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Este blog é um dos produtos da pesquisa de Mestrado "Cuidado, frágil: aproximações e distanciamentos de trabalhadores de um CAPS na atenção ao suicídio" e inclui sugestões de leitura, frases que me marcaram e vídeos que podem ser utilizados por pessoas ou grupos como disparadores para discussão e reflexão da questão do suicídio – seja na prevenção ou na compreensão dos fatores que podem estar por trás deste fenômeno - buscando compreender o sofrimento que está por trás deste acontecimento.

domingo, 15 de outubro de 2017

Caminhos da Reportagem: "Precisamos falar sobre isso"


Reportagem da TV BRASIL 

 Um tema delicado e necessário nesta edição: o suicídio. Preconceito, tabu, medo do chamado efeito “contágio”, transtorno mental. Estas são algumas das razões apontadas por especialistas ouvidos pelo Caminhos da Reportagem que impedem que o suicídio seja discutido pela sociedade. E sociedade, entendem os especialistas, é a mídia, são os profissionais da saúde, pesquisadores, e até parentes e amigos de quem cometeu ou tentou o suicídio. A última pesquisa, realizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2012, aponta um aumento de mais de 10% na taxa de suicídio. “Neste período tivemos quase duas mil mortes no Brasil, o que representa mais de 30 mortes por dia, e o que deixa o país como oitavo no mundo e o primeiro na América Latina”, afirma Alexandrina Meleiro, médica-psiquiatra. Produzido de acordo com as novas regras das OMS que norteiam os jornalistas a abordar o tema, o Caminhos da Reportagem se utiliza de ética, responsabilidade e informação para tratar o assunto, considerado de saúde pública por médicos e pesquisadores. Que sinais devemos ficar atentos quando uma pessoa, em geral com algum transtorno de humor, tem o que os especialistas chamam de “ideação suicida”? O que fazer e como encarar o problema? O programa conversa com parentes das vítimas de suicídios, pessoas que tentaram e hoje dão exemplos de superação. “Precisamos falar sobre isso” explica por que o suicídio é um caso de saúde pública e como pode ser nocivo o silêncio que recai sobre as famílias que não dividem a dor, o luto e a “culpa”.

domingo, 8 de outubro de 2017

Suicídio na infância e na adolescência: é preciso romper o silêncio

Tristeza e solidão em tenra idade

Itamar Melo
itamar.melo@zerohora.com.br
No começo deste ano, uma menina de Porto Alegre subiu no telhado de sua casa e ameaçou atirar-se lá do alto. Os pais foram chamados às pressas no trabalho. Levada ao Centro de Promoção da Vida e Prevenção ao Suicídio do Hospital Mãe de Deus, a garota contou que tentara se matar porque ninguém lhe dava atenção na família. O pai e a mãe passavam os dias fora, do início da manhã até a noite. A menina tinha oito anos.
Um garoto da mesma faixa etária ingressou na emergência do hospital, pouco tempo atrás, por ter ingerido uma moeda. O otorrino retirou o objeto e liberou o paciente. Uma semana depois, ele retornou. Desta vez, havia engolido várias moedas. Na investigação, descobriu-se que a motivação para a atitude era tristeza.
Situações desse tipo estão se tornando mais comuns nesta década, segundo diferentes levantamentos, resultando em aumento de mortes entre crianças e adolescentes. Conforme a publicação Mapa da Violência, que se baseia em dados coletados pelo Ministério da Saúde, as faixas em que as taxas de suicídio mais cresceram no Brasil, entre 2002 e 2012, foram as dos 10 aos 14 anos (40%) e dos 15 aos 19 anos (33,5%).
No Rio Grande do Sul, de acordo com estatísticas da Secretaria Estadual da Saúde, ocorreram 60 suicídios nesse grupo em 2013, o maior número desde 2009. Essas mortes são a face trágica de um problema muito mais abrangente, que diz respeito às tentativas de tirar a própria vida. De acordo com os registros existentes no Centro de Informações Toxicológicas (CIT), 4.658 crianças e adolescentes gaúchos tentaram se matar, apenas por autointoxicação, entre 2005 e 2013.
"Até hoje, jamais tínhamos constatado tentativas em idade tão tenra. E agora está acontecendo isso. É uma novidade, uma coisa pouco estudada, um novo mundo. Por enquanto, estamos apenas detectando o problema. Precisamos de pesquisas e de uma política específica. Porque a metodologia de prevenção para criança e adolescente tem de ser outra. Para começar, é mais difícil de detectar o risco, porque eles não verbalizam tanto quanto a pessoa mais velha" – observa o psiquiatra Ricardo Nogueira, coordenador do Centro de Promoção da Vida e Prevenção ao Suicídio.
Para o médico Vitor Stumpf, voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV), as tentativas de suicídio ente crianças e adolescentes são um problema muito negligenciado, pouco conhecido até mesmo por profissionais:
"A massa dos pediatras não tem conhecimento nessa área. Neste mês de outubro, tentei de todos os jeitos incluir uma mesa sobre suicídio em um congresso de pediatria. Negaram."

