domingo, 3 de fevereiro de 2019

Suicídio é sempre um abalo narcísico para os que ficam

EDIÇÃO 515 | 13 NOVEMBRO 2017

   
Vitor Necchi  
Para Paulo Gleich, a onipotência nas relações afetivas faz com que as pessoas considerem possível salvar o outro com o amor, mas esse amor só tem valor quando o outro deseja recebê-lo

Ao se falar em suicídio, não há como estabelecer grandes generalizações. “O denominador comum do suicídio é apenas o fato de uma pessoa tirar a própria vida; o que antecede essa decisão, se longos anos de reflexão ou alguns segundos de desespero, é muito singular”, explica o psicanalista Paulo Gleich. Em relação aos sobreviventes, observa a importância de tentar ajudá-los a falar sobre o ocorrido. “Isso pode ser muito difícil para as pessoas próximas, que podem estar muito atemorizadas, angustiadas, raivosas.” Além disso, “é preciso respeitar o tempo do sujeito para conseguir falar da experiência”.

Para os familiares e amigos de quem se suicida, fica a pergunta acerca dos motivos, “jamais satisfatoriamente respondida, por mais cartas e bilhetes que se deixem”. O “por quê?”, além do questionamento mais direto, expressa também uma carga de culpa. “Um suicídio é sempre um abalo narcísico para os que ficam, pois sentem que faltaram, que deveriam ter feito mais, ter agido diferente”, traduz Gleich, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “Isso faz parte de nossa onipotência nas relações afetivas: sempre achamos que está a nosso alcance ‘salvar’ ou ‘segurar’ o outro com nosso amor, quando, na verdade, esse amor só tem valor quando o outro deseja recebê-lo.”

O suicídio é a quarta causa de morte de brasileiros entre 15 e 29 anos. Ao descrever a “pane geral no sistema” que ocorre na adolescência, Gleich salienta que a fragilidade que disso decorre torna o adolescente “mais suscetível a não vislumbrar saídas para seus impasses, como a dificuldade de encontrar um lugar no mundo – ou formas de matar simbolicamente a criança que fora para seus pais, que cada vez mais têm dificuldade em suportar essa perda”.

Assim, discutir o tema na escola “pode ajudar alguém que sofre de pensamentos suicidas a procurar ajuda”. Ao mesmo tempo em que reconhece que o tabu acerca do assunto gera isolamento, Gleich tem dúvida sobre a prevenção ao suicídio: “essa me parece uma ideia um tanto onipotente, por um lado, e com um cunho higienista, como ainda são muitas políticas de saúde”. Para ele, atribuir o suicídio a uma questão de saúde mental “é reduzir e individualizar um problema que reflete, também, sintomas de como se organiza nossa sociedade”.

Paulo Gleich é bacharel em Jornalismo e Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, psicanalista, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre - APPOA e do Instituto APPOA.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que antecede a decisão do suicídio?
Paulo Gleich – Ocorreu-me uma resposta aparentemente óbvia e tola, mas que talvez diga da complexidade desse tema: o que antecede o suicídio é a vida. Ou seja, há tanto que antecede essa decisão, e é tão singular esse antecedente, que não é possível formular uma resposta que contemple alguma universalidade. Isso talvez porque o suicídio seja um fenômeno sob o qual se agrupam acontecimentos muito diferentes do ponto de vista do sentido: pode ser uma medida desesperada diante de uma situação à qual não se vê saída, pode ser um ato de honra se inscrito em determinada cultura, pode ser uma tentativa de escapar de uma morte ainda mais angustiante, a morte psíquica – o que acontece em muitos casos de suicídios de psicóticos. O denominador comum do suicídio é apenas o fato de uma pessoa tirar a própria vida; o que antecede essa decisão, se longos anos de reflexão ou alguns segundos de desespero, é muito singular.

