quarta-feira, 11 de novembro de 2015


Suicídio e dependência química

"Para alguns estudiosos, o uso de drogas pode ser uma atitude autodestrutiva em si, ou, no mínimo, um fator que precipita tais comportamentos. Em As diversas faces do suicídio, Norman Farberow afirma que o sentimento de desesperança é um resultado da dependência.  
Há pelo menos quatro grupos que são mais suscetíveis ao vício: a) aquele que procura por emoções desenfreadas, geralmente nos esportes; b) os que têm transtornos de personalidade; c) jovens rebeldes; e d) doentes que se viciam em remédios.

[...] Dr. Evaldo de Melo, especialista em tratamento de dependentes químicos, defende que o uso de droga é um tipo de suicídio, embora concorde que possa ser igualmente uma tentativa de evitar a própria morte e possa transformar-se justamente no inverso:

'É também uma maneira de se matar, porque o que a pessoa não suporta não é o sofrimento provocado pela dor e sim pelo vazio. A dor da falta, a angústia básica é essa falta insuportável. O Foucault dizia: 'se você tiver que escolher entre a dor e o nada, escolha a dor porque o nada é o nada'.
Quando estamos falando de um suicídio cada caso é um caso, cada motivação é diferente, mas ele surge como opção para aliviar um sofrimento que parece insuportável. Por outro lado, o suicida se pressupõe a uma coisa básica que está na essência do funcionamento animal que é o instinto de sobrevivência. Ele se propõe a acabar com esse elemento.
A procura da droga é para preencher o vazio, diminuir o sofrimento. Em minha experiência, esse é o princípio do dependente, sempre. Veja que problema: quando a droga é uma forma de acalmar a dor, alivia apenas em um momento, depois não mais. Mas ele se transforma num instrumento da realização do desejo do inconsciente de se matar. Essa é a grande contradição: a procura da droga é uma tentativa de sobrevivência, de preenchimento. Ao mesmo tempo, se torna um projeto de morte.' " (p. 82-83)

- In: Suicídio - o futuro interrompido (Paula Fontenelle)    

   

domingo, 8 de novembro de 2015

´Suicídio e Espiritualidade

No dia 29 de outubro, assisti à palestra "Prevenção ao Suicídio", ministrada pelo psiquiatra Flávio Braun, presidente da Associação Médico-Espírita de Santos. O evento fez parte da XVI Jornada de Saúde e Espiritualidade e aconteceu na Universidade Santa Cecília (UNISANTA).

Como pesquiso o tema, me interessa muito conhecer as diferentes compreensões sobre suicídio. Compartilho a seguir algumas ideias discutidas no encontro.

Além de apresentar dados estatísticos significativos que apontam a dimensão e a importância do tema, o Dr. Braun trouxe também alguns mitos sobre o suicídio, como a ideia de que não devemos falar sobre suicídio, pois isso aumenta o risco. 

Uma das primeiras frases apresentadas em relação à espiritualidade, destacada em vermelho, faz parte do seguinte texto:

"A calma e a resignação adquiridas na maneira de encarar a vida terrena, e a fé no futuro, dão ao Espírito uma serenidade que é o melhor preservativo da loucura e do suicídio. Com efeito, a maior parte dos casos de loucura são provocados pelas vicissitudes que o homem não tem forças de suportar. Se, portanto, graças à maneira por que o Espiritismo o faz encarar as coisas mundanas, ele recebe com indiferença, e até mesmo com alegria, os revezes e as decepções que em outras circunstâncias o levariam ao desespero, é evidente que essa força, que o eleva acima dos acontecimentos, preserva a sua razão dos abalos que o poderiam perturbar.

O mesmo se dá com o suicídio. Se excetuarmos os que se verificam por força da embriaguez e da loucura, e que podemos chamar de inconscientes, é certo que, sejam quais forem os motivos particulares, a causa geral é sempre o descontentamento. Ora, aquele que está certo de ser infeliz apenas um dia, e de se encontrar melhor nos dias seguintes, facilmente adquire paciência. Ele só se desespera se não ver um termo para os seus sofrimentos. E o que é a vida humana, em relação à eternidade, senão bem menos que um dia? Mas aquele que não crê na eternidade, que pensa tudo acabar com a vida, que se deixa abater pelo desgosto e o infortúnio, só vê na morte o fim dos seus pesares. Nada esperando, acha muito natural, muito lógico mesmo, abreviar as suas misérias pelo suicídio.

