domingo, 5 de abril de 2020

Por lugares incríveis - Netflix (Leia o livro também!!!)

Quando eu soube que a Netflix faria um filme sobre o livro "Por lugares incríveis", de Jennifer Niven, fiquei animada, mesmo achando em 99% dos casos que o livro sempre é melhor do que o filme. Em maio de 2016 eu o li pela primeira vez e ele automaticamente se tornou um dos meus preferidos (tanto no gênero de literatura juvenil que eu tanto gosto quanto para falar de suicídio na adolescência).

Para mim, a forma com que Niven conta essa história tem muito a ver, além do seu talento com a escrita, com o relato que ela traz no final: a autora é uma sobrevivente enlutada por suicídio (boa parte das pessoas que assistiu ao filme não sabe dessa informação).

No final do livro, como "Nota da autora", ela escreve o seguinte:

"A cada quarenta segundos, alguém no mundo se suicida. A cada quarenta segundos, quem fica tem de lidar com a perda.
Muito antes de eu nascer, meu bisavô morreu devido a um ferimento a bala que ele mesmo causou. Seu filho mais velho, meu avô, tinha só treze anos. Ninguém sabia se tinha sido intencional ou não — e como eram de uma cidadezinha no sul do país, meu avô e sua mãe e suas irmãs nunca discutiram isso. Mas aquela morte afetou nossa família por gerações.
Há muitos anos, um menino que eu conhecia e amava se matou. Fui eu quem o encontrou. Eu não queria conversar sobre essa experiência com ninguém, nem com as pessoas mais próximas. Até hoje, vários familiares e amigos meus não sabem muito sobre isso, se é que sabem de alguma coisa. Durante bastante tempo, era doloroso até mesmo pensar nisso, quanto mais falar, mas é importante conversar sobre o que aconteceu.
Em Por lugares incríveis, Finch se preocupa muito com rótulos. Existe, infelizmente, um estigma em torno do suicídio e de transtornos mentais. Quando meu bisavô morreu, as pessoas fofocavam. Apesar de sua viúva e seus três filhos nunca falarem sobre aquele dia, eles se sentiam julgados e, em certa medida, discriminados. Meu amigo se matou e um ano depois perdi meu pai para o câncer. Eles estavam doentes durante a mesma época e morreram com um intervalo de catorze meses, mas a reação a suas doenças e mortes não poderia ter sido mais diversa. As pessoas raramente levam flores para um suicida.
Foi só ao escrever este livro que descobri meu próprio rótulo — 'sobrevivente pós-suicídio' ou 'sobrevivente do suicídio'. Felizmente, há muitas fontes para me ajudar a dar sentido a esse acontecimento trágico e entender como ele me afeta, assim como há muitos recursos para ajudar qualquer um, adolescente ou adulto, que esteja lutando contra problemas emocionais, depressão, ansiedade, instabilidade mental ou pensamentos suicidas.
Muitas vezes, transtornos mentais e emocionais não são diagnosticados porque a pessoa com os sintomas sente vergonha, ou porque as pessoas próximas não conseguem ou escolhem não reconhecer os sinais. De acordo com a Mental Health America, estima-se que haja 2,5 milhões de pessoas com transtorno bipolar nos Estados Unidos, mas o número verdadeiro deve ser duas ou três vezes maior que isso. A quantidade de pessoas com a doença que não são diagnosticadas ou que são mal diagnosticadas chega a oitenta por cento.
Se você acha que algo está errado, fale.
Você não está sozinho.
Não é sua culpa.
Existe ajuda para você" (p. 321-322).

Em janeiro de 2017 fiz um post aqui no blog sobre o livro:

[ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS].

