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Este blog é um dos produtos da pesquisa de Mestrado "Cuidado, frágil: aproximações e distanciamentos de trabalhadores de um CAPS na atenção ao suicídio" e inclui sugestões de leitura, frases que me marcaram e vídeos que podem ser utilizados por pessoas ou grupos como disparadores para discussão e reflexão da questão do suicídio – seja na prevenção ou na compreensão dos fatores que podem estar por trás deste fenômeno - buscando compreender o sofrimento que está por trás deste acontecimento.

domingo, 22 de julho de 2018

Suicídio entre adolescentes e jovens não para de crescer no Brasil e no mundo

No final do século XVIII, quando o escritor alemão Goethe lançou Os Sofrimentos do Jovem Werther, em que o personagem principal se mata, a obra foi acusada de causar uma onda de suicídios entre leitores. O efeito contágio que a disseminação de uma notícia do tipo pode causar ficou, então, conhecido como "Efeito Werther". É por isso que casos de suicídio são pouco divulgados pela mídia. No entanto, em tempos de redes sociais, mesmo episódios que não saíram nos jornais ou foram manchete em portais de notícia chegam até nós. É assim, via grupos de pais no WhatsApp, por exemplo, que os belo-horizontinos têm ficado sabendo, cada vez mais, de casos de suicídio entre estudantes na cidade, tanto de colégios quanto de faculdades (nessas últimas, chama a atenção o número de episódios envolvendo alunos de medicina). Também em São Paulo, escolas de prestígio tiveram recentes ocorrências de morte por suicídio - estas, inclusive, noticiadas pela mídia.

Por tudo isso, mais casos têm vindo à tona. O aumento nos números de suicídios, no entanto, não é só impressão. As estatísticas revelam que a ocorrência desses episódios entre adolescentes e jovens cresce de maneira preocupante não só no Brasil, mas no mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já coloca o suicídio como segunda principal causa de morte de pessoas entre 15 e 29 anos. No Brasil, de 2000 a 2015, os casos aumentaram 65% entre pessoas com idade de 10 a 14 anos e 45% na faixa de 15 a 19 anos - mais do que o aumento na média da população, que foi de 40%. Segundo a mais recente edição do Mapa da Violência (documento realizado com base em dados do Ministério da Saúde), de 2002 para cá, a taxa de suicídio de jovens tem sido consistentemente maior do que a do restante da população, tendo crescido de forma contínua no período pesquisado.

O fenômeno tem gerado atitudes por parte do poder público, como campanhas de prevenção e a recente iniciativa de tornar a ligação para o número de telefone do Centro de Valorização à Vida (188) gratuita em todo o território nacional. Também motivou escolas a abordar o tema de diversas maneiras, como palestras de especialistas para os pais e rodas de conversa com alunos. Os pais, por sua vez, têm sido incentivados a conversar com os filhos e a ficar atentos a sinais de que algo não vai bem, como isolamento, irritabilidade, expressão de ideias ou intenções suicidas e, principalmente, mudança repentina no comportamento do jovem. Na avaliação de especialistas, esse movimento tem sido positivo na intenção de retirar o suicídio das sombras. A grande maioria concorda que falar sobre o tema - de maneira responsável e abalizada - é uma forma de prevenção.

Com o objetivo de contribuir para essa discussão, Encontro convidou cinco especialistas para uma mesa-redonda sobre o tema. "É preciso saber que o assunto é complexo e não há fórmulas prontas", diz a psicanalista e psicóloga especialista em saúde mental Cristiane Barreto, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise. Ela foi uma das participantes da roda de conversa, juntamente com o psiquiatra Humberto Corrêa, professor da Faculdade de Medicina da UFMG, presidente da Associação Brasileira para o Estudo e Prevenção do Suicídio e presidente da Associação Latino-Americana de Suicidologia; José Belizário, psiquiatra e doutor em saúde e educação pela FioCruz; Patrícia Ragone, psicóloga, educadora parental e autora do livro Laços - Contribuições da Terapia Cognitiva para as Relações Familiares; e Rosângela Teles, pedagoga, mestre em educação e coordenadora do Núcleo de Apoio Psicopedagógico da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais.

Com perspectivas e experiências de atendimento diferentes, cada um dos especialistas trouxe uma visão e uma reflexão particular sobre a juventude atual, as dificuldades da sociedade contemporânea, a influência das redes sociais, o papel da escola e as mudanças da dinâmica familiar. E, ainda que tenham opiniões diversas em alguns pontos, todos concordam sobre a importância de os pais estarem, de fato, presentes na vida dos filhos e de buscarem ajuda, quando for o caso. "O suicídio é um comportamento complexo, que deixa muitas interrogações nos sobreviventes", diz Humberto Corrêa. "Sabemos, no entanto, que pode ser prevenido. Se perceber alguém precisando de ajuda, leve-o a um serviço de saúde. Todo aviso deve ser encarado seriamente."

Humberto Corrêa: O porquê desse aumento de casos de suicídio entre jovens é complexo, como tudo que envolve suicídio. É multifatorial. Mas uma coisa que ajuda a entender esse movimento é o laço social. Nós sabemos que, quanto mais laços sociais tem uma comunidade e um indivíduo, menores são as taxas de suicídio. E vivemos em uma sociedade cada vez mais individualista, mais competitiva, em que adolescentes são treinados para serem executivos desde cedo. Além disso, as famílias são cada vez menores. Outro ponto que me chama a atenção é o uso de álcool e drogas, que ocorre cada vez mais cedo e em quantidade maior. Esse é outro fator de risco. Outro elemento importante: esta é uma geração pouquíssimo resiliente. Esses jovens não aprenderam a ter frustração e ouvir "não". Então, na menor intempérie, desabam, porque não aprenderam a lidar com os problemas da vida.

Rosângela Teles: Estamos vendo uma nova dinâmica familiar, em que esses jovens têm pouquíssimo contato com os pais e dificuldade de criar vínculos - porque os filhos estão sempre em escolas ou com babás. E, principalmente, eles tiveram uma infância muito curta. Sabemos que na primeira infância é quando se desenvolve essa estrutura,  não só cognitiva mas também psicoafetiva. Nesse sentido, eles têm pouca oportunidade, porque nas escolas só há investimento no desenvolvimento cognitivo. Temos então jovens altamente preparados, extremamente inteligentes, mas muito fragilizados emocionalmente. Tenho uma amiga, psicóloga, que fala da metáfora do psiquismo "casca de ovo", ou seja, que se quebra muito facilmente. E a alta competitividade que existe hoje em dia também. Nas faculdades de medicina, vê-se muito isso… Os alunos têm uma autocobrança, um perfeccionismo… E escutam desde pequenininhos em casa: "aqui só pode nota dez, viu?".

Patrícia Ragone: Os jovens estão despreparados para algumas coisas, como para a solução de pequenos problemas. Porque pensa nessa "saída" do suicídio quem não está conseguindo vislumbrar solução para os problemas. Então, quando você desdobra alternativas com esse jovem, ele sai daquela onda de pensamento adoecido, compulsivo, estreito. Mas os pais devem se questionar se eles mesmos são elementos vivos de esperança, compromissados com a vida. E se passam isso para seus filhos.

Sinais que merecem atenção

Humberto Corrêa: Nos adolescentes, deve-se estar atento principalmente a mudanças de comportamento. O jovem começa a ter um rendimento pior na escola, ficar mais isolado, trancado no quarto mexendo na internet ou irritado.

Rosângela Teles: No meu atendimento, uma das primeiras prescrições que faço é quanto ao sono. Quantas horas você está dormindo? Por que tão poucas? O sono é muito importante. E sem aparelhos eletrônicos no quarto. E os pais têm de ficar atentos. Se os meninos acordam morrendo de sono, se os professores reclamam que ele está cochilando em sala… Isso é um sinal.

Cristiane Barreto: Desses sinais todos que foram ditos, há um que me parece mais importante, que é o aspecto da introspecção, o isolamento, sinais de angústia. E quando você não consegue mais estabelecer com seu filho - ou seu amigo, ou sobrinho - uma conversa em que possa transmitir algo dos seus valores ou até como você fez para atravessar fases difíceis da vida. Isso é importante nesse tempo, e é na adolescência mesmo que construímos uma forma de lidar com nosso pior, que não é eliminável. Ou seja, quando você achar que o isolamento é para além do que devia, esse é um sinal para se fazer presente, oferecer ajuda, palavras.

Humberto Corrêa: Uma coisa que acho importante é dizer que a maioria dos suicidas avisou nos dias anteriores, nas semanas anteriores, para pessoas próximas, sobre aquela intenção.

