domingo, 2 de fevereiro de 2020

A importância do apoio social no comportamento suicida

Nos casos de pessoas com ideação suicida que acompanho no consultório e no meu trabalho no serviço público, tenho observado cada vez mais a importância do suporte da família e de amigos como um fator de proteção, dado que sempre aparece nos estudos relacionados a este tema.

Ressalto logo de início que isso não quer dizer que quando ocorre um suicídio completo ou uma tentativa de suicídio houve uma falha nesta rede de apoio. Como falamos sempre, o comportamento suicida é resultado de um conjunto complexo de fatores, que varia em cada caso. Nos grupos de apoio, sabemos de muitas histórias nas quais as famílias estavam muito próximas, acompanhando seus entes queridos em todos os atendimentos e tentando suprir todas as suas necessidades, e ainda assim, o suicídio aconteceu.

Porém, também sabemos que ainda há um estigma em relação ao sofrimento emocional e muitas vezes é difícil para as pessoas próximas lidarem e acolherem seus entes queridos quando há uma depressão intensa ou a expressão do desejo de morrer, por exemplo.

A importância:
De acordo com o Dr. Neury Botega, no livro “Crise Suicida – avaliação e manejo” (2015, p. 168):

“Quando a família entra em contato com a crise suicida de um de seus membros, há uma explosão de sentimentos e de reações, geralmente de natureza contraditória: preocupação, medo, raiva, acusação, frustração, banalização, esperança, culpa, disponibilidade, superproteção, cansaço, irritação e hostilidade. Ao mesmo tempo em que amigos e familiares se preocupam, eles podem se sentir muito desconfortáveis diante do comportamento do paciente. É normal a ambivalência, é normal não saber ao certo como agir, e também é normal dizer ou fazer algo para logo depois se arrepender”.    

Quase sempre, a primeira tentativa de ajuda vem em forma de conselhos que têm a intenção de fortalecer (“Não fale isso”; “Tenha força de vontade”; “Você não pensa no que isso vai fazer com as pessoas que te amam, que egoísmo!”; “Você tem que querer se ajudar”), mas podem acabar por fazer com que a pessoa que está em sofrimento sinta-se ainda mais incapaz ou culpada por não conseguir lidar com as situações de outra forma.

É importante lembrar que os profissionais de saúde também devem olhar para os familiares, seja no Pronto-Socorro, serviço de saúde mental ou clínica, orientando sobre os cuidados necessários (como o acesso a medicamentos e como ajudar a identificar alguns sinais de alerta), desmistificando o sofrimento emocional e encaminhando para o suporte adequado sempre que for indicado. Nos meus atendimentos, sempre existem sessões com esse objetivo, para pelo menos um familiar que o meu cliente escolheu, sempre com a presença deste, para que não existam mal-entendidos. Esta pessoa será a minha referência caso eu precise fazer um contato de emergência; nada mais justo que ela também seja cuidada e preparada para lidar com situações de crise da melhor forma possível.

Se você tem um familiar ou amigo que está passando por uma situação difícil, o primeiro passo é se aproximar e se colocar disponível para ouvir sem fazer julgamentos. No canal do Vita Alere no Youtube, você encontra o vídeo Como ajudar alguém que quer se matar e muitos outros que também podem ajudar.

Disponível em: 


domingo, 26 de janeiro de 2020

Vídeo: Te diria pra ser forte agora

"te diria pra ser forte agora. porque amanhã vai ser um dia de sol e luz pra você.
agora você não vê a luz,
muito menos sente que todos esses sentimentos
ruins vão passar. mas se você se atrever a abrir a janela e permitir que o vento abrace seu coração e leve tudo de pesado embora
eu te garanto que amanhã você vai conseguir respirar sem que doa.

te diria pra, caso não consiga ser forte, não se culpar pela fraqueza.
é que existem momentos em que a gente tá fraco mesmo. perna bamba. 
cabeça longe. pensamento mais longe ainda.
dias em que a única alternativa pra nossa dor, pra nossa mágoa, pra nossa tristeza
é uma cama confortável, que aceite nosso corpo sem fazer perguntas

dias em que a gente não quer
responder às perguntas dos amigos
muito menos ter que fingir não estar tudo bem

nesses dias, em que você se sentir assim, eu te peço: lembra do dia seguinte.
lembra que para todo fim há recomeços.
que para toda vez que você cair
haverão outras mil pra você levantar e enxergar que existe um imenso caminho
à sua frente.