No dia 28 de fevereiro o filme foi lançado e tem recebido críticas positivas de quem não conhecia a história. Mas para boa parte dos leitores, a adaptação perdeu muito, pois já no começo há uma mudança importante na forma com que os dois personagens, que já se conheciam de vista, se encontram e se enxergam de verdade: no filme, Finch encontra Violet em uma ponte, enquanto que no livro os dois se surpreendem ao se encontrarem na torre do sino da escola, ambos pensando que talvez pular dali fosse uma boa ideia. Finn começa a conversar com Violet e, quando as pessoas percebem que os dois estão lá em cima, ele faz de tudo para que pensem que ela havia subido para salvá-lo. 
O diálogo dos dois depois de descer da torre: 

"— Eu só estava sentada ali — ela diz. — No parapeito. Não subi aqui pra…
— Deixa eu te perguntar uma coisa: você acha que existe um dia perfeito?
— O quê?
— Um dia perfeito. Do início ao fim. Quando nada de terrível ou triste ou comum acontece.
Você acha que é possível?
— Não sei.
— Você já teve um?
— Não.
— Também nunca tive, mas estou em busca dele.
Ela sussurra:
— Obrigada, Theodore Finch.
Fica na ponta dos pés e me dá um beijo no rosto, e sinto o cheiro do xampu, que lembra
flores. Então, diz no meu ouvido:
— Se contar a verdade a alguém, mato você" (p. 17-18).

É a partir desse encontro singular que ambos se aproximam e passam a conhecer o mundo do outro, muito mais detalhado no livro do que no filme, obviamente. A orelha do livro traz o resumo da história:

"Violet Markey tinha uma vida perfeita: amigos populares, um namorado lindo, um futuro estudando escrita criativa em Nova York e várias ideias para a revista on-line que dividia com sua irmã, Eleanor. Mas todos os seus planos deixam de fazer sentido quando as duas sofrem um acidente de carro e apenas Violet sobrevive. Sentindo-se culpada pela morte da irmã, Violet para de escrever, se afasta de todos e tenta descobrir como seguir em frente.
Theodore Finch encarna um personagem diferente a cada semana [...]. Essa personalidade imprevisível não raro acaba lhe trazendo problemas, e logo ele se torna o esquisito da escola, perseguido pelos valentões e chamado de 'aberração' por onde passa. Para piorar, o garoto é obrigado a lidar com longos períodos de depressão, um pai violento e a apatia do resto da família.
Enquanto Violet conta os dias para o fim das aulas, quando poderá ir embora da cidadezinha onde mora e aplacar o luto que sente pela ausência da irmã, Finch pesquisa diferentes métodos de suicídio e imagina se conseguiria levar algum deles adiante. Em uma dessas tentativas, ele vai parar no alto da torre do sino da escola e, para sua surpresa, encontra Violet, também prestes a pular.
Um ajuda o outro a sair dali, e essa dupla improvável se une para fazer um trabalho de geografia: visitar os lugares incríveis do estado onde moram. Eles vão até o ponto mais alto de Indiana, a um parque de bibliotecas que funcionam dentro de trailers antigos. a uma lagoa onde dizem não ter fundo, a montanhas-russas construídas por um senhor viciado em adrenalina, entre vários outros locais grandiosos ou pitorescos. Nessas andanças, Finch encontra em Violet alguém com quem finalmente pode ser ele mesmo, e a garota para de contar os dias e passa a vivê-los".


Depois de perder Finch, Violet passa pelo processo de luto com os questionamentos que são comuns para os sobreviventes enlutados: 

"Meu calendário está jogado em um canto. Abro, estico as páginas e olho pra todos os incontáveis dias em branco, que não risquei com um “X” porque foram dias que passei com Finch.
Penso:
Odeio você.
Se eu soubesse.
Se eu tivesse sido suficiente.
Eu decepcionei você.
Eu queria ter feito alguma coisa.
Eu devia ter feito alguma coisa.
Foi minha culpa?
Por que não fui suficiente?
Volte.
Eu amo você.
Sinto muito" (p. 291-292).

Também acho de uma delicadeza ímpar como Violet continua visitando e (re)visitando os lugares que havia visitado com Finch, na esperança de encontrar alguma mensagem que ele tivesse deixado para ela. A visita à Capela aparece no filme, mas não com toda a beleza descrita no livro:
    
"Caminho até o altar, e alguém digitou e plastificou a história da igreja, que está apoiada em um dos vasos.

