domingo, 28 de julho de 2019

Quando o suicídio toca no rádio

Nietzche escreveu que sem música, a vida seria um erro. Canções marcam momentos, potencializam emoções e expressam aquilo que muitas vezes não conseguimos traduzir em palavras. Quando “o suicídio toca no rádio”, alcança pessoas que talvez ainda não tenham pensado sobre o que é sentir a angústia de existir e também pode trazer esperança para aqueles que se deparam todos os dias com o desafio de seguir em frente por mais um dia.

AmarElo

Recentemente, o cantor Emicida lançou a música “AmarElo”. Não bastasse a letra com frases que impactam e trazem reflexão, como:
“É um mundo cão pra nós, perder não é opção, certo?”
“Só eu e Deus sabe o que é não ter nada, ser expulso/Ponho linhas no mundo, mas já quis pôr no pulso”
O clip começa com uma mensagem que traduz a angústia de quem está em sofrimento:
“Eu não tô conseguindo dormir essa última semana aí, tá ligado? […] Acho que eu já dei peso demais pra todo mundo que gosta de mim, mano […] Demonstro pra todo mundo que eu tô bem o tempo inteiro … […] Eu tenho que demonstrar que eu tô bem todo dia, mano, e nenhum ser humano consegue estar bem todo dia […] Eu não me sinto realizado como ser humano, como filho … Ainda não consigo me encaixar nesse plano aqui […] Eu sinto medo, tipo, de ter feito escolhas erradas a ponto de não poder mudar mais […] Sei lá, mano … só precisava falar alguma coisa para alguém mesmo …”
Até o momento (final de julho), o clipe teve mais de três milhões de visualizações no Youtube e, de acordo com o rapper em uma entrevista para a Rolling Stone,  “a ideia é que elas [as pessoas] observem ao redor e se enxerguem maiores do que os seus problemas, independente de quais sejam”.
Isso me fez lembrar de algumas outras canções que trouxeram a temática do suicídio para o mundo da música. Certa vez, Renato Russo falou sobre a música «Pais e filhos»: “Ela se jogou da janela do quinto andar …”

Pais e filhos

“Escuta, vocês sabem que essa música é sobre suicídio, né? Essa música é muito, muito séria […] eu estive muito mal na minha vida […] e de repente estas músicas refletem um momento da minha vida que eu não gosto de lembrar mais …”
Outra música que fala sobre o suicídio e me impactou foi “Amianto”, da banda Supercombo. Até o clipe, com a visão do alto de algum lugar, mexe com nossa imaginação …

Amianto

“Moça, sai da sacada/ Você é muito nova pra brincar de morrer
Me diz o que há, o quê que a vida aprontou dessa vez?”
As músicas podem despertar vários sentimentos. Eu não poderia encerrar este texto sem falar de duas canções que considero também importantes mensagens de esperança.
Uma delas é «Tente outra vez », do Raul Seixas.

Tente outra vez

“Veja!
Não diga que a canção está perdida
Tenha fé em Deus, tenha fé na vida
Tente outra vez!”
O irmão do cantor conta uma história sobre como essa música salvou um homem – e você pode ver o vídeo aqui

E uma das canções que mais gosto é “Enquanto houver sol”, dos Titãs

“Quando não houver saída
Quando não houver mais solução
Ainda há de haver saída
Nenhuma ideia vale uma vida
Quando não houver esperança
Quando não restar nem ilusão
Ainda há de haver esperança …”
 As músicas trazem momentos de volta ou nos projetam para o futuro … Com altos e baixos, desejo que a vida continue tocando nossa canção preferida.

domingo, 21 de julho de 2019

"Hoje eu resolvi deixar o mundo" _____________ Artigo


Nas minhas buscas sobre materiais acerca do comportamento suicida, encontrei este trabalho que chamou a minha atenção pelo título. 

“HOJE EU RESOLVI DEIXAR O MUNDO”: narrativas de suicídio 
em Guarapuava-PR nos anos 1950 

Autora: Kety Carla De March (Doutora em História pela Universidade Federal do Paraná. Professora colaboradora na Universidade Estadual do Centro-Oeste).