A incredulidade, a simples dúvida quanto ao futuro, as idéias materialistas, em uma palavra, são os maiores incentivadores do suicídio: elas produzem a frouxidão moral. Quando vemos, pois, homens de ciência, que se apoiam na autoridade do seu saber, esforçarem-se para provar aos seus ouvintes ou aos seus leitores, que eles nada têm a esperar depois da morte, não o vemos tentando convencê-los de que, se são infelizes, o melhor que podem fazer é matar-se? Que poderiam dizer para afastá-los dessa ideia? Que compensação poderão oferecer-lhes? Que esperanças poderão propor-lhes? Nada além do nada! De onde é forçoso concluir que, se o nada é o único remédio heroico, a única perspectiva possível, mais vale atirar-se logo a ele, do que deixar para mais tarde, aumentando assim o sofrimento.

A propagação das idéias materialistas é, portanto, o veneno que inocula em muitos a ideia do suicídio, e os que se fazem seus apóstolos assumem uma terrível responsabilidade. Com o Espiritismo, a dúvida não sendo mais permitida, modifica-se a visão da vida. O crente sabe que a vida se prolonga indefinidamente para além do túmulo, mas em condições inteiramente novas. Daí a paciência e a resignação, que muito naturalmente afastam a ideia do suicídio. Daí, numa palavra, a coragem moral.

O Espiritismo tem ainda, a esse respeito, outro resultado igualmente positivo, e talvez mais decisivo. Ele nos mostra os próprios suicidas revelando a sua situação infeliz, e prova que ninguém pode violar impunemente a lei de Deus, que proíbe ao homem abreviar a sua vida. Entre os suicidas, o sofrimento temporário, em lugar do eterno, nem por isso é menos terrível, e sua natureza dá o que pensar a quem quer que seja tentado a deixar este mundo antes da ordem de Deus. O espírita tem, portanto, para opor à idéia do suicídio, muitas razões: a certeza de uma vida futura, na qual ele sabe que será tanto mais feliz quanto mais infeliz e mais resignado tiver sido na Terra; a certeza de que, abreviando sua vida, chega a um resultado inteiramente contrário ao que esperava; que foge de um mal para cair noutro ainda pior, mais demorado e mais terrível; que se engana ao pensar que, ao se matar, irá mais depressa para o céu; que o suicídio é um obstáculo à reunião, no outro mundo, com as pessoas de sua afeição, que lá espera encontrar. De tudo isso resulta que o suicídio, só lhe oferecendo decepções, é contrário aos seus próprios interesses. Por isso, o número de suicídios que o Espiritismo impede é considerável, e podemos concluir que, quando todos forem espíritas, não haverá mais suicídios conscientes. Comparando, pois, os resultados das doutrinas materialistas e espírita, sob o ponto de vista do suicídio, vemos que a lógica de uma conduz a ele, enquanto a lógica de outra o evita, o que é confirmado pela experiência." 

- Trecho do livro "O Evangelho segundo o Espiritismo" 

Dr. Braun comentou que vivemos em um mundo com muitos avanços tecnológicos, porém a ciência ainda não nos ensinou o segredo da felicidade.

Do ponto de vista espiritualista, a doença física e mental, o desespero que pode levar ao suicídio, tem relação com a obsessão. Para o Espiritismo, obsessores são pessoas desencarnadas que querem o mal daquele que está encarnado.

"Um dia, a OBSESSÃO será colocada entre as causas patológicas, como é hoje a ação de animais microscópicos, de cuja existência não se suspeitava antes da invenção do microscópio" - Revista Espírita  

Por que é importante, na opinião do palestrante, incluir a espiritualidade na avaliação e tratamento do paciente? Estudos mundiais comprovam a importância deste tema quando se pensa em atenção ao suicídio.

No Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, algumas questões abordam especificamente o suicídio. O Dr. Brau apresentou algumas (perguntas 943 a 957 do livro) e selecionei as seguintes (retirei do site http://www.olivrodosespiritoscomentado.com):

   Desgosto da vida. Suicídio

943. Donde nasce o desgosto da vida, que, sem motivos plausíveis, se apodera de certos indivíduos?

“Efeito da ociosidade, da falta de fé e, também, da saciedade.
Para aquele que usa de suas faculdades com fim útil e de acordo com as suas aptidões naturais, o trabalho nada tem de árido e a vida se escoa mais rapidamente. Ele lhe suporta as vicissitudes com tanto mais paciência e resignação, quanto obra com o fito da felicidade mais sólida e mais durável que o espera.”