Pesquisa aponta particularidades do problema

Os dados do CIT foram dissecados em uma dissertação de mestrado defendida na UFRGS em maio. De autoria da psiquiatra da infância e da adolescência Berenice Rheinheimer, o trabalho trouxe dados alarmantes, indicando tendência de forte aumento nas tentativas no universo dos oito aos 17 anos (abaixo dessa idade, os casos são automaticamente classificados como acidente). Em 2005, foram 492 episódios. Em 2013, apesar de a população da faixa etária ter recuado consideravelmente, os casos subiram para 626.
“Uma das coisas que chocam em relação a esses números é que a comunicação de casos ao CIT é voluntária. A realidade pode ser bem pior do que a registrada” – sustenta Berenice.
Se o suicídio entre adultos já está envolto por silêncios e tabus, é ainda mais entre crianças e adolescentes. A sociedade, em geral, não aceita a ideia de que eles possam querer se matar. Pais de adolescentes que se mataram tendem à negação, uma reação ao sentimento de culpa. Além disso, é escasso o conhecimento sobre que lógica rege os suicídios juvenis e sobre como preveni-los – os estudos e a experiência existentes dizem respeito basicamente a pessoas mais velhas.
A pesquisa de Berenice ajuda a iluminar algumas das diferenças e particularidades. Ao analisar os dados do CIT, ela descobriu que crianças e adolescentes tendem a tentar o suicídio no segundo semestre do ano – com destaque para o mês de outubro –, talvez como um reflexo de dificuldades escolares. Entre adultos, existem estudos demonstrando que a preferência é pelo verão.
Berenice percebeu também que as crianças atentam contra a vida em dias de semana – nas outras faixas etárias, o ato tende a ocorrer no sábado ou no domingo.
“Chamou a atenção que a véspera de Natal foi o dia com menos casos ao longo de nove anos. Depois, veio o Dia das Crianças. É um achado que não esperávamos. Não há relato sobre isso em lugar nenhum. Pode ter relação com o fato de nessas datas as crianças estarem em casa, com as famílias, mais satisfeitas. É uma hipótese" – observa a pesquisadora.
As tentativas de suicídio por autointoxicação envolvendo crianças e adolescentes também espantam em razão das substâncias utilizadas. Enquanto em outros países os relatos envolvem a ingestão de analgésicos, por aqui as tentativas relacionadas a medicamentos são principalmente com antidepressivos (23,47%), ansiolíticos (20,76%), antitérmicos (15,20%) e anticonvulsivantes (13,01%). Em 98,5% das situações, a tentativa é realizada em casa.
“Como é que nossas crianças estão tendo acesso a essa medicação? É uma falha das famílias e da área da saúde, por não orientar que esses medicamentos têm de ficar escondidos” – alerta Berenice.

Os números no país e no RS

Por que eles tentam se matar?