José Belizário: Todo mundo que nasceu a partir de 1994 é da "iGeneration". Isso é no mundo todo, independentemente de cultura, classe social. São crianças que precocemente entram no mundo digital. Os mais jovens ficam uma média de nove horas por dia nas mídias digitais. Temos então alguns pontos importantes, sendo o primeiro a questão do sono. Os smartphones provocam uma alteração no nosso sono, devido à onda azul de luz que os aparelhos emitem e que inibe a produção de melatonina. Por isso, as pessoas que ficam no celular depois das oito da noite dormem mal e dormem menos. O dia seguinte delas também é pior; elas têm menos seratonina, uma substância muito importante para suportarmos o dia seguinte. Outro ponto importante é que os aplicativos atuais, que envolvem "likes", geram uma alteração no nosso sistema de recompensa. A pessoa passa a querer um retorno rápido e passa a depender da curtição no Instagram, no WhatsApp, para ter uma sensação de recompensa. Usando as mídias sociais o quanto têm usado, meninos e meninas não têm o sistema de recompensa estruturado para suportar as coisas da vida, e pequenas ocorrências os levam a um desespero muito grande.

Humberto Corrêa: Mas quem é que permite que a criança fique tantas horas no celular? Os pais.

José Belizário: Mas as famílias também estão dominadas pela questão da tecnologia… As crianças não querem mais brincar com os pais. Elas vão aos lugares, e lá precisa ter wi-fi. Elas não trocam o celular por brincadeira. Agora, se você tira o celular, se vai para um lugar sem internet, eles brincam, se divertem. Mas com a presença do celular, não. A mídia digital provoca vício.

Humberto Corrêa: Minha filha de 13 anos hoje não vai sozinha para a escola, sendo que moramos a quatro quarteirões dela, por questões de segurança. O que eu digo é: eu não deixo minha filha andar quatro quarteirões na cidade, mas vou permitir que ela navegue na internet sozinha, sem supervisão? Eu falo com ela que o celular dela é emprestado, pois é meu, na verdade. Ela vai usar na hora que eu permitir.

José Belizário: As famílias estão no mesmo barco. Quem deu o celular foi alguém da família, quem usa o celular na frente das crianças são os pais… A grande questão é que, quanto menos eles usarem, mais saudáveis eles vão ser. Quanto mais tarde tiverem acesso, melhor. Quanto mais regulado, melhor.

Humberto Corrêa: A tecnologia é uma grande vantagem, mas temos de saber usar. A questão é o limite. Pais não colocam limites, permitem que as crianças façam tudo. Acho que estamos vivendo uma geração que não tem limite por falta de quem os coloque. Vão crescendo dessa forma e, na primeira frustração que encontrarem, vão desabar.

Tecnologia

José Belizário: Então a solução que eu acho que é viável: insistirmos na importância do sono (pois nossos genes foram preparados para dormirmos cedo e levantarmos cedo) e da atividade física. Essas duas coisas juntas fazem com que nosso sistema de recompensa consiga fazer uma barreira a esses efeitos das mídias sociais. Pois o que vemos são meninos e meninas com sintomas impressionantes de vício e de abstinência quando tiramos o celular deles.

Cristiane Barreto: É claro que existe um excesso, um mundo intoxicado, em que prevalecem as relações de consumo. Mas costumamos demonizar rápido os objetos inventados no mundo contemporâneo. Às vezes os pais têm uma tendência de proibir, de tirar o celular ou o computador como uma primeira resposta, sendo que essa pode ser a única forma de ligação que alguns desses adolescentes têm com o mundo. E em alguns casos o que está em jogo nem é a relação excessiva com esse objeto, mas o tanto que as pessoas ao redor não se perguntam por que essa relação está tão excessiva, por que só há satisfação dessa maneira. A televisão já foi uma discussão em relação às crianças há tempos. A questão não era a criança e a televisão, era não ter nenhuma outra forma de satisfação, e o sujeito abandonado diante dessa solidão, inclusive frente à oferta gigantesca que o mundo fornece atualmente, sem nenhum ponto de orientação… É preciso saber que não há fórmulas prontas.

José Belizário: O que é importante é que essas redes são muito frágeis, não se sustentam enquanto laços. A mídia digital não faz laço, o WhatsApp não faz laço, não é olhar no olho. Claro que não podemos tirar isso do jovem que cresceu assim. Mas é importante limitar. Um famoso colégio de Belo Horizonte vai fazer nas olimpíadas um campeonato de iSports. Isso não é esporte. Não gera endorfina.

Humberto Corrêa: Obviamente, ninguém vai tirar a web da vida dos adolescentes. Faz parte da vida deles, da nossa. Mas acho que tem de haver um limite, porque é potencialmente aditivo. E volto na questão do laço social. Os amigos no Facebook, no WhatsApp, não substituem os amigos reais. Você pode ter mil contatos no WhatsApp, mil seguidores no Instagram, e nenhum amigo de verdade. Eles não são reais: não mostram a realidade. Só colocam as coisas boas, fotos felizes, viajando. Isso não é real.

Alexandre Rezende/EncontroPatrícia Ragone | "Temos de nos questionar: eu guardo energia para chegar em casa e ter com meus filhos uma relação que me possibilite conhecê-los?" (foto: Alexandre Rezende/Encontro)Ciberbullying

José Belizário: Outro ponto importante é o bullying, que hoje é muito mais sério, pois acontece em rede, em redes muito mais amplas. Atendi um menino que sofria bullying e hoje mora nos Estados Unidos. Aqui em BH, não adiantava nem mudar de escola, porque no meio social dele o bullying foi se espalhando.

Patrícia Ragone: Antes da internet, das redes sociais, o bullying, quando acontecia, ficava restrito à escola. O jovem ia para casa e tinha uma trégua desse bullying. Hoje, não. Ao contrário, ele se perpetua.

Humberto Corrêa: Então a internet favorece o suicídio de que maneira? Com o ciberbullying, pois sabemos que o bullying aumenta o índice de suicídios (e curiosamente tanto em quem sofre quanto em quem faz). Há ainda sites que incentivam o suicídio. Mas a principal questão é a falta de limites que os nossos adolescentes têm, que não são colocados pelos pais, pela sociedade. Acho incabível deixar um adolescente oito horas por dia na internet.

Família

Patrícia Ragone: A dificuldade do limite, que já era grande, tornou-se ainda mais desafiadora com algo tão sedutor quanto um celular, que coloca o mundo dentro da sua casa.

Humberto Corrêa: A França está em vias de aprovar uma lei que proíbe jovens de até 15 anos de entrar na escola com celular. É um limite. A sociedade falou "Chega. Não pode".

Patrícia Ragone: O grande segredo é como criar esses limites. Como é importante nos reeducarmos. Fizemos lá em casa o que chamamos do "estacionamento do celular", para que tenhamos um tempo em família razoável qualificado. Porque, se nós mesmos não nos percebermos, caímos também no uso excessivo do celular.

José Belizário: Limite não é dado, é copiado. As crianças, até os 6 anos, copiam tudo. Copiam o que os pais fazem. Então tem de ser dado esse exemplo. Não adianta proibir e depois fazer.

Humberto Corrêa: Concordo em parte. Tem coisas que eu posso fazer e minha filha não, porque eu sou adulto e ela é criança.

Rosângela Teles: Um dos pontos essenciais dessa nova dinâmica familiar é a diluição ou em alguns casos o desaparecimento da relação de autoridade. Isso tem reflexos diretos na escola, que acaba tendo dificuldade no trato com os jovens, porque, para seu desenvolvimento, é preciso esforço. Então, quando não se exige esforço do jovem, quando se facilita demais, a pessoa não vê mais o esforço como valor. E por que as famílias não estão fazendo isso? Existem várias teorias, uma delas está inserida nessa cultura consumista em que o ter é mais importante que o ser. Nesse sentido, os pais acham que estão dando o melhor de si à medida que estão fornecendo coisas para seus filhos, em detrimento da presença. Vivemos em uma sociedade de empreendedores, executivos. Nesse modelo, as pessoas têm de se dedicar muito ao trabalho. Os pais chegam em casa esgotados. Não existe tempo, disponibilidade. E há um senso comum, em que distorceram inclusive conceitos da psicologia, de que não se pode frustrar o menino. Há um excesso de tentar sempre manter a autoestima da criança, associando a frustração com sofrimento.

Patrícia Ragone: E como os pais chegam em casa? Tão saturados que os meninos pensam o seguinte: o mundo do trabalho é um mundo que satura, que deprime. Temos de ter cuidado e nos questionar: eu guardo energia para chegar em casa e ter com meus filhos uma relação que me possibilite conhecê-los? Porque o entendimento hoje dos pais de conhecer os filhos passa muito mais por vasculhar e ter a senha das redes sociais do que sentar-se e poder mergulhar no mundo do filho. Antes, os pais eram emocionalmente disponíveis. Hoje temos pais virtualmente distraídos. Falta essa escuta ativa. Não digo que não devamos ter uma delimitação, mesmo combinar de ter acesso à senha. Mas precisamos conhecer os filhos de outras formas. Não necessariamente no grupo de WhatsApp de mães. As mães gastam tanto tempo no grupo de WhatsApp que já chegam para conversar com o filho com base no que viram no grupo, sem perguntar, olho no olho, "o que você tem a me dizer sobre isto?".