um caminho, é verdade, com dias não tão bons. mas um caminho com dias tão felizes, tão cheios de alegria e tão plenos que você vai querer vivê-los sempre que possível

e no dia que não ser tão possível assim
eu desejo que você consiga admitir a si mesma que tudo bem a gente ter os dias cinzentos, porque precisamos deles pra
recuperar o fôlego, dar uma chorada
e recomeçar no dia seguinte.

recomeçar.
que é o mais importante aqui".

- Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente



domingo, 19 de janeiro de 2020

LEI Nº 13.968, DE 26 DE DEZEMBRO DE 2019

DIÁRIO OFICIAL DA UNIÃO

LEI Nº 13.968, DE 26 DE DEZEMBRO DE 2019

Altera o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), para modificar o crime de incitação ao suicídio e incluir as condutas de induzir ou instigar a automutilação, bem como a de prestar auxílio a quem a pratique.

O P R E S I D E N T E D A R E P Ú B L I C A

Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º Esta Lei altera o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), para modificar o crime de incitação ao suicídio e incluir as condutas de induzir ou instigar a automutilação, bem como a de prestar auxílio a quem a pratique.

Art. 2º O art. 122 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), passa a vigorar com a seguinte redação:

"Induzimento, instigação ou auxílio a suicídio ou a automutilação

Art. 122. Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou a praticar automutilação ou prestar-lhe auxílio material para que o faça:

Pena - reclusão, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos.

§ 1º Se da automutilação ou da tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave ou gravíssima, nos termos dos §§ 1º e 2º do art. 129 deste Código:

Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos.

§ 2º Se o suicídio se consuma ou se da automutilação resulta morte:

Pena - reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos.

§ 3º A pena é duplicada:

I - se o crime é praticado por motivo egoístico, torpe ou fútil;

II - se a vítima é menor ou tem diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência.

§ 4º A pena é aumentada até o dobro se a conduta é realizada por meio da rede de computadores, de rede social ou transmitida em tempo real.

§ 5º Aumenta-se a pena em metade se o agente é líder ou coordenador de grupo ou de rede virtual.

§ 6º Se o crime de que trata o § 1º deste artigo resulta em lesão corporal de natureza gravíssima e é cometido contra menor de 14 (quatorze) anos ou contra quem, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência, responde o agente pelo crime descrito no § 2º do art. 129 deste Código.

§ 7º Se o crime de que trata o § 2º deste artigo é cometido contra menor de 14 (quatorze) anos ou contra quem não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência, responde o agente pelo crime de homicídio, nos termos do art. 121 deste Código." (NR)

Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 26 de dezembro de 2019; 198º da Independência e 131º da República.

JAIR MESSIAS BOLSONARO
Damares Regina Alves
Este conteúdo não substitui o publicado na versão certificada.

http://www.in.gov.br/web/dou/-/lei-n-13.968-de-26-de-dezembro-de-2019-235563669?fbclid=IwAR0kDtNsF1YFZUgvXd3-DS-EXfs6Gla2IQj02IaP8tnyxoE-dIyAvCujJRQ




domingo, 12 de janeiro de 2020

Dica de leitura: “Confissões de um adolescente depressivo”