É difícil aceitar que uma criança ou adolescente possa querer se matar. Mais complicado ainda é explicar por que esse comportamento está em ascensão. O que existem são indícios e hipóteses.
O sentimento de abandono, a experiência de abusos físicos ou sexuais, a desorganização familiar, o desajustamento na escola ou em casa e a desesperança em relação ao futuro são alguns dos fatores que aparecem como motivadores. Pesquisa feita na década passada em escolas de Porto Alegre revelou que 36% dos estudantes com idades entre 15 e 19 anos manifestavam “ideação suicida”, ou seja, pensavam em se matar.
Quando se combina isso com certos fenômenos recentes, o resultado pode ser explosivo. O uso cada vez mais precoce de álcool e drogas seria um desses gatilhos.
“O álcool e a droga provocam dano no sistema nervoso central e causam depressão, o que tem consequências” – diz o psiquiatra Ricardo Nogueira.
Outro elemento que parece contribuir é o acesso fácil, instantâneo e detalhado a qualquer tipo de informação, propiciado pela web. Nos últimos anos, houve exemplos de adolescentes brasileiros que tiveram o suicídio assistido e incentivado via internet.
O primeiro caso foi o de um porto-alegrense de 16 anos, em 2006.

A rede também facilita atos coletivos. No ano passado, um suposto pacto de suicídio feito por meio de redes sociais levou a duas mortes e seis casos de automutilação em Gramado e Canela, semeando o pânico em pais da região. Os envolvidos tinham de 12 a 18 anos.
Sabe-se que, quando um suicídio acontece, há um risco considerável de que outro venha a ocorrer, não muito tempo depois, na mesma família, escola ou comunidade. No caso de crianças e adolescentes, esse fenômeno gera preocupação extra.
“Nas crianças e nos adolescentes, isso é mais forte, porque eles são mais sugestionáveis. Começamos a ver que, em cidades de pequeno porte, havia dois, três casos em um intervalo de tempo curto. Nossa hipótese é que essas pessoas se conhecessem. Pelo fato de saber que alguém fez uma tentativa, outro adolescente vai lá e também faz. Isso mostra o quanto é importante ter um trabalho nessa idade” – diz Berenice Rheinheimer.
Entre os mais novos, a situação é especialmente cruel, porque a total consciência sobre a morte se consolida apenas por volta dos 12 anos. Nessa faixa etária, estão se tornando frequentes casos de automutilação com lâminas – o que os especialistas interpretam como uma forna de aliviar a dor psíquica por intermédio da dor física.

Os sinais

Conheça fatores que, em crianças e adolescentes, podem dar indício de que há algum risco.

Abuso de drogas

Álcool e drogas são muitas vezes uma forma de fugir dos problemas e, além disso, podem favorecer algum estado depressivo. Há relatos de uso cada vez mais precoce.

Desorganização familiar

A sensação de abandono e de falta de atenção pode levar a criança a atitudes extremas.

Quadro de depressão

Os adolescentes, especialmente, têm dificuldade em lidar com a depressão. Podem reagir com raiva e agressividade.

Alterações de conduta

Tornar-se agressivo, começar a faltar às aulas, piorar o desempenho escolar, dormir demais ou muito pouco, comer muito ou quase nada e isolar-se são mudanças de comportamento que devem ser acompanhadas de perto.

Gestações precoces

Em alguns casos, meninas que tentam abortar e não conseguem acabam fazendo uma tentativa de suicídio.

Abusos e maus-tratos

Abusos sexuais e físicos podem estar relacionados às tentativas. No Estado, há uma estimativa de que 10% dos adolescentes já os tenham sofrido.

Casos conhecidos

Crianças e adolescentes são mais sugestionáveis. Dados mostram que muitas das tentativas são feitas por quem conhece outra pessoa que já tentou se matar, seja na família ou na escola.

Autolesões

Está mais comum entre crianças e adolescentes a prática de infligir lesões em si mesmo com lâminas ou estiletes.

Tentativas anteriores

Quem já tentou se matar uma vez tem mais probabilidade de tentar de novo.