A Capela de Oração Taylor foi criada como um santuário para que viajantes cansados parem e repousem. Foi construída em memória daqueles que perderam a vida em acidentes de automóvel e para ser um lugar de cura. Lembramos daqueles que não estão mais aqui, que nos foram tirados cedo demais e que manteremos para sempre em nossos corações. A capela é aberta ao público de dia e de noite, inclusive em feriados. Estamos sempre aqui. 

Agora sei por que Finch escolheu este lugar — pra Eleanor e pra mim. E pra ele também, porque ele era um viajante cansado que precisava repousar. Alguma coisa aponta pra fora da Bíblia — um envelope branco. Viro a página e alguém sublinhou estas palavras: brilhais como estrelas no Universo.
Pego o envelope e ali está meu nome: “Ultravioleta Markante”.
Penso em levá-lo pro carro pra ler o que tem dentro, mas em vez disso sento em um dos bancos, grata pela madeira sólida que me segura.
Estou pronta para ler o que ele pensava sobre mim? Pra ler o quanto o decepcionei? Estou pronta pra saber exatamente quanto o machuquei e como poderia... deveria tê-lo salvado se simplesmente prestasse mais atenção e interpretasse os sinais e não abrisse minha boca grande e o ouvisse e fosse suficiente e talvez o amasse mais?
Minhas mãos tremem quando abro o envelope. Tiro três folhas de partitura grossas, uma coberta de notas musicais, as outras duas de palavras que parecem a letra de uma música. Começo a ler.

Você me faz feliz,
Sempre que está perto, estou seguro em seu sorriso.
Você me faz belo,
Sempre que sinto que meu nariz é grande demais.
Você me faz especial, e Deus sabe o quanto esperei pra ser o tipo de cara que se quer por perto.
Você me faz te amar,
E essa deve ser a maior coisa que meu coração já foi digno de fazer…

Choro — alto e soluçando, como se tivesse segurado a respiração por muito tempo e
finalmente tivesse ar de novo.

Você me faz adorável, e é tão adorável ser adorado por aquela que adoro…

Leio e releio as palavras.

Você me faz feliz…
Você me faz especial…
Você me faz adorável…

Leio e releio até saber as palavras de cor, então dobro os papéis e guardo de volta no
envelope. Fico sentada até as lágrimas pararem, e a luz começa a mudar e desaparecer, e o brilho suave e rosado do entardecer enche a capela.

[...] Não preciso me preocupar com o fato de Finch e eu não termos filmado nossas andanças. Tudo bem não termos recolhido lembranças nem tido tempo de organizar tudo de um jeito que fizesse sentido pra outra pessoa. O que percebo agora é que o que importa não é o que a gente leva, mas o que a gente deixa (p. 314-316).


Desculpem pelo textão, mas eu quis trazer a riqueza da narrativa escrita de Niven que não aparece como deveria no filme.
Minha dica: se você gostou do filme, leia o livro quando puder. Vou reler, mais uma vez!


domingo, 29 de março de 2020

"Sobre o que tenho aprendido com sobreviventes enlutados"

Trechos do capítulo que escrevi no II Volume do livro "Histórias de Sobreviventes do Suicídio", do Instituto Vita Alere.


"Quando fui convidada pela Karen Scavacini em 2016 para ser uma das colaboradoras do Instituto Vita Alere, comecei a me aproximar das vivências das pessoas enlutadas por suicídio que participavam dos grupos de apoio e esta tem sido uma das experiências mais transformadoras da minha vida. Ao facilitar, junto à psicóloga Elis Regina Cornejo, os grupos de apoio do Vita Alere que acontecem na Vila Mariana (do início de 2017 até dezembro de 2018) e em Santos (de 2017 até o momento), pude perceber as especificidades do luto por suicídio, mencionadas na literatura, porém muito mais profundas e complexas na realidade (p. 28).

