domingo, 25 de agosto de 2019

A era da autodestruição


Os jovens buscam cada vez mais no suicídio uma fuga para seus sofrimentos. Maior acesso a drogas, isolamento e perfeccionismo são algumas das explicações para o crescimento do problema
Por Gabriela Loureiro

Eu fiz de conta que era um dia normal. Levantei, fui à escola, voltei para casa e subi no telhado do prédio. Meu pé direito já estava no ar. Bem quando ia pular, olhei para cima. Do outro lado da rua, uma família olhava para mim da janela do seu apartamento. Havia essa menininha com o olhar fixo em mim, e ela balançou a cabeça e cobriu o rosto. Por causa dela, não pulei.” Esse é o depoimento de um jovem de 20 anos que chegou à beira do suicídio em 2009 e mudou de ideia. O relato foi postado num tópico no site Reddit sobre os usuários da rede social que tentaram se matar. No início de outubro eram quase 10 mil comentários no tópico, boa parte relatos em primeira pessoa de uma epidemia silenciosa que não para de crescer no Brasil.

Segundo dados do Mapa da Violência 2014, a taxa de suicídio de jovens com idade entre 10 e 14 anos aumentou 40% no país nos últimos 10 anos. Entre os jovens com idade entre 15 e 19 anos, o crescimento foi de 33%. O Brasil é um exemplo de uma tendência que assola o mundo: o suicídio é a principal causa de morte entre jovens em um terço dos países. Por aqui, o suicídio está atrás de homicídios e acidentes de carro, com taxas 4 e 6 vezes maiores de mortes. O problema é que o assunto ainda é um tabu — e características da adolescência, como isolamento e alterações de humor, fazem com que o comportamento suicida muitas vezes passe batido para a família.

“O adolescente não tem uma visão crítica em relação ao prejuízo. Prepotência, despreocupação com o futuro e achar que aquilo não vai dar em nada os deixam vulneráveis”, diz Jair Segal, psiquiatra especialista em comportamento suicida. “Boa parte desses jovens é exposta mais precocemente a substâncias psicoativas, especialmente o álcool, usado para minimizar o sofrimento. E a sociedade está cada vez mais tolerante ao uso de álcool em todas as faixas etárias.”

O último Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), de 2013, aponta que 36% dos jovens consomem álcool de forma nociva — quatro doses ou mais em até duas horas. É um aumento de três pontos percentuais em relação há três anos, segundo o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, da Universidade Federal de São Paulo. Quando a bebida é aliada à depressão, doença que afeta quase um terço dos adolescentes, tem-se uma combinação perigosa. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a depressão é a principal causa de doença e inaptidão de adolescentes no mundo.

Outro fator apontado como uma das causas do aumento nos suicídios é o excesso de aulas, cursos e esportes a que os jovens são submetidos. Trata-se de um estilo de vida que está sendo investigado por psicólogos que relacionam a epidemia ao perfeccionismo. Estudo divulgado no ano passado nos EUA apontou que 70% dos 33 meninos que tiraram a própria vida tinham exigências altas demais. “O adolescente muitas vezes sofre com uma imagem fantasiada dos pais e não tem espaço para ser quem ele é, além de não tolerar a frustração”, diz Karen Scavacini, psicóloga e fundadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio.


INTERNET > Entre trolls e anjos da guarda

A internet tem um papel ambivalente quando o assunto é suicídio. Por um lado, ela pode ser a origem dos problemas dos jovens que tiram a própria vida. Um caso bastante comentado no Brasil foi o de Júlia Rebeca, que em 2013 anunciou sua própria morte pelo Twitter depois que um vídeo íntimo seu com outra jovem e um homem foi divulgado no WhatsApp. Rebeca, que morava em Parnaíba, no Piauí, foi encontrada morta enrolada no fio do aparelho de fazer chapinha. Na mesma semana, uma adolescente de 16 anos se suicidou em Veranópolis, no Rio Grande do Sul, depois que um ex-namorado vazou suas fotos íntimas na internet. “Essa exposição provoca uma dor muito grande e, se os jovens não conseguem falar sobre isso com a família ou amigos porque vão sofrer rejeição, eles correm maior risco de entrar em depressão e cometer suicídio”, diz o psiquiatra Humberto Correa.

O bullying online já levou dezenas de jovens ao suicídio e fóruns virtuais oferecem até passo a passo para se matar. Um dos primeiros casos brasileiros de suicídio assistido foi do gaúcho Vinícius Gageiro Marques, que se matou em 2006. Marques foi orientado a usar o método barbecue, ou suicídio por inalação de monóxido de carbono. Ele consiste em manter duas grelhas queimando num local fechado e pequeno, como um banheiro. Marques pediu ajuda num grupo de discussão em inglês para saber como suportar o calor até desmaiar, e um bombeiro aposentado de Chicago lhe deu instruções. Foi uma amiga virtual do Canadá que percebeu o que estava acontecendo, ligou à polícia local e pediu que avisassem as autoridades gaúchas. Era tarde demais.

