domingo, 28 de junho de 2020

Plano de Ajuda ____ Vita Alere

Material incrível do Facebook do Vita Alere:

"Sabemos que o período do #isolamentosocial está deixando todo mundo cansado e que manter a #saudemental muitas vezes torna-se uma tarefa complicada.
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Por isso, a equipe do Instituto Vita Alere tem uma dica para ajudar a identificar o que te faz bem, o que atrapalha e com quem você pode contar para ajudar no cuidado com a sua saúde mental.
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O Plano de Ajuda é uma reunião de todas essas informações - de extrema importância - e que você deve pensar, preencher, reler e deixar sempre ao seu alcance.
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Preencha o seu e compartilhe com todo mundo que precisa!"










domingo, 21 de junho de 2020

Em « Crocodilo », lançado neste ano, o autor traz a história de Ruy, que acaba de perder seu filho Pedro por suicídio e sai em busca de respostas. 

Sinopse: "Romance vencedor do prêmio APCA. Uma narrativa singela e emotiva sobre a construção da família, da relação pai-filho e das mudanças que o amadurecimento traz para a vida de todos nós.

“Hoje, meu filho Pedro pulou da janela do seu apartamento.” Assim começa o romance de Javier A. Contreras, um relato ágil e surpreendente sobre o suicídio e a angústia dos que permanecem.
Ao contar a história dos sete dias que se seguem à morte de Pedro, o autor embarca em uma narrativa única, que aborda temas como a relação pai-filho, o caos do mundo moderno e as expectativas que nutrimos e frustramos no decorrer da vida.
Com uma linguagem moderna e de ritmo fluido, os sentimentos de Ruy, pai de Pedro, são trazidos à superfície em um misto de raiva e desolação. Ao perder o único filho, Ruy reavalia não só sua relação com a paternidade, mas com todo o mundo a sua volta".


« Hoje, meu filho Pedro pulou da janela do seu apartamento » (p. 09). 

« A verdade é que nunca saberei o que aconteceu naquele fim de tarde porque o Pedro, definitivamente, estava morto. Só me restava então especular sobre toda a situação e, com isso, alimentar a chama cruel da dúvida. Um sentimento talvez ainda pior do que a própria perda » (p. 10). 

« As pessoas acham que podem entender, mas não têm a menor ideia do que se passa na cabeça de um pai que perde um filho assim. Um filho que não morre. Um filho que se mata. [...]. É uma mistura de sentimentos ruins. Culpa, raiva, decepção, ressentimento, vulnerabilidade, pânico, tudo junto. O amor, nessa hora, não chega nem perto » (p. 42). 

« A verdade, entretanto, é que o tempo nunca nos dá uma segunda chance. Voltar atrás não é uma opção » (p. 95). 

« A cada hora, em média, noventa pessoas se suicida no mundo.
A cada dia, em média, 2160 pessoas se suicidam no mundo.
A cada semana, em média, 15120 se suicidam no mundo.
A cada mês, em média, 64800 pessoas se suicidam no mundo.
A cada ano, em média, 777600 pessoas se suicidam no mundo » (p. 105). 

« As causas apontadas para o suicídio eram muitas, mas, ao mesmo tempo, generalizadas. As patologias mentais continuavam a ser a muleta dos especialistas e a depressão permanecia como a melhor amiga do suicídio. Entretanto, o cerne de toda essa dor podia ser resumido a uma só pergunta: a vida é mesmo insuficiente para aqueles que se matam? » (p. 110). 


domingo, 14 de junho de 2020

Como o isolamento social impacta quem sofre com ansiedade ou depressão ___________Revista Galileu

"Ficar longe do trabalho, dos amigos e da família pode ser ainda pior para quem sofre com algum distúrbio emocional. Conheça os principais riscos e o que fazer para (tentar) aliviar a solidão

O Sars-CoV-2, vírus causador da Covid-19, definitivamente não atinge apenas quem contrai a doença causada pelo novo coronavírus. Até que uma vacina ou medicamento seja desenvolvido, o método mais eficaz encontrado pelas autoridades para combater a disseminação do vírus é o combo medidas de higiene e distanciamento social — que, sim, salva muitas vidas, mas também atrapalha a saúde emocional de muita gente.

