domingo, 13 de janeiro de 2019

Livro: Por que policiais se matam?

"O diferencial das taxas de suicídio de policiais e da população geral também é expressivo no Brasil. Musumeci e Muniz (1998, p. 30) fizeram um mapeamento da vitimização de policiais militares e civis na cidade do Rio de Janeiro, e constataram que a taxa de suicídio da polícia militar carioca em 1995 foi 7,6 vezes superior à da população geral, ainda que 100% das mortes tenham acontecido durante a folga do policial" (p. 19).

"Os principais achados do projeto de pesquisa 'Suicídio e Risco Ocupacional: o caso da Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro' são objeto de análise da primeira parte deste livro. Trata-se de um estudo exploratório que buscou investigar o perfil de policiais militares, a gravidade e as dimensões do problema no estado do Rio de Janeiro. Quem são os policiais militares que se matam? E os que pensam, mas não tentam suicídio? E os que pensam e tentam se matar? Por que agentes de segurança pública tentam se matar? Será que o número de mortes por suicídio e tentativas entre a população policial militar é maior do que entre a população geral do estado da Guanabara? Podemos dizer o mesmo no que concerne à taxa e ao risco relativo de mortes por suicídio entre policiais? Em que condições, policiais militares pensam, tentam e cometem suicídio? Quais são fatores associados ao comportamento suicida entre policiais militares da PMERJ?"

"O perfil do policial suicida na PMERJ, reconstituído a partir das autópsias psicossociais com os seus colegas, amigos e familiares, reúne as seguintes características:

> Ser homem, casado, com filhos e evangélico.
> A maioria dos policiais mortos por suicídio fazia exercícios físicos; não fumavam  e consumiam bebida alcoólica.
> Alguns suicidas utilizaram serviços médicos antes da morte. O serviço psiquiátrico  é um recurso pouco usado pelo policial militar.
> Não há concentração de mortes por suicídio nos diferentes batalhões.
> A maioria dos casos policiais suicidas são de praças.
> Os policiais suicidas tinham ocupação remunerada fora da PMERJ. A atividade principal  era a segurança privada.
> A maioria parte dos mortos por suicídio declarou satisfação em trabalhar na PMERJ.
> E os principais problemas de saúde dos policiais suicidas: diabetes, gastrite, problemas psiquiátricos (depressão e alteração de humor) e consumo de drogas.
fonte: Elaboração própria" (p. 57).

"O diagnóstico concluiu que a maioria dos casos aconteceu sem planejamento. Dezessete policiais agiram por impulsividade. Muitos deles afirmaram que o incidente significou uma resposta imediata ao acúmulo de problemas diversos. Embora esses policiais não tenham planejado o ato suicida, 19 do total (n=22) confessaram ter pensado na maneira pela qual poria 'fim' a sua própria vida" (p. 58).

Trabalho interessantíssimo, organizado pela competente Dayse Miranda.
Leitura mais do que recomendada!




domingo, 6 de janeiro de 2019

Óbitos por Suicídio entre Adolescentes e Jovens Negros – 2012 a 2016

O Ministério da Saúde lançou, na última segunda-feira (31), a cartilha ‘Óbitos por Suicídio entre Adolescentes e Jovens Negros – 2012 a 2016’. A publicação tem como objetivo elencar os grupos de maior risco ao suicídio entre a juventude no Brasil, explorando tanto a análise entre brancos e negros, quanto os grupos de maior vulnerabilidade entre os negros, para que gestores e profissionais de saúde desenvolvam ações e estratégias para a prevenção do suicídio e atendimento integral desta população. A análise foi realizada usando o Sistema de Informação sobre Mortalidade do Departamento de Informática do SUS do Ministério da Saúde (DATASUS/SIM/MS).



“É importante lembrar que o suicídio pode afetar qualquer pessoa, mas existem contextos que aumentam essa vulnerabilidade. Os jovens negros enfrentam condições de vida e de saúde que expressam maior risco e consequentemente demonstram cenários de maior vulnerabilidade e de iniquidades em saúde”, destaca a diretora substituta do Departamento de Apoio à Gestão Participativa e ao Controle Social da Secretaria de Gestão Estratégica Participativa do MS (DAGEP/SGEP/MS), Marina Marinho.