José Belizário: Se esses filhos estiverem na mídia digital, não vão conseguir conversar. Se não regularmos o tempo de mídia e o tempo de sono deles, não tem jeito.

Humberto Corrêa: E não é questão de culpar os pais. Os pais estão precisando de ajuda.

Cristiane Barreto: Acredito que precisamos partir do pressuposto de que o mundo sofreu mudanças importantes e sem retorno. Não nos cabe ser nostálgicos. Há uma responsabilidade coletiva que exige, a meu ver, não pensar em crianças adoecidas, por um lado, e pais que precisam de ajuda, por outro. Existe, sim, uma sociedade com formas de se comunicar, de amar, muitas vezes desastrosas. Precisamos nos implicar em construir espaços coletivos respeitando o estilo de cada um.

Alexandre Rezende/EncontroRosângela Teles | "Além de focar nos pais, temos de observar a escola, que, estrategicamente, pode contribuir muito" (foto: Alexandre Rezende/Encontro)Quando os jovens "chamam a atenção"

Patrícia Ragone: Há uma tendência de os pais se cegarem para isso, não acreditarem que isso possa acontecer, e acontece. Quando um menino, em dias quentes, está com capuz, moletom, manga comprida, e o pai achar que é da fase do desenvolvimento… não é. Investigue. O adolescente pode estar se mutilando. A automutilação é fator de risco para o suicídio. Há ainda sinais cognitivos, quando começam a falar "não estou satisfeito", "essa vida não presta". Fazer alguns desapegos materiais é um sinal importante. Quando há mudanças muito bruscas em relação a como se comportavam.. Os pais tendem a achar que é uma manipulação. E esses sinais não podem ser negligenciados. Ainda que o jovem não chegue ao ato em si, ele já está no processo de morrência.

Cristiane Barreto: Quando os pais alegam, com conotação negativa, que o filho está "chamando a atenção", eu inverto isso, pois, se faz algo para chamar atenção, é preciso que o olhar deles esteja ali. Quando falam sobre essa questão de "manipulação", ora, é bom que a pessoa saiba manipular com a linguagem, pois é com ela que se faz laço social. Pensar nas ações de alguém como manipulação, no sentido de má-fé, para se conseguir o que se quer costuma não passar de julgamento moral, que contribui pouco para escutar o que está em questão.

Humberto Corrêa: Se a pessoa usa isso "para chamar a atenção", temos de pensar que ela está precisando de ajuda.

Escola

Rosângela Teles: Como esse é um fenômeno multifatorial, e cada caso tem sua própria complexidade, precisamos também pensar em rede. Além de focar nos pais, temos de observar a escola, que, estrategicamente, tem acesso aos pais e pode contribuir muito. Os professores também têm de estar preparados para lidar com essas subjetividades.

Humberto Corrêa: No ano passado, foi publicado um estudo europeu interessante. Eles testaram abordagens de prevenção de suicídio entre estudantes. No primeiro mês de aula, professores falaram em sala sobre suicídio, ansiedade, depressão, álcool etc. Monitores treinados reuniam-se com alunos para falar desses assuntos, havia cartazes espalhados nas escolas, e cartilhas foram entregues para eles levarem para casa. Isso reduziu durante o ano escolar inteiro o comportamento suicida dos alunos. Ou seja, falar sobre suicídio não aumenta o risco, diminui. Mas tem-se que falar de forma adequada. Um exemplo: outro dia eu vi minha filha estudando ciências, mitocôndrias. Era o detalhe do detalhe do detalhe que, para mim que sou médico e trabalho com genética, não faz a menor falta. Ela estava estudando isso, mas na escola não conversam sobre as emoções, ansiedade…

Cristiane Barreto: A escola tem dever de dizer para o estudante que ele não é só aquilo que parece estar determinado pelo discurso dos pais. Na adolescência ele tem de se desgrudar disso para ser outra coisa. E a escola tem de fazer com que esse desejo e essas descobertas  não sejam mortas cotidianamente. Hoje tem sido mais importante discutir detalhes insignificantes nas matérias do que discutir sobre a vida. Não se trata de recusar a conversa sobre o suicídio ou a dor de existir, podemos falar da morte, se isso ronda. E fazer ver, entender, que o suicídio não é uma solução, muito menos a única saída, frente à dificuldade que é viver. A adolescência é um período de travessia difícil, mas não precisa ser trágica. É também nesse período que acontecem encontros que mudam o rumo da vida, por vezes, para melhor.

Alexandre Rezende/EncontroJosé Belizário | "O que vemos são jovens com sintomas impressionantes de vício e de abstinência quando tiramos o celular deles" (foto: Alexandre Rezende/Encontro)Veja onde procurar ajuda

Em casos de emergência: SAMU 192, UPA, Pronto-socorro, Hospitais
Serviços de saúde: Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e Unidades Básicas de Saúde 

Centro de Valorização da Vida
Telefone 181 (ligação gratuita) ou www.cvv.org.br para chat, Skype, e-mail. O CVV realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail, chat e Voip, 24 horas, todos os dias. Em Belo Horizonte, o posto fica na rua Desembargador Barcelos, 1.286, Nova Suíça (horário: 15h às 23h, diariamente)

Grupo de apoio a enlutados por suicídio (Gaes): gaesufmg@gmail.com (informações e inscrições)





domingo, 15 de julho de 2018

Livro: E foram deixados para trás ______________Padre Licio de Araujo Vale

O autor, Padre Licio, perdeu seu pai por suicídio aos 13 anos, porém até os 18 acreditou que havia sido um acidente.

"O assunto é considerado tabu, por isso não se fala dele em lugar algum, nem mesmo entre as famílias que já perderam entes queridos dessa forma. O sentimento de tristeza profunda e as dúvidas que nunca serão respondidas tomam conta de quem fica. Foram deixados para trás, sem direito a despedidas, sem compreender os porquês" (p. 23).

Deve-se falar sobre suicídio: "Não se trata de naturalizar a prática a prática suicida, mas, sim, de tirá-la da caixinha reservada aos temas-tabus, de ter a liberdade de compartilhar mais informações a respeito, pedir ajuda sem ter vergonha de ser julgado, conseguir detectar comportamentos para prevenir o suicídio e compartilhar experiências para que outras pessoas possam se fortalecer com essas histórias" (p. 43).  

"Por anos, sofri e tive comportamentos que estavam diretamente ligados ao suicídio do meu pai, mas que, sozinho, eu não conseguia identificar. Capotei o carro cinco vezes! Dirigia em alta velocidade, sem me importar com a minha vida. Eu não saía de casa pensando: 'Vou me matar hoje'. No entanto, fazia coisas sem me preocupar com a minha integridade física. Tudo porque de certa forma eu não havia conseguido lidar sozinho com o suicídio do meu pai" (p.45-46).

"A pessoa vai embora, ela decide ir embora, e um dos primeiros questionamentos é se você era mesmo importante para ela" (p. 47).

"Um sobrevivente de um desmoronamento, por exemplo, precisa reconstruir sua casa novamente, comprar móveis, refazer planos que incluem, muitas vezes, até para onde ir. Assim é também um sobrevivente do suicídio: precisa reconstruir sua vida em cima das dúvidas que o suicida deixou, rever planos que muitas vezes o incluíam, refazer - se por dentro. São tragédias diferentes, mas que têm em comum essa resiliência interna para a reconstrução de um novo horizonte. O passado não se apaga, mas, para um sobrevivente seguir em frente, é preciso haver uma ressignificação desses sentimentos que o suicida deixou como herança" (p. 64).

"A dor de perder alguém vai ser sempre uma dor, [...] mas podemos dar a ela outro significado, outro sabor. Por exemplo, o sabor da saudade, e não mais da tristeza profunda; o sabor da gratidão pelo tempo vivido, e não mais da raiva pelo vazio" (p. 117).

Traz ainda a perspectiva atual de diferentes religiões (catolicismo, protestantismo, budismo, espiritismo, entre outras) acerca do suicídio, contribuindo para desmistificar e diminuir o tabu.


domingo, 8 de julho de 2018

10 coisas para NÃO dizer a uma pessoa com intenção de suicídio

"Eu quero me matar."

Essas quatro palavras provocam um choque quando são ditas, pois, é uma fala terrível para ser ouvida de um amigo ou membro da família que você gosta e não quer perder. Aí, você recua, impactado e assustado, sem saber o que fazer e pensa: como pode querer morrer?

Entretanto, por mais indesejáveis ​​que essas palavras sejam aos seus ouvidos, seu ente querido lhe deu um presente. Ele ou ela está dando uma abertura para você entrar. Ao dizer que eles querem morrer, eles estão lhe dando a oportunidade de ajudar.