Por outro lado, nem tudo é tragédia na relação entre web e jovens suicidas. A americana Trisha Prabhu, de 13 anos, criou um projeto para combater o cyberbullying, que a levou a ser finalista na Feira de Ciências do Google realizada neste ano. Trisha criou o “Rethink” (repense, em inglês), um sistema de alerta que exige que as pessoas pensem duas vezes antes de postar algo prejudicial em redes sociais. A ideia surgiu depois que ela resolveu estudar o cérebro dos adolescentes e descobriu que ele não está completamente desenvolvido, o que faz com que os jovens sejam mais impulsivos. Trisha testou o alerta com voluntários e, segundo ela, 93% desistiram de divulgar imagens depois do alerta.

A internet também pode ser um lugar onde se encontra ajuda. “As pessoas sentem que não recebem atenção ou são julgadas. Aí falam conosco e se sentem aliviadas”, disse à GALILEU Adriana Rizzo, voluntária do Centro de Valorização da Vida (CVV), ONG de combate ao suicídio que recebe um milhão de ligações por ano no Brasil. A ONG também atende por e-mail, chat e Skype. Hoje, a internet corresponde a 20% das assistências, a maioria voltada a jovens.

INFLUÊNCIA > Suicídio por contágio

Um rapaz da aristocracia alemã se apaixona por uma bela jovem casada, não é correspondido e acaba se matando com um tiro na cabeça. Esse é o resumo do romance Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Johann Wolfgang Goethe, proibido em vários países no século 18 por causa de uma onda de suicídios entre jovens que usaram o mesmo método do protagonista.

Por causa disso, a psicanálise criou o termo “efeito Werther”, ou seja, o suicídio “por contágio” ou “copycat”, quando celebridades ou figuras públicas se suicidam e influenciam multidões. Segundo pesquisas, ao menos 5% dos jovens tiram a própria vida por contágio. A atriz Marilyn Monroe, por exemplo, causou um aumento de 12% nos suicídios nos Estados Unidos após sua morte por overdose de barbitúricos em 1962.

“A forma como um suicídio é tratado na escola ou na mídia pode influenciar outros jovens, principalmente se há uma identificação muito forte com essa pessoa”, diz Karen Scavacini. O comportamento em vida de artistas também pode ser uma influência ruim. Quer dois exemplos? No clipe Everytime, a cantora Britney Spears se suicida numa banheira e renasce. Outra cantora, Demi Lovato, já declarou que se cortava para aliviar a dor.

ESTIGMA DA LOUCURA > Elefante na sala de estar
Suicídio já foi um tabu maior no passado, quando os jornais sequer falavam no tema por medo do efeito contágio. Anos de debates depois, ficou claro que, na verdade, a melhor forma de combatê-lo é exatamente falando sobre o assunto. “Há 20 anos, ninguém falava em câncer, Aids”, diz Karen. “Hoje, por que as pessoas fazem exames preventivos do câncer? Porque essas doenças foram debatidas, houve mobilização e campanhas.”

O problema do tabu é que as pessoas que tentam o suicídio são vistas como loucos, não como pessoas doentes que precisam desesperadamente de ajuda — e isso só serve para isolá-las ainda mais. Mônica Kother Macedo, psicanalista especializada em suicídio e professora da PUCRS, trabalhou diretamente com pessoas que tentaram se matar e uma das frases mais ouvidas foi “se eu dissesse o que passava na minha cabeça iam dizer que estava louco”. “Às vezes nem a pessoa leva seu sofrimento a sério”, diz Mônica.

Em mais de 90% dos casos de suicídio havia uma doença mental envolvida, sendo a depressão a mais comum. “As pessoas são capazes de ir ao médico por causa de rinite alérgica, mas não procuram ajuda para curar uma depressão. Elas veem isso como uma falência pessoal ou familiar, e não como uma doença, que tem cura, ao contrário da falência pessoal”, diz o psiquiatra Segal.

Outro obstáculo que isola ainda mais a pessoa com comportamento suicida são os mitos, como o de que quem fala em se matar não vai fazê-lo. “Pode ser que a pessoa esteja falando para chamar atenção, mas isso não é necessariamente negativo, ela está pedindo ajuda”, diz Carlos Felipe Almeida D’Oliveira, que foi coordenador da Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio.

ETNIAS > Índios em extinção

O Rio Grande do Sul é o estado com a maior taxa de suicídio do Brasil, quase o dobro da média nacional. Mas a cidade que ocupa a primeira posição do ranking de suicídios, com taxa dez vezes acima da média nacional, está no outro extremo do país: é São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. O motivo? Os índios entraram numa espécie de processo de extinção voluntária. É como se a ameaça de morte coletiva de 2012 da tribo Guarani Caiová estivesse se concretizando pouco a pouco em vários lugares do Brasil.

Nos últimos 10 anos, o suicídio entre jovens no Amazonas cresceu 134%, e a situação é parecida em outros estados do Norte, como Acre e Rondônia, que viram dobrar suas taxas de suicídios. E essa tendência não é registrada apenas no Brasil. Nos Estados Unidos, os jovens nativos com idade entre 15 e 24 anos se suicidam 3,3 vezes mais do que o restante dos norte-americanos. Já entre os indígenas Inuit do Canadá o índíce de suicídio é 11 vezes maior do que a média nacional. “Conflitos de terra, questões culturais, abuso de álcool. Precisamos de uma decisão política para considerar que é um problema de saúde pública”, diz o médico Carlos Felipe Almeida D’Oliveira.

