domingo, 26 de abril de 2020

Por que o país do samba e da alegria é o campeão latino-americano em suicídios?


"Ele tinha 23 anos e uma carreira consolidada como rapper. Mesmo assim, ele decidiu tirar a vida ao vivo, durante uma transmissão em streaming em suas redes sociais e na frente de seus 11.000 seguidores. Aconteceu no dia 15 de dezembro em São Paulo, capital econômica e cultural do Brasil. MC Mineiro escreveu poemas sobre morte e tristeza e em uma de suas publicações ele disse: "Você vai esperar que eu morra para me amar?"

No Brasil, cerca de 13.500 pessoas cometem suicídio a cada ano. A grande maioria são homens (cerca de 10.000). Entre 2010 e 2016, a taxa de suicídios aumentou 7% no país tropical, atingindo 6,1 casos por 100.000 habitantes. Esses dados contrastam com a tendência global, que acumula queda de 9,8%, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Esses índices revelam que todos os anos cerca de 800.000 pessoas causam sua própria morte, o que equivale a um suicídio a cada 40 segundos.
"O número de suicídios aumentou e o crescimento mais consistente foi registrado entre os jovens, algo considerado uma tendência mundial. A desigualdade social pode ser um fator importante. Hoje não podemos apenas olhar para a depressão. Vários estudos internacionais sugerem que as questões sociais podem ter um impacto 40% maior no número de suicídios do que os transtornos mentais ”, diz Karen Scavacini, psicóloga e fundadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Prevenção de Suicídio, com sede em São Paulo.
O país do carnaval, famoso por suas festas intermináveis ​​e pela alegria de seu povo, morre de tristeza e depressão, com 12 milhões de casos diagnosticados. Ele lidera as estatísticas da América Latina sobre suicídios e ocupa o oitavo lugar no mundo, de acordo com dados da OMS relativos a 2014, que foram divulgados dois anos depois e ainda são citados por especialistas.
O Brasil passou de 35 para 8 no ranking mundial de suicídios em alguns anos
O que aconteceu com o Brasil em poucos anos, passando do 35º ao 8º lugar no ranking mundial? Estudos de instituições nacionais e internacionais de prestígio apontam para vários fatores: exclusão social, racismo institucional, crescente isolamento, discriminação, especialmente nos casos do coletivo LGBTI, crise econômica e insegurança no emprego. No entanto, o problema é muito mais complexo, diz a psicóloga Ana Maria Feijoo. Essa professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) dirige um programa de prevenção ao suicídio, que oferece atendimento clínico direto e especializado a pessoas que estão prestes a tirar suas vidas.
"A região do Brasil onde há mais suicídios é o sul, especificamente o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. São dois estados majoritariamente brancos, com forte descendência alemã, maior distribuição de renda e menor presença de favelas. Geralmente, relacionamos o suicídio a questões de raça, pressão social ou exigência escolar, mas a realidade é que o suicídio ocorre em todas as classes sociais e em todos os níveis culturais. Portanto, é muito difícil estabelecer as causas e entender o fenômeno completamente ”, explica ela.
Uso excessivo de antidepressivos
O uso excessivo de antidepressivos, especialmente entre os mais jovens, pode ser uma explicação para esse aumento gradual, mas constante, dos suicídios. Um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revela que, entre 2006 e 2015, a taxa de suicídios aumentou 24% entre os adolescentes que moram nas grandes cidades brasileiras, enquanto caem no resto do mundo. O mesmo relatório mostra que os meninos têm três vezes mais riscos de se matar do que as meninas. "Há jovens que atendo que dizem: 'Por que tenho que permanecer vivo? É muito chato viver, é ruim, é triste'", diz Karen Scavacini .
"A sociedade, o desempenho e a expectativa de sucesso exigem das pessoas, especialmente as crianças que estão na fase pré-adolescente e os adolescentes, muito mais do que possam dar. A automutilação e o suicídio aparecem como um caminho". Muitos entram em uma experiência que a psiquiatria, fora do interesse e do poder do mercado, diagnostica como depressão. Por isso, acabam produzindo uma depressão real, medicada com antidepressivos. A relação desses medicamentos com o suicídio precisa ser investigada " , alerta o psiquiatra, Paulo Amarante, uma das principais referências em saúde mental no Brasil.
Indústria farmacêutica maciça