Agora, preste bem atenção: o que você diz em seguida é muito importante. Repito, o que você diz em seguida pode levar seu amigo ou membro da família a deixá-lo entrar ainda mais – ou a fechar a porta. É compreensível que você se sinta perturbado, tomado de emoções, e  que tenha muitos pensamentos, alguns úteis, outros não.
Aqui estão 10 respostas comuns que podem desencorajar a pessoa a falar mais sobre o que está acontecendo. Primeiro, uma advertência: em geral, essas declarações podem transmitir julgamento e promover o distanciamento. Mas, dependendo do contexto, algumas pessoas podem responder positivamente a pelo menos algumas dessas respostas.

1.     “Como você pôde pensar em suicídio? Sua vida não é tão ruim assim. ”
Talvez, por fora, a vida de uma pessoa com intenção de suicídio não pareça “ tão ruim ”. Acontece que a dor está escondida. Aí, esse tipo de declaração transmite descrença e julgamento, não compreensão.

2.     “Você não sabe que eu ficaria arrasada se você se matasse? Como você pode pensar em me machucar assim? ”
De um modo geral a pessoa já se sente horrível e quase sempre muito culpada. Colocar mais culpa sobre seus ombros não vai ajudá-la a sentir-se aliviada ou acolhida em sua dor para contar ainda mais sobre como ela está.

3.     “O suicídio é um ato egoísta. ”
Isso provoca mais culpa. Dois pontos são importantes aqui. Um, muitas pessoas que consideram seriamente o suicídio, na verdade, pensam que estão sobrecarregando sua família mantendo-se vivas. Assim, em seu estado de espírito angustiado, talvez até mentalmente doente, estariam ajudando seus entes queridos, libertando-os desse fardo. Dois, a pessoa vivencia uma distorção em seus pensamentos e passa a julgar que a morte seja a melhor forma de livrar-se de uma dor ou de uma situação sem esperanças de solução.

4.     "O suicídio é covardia."
Isso provoca vergonha. Também não faz sentido. A maioria das pessoas tem medo da morte. Suicídio não se trata de ser valente ou corajoso.

5.     “Você não quiz dizer isso. Você realmente não quer morrer. ”
Muitas vezes a pessoa responde assim por ansiedade ou medo, mas estas afirmações desqualificam a dor do outro. Presuma que a pessoa realmente quer dizer que quer morrer. Faz mais mal desdenhar alguém que é verdadeiramente suicida do que levar alguém a sério que não é suicida, então por que não levar todos a sério?

6.     “Você tem muito ainda o que viver. ”
Em alguns contextos, esse tipo de declaração pode ser um lembrete reconfortante de oportunidades e esperança. Mas para muitas pessoas que pensam em suicídio e que sentem que está tudo acabado para elas, porque se encontram mergulhadas em profunda desesperança, essa observação pode transmitir uma profunda falta de compreensão.

7.     “As coisas poderiam ser bem piores. ”
Sim, as coisas poderiam ser piores, mas esse conhecimento não inspira alegria ou esperança. Eu o comparo a duas pessoas que são esfaqueadas, uma no peito e outra na perna. É muito pior ser esfaqueado no peito, mas isso não faz com que a dor desapareça para a pessoa esfaqueada na perna. Ainda dói. Muito. Assim, mesmo que as pessoas que pensam em suicídio tenham muitas coisas boas para viver, ou mesmo que suas vidas possam ser muito piores, elas ainda experimentam uma situação aparentemente intolerável que as faz querer morrer.

8.     “Outras pessoas têm problemas piores do que você e não querem morrer. ”
É verdade, mas isso pode ter o efeito de afundar a pessoa mais ainda na depressão. Compará-los a outros que lidam melhor com problemas ou que simplesmente têm a sorte de nunca ter pensamentos suicidas só pode piorar sua autocondenação.

9.     "O suicídio é uma solução permanente para um problema temporário.”
Eu conheço pessoas, especialmente adolescentes, para quem esta declaração foi tremendamente útil. Essa declaração dizia respeito aos problemas por que passavam. Mas também comunica que todos os problemas de todas as pessoas são temporários, quando podem ser tudo menos isso. Em tal situação, um objetivo realista para a pessoa pode ser aprender a lidar com seus problemas e  viver uma vida significativa, apesar deles. O outro problema com essa afirmação é que o suicídio passa a ser visto como uma solução. No mínimo, recomendo mudar a palavra “solução” para “agir” ou “ação”, simplesmente para evitar reforçar a impressão de que o suicídio realmente é uma solução e que resolve os problemas.

10.    "Você vai para o inferno se morrer por suicídio."
Muitos que já fizeram uma tentativa de suicídio pensaram, provavelmente, nessa possibilidade. Talvez eles concebam que o deus em quem acreditam perdoará seu suicídio. Outros, também talvez, nem acreditem no inferno.  Independentemente disso, sua dor e seu desejo de morrer permanece. Dizer-lhes que irão para o inferno pode provocar uma sensação de falta de empatia e incapacidade de compreensão.

É isso! São essas as 10 coisas para não dizer a uma pessoa com intenção de suicídio.

Veja, você pode ter qualquer um ou todos os pensamentos e emoções descritos acima, diante da afirmação de um amigo ou membro da família que diz querer morrer.  Isso não significa que você esteja errado ou seja uma má pessoa em ter essas reações. Afinal, você é humano. Você pode sentir raiva, mágoa, traição. Você não pode controlar os pensamentos e sentimentos que sente. 

Entretanto, você pode e deve controlar o que diz ou faz em resposta a seus pensamentos e sentimentos. Quando uma pessoa revela pensamentos suicidas para você, sua resposta em palavras e ações podem fazer uma profunda diferença na vida dessa pessoa.

Do blog "O homem contra si mesmo"

http://homemcontrasimesmo.blogspot.com/2018/04/10-coisas-para-nao-dizer-uma-pessoa-com.html



domingo, 1 de julho de 2018

O suicídio dos que não viram adultos nesse mundo corroído ______ Eliane Brum

Por que, neste século, mais adolescentes têm respondido ao desespero deletando a própria vida?

No El País Brasil - 19/06/2018

Desde que dois alunos do Colégio Bandeirantes, tradicional escola de elite de São Paulo, se mataram no espaço de 15 dias no mês de abril, o suicídio de adolescentes entrou no debate público no Brasil. Psicanalistas e profissionais de saúde mental têm sido chamados à rede privada de ensino para falar sobre o tema. Pais e professores estão em busca de pistas para compreender por que mais jovens tiram a própria vida e como é possível prevenir a tragédia. Casos de adolescentes que se matam já fazem parte da crônica das cidades de todos os tamanhos no país, do Rio Grande do Sul aos estados da Amazônia. No Brasil, entre 2000 a 2015, os suicídios aumentaram 65% dos 10 aos 14 anos e 45% dos 15 aos 19 anos, segundo levantamento do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador do Mapa da Violência no Brasil. Nos últimos dois anos, os números podem indicar uma pequena estabilização, mas só daqui mais um ano será possível afirmar se é uma tendência ou apenas uma oscilação. No mundo, o suicídio já é a segunda causa de morte entre adolescentes, segundo a Organização Mundial da Saúde. Por que mais jovens se suicidam hoje do que ontem?

Essa é a pergunta óbvia de onde costuma partir o debate. Mas a pergunta ainda mais óbvia talvez seja: por que não haveria mais adolescentes interrompendo a própria vida nos dias atuais do que no passado? Na leitura do momento, me parece que o espanto se justificaria se, num mundo distópico, houvesse menos jovens com dificuldade de encontrar sentidos diante do desespero.

A inversão da pergunta não é um jogo retórico. Ela é decisiva. É decisiva também porque devolve a política à pergunta, de onde ela nunca poderia ter saído. E a recoloca no campo do coletivo.

Essa dimensão não apaga a singularidade de cada caso, mas é necessário situar essa singularidade no contexto do seu tempo histórico. Quando adolescentes se matam, eles dizem algo sobre si mesmos, mas também dizem algo sobre a época em que não viverão. É esse o ângulo que me parece importante chamar a atenção, porque em geral ele é apagado. É nas particularidades de cada história que podemos encontrar caminhos para prevenir o ato de desespero, mas é também na conformação do mundo em que a violência autoinfligida ocorre que devemos buscar pistas para compreender o que o suicídio expressa sobre essa época.

Os adolescentes de hoje herdarão um mundo corroído pela mudança climática provocada pelas gerações anteriores, incluindo a de seus pais, onde a água vem se tornando o grande desafio e a paisagem já começa a ser desfigurada. As séries de TV, principal produto cultural e também de entretenimento, expressam o sentimento dessa época: um presente que já é uma distopia e a impossibilidade de imaginar um futuro que não seja apocalíptico. A internet, onde os adolescentes e a maioria dos adultos vive, arrancou a ilusão sobre o que chamamos de humanidade. Ao permitir que cada um se mostrasse sem máscaras, que cada um pudesse “dizer tudo”, abriu-se uma ferida narcísica cujos impactos levaremos muito tempo para dimensionar. Essa ilusão sobre o quê e quem somos nós cumpria um papel importante no pacto civilizatório. Sua perda é parte da explicação da dificuldade de compartilhar o espaço público, hoje interditado por ódios.