RESUMO: Este artigo analisa inquéritos policiais sobre mortes consideradas pela polícia como suicídio em Guarapuava, região central do Estado do Paraná, na década de 1950. Buscamos problematizar as construções discursivas dos suicidas, nas vezes em que deixaram cartas, e das testemunhas ouvidas no inquérito a respeito da morte auto infringida. Essas narrativas sobre a morte estavam permeadas de justificativas para o ato cometido e nelas pudemos adentrar ao espaço do que chamamos de “hierarquia da dor”, ou, aquilo que era considerado como motivo legítimo para uma ação entendida como extrema. Numa sociedade da medicalização dos corpos em que o objetivo principal é postergar ao máximo a morte, o que poderia explicar um suicídio? As narrativas permitem conhecer os aspectos sociais que exerciam pressões sobre os indivíduos e que eram partilhados entre estes e associados especialmente à incapacidade de realização diante dos papéis sociais e sexuais, o que exige diálogo com a categoria analítica de gênero. 

PALAVRAS-CHAVE: Suicídio; Gênero; Masculinidades; Feminilidades.

"O que levava uma pessoa ao suicídio no interior do Paraná nos anos 1950? A perspectiva das relações de gênero, como fenômeno social, permite a problematização das justificativas encontradas pelas testemunhas para os suicídios. Wadi e Souza discorreram sobre a escolha do debate entre suicídio e relações de gênero da seguinte forma: 

Por que um indivíduo resolve abandonar a vida cometendo suicídio? Desencontros amorosos, ciúmes, doenças avançadas, remorso, raiva, vingança, vergonha, orgulho ferido, solidão, problemas financeiros, dívidas, alcoolismo aparecem como motivações de suicídio ocorridos na região da comarca de Toledo, no estado do Paraná. Nas, em geral, curtas e fugazes mensagens de adeus deixadas por alguns dos que cometem a autoviolência provocando a própria morte ressaltam fragmentos autobiográficos que remetem à construção de sujeitos marcados pelas relações socioeconômicas e culturais – entre as quais as relações de gênero – dominantes em certo tempo e lugar" (p. 06). 

"Grande parte dos inquéritos se referia à ação do suicida como ato tresloucado. Nesses casos, houve pouca preocupação por parte da equipe investigativa em determinar as motivações para a ocorrência do suicídio, o que poderia retirar a dúvida sobre a real natureza da morte. Esse silêncio sobre a explicação para a morte voluntária poderia ser resultado de uma instrução processual, assim, delegados quando tomavam depoimentos de testemunhas, não perguntavam a estas se elas conheciam os motivos que teriam levado à morte, ou porque esses mesmos atores ouviam apenas o depoimento dos policiais que atendiam as ocorrências, ou de peritos que analisavam o local do crime. Essas testemunhas muitas vezes não conheciam o suicida e pouco ou nada poderiam relatar sobre as “tristezas” que afligiam a vítima. Para chegar a esse conhecimento era necessário ouvir amigos e familiares do morto, aqueles que com ele conviviam e partilhavam de suas angústias. Muitas vezes eram inqueridas pessoas que apenas tinham ouvido por terceiros relatos da morte" (p. 07). 

"Vejamos o caso da morte de Pedro que não teria suportado ser abandonado pela mulher com quem mantinha relacionamento amoroso após ter ficado viúvo. De acordo com um dos filhos de Pedro, a causa da morte do pai “foi pelo fato de ter sido abandonado por uma mulher que vivia já há algum tempo em sua companhia amasiada; que seu pai era homem forte fisicamente e trabalhador não sofrendo de doença alguma que pudesse desgostá-lo da vida” (fl. 08). O filho de Pedro procurou justificar a ação do pai e ao fazê-lo apresentou algumas das características de um suicídio aceitável: o abandono, a fraqueza física, a ausência de trabalho e a doença incapacitante. Esse jovem, ao contrário da medicina da época, não considerou a loucura como uma das possibilidades de morte do pai. Ele se amparou, para a explicação, em elementos externos que poderiam levar um homem a uma tristeza tamanha a ponto de optar pela morte. Ao fazê-lo, imprimiu ali suas próprias convicções sobre sofrimento, angústia, medo da não adequação que eram recorrentes entre uma parcela da população masculina naquele contexto" (p. 12).