A publicação elaborada pelo Núcleo de Evidências para Políticas de Equidade em Saúde do (NEPES/DAGEP/SGEP) contou com a parceria do GT Suicídio – composto por áreas técnicas do MS, a Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Ministério dos Direitos Humanos (SEPPIR/MDH), o Observatório de Saúde de Populações em Vulnerabilidade da Universidade de Brasília (ObVul/UnB) e de especialistas.
"A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra reconhece o racismo, as desigualdades étnico-raciais e o racismo institucional como determinantes sociais das condições de saúde. Um dos grupos vulneráveis mais afetados pelo suicídio são os jovens e sobretudo os jovens negros, devido principalmente ao preconceito e à discriminação racial e ao racismo institucional. Muitas vezes as queixas raciais podem ser subestimadas ou individualizadas, tratadas como algo pontual, de pouca importânciae ainda culpabilizando aquele que sofre o preconceito. O estigma em torno do suicídio, aliados a elementos estruturantes como o racismo estão relacionados e contribuem para o silenciamento em torno da questão, além das dificuldades de se falar abertamente sobre o assunto"(p. 16).
"As principais causas associadas ao suicídio em negros são: a) o não lugar, b) ausência de sentimento de pertença, c) sentimento de inferioridade, d) rejeição, e) negligência, f) maus tratos, g) abuso, h) violência, i) inadequação, j) inadaptação, k) sentimento de incapacidade, l) solidão, m) isolamento social.
Outros fatores relacionados: a) não aceitação da identidade racial, sexual e afetiva, de gênero e de classe social" (p. 17).


"Por que as maiores taxas de suicídio estão na população negra? 

O racismo causa impactos danosos que afetam significativamente os níveis psicológicos e psicossociais de qualquer pessoa. A prática do racismo e da discriminação racial é uma violação de direitos, condenável em todos os países. No Brasil, é um crime inafiançável, previsto em lei.
Os impactos do racismo geram efeitos que incidem diretamente no comportamento das pessoas negras que normalmente estão associados à humilhação racial e à negação de si, que podem levar a diversas consequências inclusive às práticas de suicídio.
Os determinantes sociais e principalmente aqueles relacionados ao acesso e permanência na educação influenciam adolescentes e jovens negros sobre suas perspectivas em relação à vida. Destacam-se as ações abaixo como fatores de proteção contra o óbito por suicídio:
• Acompanhamento da frequência escolar;
• Condições para permanência na escola/universidade;
• Cotas raciais nas universidades" (p. 54).


"Em 2012, foram registrados no Sistema de Informação sobre Mortalidade 3.017 mortes por suicídio em adolescentes e jovens. Esse número manteve-se estável no decorrer dos cinco anos analisados (2013: 2.991; 2014: 3.040; 2015: 3.068), chegando a 3.097 óbitos em 2016. [...] De 2012 a 2016, a proporção de suicídios entre negros aumentou em comparação às demais raças/cores, subindo de 53,3% em 2012 para 55,4% em 2016. O percentual de suicídios aumentou entre os pardos (2012: 46,2% e 2016: 49,3%) e indígenas (2012: 2,1% e 2016: 2,9%)" (p. 23).

"Em 2012, a taxa de mortalidade por suicídio foi de 4,88 óbitos por 100 mil entre adolescentes e jovens negros e aumentou 12%, alcançando 5,88 óbitos por 100 mil entre adolescentes e jovens negros em 2016. Por outro lado, a taxa de mortalidade por suicídio entre os brancos permaneceu estável, isto é, a variação não foi significativa estatisticamente. Em 2012, a taxa de mortalidade por suicídio entre adolescentes e jovens brancos foi de 3,65 óbitos por100 mil, e em 2016 essa taxa foi de 3,76 óbitos por 100 mil. Analisando esses dois grupos em 2016, nota-se que a cada 10 suicídios em adolescentes e jovens, aproximadamente seis ocorreram em negros e quatro em brancos" (p. 26).