DEPOIMENTO > O pior luto

No dia 13 de março de 2014, dia do Arcano da morte segundo a minha religião, minha filha mais velha, de 18 anos, nos deixou. Naquela quinta-feira, ela almoçou comigo, pediu um suco de manga e conversou normalmente. Deixei-a na casa da mãe com o combinado de nos encontrarmos no final da tarde, perto das 19 horas, que é a hora em que meus outros dois filhos chegam da escola. Minha filha de 16 anos chegou 10 minutos mais cedo e viu a cena. No início ela achou que não era verdade, já que o corpo estava semiapoiado na escada. Eu cheguei na sequência, ela já gritando, meu filho também, chegando da perua.

Eu a peguei, a outra filha cortou a corda, o pequeno tirou os óculos, e tentei reanimá-la. Ela se matou falando no WhatsApp, sem explicação. Ela calculou tudo: foi no dia em que sabia que eu estaria lá porque é o dia da semana que eu sempre passo na casa deles. Ela já tinha feito vestibular para Direito e concurso de técnico judiciário, estava só esperando as respostas. Ela deixou um bilhete, que diz basicamente que ninguém tem culpa, que ela não aguentava mais. Terminou com uma frase destacada: “gente morta não decepciona ninguém”.

No bloco de notas que encontramos havia o desenho de um laço e, como ela já foi escoteira, fez dois laços de tal forma que demorei a soltar do pescoço. O livro de escoteiro estava fora do lugar, e depois descobrimos que havia um bonequinho enforcado no quarto dela. Sinais que só fiquei sabendo depois. Ela não sofria de depressão, ainda não conseguimos entender por que ela resolveu fazer isso.

Eu era o pai herói, fiz o parto dela, fui a primeira e última pessoa que ela viu na vida. A primeira palavra que ela falou foi “papai”. Era meu orgulho. Às vezes ainda ouço a sua voz. O luto de uma morte natural ou acidental uma hora acaba e vira uma saudade. O luto do suicídio não acaba nunca. Foi o que ouvi em depoimentos no grupo de enlutados por suicídio que frequento. É infinitamente pior saber que ela foi porque quis nos deixar. Por mais que queiramos racionalizar, fica a sensação de que não estávamos à altura para satisfazê-la.

DNA > Gene suicida
Já pensou se um simples exame de sangue detectasse tendências suicidas? Desde 1920, a neurociência e a psiquiatria se debruçam sobre os fatores genéticos do tema, e os resultados recentes são interessantes. Existe um denominador comum entre pessoas que tentaram se matar ou pensaram no assunto: uma mutação no SKA2, gene que desempenha um papel importante na forma como lidamos com o estresse. Estudo publicado no Jornal Americano de Psiquiatria mostra que os níveis de SKA2 estavam reduzidos nos genomas de pessoas que cometeram suicídio. O gene, responsável por orientar os receptores de hormônios do estresse nos núcleos das células, inibe pensamentos negativos e controla a impulsividade. Outro risco genético de suicídio está relacionado ao transporte do hormônio da felicidade. Estudos publicados nos últimos 10 anos relacionam depressão e tentativas de suicídio a alterações no transportador da serotonina, o gene 5-HTTLPR. O psiquiatra Jair Segal fez sua tese de doutorado com base nessa hipótese e diz que familiares de pessoas que se mataram têm um alto risco de tentar o suicídio, assim como gêmeos idênticos, com uma possibilidade de 15% no caso de um ter se suicidado. No entanto, essa relação é apenas um fator de vulnerabilidade. “Não existe determinismo genético, só sabemos que isso está ligado ao suicídio quando há algum transtorno mental”, explica.
RANKING > Epidemia silenciosa
O suicídio está na 16ª posição no ranking da Organização Mundial de Saúde de doenças que mais matam no mundo. Embora não tire tantas vidas quanto a isquemia (que ocupa o primeiro lugar na lista), ele mata mais do que muitas patologias e que guerras. Acompanhe:

HISTÓRICO > Uma longa história

A forma de encarar o suicídio mudou nos últimos 2,5 mil anos. Em Roma, quem queria se matar tinha de pedir autorização ao Senado, enquanto no Japão era um ritual de honra. Descubra o que mudou

510 a.C. – Lucrécia, de origem nobre, foi estuprada pelo filho do tirano etrusco Tarquínio, o soberbo. Antes de cravar uma adaga no peito, pediu vingança e provocou uma revolta popular

399 a.C. – Condenado à morte pelo povo de Atenas, Sócrates escolheu se suicidar com uma taça de cicuta a renunciar às suas ideias

30 a.C. – Cleópatra, última rainha do Egito, morreu após tomar um coquetel de drogas aos 39 anos de idade. O mesmo destino teve seu amante, o líder romano Marco Antônio

452 – O Cristianismo considerou o suicídio um “trabalho do demônio” no Concílio de Arles, uma espécie de julgamento da Igreja Católica

Século 12 – Surge no Japão o haraquiri, o ritual de estripação de samurais para demonstrar pureza de caráter. Os pilotos suicidas da Segunda Guerra Mundial seguiram a mesma lógica de manter a honra

Século 17 – Começa o processo de “secularização do suicídio”. A discussão sobre insanidade englobou o suicídio, que começou a ser visto a partir de uma perspectiva mental

Século 19 – O sociólogo Émile Durkheim interpreta o suicídio por meio de fatores sociais, como a incapacidade de integração à sociedade, no livro O Suicídio, um Estudo Sociológico

Século 20 – Em 1918, o papa Bento XV reconhece o suicídio como insanidade. Paralelamente, o ato deixa de ser crime em vários países e é estudado pela psicologia

ALERTA > Se você tem pensamentos suicidas ou está deprimido, entre em contato com um voluntário do CVV pelo telefone 141 ou através do site www.cvv.org.br


https://www.comunicaquemuda.com.br/auto-destruicao/



domingo, 18 de agosto de 2019

Parece empatia, tem cheiro de empatia … mas não é!