Paradoxalmente, a mesma indústria farmacêutica que tenta impedir o suicídio poderia encorajá-lo com os produtos químicos que injeta maciçamente no mercado. "Eu estudei bastante esse assunto, porque geralmente se afirma que a maioria dos suicídios é registrada entre as pessoas diagnosticadas com depressão, mas essa estatística também não é confirmada. Entre as pessoas sem diagnóstico, a porcentagem é semelhante. A relação entre antidepressivos e o aumento do suicídio precisa ser estudado ", insiste a psicóloga Ana Maria Feijoó.
Os suicídios cada vez mais frequentes entre policiais, sem dúvida, representam uma peculiaridade no Brasil, que tem as forças de segurança que mais matam e mais morrem no mundo. Somente em 2018, 104 policiais brasileiros deram fim a suas vidas, excedendo o número de policiais mortos durante o horário de trabalho (87). A violência à qual os agentes estão permanentemente expostos causa sérios danos psicológicos.
"O número de suicídios aumentou porque a pressão que sofremos é muito grande. Não temos condições dignas de salário ou material bélico. Nossos turnos de trabalho são muito apertados e os agentes têm pouco tempo para descansar, ficar com a família e relaxar. Muitos policiais sofrem atentados a caminho do trabalho. O número de agentes assassinados cresceu muito, então o que pensamos é: 'Quando será a minha vez?' "diz Flavia Louzada, sargento da Polícia Militar do Rio de Janeiro.
Polícia SOS
"O outro problema é que a corporação no Rio de Janeiro tem apenas três psiquiatras. Ou seja, não há condições de tratar os policiais que começam a apresentar transtornos psiquiátricos. Então o agente, com seu salário baixo, é obrigado a pagar para um psiquiatra em particular, se ele quiser ser tratado. Tudo isso significa que os policiais ficam doentes. Sem esquecer que, por si só, os policiais têm alguma resistência a serem tratados por psiquiatras, especialmente homens ", acrescenta Louzada.
Nilton da Silva, tenente da Polícia Militar e fundador de uma associação chamada Polícia SOS, também aponta as condições de trabalho como a principal causa. “Os suicídios são causados ​​pelo estresse. Os agentes têm turnos muito exaustivos e são forçados a realizar outros trabalhos no campo da segurança para aumentar o salário. Muitos policiais trabalham horas extras dentro e fora da corporação e esse esforço compromete seu lado psicológico. Muitos desses problemas seriam resolvidos com um salário justo ”, enfatiza.
Deve-se notar também que homossexuais e transexuais têm uma maior tendência ao suicídio.
"Mas, novamente, é difícil estabelecer se é devido à insatisfação com seu corpo ou à discriminação e até hostilidade que eles sofrem. Temos um grupo de estudo na Uerj dedicado a esse grupo e detectamos que muitos transexuais continuam insatisfeitos após a operação, porque eles não têm o corpo que queriam ", diz a psicóloga Ana Maria Feijoo.
O Brasil, onde a cada 19 horas uma pessoa LGBTI é morta, lidera o ranking latino-americano de violência contra esse grupo. "Quanto mais preconceitos existem contra LGBTIs, mais casos de suicídio são registrados", diz Karen Scavacini.
A situação no Brasil é ainda mais preocupante se considerarmos que os dados não são confiáveis. Quase nunca o suicídio é indicado como causa no atestado de óbito, devido à relutância das famílias em serem estigmatizadas. "Nos nossos grupos de luto, por exemplo, de cada 10 membros da família que assistem, apenas um ou dois têm suicídio como causa de morte no atestado", lembra Scavacini.
Apesar desses dados, os especialistas entrevistados por este jornal acreditam que o futuro pode ser animador devido a vários fatores. Em 2019, foi aprovada a Lei de Prevenção ao Suicídio, que instituiu um Plano Nacional para evitar mortes autoinfligidas. Além disso, em dezembro foi aprovada outra lei que qualifica como crime a instigação de suicídio e automutilação. "Esses fatores mostram que o Brasil começa a ver o suicídio como um problema de saúde pública e a tratá-lo sob a forma de lei. Esses são avanços importantes", diz Scavacini.
Para Feijoo, campanhas nacionais como 'Janeiro Branco' e 'Setembro Amarelo' também são essenciais para aumentar a conscientização do público sobre problemas relacionados à saúde mental. “Graças a eles, as pessoas têm coragem de procurar serviços públicos de saúde e admitem que estão pensando em cometer suicídio. Quanto mais oportunidades para verbalizar e ouvir essas pessoas, mais possibilidades temos de prevenção. Acho que em alguns anos as taxas de suicídio poderão cair significativamente se continuarmos prestando atenção a essas questões ”, prevê.