Suporte social e seu papel na prevenção do suicídio
"A raça/cor atua como um determinante de como as pessoas vivenciam as tensões da vida e estas estabelecem condições de visibilidade que definem como as pessoas são vistas na comunidade, aumentando inclusive o risco de suicídio. Em diversas situações, o que é visível é a raça/cordas pessoas enquanto sua contribuição na sociedade torna-se invisível. Os estereótipos raciais são psicologicamente danosos, entretanto, o desenvolvimento do potencial dos adolescentes e jovens negros, especificamente quanto à liderança, o envolvimento em organizações comunitárias, e em habilidades de comunicação permite confrontar de um modo efetivo o racismo na sociedade.
O sentimento de pertencimento a uma comunidade funciona como um amortecedor essencial contra os efeitos negativos da solidão e da baixa aceitação. O suporte social, entendido como relações próximas e de afeto entre as pessoas, atua como um fator de proteção e promoção à saúde. O suporte social realizado pessoalmente pelos pares dos adolescentes e jovens reduz a chance de sofrer bullying ou outras formas de agressão" (p. 56).
A escola e ter amigos próximos têm um papel fundamental na prevenção ao suicídio entre os adolescentes. O ambiente escolar contribui positivamente para desenvolver a autonomia dos adolescentes e a sensação de pertencimento e aceitação.
Além disso, a conexão com a comunidade escolar reduz o risco de tentativas de suicídio entre adolescentes negros, especialmente entre aqueles que vivem em bairros mais pobres, atuando como um forte fator de proteção.
O desemprego e a pouca capacitação profissional que atingem os jovens negros são resultado de séculos de discriminação, privação e negação de oportunidades. O desemprego juntamente com a discriminação, a segregação e a falta de acesso aos cuidados de saúde são determinantes sociais relacionados ao suicídio entre os jovens negros. É essencial que a comunidade forneça um suporte social para os adolescentes e jovens negros, pois o envolvimento da comunidade desempenha um papel na prevenção do suicídio. Ser reconhecido e apreciado como indivíduos únicos e sentirem-se pertencentes aos seus grupos faz com que a comunidade proteja os mais vulneráveis, construindo conexões sociais e desenvolvendo as habilidades de resiliência nas situações difíceis da vida. A comunidade precisa identificar parceiros e recursos para formação de uma rede de prevenção ao suicídio; é salutar envolver toda a comunidade, pois uma vida perdida precocemente impacta a todos. Os profissionais de saúde devem se mobilizar para identificar os indivíduos mais vulneráveis e trabalhar de modo intersetorial com toda a comunidade" (p. 57).



domingo, 30 de dezembro de 2018

Do luto à luta: Morte de filhos leva pais cearenses a investirem em projetos sociais


domingo, 16 de dezembro de 2018

Mitos e verdades sobre o suicídio no final do ano



"Natal e réveillon são datas de comemoração, uma época de alegria, paz, esperança e gratidão, celebrada em reuniões alegres, na companhia de pessoas que amamos. Ou pelo menos seria bom que fosse assim. Mas nem sempre é tão simples. Para alguns, esse é um dos períodos em que mais afloram angústias. O balanço do ano que terminou e as perspectivas para o próximo costumam despertar apreensões, ainda que mescladas com esperança.