"Certa vez, ouvimos de um dos participantes a seguinte frase: “Somos os amigos que não gostaríamos de ter”. Isto porque o fator universal que os une é ter sofrido o impacto do suicídio de um ente querido. Porém, uma vez que não é possível desfazer o que aconteceu, a maioria refere o quanto se beneficia destes encontros nos quais é possível falar sem medo de julgamentos, em um local no qual todos os sentimentos são validados e acolhidos. Algumas pessoas que nunca participaram de um grupo de apoio ao luto podem pensar que ouvir as histórias de outros enlutados apenas aumentaria o sofrimento de cada um. Mas, assim como um provérbio chinês ensina: “Uma alegria compartilhada transforma-se em dupla alegria; uma dor compartilhada transforma-se em meia dor”. Ao encerrar cada reunião, os participantes devem dizer algo que expresse como eles estão saindo do encontro, e ouvimos na maioria das vezes palavras como “Gratidão”, “Aliviada”, “Acolhido” e “Esperança”. Uma parcela significativa dos participantes frequenta as reuniões regularmente, portanto vão também criando laços entre si ao longo dos encontros. Do sentimento de desamparo e tristeza de onde parecia que não nasceria mais nada, surgem novas possibilidades de apoio, solidariedade, compaixão e empatia.

Os membros de um grupo coeso sentem afeto, conforto e um sentido de pertencimento no grupo. Eles valorizam o grupo e sentem que são valorizados, aceitos e amparados pelos outros membros. (YALOM E LESZCZ, 2006, p. 62). Tenho observado que ao contar sua história para os outros, a maioria dos enlutados consegue também ouvir-se. E um dos efeitos mais positivos que identifico no grupo é o momento no qual um sobrevivente enlutado acolhe a fala de outro e tenta acolhê-lo, sem julgamento. Ao oferecer o melhor que existe em si mesmo para o outro, muitas vezes o enlutado consegue posteriormente voltar este mesmo olhar de compaixão para si mesmo. Também penso que é uma experiência importante quando o sobrevivente, em meio à sua dor, sente-se incapaz de ajudar alguém ou de ter algo ainda dentro de si que possa ser doado ao outro; e, durante o encontro, muitas vezes percebe que oferecer uma palavra ou um olhar para alguém são gestos grandiosos, capazes de amenizar o sofrimento que é compartilhado. Estas experiências em grupo não poderiam ser vivenciadas na terapia individual e oferecem uma outra forma de favorecer a elaboração do luto. Mais do que uma vivência terapêutica, trata-se de uma experiência humana" (p. 61-62).

"Ao compreender que existe uma parte de seu ente querido que permanecerá sempre viva dentro de si mesmo, o enlutado vai aos poucos ressignificando sua perda. Quando o sobrevivente enlutado começa a trazer em seu relato mais conteúdos sobre o legado de quem partiu (memórias, histórias, saudades e adaptações graduais na vida que continua a seguir seu fluxo) do que a forma como a morte aconteceu, compreendo que o luto está sendo elaborado, no ritmo de cada um. Como Fine (2018), alguns sobreviventes farão as pazes consigo e com seu ente querido em nome do amor: Eu nunca saberei o que ele estava pensando, há quanto tempo tinha planejado sua morte, por que tirara a vida naquele momento específico e, o que era mais doloroso, o que eu poderia ter feito de diferente para salvá-lo. Aos poucos, comecei a compreender que, para aceitar sua morte e celebrar sua vida, eu teria que perdoar nós dois pelo que tinha acontecido. (FINE, 2018, p. 20). Para finalizar, o que tenho aprendido com os sobreviventes enlutados por suicídio é que nós, seres humanos, nos fortalecemos quando apoiamos um ao outro e que o amor realmente é mais forte do que a morte. Sigo acreditando que o melhor da vida são os encontros" (p. 64). 