"Em ambos os casos, de homens ou mulheres, observamos que as testemunhas procuravam evidenciar a medida do suportável e aquilo que, ao ver dessas pessoas, poderia levar um sujeito ao suicídio. Essa hierarquia da dor era, podemos entender, partilhada pelas pessoas e não vivida apenas pelo suicida. Ao buscarem justificativas para a ação do suicida, as testemunhas refletiam em suas falas o que também lhes afligia, pois partilhavam com o morto as mesmas experiências e pressões sociais, compreendendo que determinadas pressões poderiam ser insuportáveis. Falar sobre a morte do outro era, para essas testemunhas, um exercício de empatia e de auto regulação" (p. 23).





domingo, 14 de julho de 2019

Cada médico tem seu paciente favorito.

Cada médico tem seu paciente favorito. Negar isso é mentir para si próprio. Admito que o meu paciente favorito é um homem entre 50 e 60 anos com um humor ácido. Ele vem ao meu consultório há dois anos, mas nunca topou tomar medicação. Na primeira vez, após uma longa conversa, fiz essa proposta e quase apanhei. O homem saiu valente e prometeu nunca mais voltar.
No mês seguinte lá estava ele uma hora antes do combinado na recepção. E assim foi até bem pouco tempo, pois meu paciente favorito nunca confirmava sua ida, dizendo que não via necessidade em ir, mas estava presente uma hora antes do horário combinado no dia marcado. Eu passei a escutá-lo mais e vez por outra falava tangenciando sobre uma medicação quando o seu discurso autorizava, porém era repelido imediatamente. 
Quando eu lhe perguntava como estava a vida, ele me respondia: “Tão bagunçada quanto o seu cabelo”. Quando a arguição partia para sua vida sentimental, ele me respondia: “ O senhor tem partes com cartomantes e apresentadores de programas que gostam de juntar casais”. Eu aceitava esse humor cítrico de bom grado e vez por outra retrucava na mesma moeda. 
Seguimos então até o mês de maio, quando ele adentrou minha sala com barba por fazer, cara de quem não dormia há várias noites e me intimou: “Me dá a merda do teu remédio que eu não vou bem”. Depois de dois anos, ele decidiu que aquele era o seu momento. Perguntei a ele o que seria não estar bem. A resposta veio na lata: “Quem não está bem só pode estar mal. Coloca um remédio logo antes que eu me arrependa”. Depois dessas respostas atravessadas o homem falava sobre seu emprego sem estabilidade, das contas que não param de subir, dos dilemas com uma filha mais nova e sua desesperança em relação ao futuro.
Ontem o camarada voltou e eu questionei se ele havia melhorado. A resposta foi sumária: “Eu continuo tomando no cu, só que agora tomo no cu sem chorar”. 
Fiquei tonto com a resposta. É possível tratar uma doença que se manifesta num sujeito, mas que surge pelas condições socioculturais que o circundam? Até que ponto os quadros depressivos e ansiosos são doenças propriamente ditas? Seriam eles manifestações individuais de uma crise sistêmica e estrutural da maneira como vivemos e nos relacionamos?
O capitalismo trouxe consigo o ideal de que é possível vencer, caso alguém se esforce o bastante. Ele se alimenta de fenômenos individuais para que o conjunto da população acredite na veracidade da meritocracia. Anitta é um exemplo claro disso. Ela inconscientemente diz a várias meninas periféricas que é possível vencer. O futebol também nos empresta alguns exemplos de ascensão econômica meteórica como forma de manter uma esperança no sistema. Questionamos a nós mesmos quando não conseguimos e não ao sistema e seus enormes gargalos.