7 dicas para cuidar da sua saúde mental em tempos de pandemia:

Claro que ficar longe do trabalho, dos amigos e até mesmo de familiares impacta todo mundo. "Esse é um período de luto coletivo em que é preciso ressignificar as necessidades e os valores da vida. Isso vem associado à angústia da incerteza financeira e ao medo da contaminação", analisa o psicanalista Ronaldo Coelho, do canal Conversa Psi, no YouTube. Sem contar que a ansiedade, quando controlada, é um mecanismo de reação diante de situações de perigo, funcionando como um estado de alerta para que a pessoa saiba como agir.

O problema é quando essas condições emocionais saem do controle: nesses casos, a situação de isolamento social pode ser pior ainda. Aqueles que já sofrem com transtornos como depressão, bipolaridade e ansiedade crônica percebem a solidão e as tensões causadas pela pandemia de forma muito mais intensa. Falta de apetite, dificuldade para dormir e ausência de concentração são algumas das chateações vividas pelo advogado R.G*, de 27 anos, nas últimas semanas. "Ainda preciso trabalhar, mas não consigo fazer outras coisas além disso. É difícil focar em algo sabendo que há um caos lá fora", relata.

Um estudo preliminar (que ainda não foi revisado por outros pesquisadores antes da publicação) das universidades Swansea e de Manchester, ambas no Reino Unido, feito com britânicos maiores de 18 anos de idade, alerta para um aumento significativo dos sentimentos de ansiedade e depressão durante a pandemia de Covid-19, especialmente entre aqueles em situação financeira ou social mais vulnerável.

"Taxa de suicídio pode ser 20% maior do que mostram os dados oficiais"

No Brasil, o cenário também é preocupante. Por aqui, 11,5 milhões de pessoas sofrem com problemas de depressão, de acordo com dados apresentados em 2017 pela Organização Mundial da Saúde (OMS). E a pandemia pode aumentar ainda mais esse contingente. Uma pesquisa com 1.460 brasileiros, coordenada pelo psicólogo Alberto Filgueiras, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), mostra que os sintomas de ansiedade e depressão duplicaram no país em apenas um mês de quarentena. Na primeira semana do estudo, entre 18 e 22 de março, a prevalência de sintomas de ansiedade e depressão entre os participantes era de 4,2%; já entre 15 e 20 de abril, esse índice subiu para 8%.

O estudo, publicado em pré-print (ainda não revisado), aponta também que os grupos com saúde mental mais frágil são as pessoas que precisam sair de suas casas para trabalhar, aqueles que convivem com idosos e também quem mudou hábitos alimentares e físicos repentinamente. A boa notícia é que dá para adotar medidas que ajudem a minimizar ou mesmo prevenir a situação. "Foi possível verificar que aqueles que mantêm uma alimentação saudável, fazem terapia online e praticam exercícios físicos de três a quatro vezes por semana são menos propensos a ter sintomas de ansiedade e depressão", afirma Filgueiras.

Outro artigo, este publicado no último dia 10 de abril no respeitado periódico Jama Psychiatry, alerta que o isolamento pode aumentar os índices de suicídio. Segundo os autores, vinculados a universidades e instituições de saúde norte-americanas, diversas teorias enfatizam o papel das relações sociais na prevenção do suicídio. “Pensamentos e comportamentos suicidas são associados a isolamento social e solidão”, escrevem os pesquisadores. Ficar longe de tudo e de todos, portanto, pode ser ainda mais perigoso para pessoas sob risco de tirarem a própria vida.