Parece lógico que para uma pessoa deprimida os feriados possam ser especialmente difíceis – com uma dose a mais de estresse, sentimentos de solidão e lembranças tristes de entes queridos que já se foram. Não é de estranhar, portanto, que tanta gente acredite que os índices de suicídio crescem nos dias próximos ao Natal. Entretanto, dados de pesquisa realizada revelam uma história diferente. Estudos recentes de vários países mostram que os índices de suicídio em dezembro – e no Natal em particular – tendem a ser os menores do ano, mas nos outros feriados há uma ascensão, especialmente no ano-novo

Em um desses estudos, os índices de suicídio na Inglaterra sofriam uma queda consistentemente no Natal e uma ascensão no ano-novo durante o período de estudo de 15 anos, segundo o artigo publicado em junho no Journal of Affective Disordersof Public Health. Os pesquisadores relataram um pico geral na primavera e os índices diários mais elevados foram observados nas segundas-feiras.   
Um estudo menos recente relatou um declínio semelhante no dia do Natal nos Estados Unidos, com índices até 15% mais baixos do que a média naquele dia. As descobertas relatadas em 2015 no mesmo periódico coincidem, revelando cerca de 25% menos suicídios por volta da época do Natal na Áustria. Os índices lá eram especialmente baixos no dia 24 e permaneciam assim até
1º de janeiro, quando ocorria o maior número de suicídios em relação a qualquer outro dia do ano. Os autores observaram também maiores índices nas segundas e terças-feiras, assim como durante a semana após a Páscoa.  
No entanto, há exceções a essa tendência. Austrália e México mostram índices ligeiramente elevados tanto no dia de Natal quanto no ano-novo (assim como no Dia das Mães e no dia da independência mexicana). Mas a maioria das nações acompanha o padrão que coloca o mito em xeque: os índices de suicídio são mais baixos do que a média próximo ao Natal. “Muitas pessoas acreditam que as taxas de suicídio são mais altas nessa época do ano, o que pode deixar as pessoas mais alertas para situações em que há risco de suicídio, o que também poderia influenciar na diminuição das taxas de suicídio nesse período do ano”, diz a psiquiatra Joana Silveira Pargendler, da Associação Catarinense de Psiquiatria, coordenadora do Setembro Amarelo 2016 (campanha de prevenção ao suicídio).
Segundo ela, são registrados, em média, 24 suicídios por dia, o equivalente a 9 mil mortes por ano no Brasil. Os dados da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) sugerem que existe sazonalidade nas taxas de suicídio semelhante à encontrada em países de clima temperado, apenas na região Sul do Brasil, e não é possível identificar o mesmo fenômeno em outras regiões do país. Um estudo mostrou que as maiores taxas de suicídio nessa região ocorreriam na primavera, e não no inverno, como ocorre em países de clima temperado. A psiquiatra ressalta que, independentemente da época do ano, é fundamental falar a respeito do suicídio no Brasil e principalmente sobre sua prevenção. “Combater o preconceito ligado aos transtornos mentais é um passo importante que pode salvar vidas; se ideias de suicídio passam pela cabeça de alguém, é importante que se procure ajuda especializada para avaliação do risco.” A médica ressalta ainda que, na grande maioria dos casos, a pessoa que apresenta esses pensamentos tem algum transtorno mental que precisa ser tratado. 
SÍNDROME DE DOMINGO
De acordo com o psicólogo clínico Martin Plöderl, coautor do estudo austríaco na Universidade Médica Paracelsus, em Salzburgo, há tipicamente mais conexão social para muitas pessoas próximo ao Natal, o que é um fator protetor estabelecido para suicídio. As entradas em hospital psiquiátrico também diminuem durante esse período. 
Então, por que a ascensão no ano-novo? Os pesquisadores sugerem que o “efeito da promessa não satisfeita” pode explicar esse fenômeno, assim como os aumentos após a Páscoa e fins de semana. “Muitos de nós estamos familiarizados com os sentimentos após os feriados; há uma sensação de vazio, como a ‘síndrome do domingo à noite’, em que muita gente se sente bastante angustiada – é como se pairasse no ar uma pergunta: ‘Então era só isso?’. Em geral esperamos nos divertir e relaxar mais; de repente, nos damos conta de que não foi tão bom quanto queríamos e no dia seguinte temos de voltar para rotina”, diz Plöderl. “Para pessoas deprimidas, a promessa não cumprida do Natal e o ano em branco à sua frente aumentam a desesperança e, dessa forma, o risco de suicídio.” 
O consumo maior de álcool que ocorre na véspera e no dia de ano-novo pode também desempenhar um papel no rebaixamento de inibições. “Algumas pessoas podem postergar sua morte planejada para que suas famílias e amigos possam aproveitar o Natal ou para se darem uma última chance”, acredita o pesquisador.   
Embora esses achados não sugiram nenhum risco de suicídio de um indivíduo em particular, trazem implicações importantes para a política pública e profissionais de saúde. Os Centros Americanos para Controle e Prevenção de Doenças advertem em seu website que perpetuar o mito do suicídio no Natal pode afetar a prevenção e os esforços de conscientização pública. “Além disso, essa percepção equivocada pode se traduzir em um planejamento de alta dos cuidados psiquiátricos menos favorável”, diz Plöderl. “Pode ser bom para alguns pacientes deprimidos estar em casa durante os feriados, mas, à medida que janeiro se aproxima seria interessante que tivessem mais apoio.” 