944. Tem o homem o direito de dispor da sua vida?

“Não; só a Deus assiste esse direito. O suicídio voluntário importa numa transgressão desta lei.”

a) - Não é sempre voluntário o suicídio?

“O louco que se mata não sabe o que faz.”

946. E do suicídio cujo fim é fugir, aquele que o comete, às misérias e às decepções deste mundo?

“Pobres Espíritos, que não têm a coragem de suportar as misérias da existência! Deus ajuda aos que sofrem e não aos que carecem de energia e de coragem. As tribulações da vida são provas ou expiações. Felizes os que as suportam sem se queixar, porque serão recompensados! Ai, porém, daqueles que esperam a salvação do que, na sua impiedade, chamam acaso, ou fortuna! O acaso, ou a fortuna, para me servir da linguagem deles, podem, com efeito, favorecê-los por um momento, mas para lhes fazer sentir mais tarde, cruelmente, a vacuidade dessas palavras.”

a) - Os que hajam conduzido o desgraçado a esse ato de desespero sofrerão as conseqüências de tal proceder?

“Oh! Esses, ai deles! Responderão como por um assassínio.”

948. É tão reprovável, como o que tem por causa o desespero, o suicídio daquele que procura escapar à vergonha de uma ação má?


“O suicídio não apaga a falta. Ao contrário, em vez de uma, haverá duas. Quando se teve a coragem de praticar o mal, é preciso ter-se a de lhe sofrer as conseqüências. Deus, que julga, pode, conforme a causa, abrandar os rigores de Sua justiça.”

949. Será desculpável o suicídio, quando tenha por fim obstar a que a vergonha caia sobre os filhos, ou sobre a família?

“O que assim procede não faz bem. Mas, como pensa que o faz, Deus lhe leva isso em conta, pois que é uma expiação que ele se impõe a si mesmo. A intenção lhe atenua a falta; entretanto, nem por isso deixa de haver falta. Demais; eliminai da vossa sociedade os abusos e os preconceitos e deixará de haver desses suicídios.”

950. Que pensar daquele que se mata, na esperança de chegar mais depressa a uma vida melhor?

“Outra loucura! Que faça o bem e mais cedo estará de lá chegar, pois, matando-se, retarda a sua entrada num mundo melhor e terá que pedir lhe seja permitido voltar, para concluir a vida a que pôs termo sob o influxo de uma idéia falsa. Uma falta, seja qual for, jamais abre a ninguém o santuário dos eleitos.”

952. Comete suicídio o homem que perece vítima de paixões que ele sabia lhe haviam de apressar o fim, porém a que já não podia resistir, por havê-las o hábito mudado em verdadeiras necessidades físicas?

“É um suicídio moral. Não percebeis que, nesse caso, o homem é duplamente culpado? Há nele então falta de coragem e bestialidade, acrescidas do esquecimento de Deus.”

a) - Será mais, ou menos, culpado do que o que tira a si mesmo a vida por desespero?

“É mais culpado, porque tem tempo de refletir sobre o seu suicídio. Naquele que o faz instantaneamente, há, muitas vezes, uma espécie de desvairamento, que alguma coisa tem da loucura. O outro será muito mais punido, por isso que as penas são proporcionadas sempre à consciência que o culpado tem das faltas que comete.”

953. Quando uma pessoa vê diante de si um fim inevitável e horrível, será culpada se abreviar de alguns instantes os seus sofrimentos, apressando voluntariamente sua morte?

“É sempre culpado aquele que não aguarda o termo que Deus lhe marcou para a existência. E quem poderá estar certo de que, mau grado às aparências, esse termo tenha chegado; de que um socorro inesperado não venha no último momento?”

a) - Concebe-se que, nas circunstâncias ordinárias, o suicídio seja condenável; mas, estamos figurando o caso em que a morte é inevitável e em que a vida só é encurtada de alguns instantes.

“É sempre uma falta de resignação e de submissão à vontade do Criador.”

955. Podem ser consideradas suicidas e sofrem as conseqüências de um suicídio as mulheres que, em certos países, se queimam voluntariamente sobre os corpos dos maridos?