O que eu tenho visto dia e noite no meu consultório são pessoas que acreditaram nessa falsa premissa do capitalismo – e olhe que muitas se dizem até de esquerda/socialistas e não se percebem vivendo psiquicamente nesse tempo, nessa lógica - e agora se encontram numa crise. A crise da culpa. Se o sucesso é mérito seu, o fracasso também é. Não sobra tempo e espaço para refletir quais os entraves estruturais e sistêmicos levaram as pessoas ao fracasso. Não há espaço para se discutir o que é o fracasso. As empresas, com as reformas implantadas nos últimos anos, conseguem uma rotatividade ainda maior de funcionários e não se preocupam com a exaustão deles. Tiram até o último caldo. Qualquer coisa, poderá haver uma troca. É a coisificação do ser humano, da sua subjetividade. As pessoas passam a ter valor de coisa e podem ser sumariamente trocadas sem grandes prejuízos para a grande engrenagem.
Como parte desse processo, as pessoas se sentem sós. Vivem quase paranoicas com uma possível demissão. A alta competitividade, enfraquecimento das ações sindicais e a quebra dos laços de solidariedade social – fenômeno mais importante do capitalismo - têm associação com a vertente teórica neoliberal que defende a desregulamentação do mercado, a redução do Estado na economia e na proteção social aos trabalhadores e cidadãos. O Brasil vive uma onda neoliberalista e isso terá consequências importantes na maneira de se adoecer psiquicamente.
Pessoas que trabalham mais de 14 horas por dia, que demoram 4 horas por dia no trânsito, que cumprem metas e logo após recebem outra sem nem ter tempo para saborear o prazer da sua vitória. Pessoas que se açoitam para consumir, para produzir, para adoecer. As viagens de 15 dias cobram aos demais dias do ano uma fatura altíssima. Não há espaço para reflexão mesmo. Viver vira um ato contínuo para acordar, trabalhar, comer e dormir. O corpo vira um produto, uma máquina. O sexo se torna um produto para se ter prazer e não um encontro entre pessoas. O capitalismo diz que quem não goza o tempo inteiro está errado. A consequência são relacionamentos cada vez mais curtos, superficiais e sem o conhecimento do outro. O outro é um corpo, uma parte, mas o prazer é somente individual e não se compartilha.
O que o capitalismo também nos traz é a sensação de que sempre é possível fazer mais, sair da zona do conforto como dizem os coachs. Que é possível ir além. Só que essa mentira encontra até ressonância na nossa mente impregnada ideologicamente, mas não no corpo. O corpo nos dá o limite. Diz que não é possível tudo. Aí as pessoas adoecem. Tem crises de ansiedade, depressão e a tão atual Síndrome de Esgotamento Profissional/Síndrome de Burnout. Aí as pessoas não suportam a realidade e precisam de substâncias lícitas e ilícitas para viver. 
Tenho repensado muito a minha prática a partir dessas reflexões. Caso não faça isso, virarei um simples prescritor. Quiçá um traficante de drogas legais. Ser médico vai além de saber medicar. Ontem, quando meu paciente saiu, eu falei que havia aprendido muito com a sinceridade dele. A sua resposta foi assim: “ Então na próxima o senhor me paga a consulta ao invés de eu te pagar. Ando com umas contas atrasadas e vai ser de grande valia”. Sorrimos juntos e eu pude perceber que não foi o remédio o responsável por isso.