IHU On-Line – Se a pessoa sobrevive à tentativa de suicídio, o que deve ser feito?
Paulo Gleich – Novamente, difícil responder a essa questão sem contemplar a singularidade. Uma tentativa de suicídio não é igual a outra, mas, como denominador comum, pode-se pensar que há ali algo sendo atuado, em vez de ser dito. Assim, talvez o que se possa fazer com esse sobrevivente seja tentar ajudá-lo a falar sobre o ocorrido. Isso pode ser muito difícil para as pessoas próximas, que podem estar muito atemorizadas, angustiadas, raivosas – enfim, tomadas por diferentes afetos. Também é preciso respeitar o tempo do sujeito para conseguir falar da experiência, o que, novamente, às vezes é muito difícil para as pessoas mais próximas. Procurar um profissional psi pode, nesse momento, ajudar muito – nem que seja para que os familiares ou outras pessoas próximas possam encontrar auxílio para lidar com a situação. Isso também vale para situações de suspeita: buscar conversar e escutar, ou então a ajuda de um profissional que possa avaliar a situação.

IHU On-Line – Há casos em que o suicídio deveria ser considerado um direito da pessoa?
Paulo Gleich – Aqui se coloca uma questão muito complexa, pois essa pergunta pode ser respondida desde vários âmbitos, com respostas diferentes. Um religioso dificilmente diria que sim – suicídio é, em muitas religiões, pecado; um legislador dificilmente diria que não – afinal de contas, cada um pode (ainda) dispor de seu corpo como lhe convier. A mim, como psicanalista, não cabe legislar sobre as escolhas de ninguém; mas, se alguém me procura com pensamentos ou planos de suicídio, preciso ajudá-lo a entender por que pensa que deve deixar de viver e, talvez, a criar outros sentidos para a vida, outras maneiras de lidar com seus impasses e angústias.

IHU On-Line – Que contornos específicos tem a dor da perda para familiares e amigos de alguém que se suicida? Como elaborar este luto?
Paulo Gleich – Talvez o que sempre fique, de alguma maneira, é a pergunta “por quê?”, jamais satisfatoriamente respondida, por mais cartas e bilhetes que se deixem. Essa pergunta tem, para os amigos e familiares sobreviventes, não apenas seu sentido mais explícito – o que o levou a tirar a própria vida? –, mas também uma carga de culpa. Por que você fez isso comigo? Meu amor, minha presença não foram suficientes? Um suicídio é sempre um abalo narcísico para os que ficam, pois sentem que faltaram, que deveriam ter feito mais, ter agido diferente. Isso faz parte de nossa onipotência nas relações afetivas: sempre achamos que está a nosso alcance “salvar” ou “segurar” o outro com nosso amor, quando, na verdade, esse amor só tem valor quando o outro deseja recebê-lo.

Não há fórmula para o luto, cada um tramita suas perdas de maneira singular. Mas, no caso do suicídio, passa também por tramitar essa fantasia onipotente de que poderíamos ter salvo alguém se… se… se… Como todo luto neurótico, no final das contas, o que nos custa aceitar é o quanto somos falhos, insuficientes, impotentes.

IHU On-Line – Suicídio é a quarta causa de morte de brasileiros entre 15 e 29 anos. Que vulnerabilidades a adolescência apresenta em relação ao suicídio?
Paulo Gleich – A adolescência é, de forma simplificada, uma pane geral no sistema: muda o corpo e o olhar dos outros sobre o corpo, muda a relação com os pais, com os amigos, com o mundo. Adolescentes experimentam um enorme desamparo: seu mundo caiu, e o mundo que começam a construir no lugar ainda é muito frágil, sujeito à aprovação dos pares e à sustentação de uma precária autoimagem. A indiferença adolescente é um disfarce para a profunda insegurança que sentem, na verdade o que acontece ao redor os afeta demasiado; por isso, criam essa casca de “não tô nem aí”, ou mesmo atitudes e visuais agressivos. Sendo assim, as crises na adolescência também são muito mais intensas: o fim de um amor pode equivaler ao fim do mundo, mesmo que por apenas alguns dias. Enfim: a fragilidade do adolescente também o torna mais suscetível a não vislumbrar saídas para seus impasses, como a dificuldade de encontrar um lugar no mundo – ou formas de matar simbolicamente a criança que fora para seus pais, que cada vez mais têm dificuldade em suportar essa perda.