domingo, 19 de abril de 2020

MEU REMÉDIO PRA DORMIR - Julia Rocha

"Meu remédio pra dormir esconde minhas tristezas e minhas frustrações. 
Esconde a minha insatisfação com o meu corpo, com meu casamento, 
com a minha vida.
Meu remédio pra dormir esconde a morte violenta do meu filho, 
a violência diária do meu marido, o meu ritmo intenso de trabalho.
Meu remédio pra dormir esconde os meus medos, o meu pânico, 
meus traumas antigos e os abusos que sofri.
Meu remédio pra dormir esconde o meu buraco, o meu vazio. Só eu sei. 
Não mexa nele. Deixe ele aqui estancando a minha dor.
Ele é como uma peneira a me proteger do sol. 
Um fino lençol a me proteger do fogo. 
Eu sei que não adianta, mas se não for ele, o que será?
O que será? O que será?
Será minha fortaleza, será meu amor próprio, será um amigo verdadeiro. 
Sim, será uma caminhada na praça ou na beira do mar. 
Será minha música preferida, uma nova turma pra seresta. 
Será o violão, a flauta o tamborim. Será a dança, o par, o mar. 
Será. Será.
Será a luz do sol, o corpo são, a mente leve. 
Será a ajuda que eu quiser pedir. 
Será a confiança em dias melhores. 
Será um novo amor pra me fazer sorrir.
Será?
Acredite! Será!

- Julia Rocha

domingo, 5 de abril de 2020

Por lugares incríveis - Netflix (Leia o livro também!!!)

Quando eu soube que a Netflix faria um filme sobre o livro "Por lugares incríveis", de Jennifer Niven, fiquei animada, mesmo achando em 99% dos casos que o livro sempre é melhor do que o filme. Em maio de 2016 eu o li pela primeira vez e ele automaticamente se tornou um dos meus preferidos (tanto no gênero de literatura juvenil que eu tanto gosto quanto para falar de suicídio na adolescência).

Para mim, a forma com que Niven conta essa história tem muito a ver, além do seu talento com a escrita, com o relato que ela traz no final: a autora é uma sobrevivente enlutada por suicídio (boa parte das pessoas que assistiu ao filme não sabe dessa informação).