Uma das palavras mais utilizadas ultimamente, a empatia pode ser resumida na ideia da habilidade de sentir como as outras pessoas sentem.
O poder da empatia:

De acordo com Krznaric, no livro “O poder da empatia“, ela “é a arte de se colocar no lugar do outro por meio da imaginação, compreendendo seus sentimentos e perspectivas e usando essa compreensão para guiar as próprias ações” (p. 10).


Mas o autor destaca que certa compreensão da empatia também tem um risco: alguns usarão a sua visão de mundo para avaliar a experiência alheia, e fazem aquilo que gostariam que fosse feito caso estivessem no lugar do outro, supondo que suas necessidades seriam iguais às suas. Isso não é ser empático/empática.
Quando alguém diz: “Eu lidei com uma experiência tão difícil quanto essa e superei, tenho certeza que você também irá conseguir!”, é importante lembrar que cada dificuldade ou perda será sempre única, pois, cada pessoa tem sua história. Ao dizer “Eu sei como você se sente” estamos na verdade fazendo um julgamento e reduzindo um sofrimento individual.

Por exemplo:
Eu perdi meu pai há quatro anos e não pude me despedir dele. Todas as pessoas que perderam o pai lidaram com seu luto da mesma forma, tiveram o mesmo tempo de enlutamento e passaram pelo mesmo processo que eu? Posso me comparar com alguém que perdeu o pai por um um câncer, ou que perdeu um filho por suicídio, apenas porque passei por uma experiência de luto?

O mesmo tipo de experiência poderá ser vivenciada de milhares de formas diferentes, e não existe o certo ou o errado, mas o possível dentro de cada momento.
A empatia poderá ser demonstrada na escuta, no acolhimento, no não julgamento … em um abraço que nada diz, além de “Estou aqui”.

Texto de Luciana França Cescon



domingo, 11 de agosto de 2019

Livro____________________ O suicídio de meu pai, de André Penteado





"Em 31 de janeiro de 2007, já morava em Londres havia um ano, quando recebi um telefonema do Brasil. O meu pai, José Octávio, havia se suicidado. Na manhã seguinte, voei para São Paulo para me despedir dele.

Duas semanas após o enterro, peguei todas as roupas de meu pai e as levei para um estúdio, onde me fotografei vestindo-as. Elas ainda tinham fios do seu cabelo e o cheiro de seu perfume. Foi como se o abraçasse pela última vez".

O livro de André Penteado é composto principalmente de fotos. As primeiras, são das imagens que ele começa a registrar no caminho da viagem que faria para despedir-se do pai. Na sequência, vêm as fotos que tirou com as roupas do pai, como ele mesmo diz, como se fosse um último abraço.

Existem diferentes formas de se elaborar o luto; a arte é uma delas, exatamente porque existem sentimentos que estão além do alcance das palavras. Como artista que trabalha com fotografias e vídeos, André utilizou este recurso para falar de seu pesar.

"Tornar conhecido O suicídio de meu pai ao grande público é o mesmo que trazer à existência e sepultar todos os dias o ritual de passagem carregado de ausências. É despedir-se incessantemente do inesperado, do súbito. Também é revisitar-se, é permitir-se em catarse diante de um mundo que tenta matar hodiernamente aquilo que acreditamos ser imortal: o amor.
A obra de André Penteado é uma declaração de amor à vida, pois ressiginifica a morte através do suporte da fotografia" - Elaine Pinho (p. 134-135).

"A arte é sinônimo de expressão e, conhecidamente, um instrumento de acesso aos sentimentos profundos, conscientes e inconscientes. [...] Aquilo que é traduzido em imagens e palavras ganha forma e torna-se menos assustador. Ao identificar vivências e sentimentos semelhantes, o enlutado sente que tem seu sofrimento testemunhado e compartilhado e que não está só na sua dor.
André Penteado, filho e artista, rompe toda e qualquer barreira entre o que foi sentido e o que é falado. [...] ele escancara a dor, o medo, a inquietude, a curiosidade e toda a transformação advinda de sua perda e, surpreendentemente, aquilo que poderia chocar nos acolhe e nos convida a olhar para a morte por suicídio com menos medo e mais empatia" - Gabriela Casellato, Maria Helena Pereira Franco, Luciana Mazorra e Valéria Tinoco (p. 136-138).


 Este trabalho venceu o Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger em 2013.


 

domingo, 4 de agosto de 2019

O que aprendi sobre o suicídio

Por Amanda Mont’Alvão Veloso


"Do suicídio, eu muito ouvia e pouco falava. Me parecia pesado demais, muito amargo para ser proferido. O conheci pela música e pela literatura, e depois pela perda de pessoas queridas. O assunto já não era distante, imaginário: estava ali, na realidade.

Na escola, aos 13 anos, vi o peso de seu silêncio sufocado. Um garoto do ensino médio havia tentado. Ninguém falava nada. Ninguém tentava colocar palavras para representar aquela perplexidade. Mas tudo parecia gritar, principalmente o desespero do aluno. O que doía nele que era tão urgente e insolucionável a ponto de querer se matar?