domingo, 15 de março de 2020

História de sobreviventes do suicídio - Volume 2

"O suicídio segue como um tabu em nossa sociedade, sendo um tema pouco falado nas rodas de conversas entre amigos e familiares. Entretanto, esse silêncio em torno do tema não tem contribuído para a diminuição de novos casos. Ao contrário disso, sabe-se que não falar sobre o assunto implica diretamente em barreiras para a sua prevenção e não faz com que o suicídio deixe de ocorrer.
Representando um problema de saúde pública em nosso país, a cada 45 minutos uma pessoa coloca fim em sua própria vida. No mundo, o suicídio é responsável por uma morte a cada 40 segundos. E para cada suicídio ocorrido, cerca de 135 pessoas são impactadas de diferentes maneiras. Esses dados mostram a magnitude e importância de falarmos abertamente sobre este tema.
Neste segundo volume do Histórias de Sobreviventes do Suicídio apresentamos novas histórias de pessoas que lidaram com o comportamento suicida em algum momento de sua vida, de pessoas que perderam alguém querido por suicídio e de pessoas que perderam alguém por suicídio em sua prática profissional.
São as mais distintas histórias de pessoas que tiveram suas vidas marcadas pelo suicídio. Histórias que por vezes foram silenciadas, estigmatizadas e sufocadas devido o tabu e que, neste livro, encontraram espaço para sua expressão em forma de conto, poema ou crônica.
Estes fragmentos de vida, costurados aos capítulos introdutórios sobre estes temas carregam a potência de contribuir para o processo tanto das pessoas pessoas que escreveram suas histórias quanto de seus leitores, semeando esperança, compreensão e empatia.
Texto de Elis Regina Cornejo
Este livro traz histórias emocionantes e reais de pessoas que precisaram lidar ou lidam com o comportamento suicida, que perderam alguém ou trabalham com o tema. São os vencedores do II Concurso Literário Memória Viva, do Instituto Vita Alere. O livro pode ser baixado por pdf ou comprado impresso por R$20,00. Esse valor ajuda na impressão do livro e na divulgação do próximo concurso. Quanto mais pessoas falando sobre o assunto mais podemos mudar a forma como as pessoas veem, entendem e lidam com o suicídio.
Para fazer o download gratuito da versão em PDF do livro ou solicitar a versão impressa: 
Compartilho uma das histórias do livro:
"O peso da mala - Juliane M. C. Pazzanese
Quando eu tinha 12 anos ouvi pela primeira vez a palavra suicídio: uma colega de um colega se enforcou no quarto, disseram que quando a mãe a encontrou tocava, repetidamente no computador, a música Vejo flores em você da banda IRA. Passei a ouvir a música buscando um entendimento.
No ano seguinte um aluno da escola pulou do sétimo andar onde morava. Disseram que ele ligou para despedir do seu melhor amigo, que veio correndo, mas o encontrou já morto perto da portaria do prédio. Disseram também que ele deixou três cartas, uma para a mãe, uma para o pai e uma para a namorada. Sempre me perguntei o que tinha escrito, se haveria alguma explicação.
Algum tempo depois uma senhora pulou do alto do prédio que morava, na minha rua, trancou as crianças em casa e pulou. E eu passava em frente ao prédio e me questionava o motivo. Aos 14 anos pensei que o suicídio era uma solução, mas descobri que minha dor psíquica e emocional era menor do que a dor de cortar os pulsos, muito menor. Fui buscar entender onde havia falhado fazendo psicoterapia. Durantes as muitas sessões que aconteciam com o som do meu silêncio eu observava a janela do consultório que a psicóloga me atendia, no décimo sexto andar, e me perguntava se pular teria sido menos dolorido, se eu teria me arrependido no meio do caminho também.
Na psicoterapia descobri um olhar diferente para minha dor e para minhas perguntas. Muitos anos depois, me tornei psicóloga e fui atender.
No caminho me deparei com sobreviventes do suicídio, muitos deles. Coordeno um grupo de enlutados atualmente. Quase ninguém abertamente sobre o ocorrido. Alguns de fato relatavam como acidente. Outros levaram anos para falar sobre isso. E o que eu vejo ainda hoje neles: questionamentos. A grande maioria se questiona o porquê, se poderia ter sido evitado, onde falharam. Pelo caminho que fiz, eu acabei deixando para trás essa mala com questionamentos. Ela era muito pesada para ser carregada: A sociedade pede respostas, mas elas nem sempre existem ou nem sempre são claras e isso me causava uma sensação de impotência, de culpa. E isso é o que sinto que sobra para quem fica.
Em junho mais um adolescente pulou do prédio. Não fiz questionamentos acerca de sua decisão. Pensei em quem fica. Mês passado uma senhora pulou de um prédio próximo ao meu. Não passo mais na porta me perguntando seus motivos. Compreendi que os motivos são tão íntimos que eu jamais os entenderia.
Hoje questiono a prevenção: Até que ponto somos capazes de enxergar o que aquela pessoa estava tentando nos dizer? Reconheço a importância do esforço para capacitar profissionais e abrir os olhos da população, digo população, pois somos seres sociais e quem se mata não se mata sozinho: leva um pouco de cada pessoa que passou em sua vida e deixa um pouco na vida de um que teve contato com ele"(p. 111-112).