IHU On-Line – Algumas escolas têm discutido temas como bullying. Elas também não seriam espaços adequados e oportunos para se discutir a prevenção do suicídio?
Paulo Gleich – Certamente: que se possa falar do tema, também na escola, pode ajudar alguém que sofre de pensamentos suicidas a procurar ajuda, falar sobre isso. O tabu gera um isolamento, uma sensação de que se vive aquilo sozinho, de que se é louco. Porém, tenho minhas dúvidas sobre a prevenção ao suicídio: essa me parece uma ideia um tanto onipotente, por um lado, e com um cunho higienista, como ainda são muitas políticas de saúde. De fato, atribuir o suicídio a uma mera questão de “saúde mental” é reduzir e individualizar um problema que reflete, também, sintomas de como se organiza nossa sociedade. Falamos muito sobre o bullying como um fenômeno entre crianças e adolescentes, mas falamos menos sobre como isso espelha uma lógica que em alguma medida nos organiza a todos: nos é mais fácil estabelecer um coletivo pela identificação de um excluído, um inimigo ao qual devemos combater, do que nos reunirmos em torno de algum ideal comum compartilhado. As variações nas taxas de suicídio ao redor do mundo indicam que ele é, também, produto da cultura de um tempo – mesmo que seja um indivíduo que o leve a cabo.

IHU On-Line – Pais e responsáveis por crianças e adolescentes devem estar atentos a quais sinais? E o risco de sufocá-los por tanto cuidado?
Paulo Gleich – É um risco elencar sinais porque sinais, justamente, enganam: podem ter vários sentidos. Alguém que comece a se vestir de preto, falar de morte e tristeza poderia ser um potencial suicida, mas também um adolescente que encontra sentido para a vida ao se juntar com outros para cultuar aquilo que os adultos repelem – e que repele os adultos: a morte. Não há um “perfil” de suicida, mas é importante que, mais perto ou mais longe, de acordo com os movimentos dos filhos, os pais possam acompanhá-los, manter-se à disposição para acolhê-los. Agora, essa questão do sufocamento é importante, pois os pais com frequência confundem cuidado com controle, e isso não apenas torna mais difíceis para os adolescentes os necessários ensaios fora do olhar dos pais, como também lhes transmite falta de confiança – neles e em sua capacidade de dar conta de si.

Penso que, mais que sinais a serem detectados, é importante que pais procurem ajuda se tiverem medos ou fantasias de que seus filhos estejam deprimidos ou pensando em suicídio. Um psi sensível deveria saber avaliar quem está precisando mais de ajuda, se o filho ou os pais. Não raro são estes últimos.

IHU On-Line – Há preconceito em relação a quem tenta pôr fim à própria vida?
Paulo Gleich – Sem dúvida. Há preconceito contra quem come e quem não come carne, quem dirá quem tenta tirar a própria vida! Como qualquer preconceito, porém, esse revela muito mais de quem julga que do julgado. Como é muito perturbadora a mera ideia de fantasiar e até mesmo desejar a própria morte, cria-se, para afastá-la de si mesmo, uma imagem na qual não nos reconheçamos. Assim, transfere-se um pensamento proibido, inconsciente, para fora de si mesmo. O preconceito é uma ferramenta básica do pensamento, é como sustentamos nosso senso de identidade; porém, agir guiado por esse preconceito, atacando outros por aquilo que não se reconhece em si mesmo, é uma forma um tanto bárbara de sustentar uma identidade, no final das contas, frágil.