domingo, 9 de dezembro de 2018

O luto nas festas de finais de ano


Perder uma pessoa querida é uma das experiências mais difíceis que enfrentamos ao longo da vida. Porém, datas especiais (como o aniversário da pessoa falecida, a data do falecimento e datas como o Dia das Mães e o Natal) podem ser momentos nos quais a saudade e a dor se intensificam ainda mais, pelas memórias afetivas que as datas trazem e por às vezes aumentar a sensação da falta que aquela pessoa nos faz.

A página Psicologias do Brasil traz algumas ideias a respeito: 

Para os enlutados

Permita-se sentir a dor. Permitir talvez seja a palavra-chave. Permita-se sentir tristeza num momento em que todos estão alegres, afinal você está vivenciando a ruptura de um vínculo. Aceite seus pensamentos e sentimentos. Não tente racionalizar emoções tão fortes. Elas ocorrem porque perdemos, fisicamente, alguém que amamos, mas esta pessoa ainda está viva em nossos pensamentos e memórias. Fale das suas emoções, dos seus sentimentos e inquietudes.

Permita-se dizer não. Você não tem a obrigação de aceitar todos os convites. Faça o que for possível e o suficiente. Faça tão somente aquilo que fizer sentido para você e te trouxer um significado.

Encontre uma forma, mesmo que simbólica, de recordar o ente querido que morreu. Procure criar uma maneira, um espaço ou um momento e tempo específico para rememorar a pessoa que morreu.

Permita-se sentir alegria. Às vezes, quando estamos sofrendo, podemos ter um momento de leveza. Uma coisa engraçada acontece e nós sorrimos. Deixe a alegria e o riso acontecerem! Não repreenda a si mesmo por se sentir feliz em seu processo de luto.

Para os familiares e amigos dos enlutados

Seja compreensivo. Eu penso que o primeiro quesito quando estamos ao lado de um enlutado é que sejamos compreensivos e solidários com a dor do outro. Então, ofereça-se para ajudar com alguns afazeres típicos dessa época, tais como, por exemplo, cozinhar um prato especifico para o almoço de Natal. Esta é uma ótima maneira da pessoa se sentir acolhida e saber que você se preocupa com o bem-estar dela. Se preferir, convide esta pessoa para almoçar em sua casa.

Esteja disponível para ouvir o enlutado. Não evite alguém só porque você não sabe o que dizer. A escuta ativa dos amigos e da família é um passo importante para ajudar alguém a lidar com a dor e os sentimentos da perda. Deixe-os compartilhar suas emoções e sentimentos. É de extrema importância que o enlutado se sinta acolhido em seu momento de dor e angustia.

Enfim, o Natal será para todo o sempre diferente depois de uma perda significativa. Faz parte do processo de luto compreender as emoções que estas datas nos proporcionam e, na medida do possível, se reorganizar emocionalmente para vivenciá-las. A morte de um ente querido implica necessariamente numa profunda mudança em nossas vidas e na forma como vamos continuar a caminhada. Talvez você encontre uma nova forma de vivenciar estes momentos, pois a elaboração do luto passa pela assimilação da ausência com a celebração com aqueles que estão vivos e fazem parte da nossa existência.