No final do livro, como "Nota da autora", ela escreve o seguinte:

"A cada quarenta segundos, alguém no mundo se suicida. A cada quarenta segundos, quem fica tem de lidar com a perda.
Muito antes de eu nascer, meu bisavô morreu devido a um ferimento a bala que ele mesmo causou. Seu filho mais velho, meu avô, tinha só treze anos. Ninguém sabia se tinha sido intencional ou não — e como eram de uma cidadezinha no sul do país, meu avô e sua mãe e suas irmãs nunca discutiram isso. Mas aquela morte afetou nossa família por gerações.
Há muitos anos, um menino que eu conhecia e amava se matou. Fui eu quem o encontrou. Eu não queria conversar sobre essa experiência com ninguém, nem com as pessoas mais próximas. Até hoje, vários familiares e amigos meus não sabem muito sobre isso, se é que sabem de alguma coisa. Durante bastante tempo, era doloroso até mesmo pensar nisso, quanto mais falar, mas é importante conversar sobre o que aconteceu.
Em Por lugares incríveis, Finch se preocupa muito com rótulos. Existe, infelizmente, um estigma em torno do suicídio e de transtornos mentais. Quando meu bisavô morreu, as pessoas fofocavam. Apesar de sua viúva e seus três filhos nunca falarem sobre aquele dia, eles se sentiam julgados e, em certa medida, discriminados. Meu amigo se matou e um ano depois perdi meu pai para o câncer. Eles estavam doentes durante a mesma época e morreram com um intervalo de catorze meses, mas a reação a suas doenças e mortes não poderia ter sido mais diversa. As pessoas raramente levam flores para um suicida.
Foi só ao escrever este livro que descobri meu próprio rótulo — 'sobrevivente pós-suicídio' ou 'sobrevivente do suicídio'. Felizmente, há muitas fontes para me ajudar a dar sentido a esse acontecimento trágico e entender como ele me afeta, assim como há muitos recursos para ajudar qualquer um, adolescente ou adulto, que esteja lutando contra problemas emocionais, depressão, ansiedade, instabilidade mental ou pensamentos suicidas.
Muitas vezes, transtornos mentais e emocionais não são diagnosticados porque a pessoa com os sintomas sente vergonha, ou porque as pessoas próximas não conseguem ou escolhem não reconhecer os sinais. De acordo com a Mental Health America, estima-se que haja 2,5 milhões de pessoas com transtorno bipolar nos Estados Unidos, mas o número verdadeiro deve ser duas ou três vezes maior que isso. A quantidade de pessoas com a doença que não são diagnosticadas ou que são mal diagnosticadas chega a oitenta por cento.
Se você acha que algo está errado, fale.
Você não está sozinho.
Não é sua culpa.
Existe ajuda para você" (p. 321-322).

Em janeiro de 2017 fiz um post aqui no blog sobre o livro:

[ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS].

No dia 28 de fevereiro o filme foi lançado e tem recebido críticas positivas de quem não conhecia a história. Mas para boa parte dos leitores, a adaptação perdeu muito, pois já no começo há uma mudança importante na forma com que os dois personagens, que já se conheciam de vista, se encontram e se enxergam de verdade: no filme, Finch encontra Violet em uma ponte, enquanto que no livro os dois se surpreendem ao se encontrarem na torre do sino da escola, ambos pensando que talvez pular dali fosse uma boa ideia. Finn começa a conversar com Violet e, quando as pessoas percebem que os dois estão lá em cima, ele faz de tudo para que pensem que ela havia subido para salvá-lo. 
O diálogo dos dois depois de descer da torre: 

"— Eu só estava sentada ali — ela diz. — No parapeito. Não subi aqui pra…
— Deixa eu te perguntar uma coisa: você acha que existe um dia perfeito?
— O quê?
— Um dia perfeito. Do início ao fim. Quando nada de terrível ou triste ou comum acontece.
Você acha que é possível?
— Não sei.
— Você já teve um?
— Não.
— Também nunca tive, mas estou em busca dele.
Ela sussurra:
— Obrigada, Theodore Finch.
Fica na ponta dos pés e me dá um beijo no rosto, e sinto o cheiro do xampu, que lembra
flores. Então, diz no meu ouvido:
— Se contar a verdade a alguém, mato você" (p. 17-18).