IHU On-Line – Em algumas religiões, os ritos fúnebres dedicados aos suicidas costumavam ser diferentes. Por quê?
Paulo Gleich – Um estudioso de teologia poderia responder isso com muito mais propriedade que eu. Para não dar uma resposta pouco honesta made in Google, compartilho uma hipótese que segue na linha do que falei anteriormente. Ao marcar um diferente, se estabelece uma relação de valores, de hierarquia – e desconfio que, na maioria das religiões, o suicida seja um morto “classe B”. Na religião cristã, faz todo sentido que se combata o suicídio: se o tempo todo se é lembrado que a vida que vale mesmo a pena é a que viria após a morte, por que se perderia tanto tempo com o calvário da vida terrena? Desconfio que, se não recaísse esse preconceito sobre quem decide sobre a própria morte, diminuiria drasticamente o número de fiéis – ao menos nos tempos em que se levava mais a sério a palavra de Deus. As religiões podem tratar dos assuntos divinos e de outros planos mais nobres que os terrestres, mas é na mundana realidade que elas exercem seu poder – e, por isso, não abrem mão de fiéis tão facilmente.

IHU On-Line – A arte, particularmente literatura, cinema e música, é oportuna para subsidiar reflexões acerca do suicídio?
Paulo Gleich – Acho que a arte sempre tem algo a nos ensinar. Para nós, psicanalistas, os artistas, sobretudo os escritores, nos precedem na leitura do mal-estar de nosso tempo. Sua antena capta primeiro os movimentos tectônicos que nos afetam, como indivíduos e sociedade. Assim, me parecem excelentes formas de se aproximar do tema – não da forma como tantas vezes se pretende, “didática”, mas como disparador para oportunizar exercícios de pensamento, discussão, circulação da palavra.

Isso vale inclusive para 13 reasons why , embora o suicídio apareça ali como instrumento de vingança e culpabilização, com toda a estratégia montada pela personagem. Pessoalmente não gostei da série por esse viés, que, por outro lado, é consoante com a lógica ressentida que impera na atualidade. Tudo depende do que se faz com ela: se apenas se mostra como “material didático sobre suicídio”, é péssima; se é usado como dispositivo para problematizar essa e outras questões, como violência, problemas com os pais, questões amorosas etc., pode ser bastante potente.

Mesmo um produto cultural “ruim” pode ser um disparador oportuno, depende da forma como é apresentado e daquilo que suscita em termos de discussão e pensamento. É próprio da nossa lógica contemporânea atribuir qualidades intrínsecas às coisas, separando-as em boas e ruins – buscando, de preferência, excluir estas últimas, como se isso fosse consertar o mundo. É uma lógica de avestruz, que infantiliza e desresponsabiliza. A série mostra o suicídio sob uma ótica problemática? Falemos mais a fundo sobre esse assunto, pensemos por que é essa visão sobre suicídio que se difunde na cultura, em vez de apenas discutir se a exaltamos ou demonizamos.

IHU On-Line – A internet potencializa os riscos para um suicida?
Paulo Gleich – Como não existe “um” suicida padrão, em muitos casos a internet pode lhe ser totalmente indiferente. Para alguns, no entanto – já tivemos notícias disso – ela pode, sim, até contribuir para precipitar o ato. Porém, não é “a internet” que potencializa os riscos, e sim as conexões que se podem estabelecer ali. A internet potencializa todas as fantasias, ao colocá-las ao alcance da mão – bem como o contato com interlocutores que as compartilhem. Que isso tenha também efeito sobre alguns suicidas é, talvez, inevitável – infelizmente. Provavelmente viveremos ainda muitas transformações na e pela internet – e, umas tantas delas, como tudo na história da humanidade, serão menos desejáveis. Se dezenas de jovens tiraram a própria vida por ler uma fantasia romântica de Goethe séculos atrás, como imaginamos salvar todos nossos adolescentes, tão ou mais frágeis que os de antanho, porém criados com a cornucópia de fantasias e conexões desse Aleph digital? É triste admitir, mas nossa onipotência esbarra na morte – mesmo dessa que, aparentemente, poderia ser controlada por ser executada pelas próprias mãos. 