"Nossas digitais não se apagam das vidas que tocamos".

Pensando em tudo isso, no último encontro do grupo de sobreviventes enlutados por suicídio do Vita Alere do ano ontem (08/12), fizemos uma caixinha muito especial: cada um dos participantes (sobreviventes e facilitadoras) colocou suas digitais na árvore da vida, arte maravilhosa da dona Regina, mãe da Elis Cornejo, que facilita os grupos da Vila Mariana comigo. Cada um de nós levou uma caixinha para casa para lembrar que não estamos sozinhos.

Os entes queridos que partiram e cada um de nós somos únicos e insubstituíveis. Cada um de nós compõe esse espaço coletivo tão rico de significado e afetos.
Nosso grupo é este lugar de acolhimento, troca, lágrimas e sorrisos, saudade e esperança, amor e gratidão. 

Que nas festas de final de ano possamos respeitar os sentimentos do outro e os nossos.



domingo, 2 de dezembro de 2018

Suicídio e trabalho: um pesadelo real

Por Cacau Birdmad


Eu sei que já escrevi sobre suicídio, mas dessa vez quero trazer uma questão diferente, não relacionada à minha experiência pessoal, mas profissional. Quero falar do suicídio relacionado ao trabalho.

Quero falar disso porque é um tema muito ignorado quando falamos de suicídio. Na realidade, quando falamos de saúde mental, muito se fala de questões individuais e pouco se fala de questões sociais e – também, portanto – do trabalho.

Eu já falei, no meu texto sobre terceirização, sobre reestruturação produtiva. Um dos efeitos maléficos dessa reestruturação é a fragilidade de vínculos de trabalho, ou seja, a grande possibilidade de se ficar sem trabalho.

Vivemos numa sociedade na qual o trabalho é fundamental. É através do trabalho que garantimos nossa sobrevivência. É através do trabalho – infelizmente não como ferramenta de transformação do mundo, mas de produtividade – que somos socialmente valorizados. E é através do trabalho, também, que muitos de nós transformamos e construímos nossas identidades.

Estar excluído do trabalho é estar à margem de uma sociedade que deposita seu valor naquilo e no quanto você produz – em valores econômicos, apenas.

Quem trabalha, portanto, trabalha sempre sob a angústia da possibilidade de perder seu emprego – seu sustento, seu valor social, ferir parte de sua identidade. Quem não tem emprego tem ainda mais medo: de não aparecer outro bico, outro freela, de não ter o pagamento garantido.

Esse medo faz com que nos submetamos a condições de trabalho que não nos fazem bem. Isso é mais grave para pessoas pobres, que tem menos opções de escolha e para quem as consequências de perder uma “oportunidade” são muito mais graves – mas é fácil pensar também em categorias consideradas mais privilegiadas que sofrem intensamente com isso, como programadores, designers, publicitários e bancários.

Aceitamos horas extras sem pagamento, trabalhos aos finais de semana. Aceitamos sobrecargas que nos roubam convívio social e espaço para o fortalecimento de outros aspectos de nossa vida, que nos deixam exaustos e fragilizados. Aceitamos, por vezes, até mesmo humilhações, agressões – ou mesmo passarmos por cima de nossa ética – aceitamos, ou aturamos assédio moral.

Passamos a ver nossos colegas e outros profissionais da nossa área como competidores – visão muitas vezes disseminada já nas faculdades e até mesmo nas escolas – pois podem “roubar nossa vaga”, o que reduz oportunidades de compartilharmos experiências, aprendizagens, de nos apoiarmos e confiarmos uns nos outros. Isso produz sensações de isolamento e de permanente desconfiança e tensão, além de, novamente, nos forçarmos a constantemente ignorarmos nossos limites para nos demonstrarmos importantes, úteis e necessários aos nossos locais de trabalho.

Em locais nos quais a produção é medida por equipe, passamos a ser vigias e carrascos uns dos outros, temendo que o mal desempenho de um colega nos afete.  Acima de tudo, essa competitividade exacerbada dificulta ou impede que nos unamos para lutar contra trabalhos massacrantes.