- Fernando Tenório
https://www.facebook.com/fernandoatn/posts/2413818632016241




domingo, 7 de julho de 2019

Por que nossos jovens se automutilam?

Prática assusta pais e educadores e aponta para um sofrimento não veiculado pela palavra. Especialistas falam da importância de se ensinar a lidar com frustrações.


By Amanda Mont'Alvão Veloso


“Por fora eu estou em chamas e por dentro sou apenas um vazio. Não posso me cortar, mas preciso que alguma coisa seja tirada de mim, preciso de alívio.”

As palavras são de Charlotte Davis, 17 anos, protagonista do livro Garota em Pedaços(Editora Planeta, 2017), escrito pela norte-americana Kathleen Glasgow. Mas bem poderiam pertencer aos muitos jovens que se cortam, se queimam e se furam para dar vazão a uma dor sem nome e sem endereço. Ficam as cicatrizes onde antes transbordava a angústia. 

A prática da automutilação, também conhecida como cutting, preocupa pais, familiares, amigos e educadores. A maior prevalência ocorre entre a pré-adolescência e a idade do adulto jovem, ou seja, dos 12 aos 30 anos, informa o psicólogo e especialista em tanatologia Carlos Henrique de Aragão Neto ao CVV (Centro de Valorização da Vida). Nos EUA, estima-se que uma a cada 200 garotas entre 13 e 19 anos se automutile, conforme dados trazidos pela autora Kathleen Glasgow. Ainda assim, o mapeamento do cutting não inclui os casos que não são notificados aos sistemas de saúde, o que pode indicar uma incidência ainda maior. É um assunto tão marginal nos relatórios e nas informações disponíveis quanto nas conversas.

De fato o tema é árido e a palavra, automutilação, carregada de peso. Sua existência evidencia o esgotamento das explicações racionais - afinal, por que alguém iria provocar dor física em si mesmo como maneira de lidar com outra dor? - e aponta para uma série de complexidades e ambivalências, tipicamente encontradas no período de transição do mundo infantil para o adulto.

“A automutilação está vinculada a angústias incontornáveis, onde o corte cristaliza, dá uma realidade a algo que é um sofrimento abstrato. O corte faz uma inscrição de algo sem registro. Há uma falha discursiva que apela ao real do corpo”, explicam ao HuffPost Brasil os psicanalistas Diana e Mário Corso, autores do livro Adolescência em Cartaz: Filmes e Psicanálise para Entendê-la (Artmed, 2018).



As mudanças corporais trazidas pela adolescência e o luto do corpo que se conhecia antes também podem se relacionar com o cutting, explicam os psicanalistas. “Digamos que pode também ser uma agressão a um corpo que lhe é uma novidade e que ele não sabe ainda lidar.”

A automutilação pode veicular diferentes mensagens e, portanto, ser desdobrada em vários significados, sempre conectados às particularidades de quem provoca as lesões. Pode ser a expressão de alívio de uma dor emocional; de uma punição dirigida a uma outra pessoa ou a si mesmo; de um cuidado consigo, já que a ferida vai ser tratada; um escape para a raiva, um canal de euforia, um ato que acalma ou mesmo uma maneira de sair de um estado de entorpecimento. No total, o psicólogo canadense E. David Klonsky, da Universidade de British Columbia, identificou 13 funções na prática do cutting, lembra Aragão Neto na entrevista ao CVV. “Dizem: eu não tolero, é insuportável para mim naquele momento e eu me mutilo para o alívio dessa dor emocional. É um discurso paradoxal para as pessoas leigas imaginar como alguém precisa se machucar para tentar se livrar de uma dor emocional, mas é exatamente essa a principal função que os jovens alegam.”

Justamente por não trazerem uma motivação única ou lógica, os cortes, ferimentos e queimaduras precisam ser “escutados”, mais do que vistos. São pedidos de socorro trazidos no corpo, mas estigmatizados por uma sociedade que rejeita a vivência do sofrimento e que demanda sucesso a todo custo.

Aragão Neto adverte: “Nós não podemos dar uma resposta simples ou simplista para algo tão complexo, que gera uma angústia dessa natureza. Não estamos falando de uma angústia comum, corriqueira. Não é algo como ‘eu tirei uma nota baixa na minha escola’ ou ‘eu tive uma discussão com meu melhor amigo e de repente fiquei triste um dia ou dois’. Estamos falando de uma dor profunda, emocional, que chamamos de angústia.”

Segundo o psicólogo, a escuta desses jovens na clínica revela a relação da automutilação com situações que ocorrem dentro da família, como pais ausentes, negligentes ou violentos, além da presença de violência, psicológica, física ou sexual no lar. Fontes de preocupação nas escolas, o bullying e o cyberbulling, disseminado nas redes sociais, também acentuam a vulnerabilidade dos jovens para práticas como o cutting. ”É algo muito cruel e um grande fator de risco para comportamentos autodestrutivos. Quando você tem o bullying presencial, juntamente com o cyberbullying, essa potência fica ainda maior.” Pais em sofrimento e crises econômicas são outros fatores que podem contribuir para o sentimento de desespero dos adolescentes. “Todos esses fenômenos ocorrem em função de uma interação muito complexa de vários fatores.”