http://www.ihuonline.unisinos.br/artigo/7124-suicidio-e-sempre-um-abalo-narcisico-para-os-que-ficam?fbclid=IwAR2-DEgXzGXRINscmuOSSDUkpYVqYFohDvam4vLQl5CZ0LsqkcQnQYBWTac



domingo, 20 de janeiro de 2019

Mikhael tinha 15 anos e cursava o nono ano quando tirou a própria vida, dias antes do último Natal. Os pais são Daniel e Isabela Mastral: ele é escritor e conferencista, 51 anos, e ela médica, 49. No início do ano, o adolescente que adorava estudar inglês e era chamado de Mik pelos pais, foi diagnosticado com depressão e síndrome de Borderline, quando há mudanças de humor, medo de ser abandonado e comportamentos impulsivos. 

Cerca de 10% dos pacientes cometem suicídio.Em duas das ocasiões nas quais tentou o suicídio, foi salvo pela mãe. No último dia 22, ela não pôde estar perto. Isabela, que não conseguiu acompanhar o enterro de Mikhael devido à emoção, conta como tem vivido até aqui. Seu relato foi feito à Universa com a ajuda do marido, Daniel.

"É muito triste ver um filho abatido. Ele teve todo nosso amor, amparo, acolhimento, orações. Teve também suporte psiquiátrico de perto. Não levamos nenhum peso de culpa. Fizemos nosso melhor. Paramos nosso trabalho para nos dedicar em tempo integral a ele. Nunca negamos um abraço. Eu também tive depressão e Borderline. Demorou mais de dez anos para achar o tratamento certo. Mikhael era um jovem bom, respeitador, honesto, puro e, muitas vezes, ingênuo. Acreditava nas pessoas e no amor. Tratava todos como iguais. Passou a se sentir um peso para nós. Ele sabia que estávamos tomando antidepressivos também e achava que a vida dele estava nos matando. Dizia sempre que nos amava.

Antes da doença se manifestar, Mik saía mais, sorria, brincava, estudava, fazia planos. Aí ele mudou. Parecia ter girado uma chave. Caiu seu rendimento escolar, não saía mais do quarto, passou a ter uma perturbação com sua aparência. Estava com anorexia e bulimia. Tampava o seu espelho para não se ver. Sua autoestima estava baixa, e insistimos em estar com ele sempre. Mas era como ver uma luz apagando. Dia a dia. Não se alimentava, não tomava banho.

Ele se afastou das redes sociais e recebia poucas visitas. Achava que os amigos o abandonaram. Outros, para piorar, ofereceram a ele álcool e drogas para "anestesiar" a dor. E isso piora o quadro, como aconteceu.Antes deste episódio, houve uma intoxicação e consegui mantê-lo vivo. Ele ficou internado em UTI por quatro dias, 16 horas em coma profundo. No dia 20 de dezembro, se feriu e conseguimos contornar novamente a situação. Consegui novamente evitar que algo pior acontecesse. 

No dia seguinte, o levamos a uma especialista em transtornos em adolescentes e saímos com a esperança de conseguirmos uma vaga no HC (Hospital das Clínicas de São Paulo) para tratamento. A médica considerou seu estado bom. Ele saiu feliz da consulta, enxergando melhores possibilidades. Nessa mesma sexta-feira, saiu para encontrar umas amigas. Sábado, dia 22, tentou novamente se matar e dessa vez não estávamos perto. Naquele mesmo dia, no fim da tarde, a vaga do HC estava à disposição, mas era tarde demais. Ele deixou seu diário. Lá, escreveu tudo o que estava sentindo, desde a primeira tentativa. Escreveu do fundo do poço. Vamos publicar o diário dele na data em que faria 16 anos, 15 de fevereiro. É um relato feito por alguém muito ferido. Nós também vamos apresentar nosso olhar nessa publicação, no site. Somos cristãos e Jesus nos ensina que não é fraqueza expor a dor.Espero que ajude muitos a enxergar que depressão é uma doença e que essas pessoas recebam mais empatia. Elas precisam de amor. Esperamos também que preconceitos caiam. Não há como acrescentar mais dor e punição a quem está tão ferido.