Ao estudar jornalismo, mais silêncio: não se fala de suicídio na imprensa porque isso 'estimula' outras tentativas. Muito taxativo e generalizante, sem espaço para perguntas. Parecia uma recomendação muito desconectada da realidade e do sofrimento que um suicídio representa.

Na pós-graduação, veio o contato com a psicanálise e uma visão revolucionária de mundo, pelo menos pra mim: cada pessoa é absolutamente singular, inclusive na forma como vivencia o sofrimento. Se antes havia passado pela minha cabeça que o suicídio era um ato de covardia ou desistência, ali estava a empatia, mostrando que tentar sentir a dor do outro não tinha nada a ver com minha ideia de mundo ou questões narcísicas minhas, mas sim, com a realidade daquele outro. Uma pessoa em estado de extremo desespero e vulnerabilidade, a ponto de não conseguir enxergar saída para o seu sofrimento. Uma pessoa que precisava ser ouvida e acolhida, pois talvez não desejasse a morte se estivesse em melhores condições. Meu olhar sobre o suicídio havia se transformado. Pessoas precisavam de ajuda e possivelmente não sabiam com pedi-la. Ou não eram encorajadas a fazê-lo. Afinal, não falamos de suicídio.

Como editora e repórter de saúde mental na seção Equilíbrio, do site HuffPost Brasil, comecei a pesquisar sobre o silêncio em torno do suicídio para uma série de reportagens que abordassem o assunto de maneira direta e com respeito. Nossa ideia era mostrar o aumento preocupante do número de mortes autoinfligidas – a cada dia, pelo menos 32 brasileiros se matam – , a dificuldade de se abordar a questão e o efeito transformador da possibilidade de uma pessoa conversar sobre suas ideias suicidas: se houvesse prevenção, 9 entre 10 pessoas ainda estariam vivas, de acordo com a OMS.

Com a aproximação ainda maior da Psicanálise – há alguns anos decidi fazer formação na área –, constatei o poder transformador da fala, que muitas vezes dissolve sofrimentos e nomeia emoções bastante angustiantes. O percurso entre a dor e a possibilidade de colocá-la em palavras é uma espécie de tradução daquilo que até então não podia ser dito. Assim parecia ser o sofrimento que precede muitos suicídios: a impossibilidade de transformar a experiência desesperadora em palavras. O trabalho de prevenção do suicídio feito pelo Centro de Valorização da Vida (CVV) me pareceu ainda mais apropriado, pois a organização lida diariamente com o sofrimento humano e coloca, em prática, o belo exercício de empatia que é ouvir, sem julgamentos, uma pessoa em estado de desespero.

Ao pesquisar sobre o assunto e conversar com voluntários do CVV, psiquiatras, psicanalistas e psicólogos, percebi que a prevenção podia ser uma realidade, mas a conversa sobre o tema precisava ser expandida, sobretudo para além dos círculos ligados à saúde mental.

Porém, o suicídio ainda é um grande tabu em nossa sociedade, que ora reserva ao assunto o silêncio de quem não pode ser conhecido, ora o aborda com sensacionalismo e detalhes explícitos, como é o tratamento geralmente dado àquilo que supostamente só atinge o outro – jamais a gente.

O distanciamento do assunto por muitas pessoas mostrava não só a dificuldade de lidar com a morte, mas também o estigma de que a ideia de suicídio só ocorreria a alguns – aos 'fracos'. Esta ideia é bastante equivocada: pensar em suicídio é muito mais comum do que se pensa e pode ocorrer com qualquer um de nós. O que é realmente alarmante é que muitas pessoas sequer têm estímulo a admitir o pensamento e desabafar sobre ele, o que diminui bastante as possibilidades de fazer algo a respeito.

Principalmente por parte da imprensa, o silêncio sobre o suicídio acabou sendo justificado pelo temor de que falar sobre o assunto seria uma maneira de incentivar o ato, em uma espécie de contágio. O escritor alemão Goethe precisou vir a público se defender porque uma centena de jovens se suicidou depois de ler o livro Os sofrimentos do jovem Werther, de 1774, em que o personagem principal se mata. A imitação de suicídios passou a ser chamada de Efeito Werther na literatura médica.

A percepção de um 'contágio' em Viena, na década de 80, deu início a um manual para os profissionais da imprensa sobre como divulgar suicídios. Nos cinco anos seguintes à publicação, a taxa de suicídios no metrô austríaco caiu 75%, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Em muitos lugares, a cautela recomendada na cobertura jornalística havia se transformado em silêncio perigoso. É preciso falar sobre suicídio, mas com responsabilidade e discrição. Em um relatório da OMS divulgado em 2014, o órgão inclui a cobertura sensacionalista da mídia como um fator de risco, seja por contribuir com 'imitações' ou com a estigmatização das pessoas.

Tais cuidados não precisam se tornar um dogma desencorajador. Para colocá-los em prática, a melhor bússola é a empatia. Como seria se estivessem falando de você e da sua vida? Afinal, falar de suicídio não é falar de algo abstrato, com o qual não temos relação de identificação. Falar de suicídio é, necessariamente, falar de uma pessoa, de um sujeito com história própria, cuja morte vai afetar outras vidas.