Por que, diante desse cenário, mais adolescentes não teriam dificuldade para encontrar saídas? Por que alguém que está vivendo uma fase da vida em que precisa dar conta de um corpo em transformação e assumir a responsabilidade de encontrar seu lugar não estaria desorientado diante do mundo que o espera – ou mesmo sem nenhuma confiança de que vale a pena ser adulto nesse planeta?

Se cada caso é um caso, o significado de ser adolescente nessa época determinada não pode ser deletado de qualquer resposta que pretenda ser uma resposta. Aberta, em constante construção, mas uma resposta.

Um adolescente que faz perguntas duras a si mesmo e aos adultos não está apresentando um comportamento desviante. São perguntas inteligentes, são perguntas de quem percebe o mundo que vive, são perguntas de quem se recusa a se alienar. O desafio que o suicídio nos apresenta, como sociedade, é conseguir construir junto com os jovens uma resposta que não seja a brutalidade de tirar a própria vida.

Essa tarefa não é individual, não é um problema apenas do adolescente que não consegue encontrar sentido ou de sua família. Mas uma construção coletiva. Inclui esse adolescente, mas não é só dele. Se há uma possibilidade nesse momento é a de que o desespero de ver adolescentes morrendo fez com que se rompesse o silêncio sobre o suicídio.

A crença de que falar sobre o suicídio aumenta o número de casos estabeleceu um silêncio em torno das mortes que colaborou para que se localizasse o problema e a suposta solução no indivíduo. Colaborou para a ideia sem substância do suicídio como covardia do adolescente e fracasso dos pais. O suicídio, convenientemente, deixou de ser uma questão da sociedade para ser um problema de uma pessoa ou família com um tipo de defeito. Ou foi colocado na conta de uma patologia mental, com vários nomes disponíveis no mercado. É um fato que há casos de suicídio relacionados a doenças mentais, mas não é possível desconectar qualquer doença da época em que ela é produzida.

A questão não é a doença mental, quando ela existe, ou a angústia e o desespero, mas por que o suicídio tem sido a resposta e não outra a acontecimentos como a doença mental, a angústia e o desespero. É no fato de que ao longo das diversas épocas já houve outras respostas possíveis, outras respostas compatíveis com seguir vivendo, que podemos construir reflexões que nos arranquem da repetição que acaba tratando como problema exclusivamente individual o que é também produção social.

Voltar a falar de suicídio é importante, mas é igualmente importante “como” falar sobre suicídio. Se a questão for apenas estabelecer manuais, como se houvesse uma lista de alarmes para identificar aquele que se descola da manada, ou se a saída encontrada for reforçar a causa e a solução no indivíduo, é só mais um reforço para a tragédia da nossa crescente dificuldade de fazer comunidade. Em resumo: não dá para viver num mundo literalmente corroído e subjetivamente corroído e dizer que o desvio é de quem sofre com ele e não encontra outra saída que não seja o suicídio. Ou da família que não pôde ou não soube como impedir que o adolescente tirasse a própria vida.

Se podemos fazer algo com a tragédia que é termos criado um mundo onde um número maior de adolescentes não se tornará adulto, é reaprendermos a viver em comunidade, redescobrirmos como tecer redes de cuidado mútuo. Isso não tira a responsabilidade individual. Ao contrário, a aumenta. Mas coloca a responsabilidade individual onde ela deve estar: fazendo “laço” com os outros. Fazendo junto.

A primeira geração formada nas redes sociais a partir de “likes” and “blocks”
Não se pode esquecer ainda e principalmente que a marca de se tornar adolescente neste século é a marca de tecer sua experiência na internet. A geração atual é a primeira formada a partir de “likes” and “blocks”, carinhas sorridentes e carinhas furiosas. Ao mesmo tempo que experimenta a possibilidade de deletar o quê ou quem perturba, enfrenta a impossibilidade de deletar seus vestígios para sempre.

Estrear na vida e já ser condenado à memória eterna. Ser formado na impaciência dos segundos e na sobreposição dos tempos. Acreditar que um vídeo de mais de dois minutos ou um texto de mais de dois parágrafos são longos demais. Arriscar-se nas redes sem os limites do corpo, podendo ser algo num minuto e outra coisa inteiramente diferente no minuto seguinte. Mas, ao mesmo tempo, sentir os efeitos profundos dos estímulos digitais no corpo. Os dias acelerados que se emendam e a fábrica de ansiedade. A impossibilidade da desconexão. A vida editada e “feliz” de todos, enquanto dentro de você a tristeza é vivida como fracasso num mundo de tantos bem sucedidos de Facebook, sem saber quem ou o quê é real ou “fake”.

Num vídeo postado dias atrás pelo Channel 4 News, Jaron Lanier, filósofo da internet e criador da realidade virtual, sugere que os adolescentes deveriam abandonar as redes sociais por pelo menos algum tempo. “Somos fisgados por um esquema de recompensas e punições, em que as recompensas acontecem quando você é retuitado por outros e as punições quando você é maltratado por outros nas redes”, diz. Essa manipulação, segundo Lanier, não é tão dramática quanto o vício em heroína ou o vício em jogo, mas obedece ao mesmo princípio. “Deixa as pessoas ansiosas e irritadas, e torna especialmente os adolescentes depressivos, o que pode ser muito grave”, afirma. “Há uma grande quantidade de evidências e estudos científicos. O exemplo mais assustador é a correlação entre o aumento do suicídio entre adolescentes e o aumento do uso das redes sociais.”

Jaron Lanier dá um conselho aos adolescentes: “Se você é uma pessoa jovem e você só vive nas redes sociais, o primeiro dever com você mesmo é conhecer você mesmo. Você deve experimentar viajar, você deve se desafiar. Você não vai se conhecer sem essa perspectiva. Então, dê a você mesmo pelo menos seis meses sem redes sociais. Eu não posso dizer a você o que é o certo. Você tem que decidir”.

Netflix, cinema e a vida depois da perda
No ano passado, o psicanalista Mário Corso foi convidado para dar uma palestra aos alunos de uma escola pública do interior do Rio Grande do Sul. A diferença é que ele não foi convidado pela direção da escola ou pelos professores ou mesmo pelos pais. A iniciativa foi dos alunos. Eles tinham identificado uma colega com ideias de suicídio e decidiram formar uma rede de cuidado. “Os colegas estão mais próximos e sabem melhor do que ninguém quando algo realmente sério está acontecendo”, diz Corso. “Essa experiência de ajudar a combater o mal-estar na escola, de entender as dificuldades da socialização, seria uma formação extra e muito proveitosa que a escola pode dar aos adolescentes. Existem muitos adolescentes cuidadores. É preciso fazer uma aliança com eles.”

Todo profissional que trabalha com saúde mental é marcado pela perda de pacientes. É algo que se carrega pela vida, mas que em geral é elaborado e vivido no espaço privado. A diferença é que Corso ficou assinalado também na esfera pública. Em 2006, um de seus pacientes, Vinicius Gageiro Marques, de 16 anos, transmitiu a própria morte pela internet e teve ajuda de pessoas de diferentes países para consumá-la. A incitação ao suicídio é um crime previsto no Código Penal do Brasil.

Mais de um ano depois do suicídio de seu jovem paciente, Corso me deu uma entrevista que se tornou uma referência, pela profundidade e honestidade com que falou do que viveu. A morte do adolescente teve repercussão internacional e marcou um momento em que as pessoas perceberam que, com a internet, os jovens frequentavam mundos que pais e professores não alcançavam. No segundo semestre, será lançado o filme Yonlu, nome com que Vinicius se apresentava nas redes e assinava a sua produção artística, dirigido por Hique Montanari.

Mário Corso é autor de vários livros, inclusive um infantil. Três deles, escritos junto com a também psicanalista Diana Corso, relacionam produção cultural e psicanálise, dos contos de fadas às atuais séries de TV. O mais recente é Adolescência em Cartaz – filmes e psicanálise para entendê-la (Artmed, 2017). Fiz cinco perguntas a ele:

P: Você acha que o sofrimento que provoca o suicídio hoje, na era da internet, é diferente do sofrimento que provocava o suicídio nos adolescentes de gerações anteriores?

R: Creio que o sofrimento dos adolescentes é o mesmo. Uma solidão imensa, uma sensação de inadequação, uma desesperança próxima ao desespero. A ideia que não há lugar no mundo para si, um mundo complexo demais para ser decodificado, aliado ao momento de fragilidade dos laços entre os pares, é um cruzamento perigoso e doloroso. O que mudou foram as possibilidades de comunicação. Para o bem e para o mal. Por exemplo, o bullying antes era restrito a um lugar, ficava na escola. Hoje ele não para, não dá trégua e não dá àquele que sofre o direito de recomeçar. A internet não esquece.