Como agir

Observe sintomas de depressão

Apatia pouco usual, letargia, falta de apetite.
Insônia persistente, ansiedade ou angústia permanente.
Abuso de álcool, droga ou remédios.
Dificuldades de relacionamento e integração.-Dizer adeus, como se não fosse mais ser visto.

Preste atenção nos adolescentes

- Mantenha uma atitude não julgadora.
- Desenvolva uma escuta atenta sobre os problemas e angústias dos adolescentes.
- Ressalte a esperança na possibilidade de melhora pela psicoterapia ou pela medicação antidepressiva.
- A melhora inicial do paciente em meio ao tratamento não descarta hipótese de suicídio. Pelo contrário: em alguns casos, eles buscam a morte no momento da melhora.
- Não tenha preconceito com internação, caso especialistas recomendem.

Fique atento aos riscos da internet

- Mantenha-se vigilante em relação aos sites frequentados.
- É comum pessoas doentes buscarem na internet uma forma de se aliviar. Por vezes, acabam encontrando pessoas tão ou mais doentes ou com grupos anônimos que estimulam o suicídio.

“O bullying está fortemente associado”

Entrevista:
Carlos Estellita-Lins, coordenador do Grupo de Pesquisa de Prevenção ao Suicídio da Fundação Oswaldo Cruz (RJ)
Por que aumentou o suicídio na infância e na adolescência?O que há são explicações epidemiológicas. É como na economia. Por que a bolsa subiu?
Você encontra três ou quatro eventos importantes relacionados e diz que deve ter sido por isso. Esse tipo de critério cientítico é bastante frouxo, mas é o melhor que a gente tem. A partir dos nove anos, você tem dados de suicídio. A partir dos 12 anos, já é relevante. O modelo do suicídio é sofrimento psíquico grande, depressão, ansiedade. No caso do jovem, é importante mencionar, existem situações de violência. A violência no Brasil não diminuiu, ela cresceu.
A violência da sociedade tem um impacto no suicídio?
Tem, por alguns mecanismos obscuros e outros claros. Situações de violência geram sofrimento psíquico, geram perdas. E especialmente o abuso, a violência física, com humilhação. Uma forma de violência institucional, que é o bullying, está fortemente associada ao suicídio no adolescente.
Alguma pressão social nova surgiu sobre os adolescentes nos últimos anos?
O aumento é, na verdade, uma curva de elevação. Não está marcando um acontecimento novo. O ponto que a gente pode discutir é a digitalização da sociedade, a virtualização. Há vantagens, mas cada vez mais a gente começa a observar as perdas, os malefícios, que ainda estão sendo estudados.
Que tipo de impacto teria a onipresença da internet?
No adolescente, a gente discute se há síndromes e distúrbios novos. A pessoa ficar vivendo num mundo virtual, levando a um maior afastamento, introspecção, a mais depressão, a um isolamento.
A internet facilita também o acesso a informaçõoes sobre suicídio
Isso é preocupante, porque o conhecimento dos meios muitas vezes é buscado por quem está com ideação suicida. Ele pode começar a planejar, e isso auxilia. Outro aspecto são ambientes virtuais onde se pode falar tudo, exortar o jovem a fazer. Onde, de modo inconsequente, protegida pelo anonimato, a pessoa exorta o suicídio, dá conselhos, banaliza. A gente viu casos de meninas que foram humilhadas, que tiveram suas imagens eróticas divulgadas de maneira ilegal. É uma forma de cyberbullying. Isso gerou uma forma de suicídio menos típica, que não está relacionada com sofrimento psíquico continuado, e sim com o amor-próprio. Isso é uma novidade. É muito grave.