domingo, 8 de março de 2020

Março, mês da mulher: Precisamos falar o feminicídio seguido de suicídio

"Matou a mulher e depois se matou". Dura, triste e trágica, essa manchete é cada vez mais recorrente em notícias sobre casos de feminicídio. E um novo levantamento, obtido com exclusividade por Universa a partir de dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2019, divulgado no dia 10 de setembro, mostra que, em São Paulo, a taxa de homens que se matam após matar a mulher é de 15%".

Este é o parágrafo que abre uma matéria publicada em setembro do ano passado.


Passamos pelo Dia Internacional das Mulheres e seguimos em março, que muitas vezes é conhecido como o "mês da mulher".

Penso que uma das discussões necessárias é falar sobre o alto número de casos de feminicídio, muitas vezes seguido pelo suicídio do agressor. Chama muito a minha atenção o quanto uma parte significativa destes crimes é feita por adultos jovens, que já foram criados em uma cultura que deveria ter reforçado a igualdade entre homens e mulheres, mas seguimos com a visão estereotipada de que a mulher é propriedade do homem, ou "Se não ficar comigo, não ficará com mais ninguém".

"A palavra “feminicídio” se refere ao assassinato de mulheres e meninas por questões de gênero, ou seja, em função do menosprezo ou discriminação à condição feminina. São exemplos de feminicídio os crimes encobertos por costumes e tradições e que são justificados como práticas pedagógicas, como o apedrejamento de mulheres por adultério, relacionadas com o pagamento de dote, a mutilação genital e os crimes “em defesa da honra”; o assassinato de mulheres por seus maridos e companheiros, os estupros de guerra, a morte por preconceito racial e a morte pelo tráfico e a exploração sexual, que tratam as mulheres como objetos sexuais e descartáveis".

O documentário: " Feminicídio - A realidade brasileira" traz diferentes perspectivas sobre essa questão:

Jackeline Romio, pesquisadora, ressalta a necessidade de se estudar essas situações. "Tanto feminicídio quanto suicídio são questões de saúde pública. O fato de o homem ser vítima da própria agressividade é um efeito secundário de todo o conjunto da violência doméstica." 

De acordo com matéria publicada no G1 em 05 de março de 2020

"São 3.739 homicídios dolosos de mulheres no ano passado, uma queda de 14,1% em relação a 2018. Apesar disso, houve um aumento de 7,3% nos casos de feminicídios – crimes de ódio motivados pela condição de gênero".

Diversas culturas ainda reforçam o machismo que faz com que o homem se veja como dono da mulher. Uma ação de prevenção é discutir a masculinidade tóxica.  
Neste sentido, recomendo o documentário "O silêncio dos homens"


Nos casos de feminicídio seguido de suicídio, vemos a complexidade do comportamento suicida e podemos pensar na importância das ações de prevenção que considerem os aspectos sociais, culturais e emocionais para modificar esse cenário.