É falar de dor, de lamentação, de pedido de ajuda, do luto difícil que as famílias e amigos vão precisar fazer. Não há objetividade que dê conta de digerir um acontecimento assim. Assim como a morte, lidar com o suicídio exige delicadeza e respeito. Diariamente, somos incentivados a passar por cima de nossas emoções e a tratá-las como um anexo de nossas vidas, como se assim nos tornássemos práticos e infalíveis aos imprevistos. Mas a vida é feita de imprevisibilidade, de contato com o outro e de perdas que geram sofrimento. O mínimo que podemos fazer é nos dar tempo – e dar tempo e acolhida ao outro – para que possamos tratar as feridas".


domingo, 28 de julho de 2019

Quando o suicídio toca no rádio

Nietzche escreveu que sem música, a vida seria um erro. Canções marcam momentos, potencializam emoções e expressam aquilo que muitas vezes não conseguimos traduzir em palavras. Quando “o suicídio toca no rádio”, alcança pessoas que talvez ainda não tenham pensado sobre o que é sentir a angústia de existir e também pode trazer esperança para aqueles que se deparam todos os dias com o desafio de seguir em frente por mais um dia.

AmarElo

Recentemente, o cantor Emicida lançou a música “AmarElo”. Não bastasse a letra com frases que impactam e trazem reflexão, como:
“É um mundo cão pra nós, perder não é opção, certo?”
“Só eu e Deus sabe o que é não ter nada, ser expulso/Ponho linhas no mundo, mas já quis pôr no pulso”
O clip começa com uma mensagem que traduz a angústia de quem está em sofrimento:
“Eu não tô conseguindo dormir essa última semana aí, tá ligado? […] Acho que eu já dei peso demais pra todo mundo que gosta de mim, mano […] Demonstro pra todo mundo que eu tô bem o tempo inteiro … […] Eu tenho que demonstrar que eu tô bem todo dia, mano, e nenhum ser humano consegue estar bem todo dia […] Eu não me sinto realizado como ser humano, como filho … Ainda não consigo me encaixar nesse plano aqui […] Eu sinto medo, tipo, de ter feito escolhas erradas a ponto de não poder mudar mais […] Sei lá, mano … só precisava falar alguma coisa para alguém mesmo …”
Até o momento (final de julho), o clipe teve mais de três milhões de visualizações no Youtube e, de acordo com o rapper em uma entrevista para a Rolling Stone,  “a ideia é que elas [as pessoas] observem ao redor e se enxerguem maiores do que os seus problemas, independente de quais sejam”.
Isso me fez lembrar de algumas outras canções que trouxeram a temática do suicídio para o mundo da música. Certa vez, Renato Russo falou sobre a música «Pais e filhos»: “Ela se jogou da janela do quinto andar …”

Pais e filhos

“Escuta, vocês sabem que essa música é sobre suicídio, né? Essa música é muito, muito séria […] eu estive muito mal na minha vida […] e de repente estas músicas refletem um momento da minha vida que eu não gosto de lembrar mais …”
Outra música que fala sobre o suicídio e me impactou foi “Amianto”, da banda Supercombo. Até o clipe, com a visão do alto de algum lugar, mexe com nossa imaginação …

Amianto

“Moça, sai da sacada/ Você é muito nova pra brincar de morrer
Me diz o que há, o quê que a vida aprontou dessa vez?”
As músicas podem despertar vários sentimentos. Eu não poderia encerrar este texto sem falar de duas canções que considero também importantes mensagens de esperança.
Uma delas é «Tente outra vez », do Raul Seixas.

Tente outra vez

“Veja!
Não diga que a canção está perdida
Tenha fé em Deus, tenha fé na vida
Tente outra vez!”
O irmão do cantor conta uma história sobre como essa música salvou um homem – e você pode ver o vídeo aqui

E uma das canções que mais gosto é “Enquanto houver sol”, dos Titãs

“Quando não houver saída
Quando não houver mais solução
Ainda há de haver saída
Nenhuma ideia vale uma vida
Quando não houver esperança
Quando não restar nem ilusão
Ainda há de haver esperança …”
 As músicas trazem momentos de volta ou nos projetam para o futuro … Com altos e baixos, desejo que a vida continue tocando nossa canção preferida.

domingo, 21 de julho de 2019

"Hoje eu resolvi deixar o mundo" _____________ Artigo


Nas minhas buscas sobre materiais acerca do comportamento suicida, encontrei este trabalho que chamou a minha atenção pelo título. 

“HOJE EU RESOLVI DEIXAR O MUNDO”: narrativas de suicídio 
em Guarapuava-PR nos anos 1950 

Autora: Kety Carla De March (Doutora em História pela Universidade Federal do Paraná. Professora colaboradora na Universidade Estadual do Centro-Oeste).

RESUMO: Este artigo analisa inquéritos policiais sobre mortes consideradas pela polícia como suicídio em Guarapuava, região central do Estado do Paraná, na década de 1950. Buscamos problematizar as construções discursivas dos suicidas, nas vezes em que deixaram cartas, e das testemunhas ouvidas no inquérito a respeito da morte auto infringida. Essas narrativas sobre a morte estavam permeadas de justificativas para o ato cometido e nelas pudemos adentrar ao espaço do que chamamos de “hierarquia da dor”, ou, aquilo que era considerado como motivo legítimo para uma ação entendida como extrema. Numa sociedade da medicalização dos corpos em que o objetivo principal é postergar ao máximo a morte, o que poderia explicar um suicídio? As narrativas permitem conhecer os aspectos sociais que exerciam pressões sobre os indivíduos e que eram partilhados entre estes e associados especialmente à incapacidade de realização diante dos papéis sociais e sexuais, o que exige diálogo com a categoria analítica de gênero. 