Atenção aos idosos

A fragilidade da saúde mental entre os idosos também preocupa. Não é à toa, já que são o principal grupo de risco para a Covid-19. O medo da morte iminente e a distância da família são os fatores principais dessa vulnerabilidade. Além disso, a ideia de finitude, já presente no pensamento de muitos na terceira idade, se intensifica.

Segundo a médica geriatra Maisa Kairalla, coordenadora da Comissão Especial COVID-19 da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, a recomendação é prestar atenção em falas e olhares das pessoas mais velhas a fim de detectar qualquer sinal de risco. O que não significa, é claro, omitir informações sobre o que está acontecendo. "Conversar por telefone, por vídeo e manter esse contato mais vezes ao dia é essencial para fortalecer esse grupo. O incentivo de atividades e do otimismo também são parte do tratamento, pois ajudam essas pessoas a atravessarem os momentos difíceis", orienta Kairalla.

Pelo bem do corpo e da mente

Desenvolver um quadro depressivo requer orientação profissional e, muitas vezes, medicamentos específicos. Mas há atitudes que também podem ajudar. O psiquiatra Luiz Alberto Hetem, idealizador do PQU Podcast, lembra que o distanciamento físico não necessariamente significa isolamento. "Conectar-se com amigos e familiares ajuda a afastar a sensação de mal-estar", diz.

Fazer exercícios físicos, manter uma rotina diária e adotar hábitos simples, como tirar o pijama ao acordar, são outras boas práticas para a saúde mental. Procure também selecionar os horários em que acompanha as notícias. “Ao mesmo tempo que é importante manter-se informado, é preciso cautela com a quantidade de informações”, afirma Hetem. Baseie-se em fontes confiáveis, que garantam que a aquela notícia não é puro alarmismo.

Projetos pessoais tampouco devem ser deixados de lado. A artista Tayná Miessa, que trabalha na Gibiteca de Curitiba, não consegue exercer sua função de forma remota, por isso não está trabalhando — mas tem usado bem as horas livres. "Eu fico assustada com a situação, mas estou conseguindo aproveitar melhor o tempo que eu passava no transporte público. Agora faço coisas com mais tranquilidade, como cozinhar e me dedicar aos processos artísticos", conta

Mas lembre-se do que falamos no início desta reportagem: sentir-se desmotivado também é normal em meio a tudo isso. "Tudo bem estar abalado neste momento. As pessoas buscam a saúde mental, mas é importante admitir nossas próprias fragilidades para conseguirmos lidar com o que está acontecendo", lembrou o psiquiatra Luís Fernando Tófoli, pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no evento digital Rio2C @LIVE, promovido na primeira semana de maio.

Diversas instituições fornecem ajuda a quem se sente angustiado e necessita de orientação profissional. O Centro de Valorização da Vida (CVV) é uma delas: a rede realiza atendimentos gratuitos de apoio emocional e prevenção ao suicídio. Há a garantia de sigilo e o acesso se dá via email e chat 24 horas. Para mais informações, acesse o site.

Hoje há também diversas empresas que oferecem serviço de terapia online. O Instituto Vita Alere lançou, com apoio do Google, um mapa da saúde mental que funciona como um guia ao mostrar informações úteis para quem procura atendimento online durante a pandemia. No mapa, é possível encontrar profissionais e grupos de apoio disponíveis virtualmente.

“Tão importante quanto identificar a hora de procurar ajuda é saber onde encontrá-la. Nosso objetivo com o lançamento do site é conectar pessoas em sofrimento mental com os serviços de cuidados disponíveis online e em cada região”, explica a psicóloga Karen Scavacini, fundadora do Instituto Vita Alere".

*O nome foi abreviado a pedido da fonte.