 Automutilação e relação com suicídio
Assustadora para os adultos e para a sociedade como um todo, a automutilação não necessariamente configura um flerte com o suicídio, mas requer cuidado porque pode levar à morte por conta da intensidade dos ferimentos.

“Os cortes e pequenas sangrias constituem problemática diferente, pois costumam ser assuntos íntimos, em geral segredos ligados à angústia. Podem ser comportamentos contínuos e por vezes sistemáticos de automutilação, os quais ajudam a expressar e até a suportar as dores da vida.”

Diana e Mário explicam que a prática de se machucar e a enunciação das fantasias de suicídio podem se associar, mas não têm uma óbvia linha de continuidade. ”É importante esclarecer e discernir, pois a colagem na compreensão desses fenômenos tende a alarmar os pais de uma forma desmedida quanto a adolescentes que às vezes só copiam comportamentos.”

O ato de copiar pode ser percebido por meio do fenômeno de contágio, em que os membros de um grupo se mutilam, como um ritual de entrada ou pertencimento. “Tem uma estatística internacional que mostra que em torno de 18% das pessoas que se mutilaram o fizeram em grupo, na presença de outros, e relataram que começaram o comportamento autolesivo por causa do efeito de contágio. Na adolescência, nós sabemos que existe uma necessidade muito grande de se formar uma identidade própria e de pertencer a grupos”, esclarece o psicólogo Aragão Neto.

Seja por pertencimento, por solidão ou por quaisquer outros motivos, a automutilação cria marcas ainda mais profundas em uma ferida já vulnerável. Tais pedidos visíveis de ajuda têm a possibilidade de vir pela palavra, não pelo corpo; porém, além de um tratamento psíquico, é necessário que algumas mudanças sejam feitas, especialmente no que concerne às frustrações.

Aragão Neto afirma que é preciso estimular o desenvolvimento de habilidades emocionais para que os jovens possam lidar com as dificuldades do mundo, já que é impossível poupá-los dos problemas e dores. “Uma opção pode ser trabalhar com elas em casa e na escola para que desenvolvam resiliência e habilidades sociais e emocionais para lidar com bullying e cyberbullying, com perdas, com frustrações, para aprender a resolver conflitos sem se machucar e sem machucar o outro.”

Diana e Mário acrescentam que é preciso falar sobre o mal-estar inerente e incontornável que faz parte da condição humana:

“O essencial é estar aberto a entender a dor de existir. Vivemos em um tempo competitivo, agressivo, somos mais um produto à venda, temos um auto-marketing a fazer. Portanto, não podemos mostrar-nos frágeis, falíveis, inseguros, deprimidos, com dúvidas. No dia em que entendermos que os perdedores somos todos, talvez isso crie um mundo em que as pessoas não se sintam peças falhadas.”



https://www.huffpostbrasil.com/entry/automutilacao-jovem_br_5c374a88e4b05cb31c3fe7ed





domingo, 30 de junho de 2019

Monografia: "ESPECIFICIDADES DO MANEJO DO LUTO POR SUICÍDIO NA TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL"



Neste mês, apresentei meu trabalho de conclusão do curso de especialização em Terapia Cognitivo Comportamental. 
Agora, a monografia está disponível para leitura. 

RESUMO: Este estudo teve por objetivo compreender as possibilidades da aplicação da Terapia Cognitivo Comportamental no luto por suicídio. Dados do Ministério da Saúde apontam que há uma média de doze mil suicídios notificados por ano no Brasil, enquanto estudos sobre o impacto do suicídio referem que existe uma média de seis a doze pessoas afetadas por cada morte autoprovocada. Estes resultados indicam a importância de dedicar maior atenção aos sobreviventes enlutados, que muitas vezes precisarão de psicoterapia como suporte durante o processo de luto. Considerando que no Brasil há pouca literatura específica a respeito do tema, buscou-se investigar a compreensão da abordagem sobre o comportamento suicida, bem como uma revisão acerca das técnicas da TCC para luto e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), integrando todos estes conceitos, quando necessário, para o tratamento mais adequado no luto por suicídio. 