É a partir desse encontro singular que ambos se aproximam e passam a conhecer o mundo do outro, muito mais detalhado no livro do que no filme, obviamente. A orelha do livro traz o resumo da história:

"Violet Markey tinha uma vida perfeita: amigos populares, um namorado lindo, um futuro estudando escrita criativa em Nova York e várias ideias para a revista on-line que dividia com sua irmã, Eleanor. Mas todos os seus planos deixam de fazer sentido quando as duas sofrem um acidente de carro e apenas Violet sobrevive. Sentindo-se culpada pela morte da irmã, Violet para de escrever, se afasta de todos e tenta descobrir como seguir em frente.
Theodore Finch encarna um personagem diferente a cada semana [...]. Essa personalidade imprevisível não raro acaba lhe trazendo problemas, e logo ele se torna o esquisito da escola, perseguido pelos valentões e chamado de 'aberração' por onde passa. Para piorar, o garoto é obrigado a lidar com longos períodos de depressão, um pai violento e a apatia do resto da família.
Enquanto Violet conta os dias para o fim das aulas, quando poderá ir embora da cidadezinha onde mora e aplacar o luto que sente pela ausência da irmã, Finch pesquisa diferentes métodos de suicídio e imagina se conseguiria levar algum deles adiante. Em uma dessas tentativas, ele vai parar no alto da torre do sino da escola e, para sua surpresa, encontra Violet, também prestes a pular.
Um ajuda o outro a sair dali, e essa dupla improvável se une para fazer um trabalho de geografia: visitar os lugares incríveis do estado onde moram. Eles vão até o ponto mais alto de Indiana, a um parque de bibliotecas que funcionam dentro de trailers antigos. a uma lagoa onde dizem não ter fundo, a montanhas-russas construídas por um senhor viciado em adrenalina, entre vários outros locais grandiosos ou pitorescos. Nessas andanças, Finch encontra em Violet alguém com quem finalmente pode ser ele mesmo, e a garota para de contar os dias e passa a vivê-los".


Depois de perder Finch, Violet passa pelo processo de luto com os questionamentos que são comuns para os sobreviventes enlutados: 

"Meu calendário está jogado em um canto. Abro, estico as páginas e olho pra todos os incontáveis dias em branco, que não risquei com um “X” porque foram dias que passei com Finch.
Penso:
Odeio você.
Se eu soubesse.
Se eu tivesse sido suficiente.
Eu decepcionei você.
Eu queria ter feito alguma coisa.
Eu devia ter feito alguma coisa.
Foi minha culpa?
Por que não fui suficiente?
Volte.
Eu amo você.
Sinto muito" (p. 291-292).

Também acho de uma delicadeza ímpar como Violet continua visitando e (re)visitando os lugares que havia visitado com Finch, na esperança de encontrar alguma mensagem que ele tivesse deixado para ela. A visita à Capela aparece no filme, mas não com toda a beleza descrita no livro:
    
"Caminho até o altar, e alguém digitou e plastificou a história da igreja, que está apoiada em um dos vasos.

A Capela de Oração Taylor foi criada como um santuário para que viajantes cansados parem e repousem. Foi construída em memória daqueles que perderam a vida em acidentes de automóvel e para ser um lugar de cura. Lembramos daqueles que não estão mais aqui, que nos foram tirados cedo demais e que manteremos para sempre em nossos corações. A capela é aberta ao público de dia e de noite, inclusive em feriados. Estamos sempre aqui. 

Agora sei por que Finch escolheu este lugar — pra Eleanor e pra mim. E pra ele também, porque ele era um viajante cansado que precisava repousar. Alguma coisa aponta pra fora da Bíblia — um envelope branco. Viro a página e alguém sublinhou estas palavras: brilhais como estrelas no Universo.
Pego o envelope e ali está meu nome: “Ultravioleta Markante”.
Penso em levá-lo pro carro pra ler o que tem dentro, mas em vez disso sento em um dos bancos, grata pela madeira sólida que me segura.
Estou pronta para ler o que ele pensava sobre mim? Pra ler o quanto o decepcionei? Estou pronta pra saber exatamente quanto o machuquei e como poderia... deveria tê-lo salvado se simplesmente prestasse mais atenção e interpretasse os sinais e não abrisse minha boca grande e o ouvisse e fosse suficiente e talvez o amasse mais?
Minhas mãos tremem quando abro o envelope. Tiro três folhas de partitura grossas, uma coberta de notas musicais, as outras duas de palavras que parecem a letra de uma música. Começo a ler.