TEXTO: BEATRIZ LOURENCO | EDIÇÃO: LUIZA MONTEIRO

https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Comportamento/noticia/2020/06/como-o-isolamento-social-impacta-quem-sofre-com-ansiedade-ou-depressao.html?fbclid=IwAR0t7iiZQMdyusogXlzjokhXcL0vqAoNBmIl1ytq_mZ-K9rs_WN3tyBuDI8


domingo, 7 de junho de 2020

Clube dos Enlutados __________ Terezinha Máximo

"Há alguns dias uma pessoa me perguntou se eu havia entendido o ato da minha filha, e se eu acreditava que iria algum dia conseguir superar a morte dela. E que se a Marina tivesse morrido de outra forma se seria mais fácil aceitar o fato.
Fiquei em silêncio por alguns instantes e respondi que entendia o ato como desespero, mas que não a julgava por isso e que não seria mais fácil aceitar a morte se ela ocorresse de outra forma, hoje tenho certeza disso, pois a saudade dela é a mesma.
O emaranhado de sentimentos que fica após se perder um filho deve ser comum em todos os pais, mas por suicídio há alguns agravantes e que definitivamente não se supera a perda de um filho, o natural são os filhos enterrarem seus pais e não o contrário. 
Esse diálogo mexeu comigo, pois às vezes eu sinto que algumas pessoas acham que o ser humano é descartável, como a morte é a única certeza na vida e que ela ocorrendo,  em um curto espaço de tempo quem fica esquece, não se fala no assunto, como se a pessoa que se foi, fosse apagada da mente e da vida de quem fica em um passe de mágica, e que não é assim.
E isso me fez lembrar que no começo do meu luto eu havia escrito, só que não publiquei,  sobre os meus primeiros contatos com a morte,  na minha infância, pois devido a cultura de não se falar em morte, tentei resgatar e colocar em ordem minhas ideias com relação ao fato,  a primeira vez que vi uma pessoa morta e a primeira vez que fui a um cemitério e que justamente foram mortes de pessoas jovens e que me marcaram para sempre.  
No final dos anos 70, um vizinho foi atropelado em uma tarde de domingo por um motorista bêbado, era uma criança, 7 ou 8 anos não me lembro ao certo, pois eu devia ter uns 5 ou 6 anos. Ele era amigo do meu irmão mais velho, tinham a mesma idade, ia no portão de casa chamar meu irmão para brincar praticamente todos os dias. Ele era o filho caçula, tinha uma irmã mais velha já moça e o irmão também bem mais velho. 
Naquela época, os velórios aconteciam em casa e não havia a preocupação em não deixar as crianças verem o caixão e o morto. A cena do menino morto nunca esqueci, mas prefiro não contar os detalhes. 
Lembro que o atropelador ficou impune. Depois da morte do menino, quase não via mais a mãe dele na rua, mas sempre quando ela encontrava o meu irmão o chamava para conversar. Nós nos mudamos da rua onde morávamos, mas continuamos no mesmo bairro e toda vez que ela encontrava com a minha mãe ou comigo perguntava do meu irmão. Eu achava estranho e acredito que a minha mãe também. 
A primeira vez que fui à um cemitério, creio ter sido na mesma época, só lembro que era final de ano, perto do natal.  O filho de amigos dos meus pais havia morrido afogado na praia, era jovem, bonito e com um futuro promissor pela frente, além dos pais ele deixou uma porção de irmãs e me lembro da choradeira que foi. Um dia ouvi dizer que os pais iam ao cemitério toda semana e em uma dessas visitas o pai passou mal diante do túmulo, foi hospitalizado mas faleceu dias depois.
Eu era muito criança, não tinha uma real ideia do que era a morte, só fui compreender quando meu avô paterno faleceu, mas isso é uma outra história.
O  que quero aqui explicar que hoje eu sei o que aquelas mães sentiram e sentem, consigo dimensionar o sofrimento. Perder um filho é a pior dor que alguém pode sentir e continuar a viver depois de ter que enterrar um filho é muito difícil, independente se for por acidente, doença ou suicídio, a dor da perda é grande, a ausência é sentida todos os dias, passe o tempo que passar.
Hoje eu consigo entender o motivo da mãe do amigo do meu irmão querer falar com ele toda vez que o via,  pois sentia nele um pouco da presença do filho, imaginava como o filho poderia estar, e consigo sentir e entender a tristeza dos pais que visitavam o túmulo do filho e que a tristeza pode ter agravado uma saúde já debilitada e frágil do pai.
E consigo ligar a pergunta sobre a superação e a causa da morte a uma fala de uma amiga enlutada que um dia disse que nós pais que perdemos nossos filhos por suicídio fazemos parte de um clube, o clube dos enlutados, um clube da tristeza, onde o título cai no nosso colo, neste clube não há distinção, nele não há classe social, religião, etnia, somos todos iguais,  e que uma vez nele não se sai, é um título vitalício, não há opção de passar adiante, não tem como doar, ceder, ninguém quer um título deste clube e tão pouco saber como funciona e só quem perdeu um filho sabe realmente como é e que podemos tentar explicar mas somente quem passou pelo mesmo sabe do que estamos falando e sentindo. 
Quem não faz parte deste clube sempre irá imaginar que a superação é questão de tempo, que a ausência pode ser suprida por outro filho, um bichinho de estimação, mudança de residência, cidade, estado e até de país. Não entende que cada ser humano é único e o que um filho representa na vida dos pais nada e ninguém substituirá". 
- Terezinha Máximo