Número gratuito para facilitar acesso à prevenção

Uma dificuldade adicional para a prevenção do suicídio entre crianças e adolescentes é o fato de esse público ser menos afeito a buscar ajuda por meio de uma ligação telefônica, afirma o médico Vitor Stumpf, do Centro de Valorização da Vida (CVV).
É no teclado e na internet que as novas gerações sentem-se mais à vontade. Esse é um motivo, explica ele, para o CVV ter passado a oferecer atendimento por chat ou chamadas de voz online.Desde setembro, em uma parceria com o Ministério da Saúde, o CVV do Rio Grande do Sul passou a ser o primeiro do país a oferecer ligações totalmente gratuitas. Por causa do projeto, que será estendido a todo o país em caso de êxito, o tradicional número do CVV foi abandonado no Estado. Agora, a organização atende pelo 188. A mudança torna mais ágil o atendimento: o sistema do CVV conta com um roteador que consegue direcionar os telefonemas para unidades de atendimentos que estejam ociosas em outras cidades.
“A gratuidade é muito importante. Acredito que fomos escolhidos para começar esse projeto porque somos o Estado com mais notificação de suicídios” – observa Stumpf.

Como contatar

Por telefone: 188 (as ligações são gratuitas, inclusive por celular)
Por chat ou chamada de voz online: acesse cvv.org.br

domingo, 24 de setembro de 2017

Cartilha Suicídio: Informando para prevenir



"O suicídio pode ser definido como um ato deliberado executado pelo próprio indivíduo, cuja intenção seja a morte, de  forma  consciente  e  intencional,  mesmo  que  ambivalente, usando um meio que ele acredita ser letal. Também fazem parte do que habitualmente chamamos de comportamento  suicida:  os  pensamentos,  os  planos  e  a  tentativa  de  suicídio". (p. 09)

"Os dois principais fatores de risco são:
• Tentativa prévia de suicídio: É o fator preditivo isolado mais importante. Pacientes que tentaram suicídio previamente têm de cinco a seis vezes mais  chances  de  tentar  suicídio  novamente.  Estima-se  que 50% daqueles que se suicidaram já haviam tentado previamente.

• Doença mental: Sabemos  que  quase  todos  os  suicidas  tinham  uma  doença  mental,  muitas  vezes  não  diagnosticada,  frequentemente não tratada ou não tratada de forma adequada"(p. 16).

"Os  transtornos  psiquiátricos  mais  comuns  incluem  depressão,  transtorno  bipolar,  alcoolismo  e  abuso/dependência de outras drogas e transtornos de personalidade e esquizofrenia. Pacientes com múltiplas comorbidades psiquiátricas têm um risco aumentado, ou seja, quanto mais diagnósticos, maior o risco". (p. 17)

"Destacam-se outros fatores de risco:
• Desesperança, desespero, desamparo e impulsividade: Sentimentos  de  desesperança,  desamparo  e  desespero  são  fortemente  associados  ao  suicídio. 
É preciso  estar  atento, pois a desesperança pode persistir mesmo após a remissão de outros sintomas depressivos.
Impulsividade,  principalmente  entre  jovens  e  adolescentes, figura como importante fator de risco. A combinação de impulsividade, desesperança e abuso de substâncias pode ser particularmente letal" (p. 18)

"Eventos adversos na infância e na adolescência:
Maus tratos, abuso físico e sexual, pais divorciados, transtorno  psiquiátrico  familiar,  entre  outros  fatores,  podem  aumentar  o  risco  de  suicídio.  Na  assistência  ao  adolescente, os  médicos, os professores e os pais devem estar atentos  para  o  abuso  ou  a  dependência  de  substâncias associados  à  depressão,  ao  desempenho  escolar  pobre,  aos conflitos familiares, à incerteza quanto à orientação sexual,  à  ideação  suicida,  ao  sentimento  de  desesperança e à falta de apoio social.
 
Um fator de risco adicional de adolescentes é o suicídio de  figuras  proeminentes  ou  de  indivíduo  que  o  adolescente  conheça  pessoalmente.  Existe,  também,  o  fenômeno  dos  suicidas  em  grupo  ou  comunidades  semelhantes que emitem o estilo de vida.
 