PALAVRAS-CHAVE: Suicídio; Gênero; Masculinidades; Feminilidades.

"O que levava uma pessoa ao suicídio no interior do Paraná nos anos 1950? A perspectiva das relações de gênero, como fenômeno social, permite a problematização das justificativas encontradas pelas testemunhas para os suicídios. Wadi e Souza discorreram sobre a escolha do debate entre suicídio e relações de gênero da seguinte forma: 

Por que um indivíduo resolve abandonar a vida cometendo suicídio? Desencontros amorosos, ciúmes, doenças avançadas, remorso, raiva, vingança, vergonha, orgulho ferido, solidão, problemas financeiros, dívidas, alcoolismo aparecem como motivações de suicídio ocorridos na região da comarca de Toledo, no estado do Paraná. Nas, em geral, curtas e fugazes mensagens de adeus deixadas por alguns dos que cometem a autoviolência provocando a própria morte ressaltam fragmentos autobiográficos que remetem à construção de sujeitos marcados pelas relações socioeconômicas e culturais – entre as quais as relações de gênero – dominantes em certo tempo e lugar" (p. 06). 

"Grande parte dos inquéritos se referia à ação do suicida como ato tresloucado. Nesses casos, houve pouca preocupação por parte da equipe investigativa em determinar as motivações para a ocorrência do suicídio, o que poderia retirar a dúvida sobre a real natureza da morte. Esse silêncio sobre a explicação para a morte voluntária poderia ser resultado de uma instrução processual, assim, delegados quando tomavam depoimentos de testemunhas, não perguntavam a estas se elas conheciam os motivos que teriam levado à morte, ou porque esses mesmos atores ouviam apenas o depoimento dos policiais que atendiam as ocorrências, ou de peritos que analisavam o local do crime. Essas testemunhas muitas vezes não conheciam o suicida e pouco ou nada poderiam relatar sobre as “tristezas” que afligiam a vítima. Para chegar a esse conhecimento era necessário ouvir amigos e familiares do morto, aqueles que com ele conviviam e partilhavam de suas angústias. Muitas vezes eram inqueridas pessoas que apenas tinham ouvido por terceiros relatos da morte" (p. 07). 

"Vejamos o caso da morte de Pedro que não teria suportado ser abandonado pela mulher com quem mantinha relacionamento amoroso após ter ficado viúvo. De acordo com um dos filhos de Pedro, a causa da morte do pai “foi pelo fato de ter sido abandonado por uma mulher que vivia já há algum tempo em sua companhia amasiada; que seu pai era homem forte fisicamente e trabalhador não sofrendo de doença alguma que pudesse desgostá-lo da vida” (fl. 08). O filho de Pedro procurou justificar a ação do pai e ao fazê-lo apresentou algumas das características de um suicídio aceitável: o abandono, a fraqueza física, a ausência de trabalho e a doença incapacitante. Esse jovem, ao contrário da medicina da época, não considerou a loucura como uma das possibilidades de morte do pai. Ele se amparou, para a explicação, em elementos externos que poderiam levar um homem a uma tristeza tamanha a ponto de optar pela morte. Ao fazê-lo, imprimiu ali suas próprias convicções sobre sofrimento, angústia, medo da não adequação que eram recorrentes entre uma parcela da população masculina naquele contexto" (p. 12).

"Em ambos os casos, de homens ou mulheres, observamos que as testemunhas procuravam evidenciar a medida do suportável e aquilo que, ao ver dessas pessoas, poderia levar um sujeito ao suicídio. Essa hierarquia da dor era, podemos entender, partilhada pelas pessoas e não vivida apenas pelo suicida. Ao buscarem justificativas para a ação do suicida, as testemunhas refletiam em suas falas o que também lhes afligia, pois partilhavam com o morto as mesmas experiências e pressões sociais, compreendendo que determinadas pressões poderiam ser insuportáveis. Falar sobre a morte do outro era, para essas testemunhas, um exercício de empatia e de auto regulação" (p. 23).





domingo, 14 de julho de 2019

Cada médico tem seu paciente favorito.