domingo, 31 de maio de 2020

Atendimento do Samu relacionado a suicídio cresce durante a pandemia

"O atendimento a casos de suicídio e de tentativa de suicídio aumentou com a pandemia de coronavírus. Essa é a avaliação dos socorristas do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) na capital paulista de acordo com Francis Fujii, seu diretor médico.

Mesmo que já fosse esperado um crescimento nesse tipo de chamado, devido à incerteza trazida pela covid-19 e à solidão favorecida pelo isolamento social, a situação não deixa de preocupar. Especialistas ouvidos lembram, contudo, que distanciamento físico não significa manter silêncio. Ainda mais na era dos aplicativos.

Apesar do Samu não contar com estatísticas sobre o tema, a avaliação de socorristas da capital é confirmada por outras bases do serviço, ouvidas pelo UOL, no litoral e no interior do estado. A reportagem solicitou dados à Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, via Lei de Acesso à Informação, e aguarda resposta. O risco de suicídio em uma sociedade sob estresse não é problema de rico, ao contrário do que o equivocado senso comum aponta. "Aqui os casos atingiram principalmente pessoas de classes C e D", afirma um dos socorristas que constatou o aumento da incidência desses atendimentos no litoral.

"Temos ouvido muito sobre a falta de diálogo dentro de casa, situação aprofundada pela crise, com famílias sendo obrigadas a conviver o tempo todo, muitas vezes em residências muito pequenas", avalia. Uma análise publicada no Journal of the American Medical Association - Psychiatry, em abril, nos Estados Unidos, trata dos efeitos colaterais das necessárias medidas de isolamento e distanciamento social por conta da covid-19 que podem aumentar o risco de suicídio. "Mortalidade por suicídio e Covid-19 - uma tempestade perfeita?" aponta, entre eles, o estresse econômico e a incerteza sobre a própria subsistência; a solidão e a desconexão social; a dificuldade no tratamento da saúde mental devido à sobrecarga do sistema pelos pacientes da pandemia; o medo diante de doenças pré-existentes; e o aumento na ansiedade diante da doença. Mas também traz formas de prevenção, lembrando que distanciamento físico não precisa significar suspensão de contatos, e que a conexão social deve ser mantida através de vários meios - do telefone a aplicativos de vídeo. Também sugerem o acompanhamento por teleconferência por parte de profissionais de saúde mental.