“Obedecem a um preconceito e, muitas vezes, mais à força do que por vontade. Julgam cumprir um dever e esse não é o caráter do suicídio. Encontram desculpa na nulidade moral que as caracteriza, em a sua maioria, e na ignorância em que se acham. Esses usos bárbaros e estúpidos desaparecem com o advento da civilização.”

956. Alcançam o fim objetivado aqueles que, não podendo conformar-se com a perda de pessoas que lhes eram caras, se matam na esperança de ir juntar-se-lhes?

“Muito diverso do que esperam é o resultado que colhem. Em vez de se reunirem ao que era objeto de suas afeições, dele se afastam por longo tempo, pois não é possível que Deus recompense um ato de covardia e o insulto que Lhe fazem com o duvidarem da Sua providência. Pagarão esse instante de loucura com aflições maiores do que as que pensaram abreviar e não terão, para compensá-las, a satisfação que esperavam.” (934 e seguintes)

957. Quais, em geral, com relação ao estado do Espírito, as conseqüências do suicídio?

“Muito diversas são as conseqüências do suicídio. Não há penas determinadas e, em todos os casos, correspondem sempre às causas que o produziram. Há, porém, uma conseqüência a que o suicida não pode escapar; é o desapontamento. Mas, a sorte não é a mesma para todos; depende das circunstâncias. Alguns expiam a falta imediatamente, outros em nova existência, que será pior do que aquela cujo curso interromperam.”

Especialmente estas duas últimas respostas constituem-se, segundo o palestrante, em um importante fator de proteção ao suicídio, uma vez que a pessoa desilude-se da ideia de que ao morrer encontrará a paz e o fim do sofrimento, ou ainda, em outro caso, que reencontrará um ente querido que tenha falecido anteriormente.

A contribuição espírita, segundo o Dr. Braun, é no sentido de mostrar, para aquele que compartilha da mesma crença, que nunca se está fora da vida, ou seja, que não há como fugir do sofrimento. Para ele, esse é o paradigma fundamental para a prevenção do suicídio. 
A solução é que a pessoa lute para conquistar a paz dentro de sua existência atual, buscando sua saúde mental com a espiritualidade e uma reforma íntima. 

Para o Espiritismo:


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

"Embora a prevenção do suicídio seja bastante avançada nos Estados Unidos, onde o assunto é tratado como questão de saúde pública, mesmo naquele país há uma tendência em lidar com o suicida como um doente que precisa de diagnóstico e medicamento. Dr. Edwin Schneidman, responsável pela abertura do primeiro centro de prevenção ao suicídio nos Estados Unidos, em 1958, defende o oposto:

'Atualmente, o suicídio é identificado como um tipo de depressão, o que intelectualmente vem da Psiquiatria do século XIX. O Manual de Diagnóstico Estatístico, DSM-IV, o trata como se fosse um fígado ou rim. Eu acredito que existe uma enorme quantidade de dor psicológica no mundo sem suicídio, mas não há suicídio sem uma enorme dor psicológica.

O nome dessa dor é dor psíquica, ou seja, localizada na mente do indivíduo. É a dor da emoção negativa como vergonha e solidão. O suicídio é um estado de perturbação aguda, a pessoa está infeliz sobre o status quo e quer modificá-lo, portanto, o ato é um esforço no sentido de parar o fluxo da dor.

Minha abordagem clínica não é estabelecer um diagnóstico psiquiátrico, nem mesmo saber seu histórico familiar. Ambos são importantes, mas não são centrais. O foco é responder a duas perguntas: 'onde dói?' e 'como posso ajudá-lo?'. A maneira de prevenir o suicídio é identificar a fonte da dor, depois endereçá-la corretamente. O suicídio não é uma doença do cérebro, é uma perturbação da mente, uma tempestade psicológica".