E você, o que pensa sobre esse tema?

domingo, 1 de março de 2020

Artigo: Estratégias de prevenção e posvenção do suicídio: Estudo com profissionais de um Centro de Atenção Psicossocial

RESUMO

O suicídio é considerado um problema de saúde pública que vêm sendo mundialmente debatido. No Brasil, a região Sul tem se destacado com altos índices de suicídio, alertando profissionais e pesquisadores sobre a temática. O estudo objetivou investigar o desenvolvimento de estratégias de prevenção e posvenção ao suicídio em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Especificamente, buscou-se verificar ações realizadas referentes à assistência aos sujeitos que tenham ideado, tentado ou cometido suicídio, bem como assistência aos seus familiares, além de investigar sobre as percepções dos profissionais do CAPS sobre o suicídio. Realizou-se um estudo de caso exploratório. Foram entrevistados cinco profissionais do CAPS, e os dados foram analisados com base na Análise de Conteúdo qualitativa. Os profissionais falaram sobre estratégias para manejo do suicídio, citando a importância da atuação em rede e em equipe, do atendimento humanizado e da atenção à família. Também reportaram sentimentos que indicam sofrimento e empatia. Com base nos achados, elaborou-se um modelo de planejamento técnico ilustrando estratégias para a prevenção e pósvenção ao suicídio. Por fim, discute-se a pertinência de políticas públicas voltadas à prevenção e pósvenção ao suicídio, valorizando e qualificando profissionais da saúde.