• História familiar e genética: O  risco  de  suicídio  aumenta  entre  aqueles  com  história  familiar  de  suicídio  ou  de  tentativa  de  suicídio.  Estudos  de  genética  epidemiológica  mostram  que  há  componentes genéticos, assim como ambientais envolvidos. O risco  de  suicídio  aumenta  entre  aqueles  que  foram  casados com alguém que se suicidou". (p. 21)

"Fatores protetores: São menos estudados e geralmente são dados não muito consistentes, incluindo: autoestima elevada; bom suporte familiar;  laços  sociais  bem  estabelecidos  com  família  e  amigos;  religiosidade  independente  da  afiliação  religiosa  e  razão  para  viver;  ausência  de  doença  mental;  estar  empregado;  ter  crianças  em  casa;  senso  de  responsabilidade  com  a  família;  gravidez  desejada  e  planejada;  capacidade  de  adaptação  positiva;  capacidade  de  resolução  de  problemas  e  relação  terapêutica  positiva,  além  de  acesso  a  serviços  e  cuidados  de  saúde  mental".  (p. 24)

"A  OMS  aponta  três  características  psicopatológicas  comuns no estado mental dos suicidas. São elas:
 
1.  Ambivalência: o  desejo  de  viver  e  de  morrer  se  confundem no sujeito. Há urgência em sair da dor e do sofrimento com a morte, entretanto há o desejo de sobreviver a esta tormenta. Muitos não aspiravam realmente morrer, apenas queriam sair do sentimento momentâneo de infelicidade, acabar com a dor, fugir dos problemas, encontrar descanso ou final mais rápido para seus sofrimentos. Se for dado  oportunamente  o  apoio  emocional  necessário  para  reforçar o desejo de viver, logo a intenção e o risco de suicídio diminuirão.
 
2. Impulsividade:  o suicídio, por mais planejado que seja, parte de um ato que é usualmente motivado por eventos negativos.  O  impulso  para  cometer  suicídio  é  transitório  e  tem  duração  de  alguns  minutos  ou  horas.  Pode  ser  desencadeado  por  eventos  psicossociais  negativos  do  dia  a  dia e por situações como: rejeição; recriminação; fracasso; falência;  morte  de  ente  querido;  entre  outros.  Acolher  a  pessoa  durante  a  crise  com  ajuda  empática  adequada  pode interromper o impulso suicida do paciente.
 
3.  Rigidez: quando  uma  pessoa  decide  terminar  com a  sua  vida,  os  seus  pensamentos,  sentimentos  e  ações  apresentam-se  muito  restritivos,  ou  seja,  ela  pensa  constantemente sobre o suicídio e é incapaz de perceber outras maneiras  de  enfrentar  ou  de  sair  do  problema.  Estas  pessoas  pensam  rígida  e  dramaticamente  pela  distorção  que  o  sofrimento  emocional  impõe.  Todo  o  comportamento  está inflexível quanto à sua decisão: as ações estão direcionadas ao suicídio e a única saída possível que se apresenta é a morte; por isso é tão difícil encontrar, sozinho, alguma alternativa.
 
O  funcionamento  mental  gira  em  torno  de  três  sentimentos:   intolerável   (não   suportar);   inescapável   (sem   saída);  e  interminável  (sem  fim).  Existe  uma  distorção  da  percepção  de  realidade  com  avaliação  negativa  de  si  mesmo, do mundo e do futuro. Há um medo irracional e uma  preocupação  excessiva.  O  passado  e  o  presente  reforçam seu sofrimento e o futuro é sombrio, sem perspectiva e com ausência de planos. Surge a ideação e a tentativa  de  suicídio,  que  pode  culminar  com  o  ato  suicida.  O  peso  da  decisão  de  morrer  repousa  na  interpretação  dos  eventos  e  a  maioria  das  pessoas,  quando  saudável,  não  interpreta  nenhum  evento  como  devastador  o  suficiente para justificar o ato extremo. (p. 24-26)


 Fonte:  Associação Brasileira de Psiquiatria. Suicídio: informando para prevenir   Comissão de Estudos e Prevenção de Suicídio. – Brasília: CFM/ABP, 2014.