Nesse cenário, trabalhos que poderiam nos dar prazer e orgulho vão, por vezes, perdendo seu sabor. A vida se torna acelerada, cansativa, solitária e sem sentido. Somada a uma cultura que exalta a excelência e o valor por produção e que atribui resultados a fatores individuais, como personalidade e capacidade, nos sentimos fracos, incapazes, inadequados.

Fadigados pela sobrecarga, pela tensão, desconfiança, solidão e angústia, nós ficamos vulneráveis para o adoecimento mental. Não é à toa que os índices desse tipo de adoecimento só têm crescido, bem como os afastamentos do trabalho por questões de saúde mental.

É importante destacar que esse cenário do mundo do trabalho está inserido numa sociedade machista, racista, heteronormativa e transfóbica. Isso significa que pessoas que não são do gênero masculino, brancas, heterossexuais e cissexuais sofrem muito mais intensamente com essas questões, visto que suas chances de perder empregos e não conseguirem se recolocar no mercado são ainda maiores, motivadas por preconceitos sociais.

Entre bancários, no período de 1996 a 2005, havia tentativas de suicídio diárias, acarretando em uma morte a cada 20 dias. Não à toa, afinal a categoria bancária é considerada uma das mais afetadas pela reestruturação produtiva, com transformações gigantescas a sua forma de trabalho, que os transformou de pessoas que te auxiliavam no cuidado com seu dinheiro no banco em vendedores submetidos a metas exaustivas e medidas inescrupulosas para que sejam atingidas, contra as quais seu sindicato luta arduamente.

Outra categoria marcada pelas tentativas de suicídio são atendentes de telemarketing. Trabalho em não se exige grande especialização, ou seja, no qual parece fácil ser substituído (o que não é verdade), em que há grande controle daquilo que se faz e de como se fala, por vezes com frases prontas e cheias de regrinhas que se precisa lembrar o tempo todo, grande isolamento, violência (seja assédio moral de supervisores, seja a violência de clientes), pouca clareza ou controle dos resultados (muitas vezes não se sabe se o problema do cliente pôde ser resolvido, por exemplo, e não importa quanto se argumente, nem sempre vendas são garantidas, dependendo muito de outros). Ou seja: trabalho recheado de fatores prejudiciais à saúde mental.

Se o índice de tentativa de suicídios é maior em alguns tipos de trabalho, categorias e vínculos trabalhistas (terceirizados, trabalhos informais), por que ainda falhamos em ver suas relações com o trabalho?

Precisamos começar a falar sobre isso para que possamos compreender e transformar essas situações produtoras de tanto sofrimento. Para que possamos reconhecer as armadilhas nas quais somos colocados e procurarmos caminhos para nos livrarmos delas. Para que compreendamos que não estamos adoecendo por sermos fracos, incapazes ou inadequados – mas porque nossos trabalhos estão sendo pensados e feitos de modo a nos prejudicar. Para que possamos nos unir e lutar por outras condições sociais, por outros modos de trabalhar. Para que pessoas possam ter outras saídas desses cenários que não a morte.

Se você está percebendo que seu trabalho está te gerando sofrimento, procure ajuda. Na saúde pública você pode recorrer aos Centros de Referência em Saúde do Trabalhador. Há também na Clínica Ana Maria Poppovic, em São Paulo, o projeto da Clínica do Trabalho, nos quais os atendimentos psicológicos olham cuidadosamente para essas questões. Alguns sindicatos, como o Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, oferecem semestralmente grupos terapêuticos e de enfrentamento. Você pode também, é claro, procurar psicólogos clínicos, mas preste atenção na maneira com a qual eles encaram o trabalho: como um aspecto menos relevante do que fatores individuais ou como um elemento importante no seu adoecimento?

Você não precisa enfrentar esse problema sozinha.

http://ovelhamag.com/suicidio-e-trabalho-um-pesadelo-real/