Cada médico tem seu paciente favorito. Negar isso é mentir para si próprio. Admito que o meu paciente favorito é um homem entre 50 e 60 anos com um humor ácido. Ele vem ao meu consultório há dois anos, mas nunca topou tomar medicação. Na primeira vez, após uma longa conversa, fiz essa proposta e quase apanhei. O homem saiu valente e prometeu nunca mais voltar.
No mês seguinte lá estava ele uma hora antes do combinado na recepção. E assim foi até bem pouco tempo, pois meu paciente favorito nunca confirmava sua ida, dizendo que não via necessidade em ir, mas estava presente uma hora antes do horário combinado no dia marcado. Eu passei a escutá-lo mais e vez por outra falava tangenciando sobre uma medicação quando o seu discurso autorizava, porém era repelido imediatamente. 
Quando eu lhe perguntava como estava a vida, ele me respondia: “Tão bagunçada quanto o seu cabelo”. Quando a arguição partia para sua vida sentimental, ele me respondia: “ O senhor tem partes com cartomantes e apresentadores de programas que gostam de juntar casais”. Eu aceitava esse humor cítrico de bom grado e vez por outra retrucava na mesma moeda. 
Seguimos então até o mês de maio, quando ele adentrou minha sala com barba por fazer, cara de quem não dormia há várias noites e me intimou: “Me dá a merda do teu remédio que eu não vou bem”. Depois de dois anos, ele decidiu que aquele era o seu momento. Perguntei a ele o que seria não estar bem. A resposta veio na lata: “Quem não está bem só pode estar mal. Coloca um remédio logo antes que eu me arrependa”. Depois dessas respostas atravessadas o homem falava sobre seu emprego sem estabilidade, das contas que não param de subir, dos dilemas com uma filha mais nova e sua desesperança em relação ao futuro.
Ontem o camarada voltou e eu questionei se ele havia melhorado. A resposta foi sumária: “Eu continuo tomando no cu, só que agora tomo no cu sem chorar”. 
Fiquei tonto com a resposta. É possível tratar uma doença que se manifesta num sujeito, mas que surge pelas condições socioculturais que o circundam? Até que ponto os quadros depressivos e ansiosos são doenças propriamente ditas? Seriam eles manifestações individuais de uma crise sistêmica e estrutural da maneira como vivemos e nos relacionamos?
O capitalismo trouxe consigo o ideal de que é possível vencer, caso alguém se esforce o bastante. Ele se alimenta de fenômenos individuais para que o conjunto da população acredite na veracidade da meritocracia. Anitta é um exemplo claro disso. Ela inconscientemente diz a várias meninas periféricas que é possível vencer. O futebol também nos empresta alguns exemplos de ascensão econômica meteórica como forma de manter uma esperança no sistema. Questionamos a nós mesmos quando não conseguimos e não ao sistema e seus enormes gargalos.
O que eu tenho visto dia e noite no meu consultório são pessoas que acreditaram nessa falsa premissa do capitalismo – e olhe que muitas se dizem até de esquerda/socialistas e não se percebem vivendo psiquicamente nesse tempo, nessa lógica - e agora se encontram numa crise. A crise da culpa. Se o sucesso é mérito seu, o fracasso também é. Não sobra tempo e espaço para refletir quais os entraves estruturais e sistêmicos levaram as pessoas ao fracasso. Não há espaço para se discutir o que é o fracasso. As empresas, com as reformas implantadas nos últimos anos, conseguem uma rotatividade ainda maior de funcionários e não se preocupam com a exaustão deles. Tiram até o último caldo. Qualquer coisa, poderá haver uma troca. É a coisificação do ser humano, da sua subjetividade. As pessoas passam a ter valor de coisa e podem ser sumariamente trocadas sem grandes prejuízos para a grande engrenagem.
Como parte desse processo, as pessoas se sentem sós. Vivem quase paranoicas com uma possível demissão. A alta competitividade, enfraquecimento das ações sindicais e a quebra dos laços de solidariedade social – fenômeno mais importante do capitalismo - têm associação com a vertente teórica neoliberal que defende a desregulamentação do mercado, a redução do Estado na economia e na proteção social aos trabalhadores e cidadãos. O Brasil vive uma onda neoliberalista e isso terá consequências importantes na maneira de se adoecer psiquicamente.
Pessoas que trabalham mais de 14 horas por dia, que demoram 4 horas por dia no trânsito, que cumprem metas e logo após recebem outra sem nem ter tempo para saborear o prazer da sua vitória. Pessoas que se açoitam para consumir, para produzir, para adoecer. As viagens de 15 dias cobram aos demais dias do ano uma fatura altíssima. Não há espaço para reflexão mesmo. Viver vira um ato contínuo para acordar, trabalhar, comer e dormir. O corpo vira um produto, uma máquina. O sexo se torna um produto para se ter prazer e não um encontro entre pessoas. O capitalismo diz que quem não goza o tempo inteiro está errado. A consequência são relacionamentos cada vez mais curtos, superficiais e sem o conhecimento do outro. O outro é um corpo, uma parte, mas o prazer é somente individual e não se compartilha.
O que o capitalismo também nos traz é a sensação de que sempre é possível fazer mais, sair da zona do conforto como dizem os coachs. Que é possível ir além. Só que essa mentira encontra até ressonância na nossa mente impregnada ideologicamente, mas não no corpo. O corpo nos dá o limite. Diz que não é possível tudo. Aí as pessoas adoecem. Tem crises de ansiedade, depressão e a tão atual Síndrome de Esgotamento Profissional/Síndrome de Burnout. Aí as pessoas não suportam a realidade e precisam de substâncias lícitas e ilícitas para viver. 
Tenho repensado muito a minha prática a partir dessas reflexões. Caso não faça isso, virarei um simples prescritor. Quiçá um traficante de drogas legais. Ser médico vai além de saber medicar. Ontem, quando meu paciente saiu, eu falei que havia aprendido muito com a sinceridade dele. A sua resposta foi assim: “ Então na próxima o senhor me paga a consulta ao invés de eu te pagar. Ando com umas contas atrasadas e vai ser de grande valia”. Sorrimos juntos e eu pude perceber que não foi o remédio o responsável por isso.

- Fernando Tenório
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