Você me faz feliz,
Sempre que está perto, estou seguro em seu sorriso.
Você me faz belo,
Sempre que sinto que meu nariz é grande demais.
Você me faz especial, e Deus sabe o quanto esperei pra ser o tipo de cara que se quer por perto.
Você me faz te amar,
E essa deve ser a maior coisa que meu coração já foi digno de fazer…

Choro — alto e soluçando, como se tivesse segurado a respiração por muito tempo e
finalmente tivesse ar de novo.

Você me faz adorável, e é tão adorável ser adorado por aquela que adoro…

Leio e releio as palavras.

Você me faz feliz…
Você me faz especial…
Você me faz adorável…

Leio e releio até saber as palavras de cor, então dobro os papéis e guardo de volta no
envelope. Fico sentada até as lágrimas pararem, e a luz começa a mudar e desaparecer, e o brilho suave e rosado do entardecer enche a capela.

[...] Não preciso me preocupar com o fato de Finch e eu não termos filmado nossas andanças. Tudo bem não termos recolhido lembranças nem tido tempo de organizar tudo de um jeito que fizesse sentido pra outra pessoa. O que percebo agora é que o que importa não é o que a gente leva, mas o que a gente deixa (p. 314-316).


Desculpem pelo textão, mas eu quis trazer a riqueza da narrativa escrita de Niven que não aparece como deveria no filme.
Minha dica: se você gostou do filme, leia o livro quando puder. Vou reler, mais uma vez!


domingo, 29 de março de 2020

"Sobre o que tenho aprendido com sobreviventes enlutados"

Trechos do capítulo que escrevi no II Volume do livro "Histórias de Sobreviventes do Suicídio", do Instituto Vita Alere.


"Quando fui convidada pela Karen Scavacini em 2016 para ser uma das colaboradoras do Instituto Vita Alere, comecei a me aproximar das vivências das pessoas enlutadas por suicídio que participavam dos grupos de apoio e esta tem sido uma das experiências mais transformadoras da minha vida. Ao facilitar, junto à psicóloga Elis Regina Cornejo, os grupos de apoio do Vita Alere que acontecem na Vila Mariana (do início de 2017 até dezembro de 2018) e em Santos (de 2017 até o momento), pude perceber as especificidades do luto por suicídio, mencionadas na literatura, porém muito mais profundas e complexas na realidade (p. 28).

"Certa vez, ouvimos de um dos participantes a seguinte frase: “Somos os amigos que não gostaríamos de ter”. Isto porque o fator universal que os une é ter sofrido o impacto do suicídio de um ente querido. Porém, uma vez que não é possível desfazer o que aconteceu, a maioria refere o quanto se beneficia destes encontros nos quais é possível falar sem medo de julgamentos, em um local no qual todos os sentimentos são validados e acolhidos. Algumas pessoas que nunca participaram de um grupo de apoio ao luto podem pensar que ouvir as histórias de outros enlutados apenas aumentaria o sofrimento de cada um. Mas, assim como um provérbio chinês ensina: “Uma alegria compartilhada transforma-se em dupla alegria; uma dor compartilhada transforma-se em meia dor”. Ao encerrar cada reunião, os participantes devem dizer algo que expresse como eles estão saindo do encontro, e ouvimos na maioria das vezes palavras como “Gratidão”, “Aliviada”, “Acolhido” e “Esperança”. Uma parcela significativa dos participantes frequenta as reuniões regularmente, portanto vão também criando laços entre si ao longo dos encontros. Do sentimento de desamparo e tristeza de onde parecia que não nasceria mais nada, surgem novas possibilidades de apoio, solidariedade, compaixão e empatia.