In: Suicídio: o futuro interrompido - Guia para sobreviventes, de Paula Fontenelle.  


domingo, 1 de novembro de 2015

Suicídio: o futuro interrompido - Guia para sobreviventes

Contracapa:

"Neste livro extraordinariamente polêmico, a jornalista Paula Fontenelle conta como seu pai matou-se com um tiro; como ela própria pensou que teria o mesmo destino; e como, afinal, decidiu-se por outra alternativa: estudar por que as pessoas se matam, se é possível evitar o suicídio e o que se pode fazer para enfrentar a questão. Assim, enquanto conta sua própria história e revela dezenas de outras, todas comoventes e trágicas, ela levanta estatísticas, entrevista especialistas e, ao final, tenta responder à questão filosófica mais fundamental de existência: afinal, qual o sentido da vida? Reportagem vibrante e inesquecível, além de estudo profundo, este livro é também um guia fundamental para todos os que se interessam pelo assunto e para os que, por uma razão ou outra, precisam enfrentar essa difícil situação."

Trecho do livro:

"Diferentemente do que acontece em outros tipos de morte, após um suicídio, a tristeza demora um pouco mais para se fazer presente, ou, no mínimo, se mistura com uma série de outras emoções. É como se tivéssemos de resolver algumas questões internas antes, procurar respostas, tentar encontrar sentido no inimaginável e vivenciar a perda.
No meio disso tudo vêem as lágrimas. Você chora, pára, pensa, tem raiva, não aceita, se revolta, é consumida pela impotência, se culpa, culpa o morto e chora de novo. Por algum tempo, sua vida fica como se estivesse em compasso de espera, o corpo e a mente precisam encontrar o chão firme, mas você flutua em busca de respostas. O duro é que em grande parte elas nunca virão.
Depois que a poeira senta, a sensação que se tem é que a tristeza vem mais forte. É nesse momento que você precisa ficar muito atenta, porque a linha que separa o luto da depressão é tênue e cada um requer tratamento específico. O luto é natural, mas vai se atenuando com o tempo. Na depressão, não. O problema é que ela se mascara e nós temos a tendência de procurar justificativas para aquela angústia, a falta de ânimo para as coisas e o aperto no coração. Eu senti isso na pele." (p. 148) 
      





quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Suicídio Infantil

Suicídio infantil e o caso da menina de 12 anos que se enforcou para rever o pai

Do Site Contioutra  - Link no final do texto




Em outubro do ano passado o Blog PsiconlineBrasil publicou uma matéria sobre o caso da menina Maria Kilso que cometeu suicídio após a morte do pai.
 Brasil, Rússia e outros países reconhecem um aumento significativo dos índices de suicídio entre crianças e adolescentes.
Além disso, temas como bulling, psicopatia infantil e violência doméstica têm entrado cada vez mais em discussão.
A sociedade tradicionalmente concebe a criança como um ser puro, angelical e a família como sua protetora. Entretanto, é sabido que quando algo foge à regra a tendência dessa mesma sociedade é de ocultar o problema, silenciar-se ou mesmo fingir-se de cega. É como se, reconhecer o problema o tornasse maior e a família menos digna.
Nos casos de violência doméstica há o silêncio social das pessoas que sabem que a violência existe, mas não denunciam.
E, entre os familiares, mesmo sem violência física, pode haver um afastamento emocional que impede um vínculo que seja suficientemente suportivo para uma criança que está com a personalidade em pleno desenvolvimento.
Isso, é claro, sem falar da minimização de sintomas psiquiátricos em crianças que podem ser ignorados ou mesmo não tratados por falta de diagnóstico correto.
A questão é, de qualquer maneira, precisamos estar atentos aos sinais, uma vez que eles existem.
Abaixo o exemplo mencionado de um suicídio infantil e após considerações e alertas sobre o tema.
MENINA DE 12 ANOS SE ENFORCA E DEIXA RECADO DIZENDO QUE QUERIA ENCONTRAR SEU PAI NO CÉU
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Uma menina de 12 anos foi encontrada enforcada em seu quarto com um bilhete ao lado dizendo que ela queria ficar com seu pai no céu. Maria Kislo ficou arrasada com a perda de seu pai, Arek, que morreu após sofrer um súbito ataque cardíaco em 2009.
A menina foi encontrada por sua mãe, Monika, de 35 anos, que havia subido ao quarto da garota para ler uma história antes dela dormir. O recado de Maria para a mãe dizia: “querida mamãe. Por favor, não fique triste. Eu sinto tanta falta do papai, que quero vê-lo novamente.”
Monika ficou desolada, e disse que só tem forças para superar por causa do filho Michal, de 13 anos.
SUICÍDIO NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

A ideação suicida é comum na idade escolar e na adolescência; as tentativas, porém, são raras em crianças pequenas. Tentativas de suicídio consumado aumentam com a idade, tornando-se comuns durante a adolescência.