Estar marcado em um colégio, por uma experiência negativa, antes podia ser solucionado trocando de escola. Hoje, você leva contigo aquilo que gostaria de esquecer. Uma pesquisa rápida e tua ficha é entregue. Por um lado, a rede pode até ajudar os mais fóbicos, pois ela permite ensaiar-se em um ambiente onde o corpo não está em jogo, e propicia a pessoas de hábitos diferentes encontrarem sua praia. Por outro, ela também tem seu lado obscuro: permite que portadores de sofrimentos e patologias, que antes eram isoladas, como a anorexia, se apoiem em parceiros, igualmente tomados na loucura, que incentivam seguir dentro da doença e dão a ela um sentido de pertença, de identidade, muitas vezes letal. O mesmo com o suicídio. Antes isolado, o adolescente tinha menos recursos, até, digamos, técnicos, para saber como se matar. Raramente ele iria encontrar pessoas tão ou mais perturbadas para trocar ideias sobre as “vantagens” do suicídio. Na rede, seguem existindo fóruns de proselitismo do suicídio.

P: O que a morte de Yonlu mudou na sua clínica ou no seu modo de entender o suicídio?

R: Não houve mudanças significativas na clínica ou no entendimento das razões do suicídio. A principal mudança foi em mim. Desci mais um degrau da minha personalidade já melancólica. Já tinha perdido pacientes, mas casos graves, adultos vindos de anos de depressões crônicas, dos quais, entre idas e vindas, eu fui apenas mais uma tentativa fracassada. São perdas distintas. Sendo nesse caso alguém tão jovem, talentoso, inteligente, é difícil se apaziguar. Os psicoterapeutas elaboram pouco sobre os efeitos de serem depositários e testemunhas de tanto sofrimento. Mas são cicatrizes incuráveis. Talvez um dia eu consiga entender melhor tudo isso. Ainda lateja.

P: Desde aquela época, mais de uma década atrás, a sua postura era de que era necessário falar sobre o suicídio. Mas só agora, e em grande parte por conta de séries como 13 Reasons Why (“Os 13 porquês”, Netflix), o silenciamento sobre o suicídio entre adolescentes começa a ser rompido. Por que é importante falar e o que você gostaria de dizer?

R: Falar sobre o problema já é um começo. É um assunto tabu, ninguém se sente à vontade para dar a partida. Ninguém sabe bem o que dizer. O que está em jogo é o sentido da vida. E quem sabe dizer por que a vida vale a pena? Não sabemos dizer até porque é uma questão mal colocada. Não existe resposta racional. A resposta é emocional. Vivemos não por razões, mas por pertencer a uma rede afetiva, por ter uma sociedade que nos dá um lugar. Estamos aqui porque alguém um dia quis assim e ficou inscrito em nós essa marca. A vontade de viver é algo que os pais transmitem, ou não, sem dar-se conta. Mas é um território imponderável, nebuloso.

Acredito que estamos no momento de construir algo novo. Creio que a arte já começou. O seriado da Netflix foi um bom começo. Antes de ele ser feito, eu não acreditaria que daria certo. Tomado pelo paradigma de Werther, de que narrar o suicídio estimularia outros, eu não faria. (No século 18, após a publicação do livro Os sofrimentos do Jovem Werther, do escritor alemão Goethe, teria havido uma onda de suicídios de jovens na Europa que foi considerada efeito do romance.) A Netflix fez, e a resposta foi oposta: mais gente falando no assunto e pedindo ajuda.

P: O que você, que analisa a produção cultural pelo viés da psicanálise, acha da série?

R: Ela tem uma grande sacada: eles criaram um herói romântico aparentemente típico. Hannah, a personagem, é uma alma sofrida e sensível, que passou por traumas e é incompreendida. O mundo não seria bom o suficiente para ela. Mas, no decorrer da série, ela se comporta de forma tão pouco empática ao sofrimento dos outros, ela é tão autocentrada e egoísta, que ninguém quer ser como ela. Ela exige cuidado e uma delicadeza que ela mesmo não tem com ninguém. Ela é cega à dor alheia. Ou seja, eles viraram o fio. Ninguém vai querer ser a Hannah mesmo que admitamos que ela tem suas razões e seu sofrimento. Ela ajuda a narra a dor e a vontade de ir embora, mas não desperta identificações diretas. Se um estúdio de TV inventou uma narrativa que faz falar sem estimular o ato, por que a comunidade de quem trabalha com saúde mental não conseguiria? Nós temos é que nos botar a pensar. É um tempo de inventar. Creio que é um desafio que temos que nos colocar. É preciso dar uma visibilidade ao problema real que o suicídio é. Não noticiar os casos, mas encontrar uma nova via de ele estar sempre em pauta.

P: Existiria algo na educação dada atualmente às crianças e aos adolescentes que os deixariam mais vulneráveis?

Corso: É algo que se pensa pouco. Nós temos uma conquista civilizatória interessante, que é a infância protegida, reconhecida em suas particularidades. Não devemos mudar isso, mas talvez pensá-la melhor. Nossas crianças crescem numa bolha de proteção que rompe na adolescência. Abruptamente, descobrem a dureza do mundo, a violência, a exigência desmedida – nesse caso, às vezes dos pais. Sentem-se traídos pelo mundo de conto de fadas que receberam. Será que não exageramos, que não haveria um modo de desde mais cedo mostrar o mundo como o mundo realmente é? Existe uma depressão típica do começo da adolescência que diz respeito ao dar-se conta do peso do mal-estar da civilização. Utopias já não colam, vivemos na época das distopias, crenças religiosas tampouco, o jovem sente que está em um mundo absurdo. E precisamos pensar que ele não desenvolveu os anticorpos que nós já temos… Isso chega de modo à vista. Será que não poderia ser em suaves prestações? Brinco, mas creio que exageramos na dose do mundo Disney. Em resumo: não os preparamos para o infortúnio, não discursamos sobre as derrotas, as perdas, e elas são a única certeza nessa vida. Ensinamos a ganhar, a dizer que serão vencedores. Ensinamos o fácil e esquecemos o essencial: saber suportar as rudezas de um momento civilizatório complicado.

O presente só é possível se o futuro for possível
No início dessa coluna, eu propus mudar a pergunta. Não “por que mais adolescentes estão se matando hoje” – e, sim, “por que não haveria ainda mais adolescentes morrendo hoje”. Minha interrogação parte da realidade de um planeta corroído e abandonado pelas utopias. A esse cenário se soma a profunda crise da democracia como sistema capaz de melhorar a vida das pessoas. “Terra arrasada” não é mais uma figura de linguagem, mas uma literalidade. Na dificuldade de enxergar um futuro próximo, quase nos assemelhamos aos marinheiros do passado, que acreditavam que o mundo acabava num barranco, de repente.

Sem perspectiva, sonho, imaginação, desejo, a percepção já é de vida interrompida. Tragado pelos dias de um presente acelerado, em que o corpo é atingido por estímulos 24 horas por 7 dias na semana, mas não tem nem espaço nem tempo para elaborar nenhuma experiência porque logo vem outra por cima, a sensação é de afogamento. Sem perspectiva de futuro, o presente é vórtex.

Sugiro então uma terceira interrogação para esse momento: o que podemos fazer junto com os adolescentes, porque não acredito em juventude sem responsabilização, para que volte a valer a pena viver nesse mundo? Ou como podemos construir juntos uma ideia de futuro que não seja uma distopia? A impossibilidade de imaginar um futuro possível tem impactos profundos sobre a vida de todos, muito mais do que a maioria consegue dimensionar no cotidiano. Recuperar a capacidade de imaginar um mundo onde se possa viver é o imperativo que atravessa essa época. Imaginar a partir da realidade brutal – e não negando-a, como a maioria tem feito.

Esse momento de rompimento do silêncio sobre o suicídio é rico de possibilidades. Mas apenas se formos capazes de recolocar a questão no campo da política. É nisso que as escolas deveriam apostar, assim como todos os espaços de compartilhamento. O desafio, tanto na rede pública quanto na privada, é o de fazer comunidade, inclusive e principalmente entre as redes. Não é porque se chama de “comunidade escolar” que é uma comunidade escolar. Comunidade é algo bem mais profundo e demanda esforço contínuo de fazer laços com o fora e com o dentro, reconhecendo as fronteiras para poder ultrapassá-las.

Será uma pena se esse despertar violento, despertar sobre corpos de alunos mortos, seja desperdiçado pela visão estreita de olhar para o acontecimento como se ele fosse desconectado de sua época, individualizado e isolado. Ou colocar questões de saúde mental como se elas pertencessem a um arquivo impermeável, que não se comunicasse com todos os outros. Os sintomas de nosso tempo expressam onde estão os nossos buracos. Os mais sensíveis sentem primeiro.