Peço que escolas e amigos não os abandonem, não zombem, não julguem quem está nessa situação. Sejam pacientes, abracem, acolham, visitem. Isso os faz se sentirem importantes. Esgotamos todos os recursos. Fizemos nosso melhor. Infelizmente, enquanto acharem que depressão é "frescura" ou que é "demônio", os índices podem aumentar. Falar sobre o tema é a melhor maneira. Papais e mamães: não carreguem o fardo da culpa. Um dia, estaremos todos juntos.Estamos vivendo o luto. Dói profundamente. Como se uma estaca entrasse em seu peito. Não 'briguem' com Deus. Nem esperem respostas rápidas. Tudo vem ao seu tempo. A dor será transformada em saudade e ela em boas lembranças". 



domingo, 13 de janeiro de 2019

Livro: Por que policiais se matam?

"O diferencial das taxas de suicídio de policiais e da população geral também é expressivo no Brasil. Musumeci e Muniz (1998, p. 30) fizeram um mapeamento da vitimização de policiais militares e civis na cidade do Rio de Janeiro, e constataram que a taxa de suicídio da polícia militar carioca em 1995 foi 7,6 vezes superior à da população geral, ainda que 100% das mortes tenham acontecido durante a folga do policial" (p. 19).

"Os principais achados do projeto de pesquisa 'Suicídio e Risco Ocupacional: o caso da Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro' são objeto de análise da primeira parte deste livro. Trata-se de um estudo exploratório que buscou investigar o perfil de policiais militares, a gravidade e as dimensões do problema no estado do Rio de Janeiro. Quem são os policiais militares que se matam? E os que pensam, mas não tentam suicídio? E os que pensam e tentam se matar? Por que agentes de segurança pública tentam se matar? Será que o número de mortes por suicídio e tentativas entre a população policial militar é maior do que entre a população geral do estado da Guanabara? Podemos dizer o mesmo no que concerne à taxa e ao risco relativo de mortes por suicídio entre policiais? Em que condições, policiais militares pensam, tentam e cometem suicídio? Quais são fatores associados ao comportamento suicida entre policiais militares da PMERJ?"

"O perfil do policial suicida na PMERJ, reconstituído a partir das autópsias psicossociais com os seus colegas, amigos e familiares, reúne as seguintes características:

> Ser homem, casado, com filhos e evangélico.
> A maioria dos policiais mortos por suicídio fazia exercícios físicos; não fumavam  e consumiam bebida alcoólica.
> Alguns suicidas utilizaram serviços médicos antes da morte. O serviço psiquiátrico  é um recurso pouco usado pelo policial militar.
> Não há concentração de mortes por suicídio nos diferentes batalhões.
> A maioria dos casos policiais suicidas são de praças.
> Os policiais suicidas tinham ocupação remunerada fora da PMERJ. A atividade principal  era a segurança privada.
> A maioria parte dos mortos por suicídio declarou satisfação em trabalhar na PMERJ.
> E os principais problemas de saúde dos policiais suicidas: diabetes, gastrite, problemas psiquiátricos (depressão e alteração de humor) e consumo de drogas.
fonte: Elaboração própria" (p. 57).

"O diagnóstico concluiu que a maioria dos casos aconteceu sem planejamento. Dezessete policiais agiram por impulsividade. Muitos deles afirmaram que o incidente significou uma resposta imediata ao acúmulo de problemas diversos. Embora esses policiais não tenham planejado o ato suicida, 19 do total (n=22) confessaram ter pensado na maneira pela qual poria 'fim' a sua própria vida" (p. 58).