Os membros de um grupo coeso sentem afeto, conforto e um sentido de pertencimento no grupo. Eles valorizam o grupo e sentem que são valorizados, aceitos e amparados pelos outros membros. (YALOM E LESZCZ, 2006, p. 62). Tenho observado que ao contar sua história para os outros, a maioria dos enlutados consegue também ouvir-se. E um dos efeitos mais positivos que identifico no grupo é o momento no qual um sobrevivente enlutado acolhe a fala de outro e tenta acolhê-lo, sem julgamento. Ao oferecer o melhor que existe em si mesmo para o outro, muitas vezes o enlutado consegue posteriormente voltar este mesmo olhar de compaixão para si mesmo. Também penso que é uma experiência importante quando o sobrevivente, em meio à sua dor, sente-se incapaz de ajudar alguém ou de ter algo ainda dentro de si que possa ser doado ao outro; e, durante o encontro, muitas vezes percebe que oferecer uma palavra ou um olhar para alguém são gestos grandiosos, capazes de amenizar o sofrimento que é compartilhado. Estas experiências em grupo não poderiam ser vivenciadas na terapia individual e oferecem uma outra forma de favorecer a elaboração do luto. Mais do que uma vivência terapêutica, trata-se de uma experiência humana" (p. 61-62).

"Ao compreender que existe uma parte de seu ente querido que permanecerá sempre viva dentro de si mesmo, o enlutado vai aos poucos ressignificando sua perda. Quando o sobrevivente enlutado começa a trazer em seu relato mais conteúdos sobre o legado de quem partiu (memórias, histórias, saudades e adaptações graduais na vida que continua a seguir seu fluxo) do que a forma como a morte aconteceu, compreendo que o luto está sendo elaborado, no ritmo de cada um. Como Fine (2018), alguns sobreviventes farão as pazes consigo e com seu ente querido em nome do amor: Eu nunca saberei o que ele estava pensando, há quanto tempo tinha planejado sua morte, por que tirara a vida naquele momento específico e, o que era mais doloroso, o que eu poderia ter feito de diferente para salvá-lo. Aos poucos, comecei a compreender que, para aceitar sua morte e celebrar sua vida, eu teria que perdoar nós dois pelo que tinha acontecido. (FINE, 2018, p. 20). Para finalizar, o que tenho aprendido com os sobreviventes enlutados por suicídio é que nós, seres humanos, nos fortalecemos quando apoiamos um ao outro e que o amor realmente é mais forte do que a morte. Sigo acreditando que o melhor da vida são os encontros" (p. 64). 