Palavras-chave: Suicídio; Luto; Transtorno de Estresse Pós-Traumático; Terapia Cognitivo-Comportamental.



https://www.cetcc.com.br/wp-content/uploads/2019/06/Luciana-Fran%C3%A7a-Cescon.pdf



domingo, 23 de junho de 2019

Livro: Um crime da solidão _____________ Andrew Solomon

Sinopse: Uma seleção inédita de textos do extraordinário autor de O demônio do meio-dia e Longe da árvore, que discutem com sensibilidade e empatia os vários aspectos do suicídio e da depressão.

demônio do meio-dia foi um livro divisor de águas sobre a depressão. Seu autor, Andrew Solomon, tratou de forma singular e inédita sobre esse mal que afeta milhões de pessoas no mundo, mas que, muitas vezes, ainda não é tratado com a seriedade devida. O suicídio é o extremo a que a doença pode levar, e é muito mais comum do que imaginamos: a cada quarenta segundos, alguém tira a própria vida. 
Nestes artigos que foram reunidos em livro pela primeira vez, numa edição exclusiva para o Brasil, Solomon reflete sobre casos recentes de suicídio de personalidades, como Anthony Bourdain, Robin Williams e Kate Spade, assim como de literatos, entre eles Sylvia Plath e David Foster Wallace, e ainda Virginia Woolf, que "tentou salvar-se pela arte" mas que sofria de um mal clínico intolerável e escolheu a água como um meio de morrer. Com sua narrativa fluida e seu olhar sempre empático, ele relata e analisa uma série de casos de pessoas que acabaram partindo antes da hora".

Quando eu soube que o autor havia lançado um livro sobre suicídio, fiquei muito interessada, pois gostei muito de "O demônio do meio-dia" e de "Longe da árvore". Solomon já havia mencionado no livro anterior sobre a eutanásia de sua mãe e aqui ele traz este evento marcante mais uma vez, bem como outros casos de suicídio (como o de um amigo, Terry) que ele analisa e sobre os quais reflete.

"Terry tinha levado com ele uma agradável névoa de lembranças. Entristecera corações sobre os quais pensava não ter nenhum controle. Se soubesse que tinha, teria se salvado? Saber do efeito de seu suicídio teria bastado para impedi-lo? Se o tivéssemos amado vivo como o amamos morto, ainda estaria vivo? Suas esperanças frustradas significam que a alegria que sentiu nunca foi real? E a alegria que deu aos outros? Teremos que devolvê-la? Será que ela pode sobreviver no mundo sem ele? A morte sempre esteve escrita em você, Terry? Deveríamos ter sabido vê-la?" (p. 24).  

"O fato de alguém ser extremamente feliz não significa que não seja extremamente triste; a extrema felicidade é em geral uma janela para a tristeza, se soubermos olhar por ela" (p. 24). 

Sobre os suicídios de Anthony Bourdain e Kate Spade:
"A frequência com que pessoas altamente talentosas e bem-sucedidas cometem suicídio é aflitiva. Ela nos mostra que uma vida de aplausos não é tão boa quanto se diz e que conseguir mais do que já conseguimos não nos fará mais felizes. Ao mesmo tempo, revela que ninguém está a salvo do suicídio, que as defesas que imaginamos ter, sejam elas quais forem, provavelmente são inadequadas" (p. 37). 


"O suicídio é resultado de desespero, desamparo, da sensação de ser um fardo para os outros. Pode ser alimentado por uma doença mental ou por circunstâncias da vida, mas quase sempre é resultado das duas coisas" (p. 39). 

"No cenário nacional, temos visto uma aceitação do preconceito e da intolerância, e isso afeta o estado de espírito de todos os cidadãos. Meu psicanalista disse que nunca nenhum de seus pacientes discutiu política nacional tão reiteradamente, sessão após sessão, como agora. Existe uma contínua tensão de ansiedade e medo de um lado, e brutalidade de outro. O ódio é deprimente - ser odiado, claro, é deprimente, mas odiar também é. O desgaste da rede de segurança social significa que mais e mais pessoas atingiram um ponto de súbita ruptura, e poucas mensagens de autêntico conforto lhes podem ser oferecidas nestes tempos impiedosos. Vive-se a exaustão pela doença, pelo isolamento, pelo desespero e pela crise existencial" (p. 43). 