Trabalho interessantíssimo, organizado pela competente Dayse Miranda.
Leitura mais do que recomendada!




domingo, 6 de janeiro de 2019

Óbitos por Suicídio entre Adolescentes e Jovens Negros – 2012 a 2016

O Ministério da Saúde lançou, na última segunda-feira (31), a cartilha ‘Óbitos por Suicídio entre Adolescentes e Jovens Negros – 2012 a 2016’. A publicação tem como objetivo elencar os grupos de maior risco ao suicídio entre a juventude no Brasil, explorando tanto a análise entre brancos e negros, quanto os grupos de maior vulnerabilidade entre os negros, para que gestores e profissionais de saúde desenvolvam ações e estratégias para a prevenção do suicídio e atendimento integral desta população. A análise foi realizada usando o Sistema de Informação sobre Mortalidade do Departamento de Informática do SUS do Ministério da Saúde (DATASUS/SIM/MS).



“É importante lembrar que o suicídio pode afetar qualquer pessoa, mas existem contextos que aumentam essa vulnerabilidade. Os jovens negros enfrentam condições de vida e de saúde que expressam maior risco e consequentemente demonstram cenários de maior vulnerabilidade e de iniquidades em saúde”, destaca a diretora substituta do Departamento de Apoio à Gestão Participativa e ao Controle Social da Secretaria de Gestão Estratégica Participativa do MS (DAGEP/SGEP/MS), Marina Marinho.

A publicação elaborada pelo Núcleo de Evidências para Políticas de Equidade em Saúde do (NEPES/DAGEP/SGEP) contou com a parceria do GT Suicídio – composto por áreas técnicas do MS, a Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Ministério dos Direitos Humanos (SEPPIR/MDH), o Observatório de Saúde de Populações em Vulnerabilidade da Universidade de Brasília (ObVul/UnB) e de especialistas.
"A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra reconhece o racismo, as desigualdades étnico-raciais e o racismo institucional como determinantes sociais das condições de saúde. Um dos grupos vulneráveis mais afetados pelo suicídio são os jovens e sobretudo os jovens negros, devido principalmente ao preconceito e à discriminação racial e ao racismo institucional. Muitas vezes as queixas raciais podem ser subestimadas ou individualizadas, tratadas como algo pontual, de pouca importânciae ainda culpabilizando aquele que sofre o preconceito. O estigma em torno do suicídio, aliados a elementos estruturantes como o racismo estão relacionados e contribuem para o silenciamento em torno da questão, além das dificuldades de se falar abertamente sobre o assunto"(p. 16).
"As principais causas associadas ao suicídio em negros são: a) o não lugar, b) ausência de sentimento de pertença, c) sentimento de inferioridade, d) rejeição, e) negligência, f) maus tratos, g) abuso, h) violência, i) inadequação, j) inadaptação, k) sentimento de incapacidade, l) solidão, m) isolamento social.
Outros fatores relacionados: a) não aceitação da identidade racial, sexual e afetiva, de gênero e de classe social" (p. 17).


"Por que as maiores taxas de suicídio estão na população negra? 

O racismo causa impactos danosos que afetam significativamente os níveis psicológicos e psicossociais de qualquer pessoa. A prática do racismo e da discriminação racial é uma violação de direitos, condenável em todos os países. No Brasil, é um crime inafiançável, previsto em lei.
Os impactos do racismo geram efeitos que incidem diretamente no comportamento das pessoas negras que normalmente estão associados à humilhação racial e à negação de si, que podem levar a diversas consequências inclusive às práticas de suicídio.
Os determinantes sociais e principalmente aqueles relacionados ao acesso e permanência na educação influenciam adolescentes e jovens negros sobre suas perspectivas em relação à vida. Destacam-se as ações abaixo como fatores de proteção contra o óbito por suicídio:
• Acompanhamento da frequência escolar;
• Condições para permanência na escola/universidade;
• Cotas raciais nas universidades" (p. 54).