Texto que escrevi para o blog do Instituto Vita Alere 


Chegamos a mais um “Janeiro Branco”* e as discussões sobre saúde mental ganham força mais uma vez. Entre as diferentes pautas que surgem nesta época, a questão do sofrimento emocional de adolescentes é um dos destaques.
Pensando nisso, trago como sugestão o livro “Confissões de um adolescente depressivo” (Editora Seoman), no qual Kevin Breel escreve sobre sua experiência com a depressão e pensamentos suicidas.
Em 2013, aos 19 anos, Kevin participou de um TED (palestras que trazem diversos conteúdos) falando sobre isso e sobre a importância de quebrar o tabu sobre o sofrimento emocional. Entre tantas coisas interessantes que ele compartilha, chamou minha atenção quando ele diz que enquanto as pessoas viam um jovem que era capitão do time de basquete, o aluno que tinha as melhores notas e estava sempre em festas, na verdade ele enfrentava uma depressão e tinha pensamentos suicidas. 
 “Eu tinha medo de que as pessoas me vissem como eu realmente era, que eu não era o cara perfeito e popular do colégio que todos pensavam, que sob o meu sorriso, havia dificuldades ...”
Ainda hoje algumas pessoas têm uma visão estereotipada sobre o sofrimento emocional e também, infelizmente, ouvimos ainda comentários que invalidam a dor do outro, especialmente dos adolescentes, como “Essa geração é muito mimimi, os jovens de hoje são fracos e não sabem lidar com a frustração”. Isso só dificulta que as pessoas procurem a ajuda que precisam.
O conteúdo (que eu também recomendo) está disponível aqui: 


 - é possível ativar as legendas em português -  atualmente o vídeo está próximo de obter um milhão de visualizações. 

Acredito que relatos pessoais nos ensinam muito. No livro, Kevin fala sobre sua infância e adolescência, sobre eventos que o marcaram. E conta que foi justamente quando começou a escrever sua carta de despedida que percebeu o quanto estava precisando de ajuda: 

 “Às vezes você precisa mergulhar fundo na escuridão para conseguir apreciar a luz. Outras vezes você está profunda e perigosamente deprimido e precisa encarar isso. Precisa saber a diferença. Se não sabe, converse com alguém. Agora. E lembre-se: ninguém jamais viveu uma vida significativa dormindo o dia todo, preocupando-se à noite toda e morrendo de medo de contar a alguém sobre os próprios problemas” (p. 177).

Kevin conseguiu conversar com sua mãe e deu início ao processo de cuidado, no qual ele destaca a terapia e diz que, embora ainda passe por altos e baixos: 

“Eu sei o que é querer morrer. E agora posso dizer que de fato sei o que significa querer viver” (p. 223).  

Além da dica de leitura (e do vídeo), fica o convite para pensarmos em espaços de diálogo, escuta e acolhimento não apenas no “Janeiro Branco” ou no “Setembro Amarelo”, mas em todos os dias do ano.  

* Janeiro Branco: campanha criada em 2014 com o objetivo de  discutir e promover a importância dos cuidados em Saúde Mental. Saiba mais em: http://janeirobranco.com.br/projeto-janeiro-branco/

Publicado originalmente em: 



domingo, 5 de janeiro de 2020

Música

“Quando a dor e a solidão finalmente se tornaram insuportáveis demais, quando eu chegara ao ponto mais extremo da dor, minhas preces foram atendidas por meio de um ato de bondade e compreensão. Um amigo ligou na hora perfeita. Ele sabia que eu estava passando por algum problema difícil, mas não sabia que naquele exato momento eu estava escrevendo minha carta de despedida em meio a lentas e dolorosas lágrimas. Eu estava preparada para partir. Eu simplesmente não conseguia mais viver com a dor constante em meu coração.

Ele insistiu que eu não tinha que falar nada. Eu só tinha que ouvir. Então, por meio de minha exaustão e lágrimas, concordei relutantemente. Pelo telefone eu o ouvi começar a tocar sua guitarra, e então as palavras ‘starry, starry night’ da canção Vincent, de Don McLean, começaram a penetrar em meus ouvidos enquanto ele cantava para mim [...]. Minhas lágrimas caíram com mais força quando associei à canção, à sua tragédia e à sua dor a doce melodia que falava do próprio sofrimento de Vincent Van Gogh. Quando ele terminou, eu continuei a soluçar. [...]
Caindo no sono naquela noite, eu estava totalmente extenuada e emocionalmente exausta. Mas reconheci que, por meio da compreensão e das boas intenções de meu amigo, uma pequena luz-guia de esperança havia pelo menos sido reacendida”.

- Bronnie Ware em “Antes de partir - os 5 principais arrependimentos que as pessoas têm antes de morrer”, p. 180-181.


domingo, 29 de dezembro de 2019

11 maneiras de fugir da depressão no final do ano

"1. Planeje com antecedência. Reserve algumas horas para pensar como você vai cuidar de si mesmo durante o período. Pense em coisas agradáveis, como ler um livro ou tirar alguns cochilos e escreva as idéias em um calendário. Tente conciliar as atividades com as compras de natal e as atividades na cozinha, mas não deixe a agenda de lado: essas atividades precisam ser tratadas como prioridade também.