Palavras-chave: Suicídio, prevenção primária, saúde pública



"Traduz-se a palavra suicídio como sendo a morte de si mesmo. O termo refere-se à morte intencional, com o intuito de fugir de si ou de um grande sofrimento. Tal acepção parece bastar a princípio, porém, é possível perceber em uma reflexão mais profunda que os mecanismos e fatores envolvidos no ato suicida demandam uma conceituação muito mais complexa do termo. Aponta-se que o suicida não está em busca da morte em seu ato, mas vivencia uma fantasia onde matar-se não implica em necessariamente morrer (Cassorla, 1985/2005).
David Émile Durkheim, sociólogo, psicólogo social e filósofo francês, define o suicídio como a morte resultante de um ato, positivo ou negativo, produzido, com o conhecimento das consequências, pela própria vítima. Ou seja, o suicida pode provocar sua própria morte através de uma ação violenta contra si mesmo (ato positivo), como se dar um tiro; como também através da abstenção (ato negativo) como parar de comer, por exemplo (Durkheim, 1982).
Pressupõe-se também, que o suicídio é uma manifestação do ser humano, uma maneira encontrada pelo sujeito de lidar com o sofrimento, uma fuga de sua existência, um escape para a dor. Considera-se que o indivíduo vê o suicídio como uma solução, a qual, ele pode dispor quando não suportar mais viver em sofrimento (Rigo, 2013). Já para Dutra (2010), o suicídio trata-se de uma fuga da ausência de sentido da vida, onde viver torna-se insuportável, um sofrimento, um peso. Assim, é possível perceber a concordância de todos estes autores em dois aspectos principais: a intencionalidade do ato e a fuga, não da vida em si, mas do sofrimento que se vivencia.
Conforme aponta Prieto e Tavares (2005), as experiências negativas de vida como violência física ou sexual, rejeição na infância e dificuldades de relacionamento familiar, podem comprometer o desenvolvimento emocional dos sujeitos, sobrecarregando-os e aumentando a tensão emocional. Neste sentido, percebe-se semelhanças no desenvolvimento emocional das pessoas que cometem ou tentam o suicídio, visto que, a maioria delas passou por estas experiências. As autoras ainda destacam em seu estudo a presença de impulsividade no ato suicida, apontando evidências de que a decisão de se matar é tomada pouco antes do ato.
Porém, Cassorla (1985/2005) afirma que são os eventos desencadeadores que interagem entre si em um momento da vida que motivam o ato suicida. Ou seja, inúmeras situações vividas que agem como um "gatilho" são ativadas juntas em algum momento, levando à tentativa de suicídio. Sobre esse aspecto, Botega (2015), autor de inúmeras produções científicas com a temática do suicídio, alerta sobre a crise suicida que antecede o ato de suicidar-se. O autor aponta que durante a crise suicida, ocorre a exacerbação de uma psicopatologia existente, ou a desordem emocional que precede um episódio traumático vivenciado pelo sujeito. Desta forma, a dor psíquica é tão forte, que o sujeito, no desejo de cessá-la, pode interromper sua vida por meio do suicídio.
Conforme apontam Schlösser, Rosa e More (2014), pode-se compreender o comportamento suicida como o ato carregado de intenção de causar dano a si mesmo, objetivando dar fim a própria vida, abarcando nestes comportamentos ideações e desejos suicidas, tentativas e ato consumado. No que se refere aos fatores de risco apontados pela literatura, deve-se atentar a fatores genéticos que podem ser inferidos a partir da história familiar, como histórico de suicídio e doenças psiquiátricas na família, conferindo risco maior para o comportamento suicida. Contudo, os autores ressaltam que deve haver a distinção entre fatores predisponentes (sexo, idade, história familiar, tentativas anteriores, presença de transtornos mentais ou doenças físicas, histórico de abusos sofridos, desemprego, pertencer a uma minoria étnica ou sexual), que vão aos poucos criando espaço para que os comportamentos suicidas eclodam; e os fatores precipitantes (separação amorosa, rejeição, problemas familiares, perda do emprego, vergonha, culpa), que são desencadeantes do comportamento suicida. Os fatores precipitantes (estressores) de comportamento suicida associam-se a situações de perda, sejam elas reais ou simbólicas (Bertolote, Mello-Santos, & Botega, 2010).
Botega (2015) descreve um modelo de suscetibilidade ao suicídio, incluindo uma propensão genética aliada a fatores psicossociais. O autor aponta alguns dos elementos deste modelo que mais são estudados cientificamente, como os traços de impulsividade, vivências traumáticas da infância como privação materna e abuso físico, rigidez cognitiva, presença de doença mental e fácil acesso a meios letais.
No que se refere às estratégias de prevenção ao suicídio, o Brasil avança no sentido de implantar políticas públicas que norteiam a construção de intervenções em saúde. Em 2006, como Estratégia Nacional de Prevenção ao Suicídio, o Ministério da Saúde lançou o manual Prevenção de suicídio: manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental, intuindo detectar de forma precoce condições associadas ao fenômeno e realizar medidas preventivas. O manual esclarece a importância das equipes dos Centros de Atenção Psicossocial na prevenção do suicídio, descreve acerca dos fatores de risco e informa sobre o manejo das psicopatologias associadas ao risco de suicídio como a depressão, a esquizofrenia, a dependência de álcool ou drogas e os transtornos de personalidade. O manual também auxilia descrevendo a abordagem adequada de potenciais suicidas e as formas de ajudá-los. Além disso, refere sobre o manejo de pacientes e encaminhamento dos mesmos, quando estes estiverem sob risco de suicídio (Brasil, 2006)".




domingo, 23 de fevereiro de 2020

LUTO POR SUICÍDIO: COMO AJUDAR



Cada pessoa fica enlutada de sua maneira. O luto é uma experiência pessoal e única e o luto por suicídio é um luto bem mais longo e de difícil elaboração. Portanto se você quer ajudar alguém que perdeu um ente querido por suicídio, veja algumas dicas.

por: No m'oblodis
















Você conhece o No m'oblidis? Canal dos queridos Terezinha Maximo e Joseval Maximo, pais da Marina, sobreviventes enlutados pelo suicídio, onde eles generosamente compartilham sua experiência e muita informação.
Para refletir, sensibilizar e ajudar a entender muito mais do que o suicídio e seu luto: entender a vida e o amor.