Criar uma resposta para o suicídio de adolescentes é também criar uma resposta para a nossa vida nesse planeta. É enfrentar o tema da mudança climática e de sua adaptação a ela, é enfrentar a responsabilidade da nossa espécie com todas as outras cuja casa destruímos, é enfrentar a crise da democracia e criar maneiras de fortalecê-la, para que ela volte a significar possibilidade de combater as desigualdades e fortalecer os direitos.

O mal-estar do nosso tempo, este que tanto afeta aqueles que estão estreando na vida, é alimentado pela nossa impossibilidade de enxergar uma vida possível logo ali na frente. Como os adultos também não enxergam, o desamparo é total. Se um colégio ou qualquer outra instituição quiser de fato enfrentar o suicídio entre adolescentes deve se dedicar também a construir com eles uma ideia de futuro que não seja o apocalipse climático – ou nuclear. Ser parte dessa criação de futuro, mesmo na extrema desesperança do presente, é fazer laço com a vida ao fazer laço com os vivos. O suicídio é também a impossibilidade de fazer parte.

Sem imaginar um futuro possível, não há presente possível. É isso que todos nós precisamos compreender. É isso que os jovens corpos tombados estão também dizendo em seu silenciamento violento. Só se combate a vontade de morrer criando um mundo em que vale a pena viver. Essa é a principal tarefa da escola e de todas as instituições.

Na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), de 2014, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro disse uma frase provocadora, no melhor sentido: “Os índios entendem de fim de mundo porque já viveram o fim do mundo em 1500”. Retomo essa afirmação para lembrar que os jovens indígenas Guarani-Kaiowá, as novas gerações de um dos povos originários mais massacrados do planeta, se suicidam desde os anos 80. Seu suicídio invisível para os brancos, invisíveis como eles mesmos, tem contado uma narrativa do fim do mundo. É para eles, para esta dor, que deveríamos estar olhando, para este mundo que lá se corrompeu antes pela força do extermínio.

Para os Guarani-Kaiowá, palavra é “palavra que age”. Responder ao suicídio dos adolescentes com vida é romper as barreiras do isolamento e se tornar palavra que age para fazer futuro.




domingo, 24 de junho de 2018

Livro Suicídio: Estudos Fundamentais

Considero esta uma obra de referência, embora disponível apenas na Estante Virtual atualmente.
Publicado em 2004, traz diferentes temas no campo da suicidologia (aspectos históricos, religião, aspectos psicológicos, teoria social, abordagem médica, manejo e prevenção) que ainda hoje são pertinentes e convidam à novas reflexões dentro do nosso contexto atual.

O comportamento suicida
Por Alexandrina Meleiro e Saint-Clair Bahls 

"A pessoa quase sempre olha para o suicídio como uma opção no vácuo da solução. Em outras palavras, a pessoa suicida acredita verdadeiramente que todas as outras razões para resolver o problema têm sido tentadas e falhadas. Como estas opções são removidas da lista de possibilidades, novas opções tornam-se mais e mais extremas, particularmente se há uma ideia de grande dor associada com o problema. [...] é alguém que convincentemente acredita o tempo todo que não há realmente nenhuma outra opção variável de solução para seu problema. Isto de fato é uma chave propulsora para o ponto de intervenção com o paciente suicida" (p. 31). 

"Nossa cultura dá uma ênfase pesada sobre o sentimento bom, e uma grande variedade de tecnologia tem sido desenvolvida para dar uma aparência que as pessoas não têm sofrimento. Isto cria um interessante paradoxo para a pessoa que está em dor emocional e que não é provável seguir em frente. A pessoa luta contra a disposição para sofrer.
[...] há usualmente um diálogo interno sobre o sentimento mau de dor, anormal ou um sinal de fraqueza pessoal. Em essência, a pessoa não aceita isso, que acaba por causar dificuldades tremendas na regulação emocional, que é vivenciada como estar fora do controle" (p. 32).

"O que faz a diferença entre decisão de vida e morte não é só a presença de fatores de risco, mas o acesso a meios letais, bem como a presença de fatores protetores que irão fortalecer as estratégias de enfrentamento" (p. 33). 

"Os esforços de prevenção ao suicídio muitas vezes dirigem-se à melhora da assistência clínica ao indivíduo que já luta contra ideias suicidas, ou ao indivíduo que precise de atendimento médico por tentativa de suicídio. A prevenção ao suicídio também exigirá abordagens que possam reduzir a probabilidade do suicídio antes que indivíduos vulneráveis alcancem o ponto de perigo" (p. 35). 

Cap. Abordagem médica da tentativa de suicídio
Por Alexandrina Meleiro, Andréia Zavaloni Scalco e Carolina de Mello-Santos

"A internação hospitalar, por si só, não é um tratamento, é somente um local onde estabelece - se uma relação terapêutica para facilitar uma melhor observação do paciente suicida. Durante a hospitalização o paciente deve receber atendimentos constantes que facilitarão o estabelecimento do tratamento adequado, assegurando - lhe a vida e proporcionando a sua melhora. O objetivo da internação é impedir o ato impulsivo do suicídio e iniciar rapidamente um tratamento adequado. [...] Durante o tratamento tanto hospitalar quanto ambulatorial, é importante auxiliar o paciente a desenvolver habilidades e recursos para que ele consiga se reintegrar à sociedade com segurança e independência". (p. 166).

Cap. Manejo das situações ligadas ao suicídio
Por Alexandrina Meleiro, Neury Botega e José Gilberto Prates

"O indivíduo com risco de cometer suicídio deve ser examinado como uma pessoa única, inserida numa sociedade, vivendo numa circunstância particular de vida e carregando a sua própria história psicobiológica. Os estudos epidemiológicos, preocupados com os aspectos exteriores do suicídio, acabam por reduzir o aspecto humano a simples taxas, cifras, números e porcentagens, cujas conclusões escamoteiam e anulam a possibilidade de conhecer o indivíduo como pessoa que necessita de uma ajuda específica naquele momento" (p. 177).   



domingo, 17 de junho de 2018

Permissão para ser INfeliz _____________________Eliane Brum

Por ELIANE BRUM em Revista Época – 14/01/2013

A psicóloga Rita de Cássia de Araújo Almeida conta como a demanda por felicidade vem crescendo nos serviços de saúde mental da rede pública.

Há alguns anos me pergunto se o “direito à felicidade”, que se tornou uma crença partilhada tanto por religiosos quanto por ateus na nossa época, tem sido causa de considerável sofrimento. Se você acredita que tem direito à felicidade, de preferência todo o tempo, ao sentir frustração, tristeza, angústia, decepção, medo e ansiedade, só pode olhar para esses sentimentos como se fossem uma anomalia. Ou seja: eles não lhe pertencem, estão onde não deveriam estar, precisam ser combatidos e eliminados. O que sempre pertenceu à condição humana passa a ser uma doença – e como doença deve ser tratado, em geral com medicamentos. Deixamos de interrogar os porquês e passamos a calar algo que, ao ser visto como patologia, deve ser “curado”, porque não faz parte de nós. É um tanto fascinante os caminhos pelos quais a felicidade vai deixando o plano das aspirações abstratas, da letra dos poetas, para ser tratada em consultório médico. E, ainda mais recentemente, como objeto do Direito e da Lei, inclusive com proposta de emenda constitucional.

Quem acompanha esta coluna sabe que a felicidade tem sido um tema assíduo. Acredito que poucos fenômenos são tão reveladores sobre a forma como olhamos para a condição humana em nosso tempo como o “direito à felicidade”. Sem esquecer que este tema está relacionado a outros dois fenômenos atuais: a medicalização da vida e a judicialização dos sentimentos. Ou, dito de outro modo: tratar o que é do humano como patologia e dar aos juízes a arbitragem dos afetos.

É importante – sempre é – ressaltar que obviamente existem doenças mentais e situações nas quais o uso de medicamentos é necessário e benéfico, desde que com acompanhamento rigoroso. O que se questiona aqui são os casos – infelizmente frequentes – de leviandade nos diagnósticos psiquiátricos e o consequente abuso no uso de medicamentos, que tem criado uma multidão de dependentes de drogas legais, cujas consequências só serão conhecidas nas próximas décadas. É íntima a relação deste fenômeno com a crença da felicidade que assinala nosso tempo.

Desta vez, convidei a psicóloga e psicanalista Rita de Cássia de Araújo Almeida para falar sobre um recorte muito significativo: a crescente demanda por felicidade no SUS. No texto de final de ano em seu blog, ela abordava a “ditadura da felicidade” do ponto de vista de sua experiência como trabalhadora da rede pública de saúde mental. Rita, 43 anos, é formada em psicologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com mestrado em educação. Há 10 anos ela atua como psicóloga em CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), serviços estratégicos na área da saúde mental. Atualmente, Rita trabalha no CAPS Leste, de Juiz de Fora, e coordena o CAPS Casa Aberta, no município de Lima Duarte, ambos no interior de Minas Gerais.