O problema não é só a solidão, mas a incerteza A pandemia está quebrando nossas certezas, mostrando que muitas das premissas com as quais construímos nossa vida não se sustentam, como, por exemplo, "se eu fizer as coisas certas, tudo vai dar certo" ou "sou uma pessoa do bem e as coisas não vão me atingir". A realidade contesta essas premissas sem que tenhamos tempo de refletir e reorganizar nossa vida. Isso faz com que muitos sintam dificuldade de cuidar da própria vida ou de enxergar uma luz no final do túnel. Perdemos nortes. Surge desalento.

A avaliação é de Maria Helena Pereira Franco, professora titular de Psicologia Clínica e coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto (Lelu), da PUC-SP. Ela recomenda que busquemos nossa rede de apoio, aquela que entendemos que nos sustenta, seja ela qual for. Família, amigos, vizinhos, igreja. "Por que é com ela que a gente pode abrir o coração e pode chorar. Temos que ativar e fortalecer os vínculos que nos são significativos. Sentir-se só é péssimo. E sentir-se só não é uma questão física, você pode estar em casa com muita gente da família e se sentir só", explica. Ela também diz que é necessário aprender novos jeitos de se relacionar com essa rede de apoio. Para tanto, defende conversas em vídeo usando WhatsApp, Zoom, Skype ou qualquer outra plataforma.

Nem sempre há com quem conversar. Nesse casos, serviços como o Centro de Valorização da Vida (CVV) - organização que presta apoio emocional e atua na prevenção ao suicídio - podem ser acionados. Ele atende pessoas que precisem conversar, gratuitamente, 24 horas por dia, com garantia de sigilo. "Uma das principais queixas das pessoas que nos procuram, independente da época da pandemia, é que estavam cercadas de outras pessoas, mas se sentiam sozinhas. Procurar ajuda de alguém neste momento é mais relevante ainda, porque as pessoas podem estar efetivamente sozinhas", afirma Adriana Rizzo, voluntária e porta-voz da organização.

De acordo com ela, as reclamações sobre o coronavírus não têm ocorrido contra a quarentena em si, mas sobre a incerteza e o medo em relação ao futuro. Em termos nacionais, não houve aumento significativo de procura pelo CVV, com os números mantendo frequência mensal de 10 a 12 mil contatos por dia. 

Além de cuidar de si, o que fazer pelos outros.

Ficar de olho em comportamentos diferentes é uma das recomendações da professora da PUC-SP para protegermos quem está em nossa rede. "Combinar no grupo da família que todo mundo que mora sozinho tem que dar bom dia é uma possibilidade. Prestar atenção em comportamentos que sinalizem mudanças e diferenças de hábitos, como deixar de dar notícias. E, a partir daí, estabelecer contato", afirma. "Por isso que é importante a rede de apoio, pois nela há intimidade de perguntar como o outro está."

Adriana Rizzo sugere que permaneçamos atentos às pessoas à nossa volta, lembrando que o nosso "entorno" não é uma questão física, mas social e pode envolver pessoas a milhares de quilômetros de distância. "Se alguém fizer algum comentário que mostre que não está bem, dê atenção a essa pessoa. Não ignore pedidos de ajuda", recomenda. "E lembre-se: não critique, nem julgue pelo que for relatado." Ou seja, não é porque aquele sofrimento parece irrelevante e despropositado para você que é para outro. Empatia é a palavra, coloque-se no lugar dos outros.

Isso é corroborado por Maria Helena Pereira Franco, que pede para demonstrarmos cuidado e atenção, sem julgar ou avaliar. "Olha, eu tô ligando para você porque faz tempo que não te ouço. Como você está? Quer falar mais sobre isso que você acabou de me dizer? Ou seja, ofereça uma escuta. Alguém que escute e ecoe algumas das falas ajuda muito nessa hora", afirma. "Ouça as dificuldades, o medo do outro. E não diga, faça isso ou faça aquilo." O CVV tem cerca de 4 mil voluntários e a ligação pode ser feita de um telefone celular mesmo sem crédito ou através de telefones públicos sem custo através do número 188 (24 horas) ou pela rede".