"O oposto da depressão não é a felicidade, e sim a vitalidade" (p. 77). 

"São Tomás de Aquino categorizou todas as doenças em doenças do corpo e doenças da alma, e classificou as mentais como doenças da alma. Foi nessa época que um enorme estigma ficou associado à depressão, pois doença da alma era marca do desagrado de Deus, portanto coisa muito vergonhosa" (p. 95-96).


domingo, 16 de junho de 2019

A morte muda tudo

Neste final de semana, apresentei a monografia que fiz sobre o luto por suicídio.
Para finalizar minha apresentação, escolhi um trecho do texto de Terezinha Máximo, sobrevivente enlutada, que compartilho na íntegra aqui:


"A única certeza que temos na vida é a morte que um dia chegará e a morte muda tudo. Não sabemos, quando onde e como, mas ela virá.  E o assunto morte é tratado como tabu em nossa sociedade. Ninguém quer falar sobre isso e não estamos preparados para morrer e tão pouco para perder alguém.

Confesso que fazia parte deste meio que odiava falar sobre morte, papo chato, triste e dolorido. E quando eu me vi frente a frente com a realidade dura e cruel de perder para sempre alguém que eu amo,  senti o quão eu sou vulnerável e que  não sou nada diante de algo tão grande. 

Já havia perdido algumas pessoas queridas em minha vida, tias, avós, avôs, primos, mas a realidade era outra, sofri com essas perdas, sentia saudades, chorava com lembranças, mas nada comparada com o que vivencio com a morte da minha filha, uma dor sem igual que sou incapaz de descrever.

"Não consigo descrever primeiro porque trata-se de uma  filha e segundo que sua morte foi decorrente de suicídio, pois além da dor da perda ter que lidar com a dúvida se haveria ou não a possibilidade de ter evitado ou tentar descobrir  em que parte eu errei na missão de cuidar e proteger é torturante. E só quem passa ou  passou por algo semelhante consegue imaginar o que estou sentindo.

É muito difícil uma mãe ter que enterrar um filho, não é natural, deveria ser o contrário. Quando me tornei  mãe tive  a esperança de criar meus filhos para uma vida plena e feliz, queria ver a  Marina formada, bem empregada, com uma família, qualquer que fosse a forma de família que ela achasse conveniente e a realizasse, que ela viajasse muito como ela sempre desejou, que vivesse  rodeada de amigos, que eu ficaria com meus cabelos branquinhos e cheias de rugas vendo nossas fotografias e rindo de nossas lembranças, mas infelizmente nada disso irá acontecer a morte levou a Marina cedo demais e desfez os meus sonhos e  mudou tudo.

Todos os dias eu sinto falta do olhar dela, do sorriso, da sua voz, das gargalhadas que ela dava e a alegria que ela transmitia. Sinto falta de nossas conversas, do seu perfume,  de seu abraço, dos  nossos cafés, de nossas trocas de experiências, eu contando minhas histórias ela contando as dela, rindo das besteiras e  da minha demora  em acompanhar alguns assuntos.

A morte muda tudo, agora eu não sou a mesma pessoa de antes. Outro dia li que a morte é um buraco e que depois que perdemos alguém querido, passamos a ser carregadores de ausências.  Sim, passei a viver com um buraco. Não me tornei uma pessoa amarga, mas passei  a ver o  mundo de uma forma diferente, de repente tudo ficou cinza, não há mais cor, parece que fiquei na escuridão.

Mas estou aprendendo que  o tempo do luto cada um tem o seu e o luto por  suicídio é mais complicado e  ele deve e precisa ser vivenciado e acolhido para que se possa aos poucos encontrar uma nova forma de enxergar as cores e  a luz que outrora se via".

- Terezinha Máximo
https://nomoblidis.com.br/a-morte-muda-tudo/