domingo, 15 de março de 2020

História de sobreviventes do suicídio - Volume 2

"O suicídio segue como um tabu em nossa sociedade, sendo um tema pouco falado nas rodas de conversas entre amigos e familiares. Entretanto, esse silêncio em torno do tema não tem contribuído para a diminuição de novos casos. Ao contrário disso, sabe-se que não falar sobre o assunto implica diretamente em barreiras para a sua prevenção e não faz com que o suicídio deixe de ocorrer.
Representando um problema de saúde pública em nosso país, a cada 45 minutos uma pessoa coloca fim em sua própria vida. No mundo, o suicídio é responsável por uma morte a cada 40 segundos. E para cada suicídio ocorrido, cerca de 135 pessoas são impactadas de diferentes maneiras. Esses dados mostram a magnitude e importância de falarmos abertamente sobre este tema.
Neste segundo volume do Histórias de Sobreviventes do Suicídio apresentamos novas histórias de pessoas que lidaram com o comportamento suicida em algum momento de sua vida, de pessoas que perderam alguém querido por suicídio e de pessoas que perderam alguém por suicídio em sua prática profissional.
São as mais distintas histórias de pessoas que tiveram suas vidas marcadas pelo suicídio. Histórias que por vezes foram silenciadas, estigmatizadas e sufocadas devido o tabu e que, neste livro, encontraram espaço para sua expressão em forma de conto, poema ou crônica.
Estes fragmentos de vida, costurados aos capítulos introdutórios sobre estes temas carregam a potência de contribuir para o processo tanto das pessoas pessoas que escreveram suas histórias quanto de seus leitores, semeando esperança, compreensão e empatia.
Texto de Elis Regina Cornejo
Este livro traz histórias emocionantes e reais de pessoas que precisaram lidar ou lidam com o comportamento suicida, que perderam alguém ou trabalham com o tema. São os vencedores do II Concurso Literário Memória Viva, do Instituto Vita Alere. O livro pode ser baixado por pdf ou comprado impresso por R$20,00. Esse valor ajuda na impressão do livro e na divulgação do próximo concurso. Quanto mais pessoas falando sobre o assunto mais podemos mudar a forma como as pessoas veem, entendem e lidam com o suicídio.
Para fazer o download gratuito da versão em PDF do livro ou solicitar a versão impressa: 
Compartilho uma das histórias do livro:
"O peso da mala - Juliane M. C. Pazzanese
Quando eu tinha 12 anos ouvi pela primeira vez a palavra suicídio: uma colega de um colega se enforcou no quarto, disseram que quando a mãe a encontrou tocava, repetidamente no computador, a música Vejo flores em você da banda IRA. Passei a ouvir a música buscando um entendimento.
No ano seguinte um aluno da escola pulou do sétimo andar onde morava. Disseram que ele ligou para despedir do seu melhor amigo, que veio correndo, mas o encontrou já morto perto da portaria do prédio. Disseram também que ele deixou três cartas, uma para a mãe, uma para o pai e uma para a namorada. Sempre me perguntei o que tinha escrito, se haveria alguma explicação.
Algum tempo depois uma senhora pulou do alto do prédio que morava, na minha rua, trancou as crianças em casa e pulou. E eu passava em frente ao prédio e me questionava o motivo. Aos 14 anos pensei que o suicídio era uma solução, mas descobri que minha dor psíquica e emocional era menor do que a dor de cortar os pulsos, muito menor. Fui buscar entender onde havia falhado fazendo psicoterapia. Durantes as muitas sessões que aconteciam com o som do meu silêncio eu observava a janela do consultório que a psicóloga me atendia, no décimo sexto andar, e me perguntava se pular teria sido menos dolorido, se eu teria me arrependido no meio do caminho também.
Na psicoterapia descobri um olhar diferente para minha dor e para minhas perguntas. Muitos anos depois, me tornei psicóloga e fui atender.
No caminho me deparei com sobreviventes do suicídio, muitos deles. Coordeno um grupo de enlutados atualmente. Quase ninguém abertamente sobre o ocorrido. Alguns de fato relatavam como acidente. Outros levaram anos para falar sobre isso. E o que eu vejo ainda hoje neles: questionamentos. A grande maioria se questiona o porquê, se poderia ter sido evitado, onde falharam. Pelo caminho que fiz, eu acabei deixando para trás essa mala com questionamentos. Ela era muito pesada para ser carregada: A sociedade pede respostas, mas elas nem sempre existem ou nem sempre são claras e isso me causava uma sensação de impotência, de culpa. E isso é o que sinto que sobra para quem fica.
Em junho mais um adolescente pulou do prédio. Não fiz questionamentos acerca de sua decisão. Pensei em quem fica. Mês passado uma senhora pulou de um prédio próximo ao meu. Não passo mais na porta me perguntando seus motivos. Compreendi que os motivos são tão íntimos que eu jamais os entenderia.
Hoje questiono a prevenção: Até que ponto somos capazes de enxergar o que aquela pessoa estava tentando nos dizer? Reconheço a importância do esforço para capacitar profissionais e abrir os olhos da população, digo população, pois somos seres sociais e quem se mata não se mata sozinho: leva um pouco de cada pessoa que passou em sua vida e deixa um pouco na vida de um que teve contato com ele"(p. 111-112).