domingo, 24 de maio de 2020

CARTILHA: Suicídio na pandemia COVID-19

Pesquisadores colaboradores do Centro de Estudos e Pesquisas em Emergências e Desastres em Saúde (Cepedes/Fiocruz) disponibilizam a 16ª cartilha da série “Saúde Mental e Atenção Psicossocial na Pandemia Covid-19”. A mais recente publicação tem como objetivo auxiliar profissionais de saúde a identificarem sinais de alerta e atuarem na prevenção do suicídio. O documento, elaborado em parceria com pesquisadores do Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli (Claves/Fiocruz) e do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio, está disponível para download em: https://www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br/wp-content/uploads/2020/05/cartilha_prevencaosuicidio.pdf.

Alguns trechos:

"Os impactos da pandemia de COVID-19 na saúde mental podem apresentar desde reações normais e esperadas de estresse agudo por conta das adaptações à nova rotina, até agravos mais profundos no sofrimento psíquico" (p. 02).

"Cabe lembrar que o suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial e o possível aumento no seu número de casos, em uma situação de pandemia, pode estar relacionado a diferentes fatores como: medo, isolamento, solidão, desesperança, acesso reduzido a suporte comunitário e religioso/espiritual, dificuldade de acesso ao tratamento em saúde mental, doenças e problemas de saúde, suicídios de familiares, conhecidos ou profissionais de saúde (Reger, Stanley & Joiner, 2020). De forma geral, podemos entender que se a presença de um transtorno mental é identificada como um importante risco para o suicídio, o agravamento de seus sintomas em vigência da pandemia se configura como um risco ainda maior. Estressores financeiros e outros precipitadores de suicídio, como aumento do uso de álcool e outras drogas e violência doméstica, também tendem a se elevar neste momento de pandemia (GUNNELL et al., 2020)" (p. 03).

"As pessoas que perdem um ente querido por suicídio podem sofrer cobrança social, preconceito, estigma e discriminação. Os familiares também podem ficar apreensivos com a possibilidade de que um suicídio ocorra na família novamente. Sentimentos conflituosos sobre a perda podem aparecer e dificultar o processo de luto, como por exemplo, sentir raiva e ao mesmo tempo amor" (p. 13).

"Abaixo apresentamos um resumo das melhores práticas segundo a Cartilha da OMS (2017), do Ministério da Saúde (2017), do Instituto Vita Alere (2019) e da Orygen (2018): 
O que NÃO fazer: • Não destacar esse tipo de notícia (por exemplo, colocando na primeira página); • Não divulgar o lugar, a carta de despedida e o método utilizado no suicídio; • Colocar o suicídio como resultado único da pandemia; • Jamais compartilhar fotos ou vídeos de um suicídio; • Não romantizar ou falar como se fosse legal, um ato corajoso ou de covardia; • Não relacionar o suicídio com crime, loucura ou falta de fé; • Não colocar o suicídio como bem sucedido ou dar a entender que a pessoa encontrou a paz; • Não determinar um culpado ou um único motivo; • Não julgar, não fazer piadas ou estigmatizar; • Não mostrar o suicídio como uma saída.
O que fazer: • Compreender que o suicídio é complexo e multifatorial; • Sensibilizar as pessoas para o tema, gerando empatia; • Informar sempre onde buscar ajuda; • Lembrar dos que ficaram e respeitar o luto; • Usar e divulgar fontes de informação confiáveis; • Interpretar de forma cuidadosa e correta as estatísticas; • Ter um cuidado extra ao se tratar de suicídio de celebridades; • Se possível, falar das possíveis consequências físicas no caso de tentativas de suicídio não fatais; • Abordar os sinais de risco e alerta (mas sem reducionismos - identificar o risco pode ser algo complicado); • Mostrar que existe tratamento e que há outras alternativas ao suicídio" (p. 18-19).





domingo, 17 de maio de 2020

"O maior ato de amor que já existiu
É quando você abraça o mundo de quem já desistiu"