2. Evite os conflitos familiares. Manter a sanidade em algumas famílias pode ser uma tarefa difícil. No entanto, se você vai encontrá-los e sabe que os conflitos vão surgir, prepare-se para responder de forma neutra, como "vamos falar disso em outro momento" ou "eu entendo a sua posição". Depois, fuja para o banheiro, se ofereça na cozinha ou até para cuidar das crianças. E, se for demais, tenha um bom amigo para ligar e desabafar.

3. Esqueça a perfeição. Muitas pessoas se desesperam quando não conseguem ter uma casa de cinema para o natal, ou um banquete digno da realeza, ou presentes que não são bons o suficiente. Esse cenário ideal não existe. São as pequenas coisas, como detalhes particulares da sua casa ou rituais em família, que torna tudo especial e feliz.

4. Aprenda a sofrer. Se você está lidando com a perda de alguém querido, talvez seja o momento de conversar com alguém sobre os seus sentimentos ou mesmo procurar ajuda em grupos de apoio ou terapia. Não é incomum sentir raiva pela pessoa ter partido ou culpa por aproveitar as festas. Isso só mostra que você é humano e reflete o seu momento.

5. Arrume tempo para dormir. As festas de final de ano podem facilmente interferir na sua rotina de sono. Mas alguns estudos indicam que há ligação entre a falta de sono e a depressão. Portanto, você precisa ter cuidado dobrado com isso. Tente acordar e se deitar no mesmo horário todos os dias; evite refeições pesadas e atividades físicas horas antes de dormir; e livre-se da TV ou qualquer outra distração no quarto.

6. Peça ajuda. Seja para amigos próximos ou família, não pense duas vezes ao pedir para uma pessoa dar apoio, desde realizar tarefas simples do dia a dia até tomar um chá e ouvir o seu desabafo.

7. Priorize os exercícios físicos. Mexer-se deve ser mantido no topo da lista de prioridades. Além de ajudar a queimar as calorias extras (a comilança vai rolar solta nessa época do ano!), exercícios físicos ajudam a melhorar o humor. E não precisa ser nada radical: 35 minutos de caminhada forte, cinco dias por semana (ou 60 minutos três vezes por semana), já são suficientes.

8. Reveja sua exposição ao sol. Muitas pessoas podem sofrer com a pouca exposição solar. A doença, que é sazonal, acomete principalmente pessoas no hemisfério norte, pois lá as festas de final de ano acontecem no inverno, quando o sol fica menos tempo no alto. De qualquer forma, se achar que está sofrendo com o problema, converse com seu médico sobre como se tratar.

9. Mantenha o foco no que importa. O mais importante do natal não são os presentes, mas os problemas financeiros podem fazer você acreditar nisso. Controle o estresse organizando a troca de presentes entre amigos e familiares (estipular um valor como limite pode ser interessante). Você pode também cozinhar algo para presentear alguém ou mesmo criar rituais novos para a família passar o tempo.

10. Não desconte na comida ou no álcool. Para algumas pessoas, se permitir exagerar na bebida ou na comida é quase uma tradição das festas de final de ano. Melhor se controlar. Além de fazer mal ao corpo, você vai se sentir culpado depois. Prepare-se para as festas alimentando-se de forma saudável na semana anterior aos feriados. E nada de afogar as mágoas no copo cerveja ou na taça de vinho: o álcool pode intensificar suas emoções e deixar tudo ainda pior quando seu efeito passar.

11. Diminua os compromissos. Se você não aguenta mais se encontrar com as mesmas pessoas nas festas, tudo bem cancelar alguns compromissos para sentir-se melhor. As pessoas esquecem que natal é apenas um dia - são só 24 horas. Procure encontrar atividades que melhorem o seu estado de espírito, como viajar, trabalho voluntário ou fazer companhia a alguém sozinho em algum abrigo. Focar em outras pessoas pode aliviar os sintomas da depressão".