Dos 6 aos 7 anos a criança encontra-se na fase do pensamento pré-lógico, com predomínio do pensamento mágico. No seu modo egocêntrico de pensar, a criança não admite a existência do acaso, já que relaciona todos os eventos a suas próprias experiências. Nesta fase, a ideia de morte é limitada e não envolve uma emoção em especial.

O pensamento mágico vai sendo substituiodo pelo raciocionio lógico e a morte para de ser vista como processo reversível e torna-se uma ideia de processo de deterioração do corpo irreversível; sem preocupação, porém com o que virá após a morte.

Aos 11 a 12 anos, há passagem do pensamento concreto para o pensamento abstrato e surge a preocupação com a vida após a morte. O jovem entra no mundo através de profundas alterações no seu corpo, deixando para trás a infância e e é lançado num contexto desconhecido de novas relações. Assim, invadido pó forte angústia, confusão e sentimento de que ninguém o entende, que está só e que é incapaz de decidir corretamente seu futuro.

Isso ocorre, principalmente, se o jovem estiver num grupo familiar também em crise, por separação dos pais, violência doméstica, alcoolismo ou doença mental de um dos pais, doença física ou morte.

O jovem que considera o suicídio como a solução para seus problemas deve ser observado de perto, principalmente se estiver se sentindo só e desesperado, sofrendo a pressão de estressores ambientai e insinuando que é um fardo para os demais.

FATORES DE RISCO

90% dos jovens apresentam algum transtorno mental no momento do suicídio (e em 50% destes o transtorno mental já estava presente havia pelo menos 2 anos). Comportamentos de risco: envolvimento em esportes radicais sem técnica e equipamentos adequados, dirigir embriagado, uso abusivo de drogas ilícitas, atividade sexual promíscua, brigas constantes e envolvimento com gangues. Baixa energia decorrente de estados depressivos leva à desesperança e ao menor potencial para geração de soluções alternativas para situações problemáticas interpessoais assim como uma menor flexibilidade para enfrentar situações problemáticas. Outro problema é considerar eventos negativos como de sua responsabilidade. Já o lado oposto e que também leva a situações de alto risco são os comportamentos impulsivos e a agressividade.

MITOS E VERDADE DE COMPORTAMENTOS SUICIDAS

MITOS

Quem quer se matar não avisa!
Um suicida quer realmente morrer?
Suicídio é covardia ou coragem?
O suicida tem que estar deprmidio?
VERDADES

80% avisam que vão se matar!
O suicida não quer morrer e sim parar de sofrer!
O suicídio é visto como uma solução para acabar com o sofrimento.
RECOMENDAÇOES AO SE AVALIAR CRIANÇAS E ADOLESCENTES QUE TENTARAM SUICÍDIO

Todas as ameaças de suicídio devem ser encaradas com seriedade, mesmo quando possam parecer falsas ou manipulativas. Ajudar a pessoa a avaliar a situação, permitindo que ela descubra novas soluções para seu sofrimento, explorar com ele tais soluções e orientá-lo em direação a uma ação concreta. Procurar compreender as razões pela qual a crinaça ou adolescente optou pelo suicídio como forma de lidar com seu sofrimento, não minimizando seus problemas e sofrimento. Transmitir esperança sem dar falsas garantias e não fazer promessas que não possam ser cumpridas. Romper o isolamento em que vive o jovem e abordá-lo diretamente. Expressar disponibilidade para escutá-lo sem julgamento, evitar insultos, culpabilização ou repreensões morais. Reconhecer a legitimidade do problema e tratá-lo como adulto. Avaliar a urgência do caso, verificar se as ideias de suicídio são frequentes e se o jovem apresenta meios para executá-lo. Não deixar o cliente sozinho até que as providências sejam tomadas. Desmentir o mito de que os adultos não podem mais ajudá-lo. Envolver a família.

QUESTÕES QUE AJUDAM A AVALIAR A INTENÇÃO SUICIDA EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Você já se sentiu chateado alguma vez em que desejou morrer? 
Alguma vez você fez algo que sabia ser perigoso o bastante para você se machucar ou até mesmo morrer? 
Alguma vez você tentou se machucar? 
Alguma vez você já tentou se matar? 
Você, às vezes, pensa em se matar?