Material disponível em:
 

 

domingo, 17 de setembro de 2017

Artigo: Tentativas de suicídio e o acolhimento nos serviços de urgência: a percepção de quem tenta

Resumo

A maioria dos casos de tentativa de suicídio é atendida em serviços médicos de emergência, o que deveria ser uma excelente oportunidade para que os profissionais de saúde realizassem alguma intervenção preventiva e terapêutica. No entanto, nem sempre essa oportunidade é aproveitada pela equipe, que geralmente exibe condutas caracterizadas por hostilidade e rejeição. Este trabalho pretende investigar, a partir da percepção do usuário, como se dá o acolhimento ao indivíduo que tenta suicídio e sugerir estratégias que possam favorecer o vínculo com a equipe de saúde. Trata-se de um estudo descritivo com abordagem qualitativa, desenvolvido com pacientes ambulatoriais referenciados pelo serviço de urgência de Barbacena, Minas Gerais. Foram entrevistadas 28 mulheres com histórico de tentativa de suicídio. A identificação e a classificação das unidades de análise fizeram emergir três categorias: discriminação, negação do ato, encaminhamento. Cada categoria foi submetida à análise qualitativa. A baixa capacitação das equipes de atendimento e as deficiências estruturais dos serviços induzem os profissionais a se posicionarem de maneira impessoal e com dificuldade de atuação de forma humanizada. A análise dos dados indica a necessidade de melhorar a formação dos profissionais da saúde, em especial os que trabalham nos serviços de pronto atendimento.

Palavras-chave: tentativa de suicídio; pesquisa qualitativa; saúde mental; medicina de emergência.

 "Eles  falaram  assim  “não  é  possível,  tanta  coisa  pra  gente  fazer e socorrer e fulano tentando morrer... e tem que fazer lavagem, que frescurada, aí é que dá vontade de matar mesmo”.  As  pessoas  acham  que  é  sem-vergonhice.  Eles  não vêem o que se passa na nossa mente". (P8)

"No  hospital  eu  lembro  que  o  médico  chegou  perto  de  mim, bateu no meu ombro, falou que eu não tinha nada, que eu era uma moça bonita, pra viver minha vida, que era pra arrumar um namorado
". (P7)


 "As enfermeiras falavam 'toma chumbinho, água de bateria, não adianta vir pra cá, tomar remédio, só dá trabalho pra gente'. Eu me sentia um rato quando tentava, quando elas me falavam ficava pior ainda. Por que elas não falaram que eu precisava era de um psiquiatra? Elas falavam 'vai pra casa e dorme bastante, isso não é nada, isso vai passar' ”.

"Lesões   autoprovocadas   sem   intenção   suicida   também   são  atendidas  em  serviços  de  urgência.  A  incidência  desses  agravos  tem  aumentado  nos  últimos  anos e  esse  comportamento  pode  ser  um  fator  de  risco  para  ideação  suicida. Independente  do  grau  de  intenção  suicida,  os  pacientes  que  exibem comportamento    autoagressivo    representam    um    grande desafio para a equipe de atendimento e podem gerar atitudes ambivalentes na condução do tratamento".

"A  reação  das  pessoas,  dos  médicos,  quando  eu  tomava  remédio e ia pro hospital, sempre que eu chegava, as enfermeiras  e  o  médico  falavam  ‘tem  juízo  não?  vaso  ruim  não quebra, entra na frente de um trem [...] remédio não mata não, remédio melhora". (P12)

"Mas aqui não tem nada pra ajudar os deprimidos, aqueles que tentam. Lá no postinho também é assim, parece que a receita já ta pronta. O médico não quer escutar a gente".

"A equipe reage com descaso, deve ser por eles acharem que é errado tentar, deixam a gente jogado, ficam fazendo comentário entre eles, ficam rindo, no dia que fizeram a lavagem eles falaram 'tá doendo? na hora de tomar os remédios não doeu, né?' "

"Avaliar um paciente suicida comumente desperta fortes sentimentos no médico examinador, especialmente ansiedade  por  um  erro  de  conduta  e  temor  das  consequências.  O  profissional  pode  experimentar  também  sentimentos  de  impotência e mobilizar emoções de caráter negativo".


Link do trabalho completo: http://www.scielo.br/pdf/cadsc/v21n2/02.pdf