o ato. "Nesse período, é comum o familiar pensar que, se a pessoa morresse, seria melhor, porque se livraria de ter de cuidar do outro. Quando a morte vem, a culpa é enorme."

A falta de informações sobre o tema acaba contribuindo para que o suicídio seja tratado como um tabu e as famílias sejam vítimas de preconceito. "Quem, num momento de sofrimento, nunca pensou que seria melhor sumir?", diz Ana Maria. "É por isso que o suicídio assusta tanto, porque qualquer um de nós é tentado a cometê-lo." Ela afirma que os homens são as maiores vítimas do suicídio porque se sentem muito cobrados e têm mais dificuldade de compartilhar seus problemas. "O homem é mais inflexível diante do sofrimento. É muito mais exigido socialmente que ele seja forte. É difícil para um homem pedir ajuda." Dos oito pacientes que buscam apoio do ComViver, apenas dois são homens.

Parte do estigma que as famílias sofrem vem da crença de que os suicidas sempre dão sinais claros de suas pretensões e a família não dá atenção às pistas. Não é verdade. O projeto ComViver já atendeu, por exemplo, a mãe de um adolescente que se matou porque era cercado de cuidados demais. "Ele simplesmente não conseguia encontrar um espaço para ser ele mesmo. Isso prova que não existe um padrão para o suicídio, cada caso deve ser analisado separadamente", diz Ana Maria. 

Para ampliar o debate sobre o tema, o Ministério da Saúde prepara um guia para jornalistas, a fim de orientar sobre a melhor maneira de noticiar o assunto. A imprensa evita publicar suicídios temendo o que os especialistas chamam de "efeito Werther". O nome remete ao personagem de um livro de Goethe, publicado em 1774. As Desventuras do Jovem Werther relata a história de um jovem apaixonado por Charlotte, mulher casada e feliz. Werther, inconsolável, se mata. Historiadores relatam que o livro foi proibido em vários países por causa de uma súbita epidemia de suicídio entre jovens. O efeito contágio existe, diz o médico D'Oliveira, do Ministério da Saúde, sobretudo quando um astro pop ou um líder carismático tiram a própria vida. Os jovens são o grupo mais vulnerável e influenciável. Para sentir-se estimulado, basta saber o que aconteceu, não importa muito ler a respeito, segundo D'Oliveira.

O jornalista Arthur Dapieve decidiu investigar a relação da imprensa com o suicídio. Sua dissertação de mestrado, defendida na PUC-Rio, virou o recém-lançado livro Morreu na Contramão - O Suicídio Como Notícia. "Eu queria saber se era um medo inventado pela imprensa", diz Dapieve. "Em 2004, por exemplo, o jornal O Globo registrou apenas três casos de suicídio em todo o Estado do Rio. Houve muito mais que isso", afirma. "Mas a imprensa só reflete a sociedade à qual ela serve, e essa sociedade tem medo de tocar no assunto." Parte do silêncio se deve à crença de que o relato de casos pode ajudar a criar uma espécie de efeito Werther. Essa quase unanimidade está sendo rompida pela visão de que é melhor debater o problema que se esconder dele. O consenso que começa a se construir é que a sociedade não pode mais negar sua atenção ao suicídio.