"Em 2012, foram registrados no Sistema de Informação sobre Mortalidade 3.017 mortes por suicídio em adolescentes e jovens. Esse número manteve-se estável no decorrer dos cinco anos analisados (2013: 2.991; 2014: 3.040; 2015: 3.068), chegando a 3.097 óbitos em 2016. [...] De 2012 a 2016, a proporção de suicídios entre negros aumentou em comparação às demais raças/cores, subindo de 53,3% em 2012 para 55,4% em 2016. O percentual de suicídios aumentou entre os pardos (2012: 46,2% e 2016: 49,3%) e indígenas (2012: 2,1% e 2016: 2,9%)" (p. 23).

"Em 2012, a taxa de mortalidade por suicídio foi de 4,88 óbitos por 100 mil entre adolescentes e jovens negros e aumentou 12%, alcançando 5,88 óbitos por 100 mil entre adolescentes e jovens negros em 2016. Por outro lado, a taxa de mortalidade por suicídio entre os brancos permaneceu estável, isto é, a variação não foi significativa estatisticamente. Em 2012, a taxa de mortalidade por suicídio entre adolescentes e jovens brancos foi de 3,65 óbitos por100 mil, e em 2016 essa taxa foi de 3,76 óbitos por 100 mil. Analisando esses dois grupos em 2016, nota-se que a cada 10 suicídios em adolescentes e jovens, aproximadamente seis ocorreram em negros e quatro em brancos" (p. 26).

Suporte social e seu papel na prevenção do suicídio
"A raça/cor atua como um determinante de como as pessoas vivenciam as tensões da vida e estas estabelecem condições de visibilidade que definem como as pessoas são vistas na comunidade, aumentando inclusive o risco de suicídio. Em diversas situações, o que é visível é a raça/cordas pessoas enquanto sua contribuição na sociedade torna-se invisível. Os estereótipos raciais são psicologicamente danosos, entretanto, o desenvolvimento do potencial dos adolescentes e jovens negros, especificamente quanto à liderança, o envolvimento em organizações comunitárias, e em habilidades de comunicação permite confrontar de um modo efetivo o racismo na sociedade.
O sentimento de pertencimento a uma comunidade funciona como um amortecedor essencial contra os efeitos negativos da solidão e da baixa aceitação. O suporte social, entendido como relações próximas e de afeto entre as pessoas, atua como um fator de proteção e promoção à saúde. O suporte social realizado pessoalmente pelos pares dos adolescentes e jovens reduz a chance de sofrer bullying ou outras formas de agressão" (p. 56).
A escola e ter amigos próximos têm um papel fundamental na prevenção ao suicídio entre os adolescentes. O ambiente escolar contribui positivamente para desenvolver a autonomia dos adolescentes e a sensação de pertencimento e aceitação.
Além disso, a conexão com a comunidade escolar reduz o risco de tentativas de suicídio entre adolescentes negros, especialmente entre aqueles que vivem em bairros mais pobres, atuando como um forte fator de proteção.
O desemprego e a pouca capacitação profissional que atingem os jovens negros são resultado de séculos de discriminação, privação e negação de oportunidades. O desemprego juntamente com a discriminação, a segregação e a falta de acesso aos cuidados de saúde são determinantes sociais relacionados ao suicídio entre os jovens negros. É essencial que a comunidade forneça um suporte social para os adolescentes e jovens negros, pois o envolvimento da comunidade desempenha um papel na prevenção do suicídio. Ser reconhecido e apreciado como indivíduos únicos e sentirem-se pertencentes aos seus grupos faz com que a comunidade proteja os mais vulneráveis, construindo conexões sociais e desenvolvendo as habilidades de resiliência nas situações difíceis da vida. A comunidade precisa identificar parceiros e recursos para formação de uma rede de prevenção ao suicídio; é salutar envolver toda a comunidade, pois uma vida perdida precocemente impacta a todos. Os profissionais de saúde devem se mobilizar para identificar os indivíduos mais vulneráveis e trabalhar de modo intersetorial com toda a comunidade" (p. 57).



domingo, 30 de dezembro de 2018

Do luto à luta: Morte de filhos leva pais cearenses a investirem em projetos sociais