Fonte:

Publicado em 30 de maio de 2014.


domingo, 25 de outubro de 2015

Suicídio e adolescência

"Tentativas de suicídio e suicídio entre adolescentes constituem-se em uma situação frequente na atualidade, ocorrendo, em sua maioria, após rompimentos de relacionamentos afetivos ou desentendimentos familiares. Nessa perspectiva, adolescentes justificam tentativas de suicídios em função de vínculos familiares fragilizados ou distorcidos e relações afetivas rompidas ou não correspondidas que, simbolicamente, podem significar frustração afetiva, familiar, relacional, social e cultural.

Neste contexto, percebe-se que as tentativas de suicídio refletem também nas pessoas próximas destes sujeitos, havendo modificação na vida cotidiana de cada um, inserido em um círculo momentâneo de dor e insegurança, afinal, ao mesmo tempo o indivíduo é homicida e vítima. Em geral, o adolescente nessa situação vive uma crise familiar desencadeada pela tentativa de suicídio a qual se mostra complexa, uma vez que é influenciada pelas histórias passadas, presentes e pelas expectativas em relação ao futuro, cujo sofrimento pode paralisar a família e gerar o medo de que essa situação ameace a estrutura familiar.

A adolescência, de acordo com o paradigma biomédico, é uma fase do desenvolvimento humano de transição entre a infância e a vida adulta, identificada principalmente pelas transformações biológicas da puberdade e relacionadas à maturidade biopsicossocial. Adolescente é toda pessoa com idade entre 12 e 18 anos, configurando-se em uma fase de transição entre a infância e a idade adulta, podendo ser considerada uma etapa do desenvolvimento do ser humano e marcada por inúmeras transformações físicas, emocionais e sociais. Cabe a ressalva de que sofrimentos vivenciados nesse período podem impingir marcas, com reflexos ao longo da vida do indivíduo.

Na mesma perspectiva, na adolescência podem ocorrer conflitos entre gerações, choque entre os interesses e valores dentro da ordem familiar e, ainda, nesta fase o prazer aparece aliado ao medo. No intuito de corroborar, a adolescência, assim como outras fases do desenvolvimento, se caracteriza em todos os momentos pela polaridade entre perdas e ganhos, lutos e aprendizagens, bem como medos e vivências de novas experiências. O jovem tende a ser contestador, impetuoso e, ao mesmo tempo, imaturo e inseguro ao deparar-se com novas visões da família e da sociedade, aliado a um novo papel social, com escolhas sexuais e profissionais.

O suicídio tem se mostrado uma situação comum, vivenciada por adolescentes. Este evento resulta de um ato deliberado, iniciado e levado a termo por uma pessoa com conhecimento ou expectativa de um resultado fatal.  O suicídio é hoje responsável por 12% das mortes entre adolescentes. Do mesmo modo houve aumento da prevalência de tentativas de suicídio. A maioria das tentativas de suicídio na adolescência está associada a transtornos psiquiátricos, em especial, os depressivos." 

[...]
"Os relatos evidenciam que os adolescentes não almejam a morte, o que desejam na verdade é livrar-se do sofrimento, tendem a buscar incansavelmente uma vida nova, sem frustrações e confrontos, a fim de encerrar o desgosto de uma existência que lhe parece desprovida de sentido. Em estudo realizado com profissionais de saúde de emergências psiquiátricas, evidencia-se que o suicida está tentando fugir de uma situação de sofrimento que chega aos limites do insuportável, a tentativa de suicídio mostra-se como um momento de pedido de ajuda, em situação de extremo desespero." 

[...]
"A rede de apoio desempenha um papel preponderante na inclusão social de pessoas que tentaram o suicídio e se constitui em instrumento de proteção, uma vez que permite a inserção dos jovens. Nela o adolescente pode encontrar ajuda por meio da discussão de problemas inerentes a sua realidade individual. Bom relacionamento com familiares, apoio familiar, relações sociais satisfatórias, confiança em si mesmo, capacidade de procurar ajuda, manutenção da integração social e bom relacionamento com colegas, professores e amigos se constituem em fatores de proteção contra o comportamento suicida."

Referência: Hildebrandt LM, Zart F, Leite MT. A tentativa de suicídio na percepção de adolescentes: um estudo descritivo. Rev. Eletr. Enf. [Internet]. 2011 abr/jun;13(2):219-26.