Nesta entrevista, ela toca em pontos importantes: o aumento do sofrimento causado pelo imperativo da felicidade; a crescente demanda por um diagnóstico de transtorno mental, com a consequente receita de medicamentos; a transformação de momentos como luto, desilusão amorosa e rebeldia juvenil em doença; a dificuldade cada vez maior de compreender que sentimentos como tristeza, angústia, frustração, ansiedade e medo dizem algo importante sobre a vida, que deve ser escutado e não calado. Assim como a insônia e a falta de apetite nem sempre significam doença, mas um aviso de que é preciso reformular algo no cotidiano.

Nos últimos anos, Rita e seus colegas perceberam que tinham uma nova função ao acolher as pessoas que os procuravam na rede pública: autorizá-las a serem infelizes. Isso deve dizer algo sobre todos nós – e sobre nosso mundo.

Você atua na rede pública de saúde, escutando pessoas que relatam dores psíquicas. Em seu texto de despedida de 2012, no seu blog, você escreveu sobre a “ditadura da felicidade”, apontando a diferença de queixa das pessoas nos serviços de saúde mental nesta última década. Afirmou que hoje o pedido é por “felicidade” – ou, dito de outro modo, teria se tornado impossível para as pessoas sentirem-se “infelizes” ou conviver com alguém “infeliz”. Como é isso?
Rita de Cássia de Araújo Almeida – Atuo na saúde pública, em serviços do tipo CAPS (saúde mental) há 15 anos, sendo 10 deles como psicóloga. E, sim, tenho percebido uma mudança na maneira como as pessoas entendem a felicidade. Num passado não muito distante a felicidade era um bem a ser conquistado, quase uma utopia. Hoje, as pessoas se sentem na obrigação de serem felizes. A psicanálise entende a nossa época como a “era do direito ao gozo”. Ou seja: hoje, todos têm o direito de gozar plenamente, sem restrições. Nesse caso, a felicidade deixou de ser uma contingência, um evento, e passou a ser um direito que supostamente deveria ser garantido. Vivemos sob a ditadura da felicidade, e, por isso, grande parte das pessoas tem dificuldade de passar por momentos de infelicidade, de frustração e de perdas com naturalidade, entendendo isso como parte da existência. 

O que você está dizendo é que o imperativo da felicidade, a obrigação de ser feliz, está provocando sofrimento?
Rita – Percebo que as pessoas, além de sofrer pelo motivo que as levou a procurar ajuda, sofrem ainda mais pela angústia de ter que se livrar daquele sofrimento rapidamente, a qualquer custo. Não compreendem que aquilo que sentem pode ter um significado e um motivo que precisam ser escutados, pela própria pessoa. Também sentem muita necessidade de dar um nome para o que sentem. Querem logo receber um diagnóstico. 
Tenho alguns exemplos que, imagino, não fogem muito à realidade de outros colegas trabalhadores da área. Um deles é quando alguém perde um ente querido e a própria pessoa – ou alguém da família, ou até mesmo outro profissional de saúde – solicita atendimento especializado pelo fato de ele ou ela estar sofrendo ou chorando muito. Enterram o pai num dia e querem estar prontos para ir ao cinema no fim de semana seguinte. Temos também adolescentes encaminhadas à psiquiatria por estarem em conflito com o namorado, assim como crianças indicadas por apresentarem problemas de comportamento e dificuldades de aprendizagem.
Para os que não estão familiarizados com o fluxo de funcionamento da atenção à saúde do SUS, precisamos abrir um parêntese para que entendam o exemplo que vou dar a seguir. O sistema funciona, ou pelo menos deveria funcionar, em rede. A atenção primária – o posto de saúde, unidade de saúde ou estratégia de saúde da família – é a extremidade da rede mais próxima do usuário. Portanto, é a primeira que ele procura quando apresenta qualquer problema. O desafio da atenção primária é não trabalhar em cima das especialidades médicas, mas intervir na pessoa como um todo, tendo como diretriz a promoção e a prevenção da saúde. Entretanto, a atenção primária pode, em casos mais específicos, nos quais a intervenção do chamado especialista seja imprescindível, acionar outros parceiros da rede que possam oferecer suporte. Os CAPS, modalidade de serviço que trabalho, oferecem uma escuta especializada no campo da saúde mental.
Certa vez, recebemos em acolhimento uma mulher, encaminhada por um profissional da atenção primária do nosso território de atuação. Segundo ele, esta mulher apresentava um quadro de insônia e delírio persecutório. Numa escuta mais cuidadosa, soubemos que ela, na verdade, estava insone por medo do marido, que ameaçava jogar água fervente em seu ouvido enquanto ela dormia. Portanto, uma ameaça real – e não um delírio de perseguição. Quando ela me disse que precisava de uma consulta com um psiquiatra para que ele lhe desse um remédio pra dormir, tive de perguntar a ela: “Um remédio? Para quê? Para a senhora acordar com o ouvido queimado?”. Parece óbvio, mas ela não se dava conta de que não dormir, no seu caso, era um sinal de saúde, era uma forma de se proteger (do marido violento) – e não uma doença. Tivemos de autorizá-la a estar com insônia e, obviamente, auxiliá-la a tomar outras providências mais adequadas à situação.

O que essa queixa de “infelicidade” diz da nossa época? O que ela oculta? O que revela?
Rita – Na verdade, o que causa infelicidade às pessoas não mudou muito. Sofremos, em geral, pelo mesmo motivo apontado por Freud há quase 100 anos. Sofremos, na imensa maioria das vezes, do mal-estar resultante das nossas relações com os outros. Entretanto, percebo que mudou muito a forma como as pessoas lidam com esse mal-estar, com sua infelicidade cotidiana. Num passado não muito distante o profissional da saúde mental era, em geral, procurado para ajudar a pessoa a compreender seus mal-estares, decifrá-los. Hoje, um número cada vez mais crescente de pessoas nos procura com um único objetivo: se livrar dos mal-estares. Não querem saber nada sobre seus sofrimentos ou sobre sua infelicidade, não desejam decifrá-los ou interrogá-los. Querem apenas que o sofrimento e a infelicidade silenciem, e ainda demandam de nós uma resposta rápida, eficaz e, especialmente, que não lhe exija muito esforço. Estamos nos tornando uma geração de humanos que temem sua própria humanidade. Vivemos numa sociedade que pretende negar e rejeitar toda espécie de tragicidade que a condição humana carrega consigo. 

O que perdemos quando paramos de nos interrogar sobre nosso mal-estar com o mundo? Ou sobre nossos conflitos, nossas angústias e ansiedades?
Rita – Para a psicanálise, nossos mal-estares são oportunidades que temos para reconduzir e aperfeiçoar nosso processo de subjetivação, de construção de nós mesmos, processo este que nunca cessa. São esses mal-estares que nos fazem repensar nossos valores, objetivos, nosso modo de ser e nossas relações. As lagartas, para se transformarem em borboletas, precisam antes passar pela fase do casulo. Se quisermos aproveitar esta metáfora para entender o processo de subjetivação humano, diríamos que somos capazes de viver esse processo de transformação um sem número de vezes. De lagarta para borboleta, de borboleta para lagarta, e assim sucessivamente. Estas transformações, por sua vez, só acontecem quando questionamos nosso modo de ser e de estar no mundo. Quando paramos de nos interrogar, perdemos a oportunidade de passar por essas transformações, ficando paralisados, fixados em uma só condição: ou lagarta, ou borboleta. E é muito melhor quando podemos aproveitar todas as possibilidades de estar nesse mundo. 

Por que você acredita que paramos de nos interrogar? O que aconteceu? O que mudou?
Rita – A pressa talvez seja o sintoma mais evidente da nossa sociedade atual. Zygmunt Bauman (sociólogo polonês, autor de Modernidade Líquida, O Mal-Estar da Pós-Modernidade e Vida para Consumo, entre outros) descreve muito bem nosso tempo. Ele diz que vivemos sob a pressão de constantes mudanças, o que favorece uma cultura do esquecimento, em vez de uma cultura do aprendizado e da lembrança. 
Como eu disse, as queixas são as mesmas de 10 anos atrás, mas hoje é cada vez mais comum que as pessoas procurem soluções fáceis e rápidas. As pessoas não têm paciência e disposição para passar por tratamentos longos, que exijam esforço e tempo. Outro dia, eu ouvi algo mais ou menos assim, num atendimento: “Olha aqui, minha filha, eu não vim aqui pra ficar de conversinha com você. Eu tenho depressão e preciso de um remédio, porque esse que eu estou tomando não está valendo nada”.

O que você diz para uma pessoa que acabou de perder alguém que amava, mas não quer viver esse luto? Ou acredita que não deveria estar sentindo essa dor, ou até que é injusto sentir essa dor?
Rita – Percebo mais como se as pessoas não se sentissem no direito de sofrer, não se sentissem autorizadas a serem infelizes, sabe? Então, é interessante que muitas vezes tenhamos de intervir de modo a autorizá-las a sofrer. Precisamos dizer a elas: “Olha, você acaba de perder sua mãe, e, se você a amava, é normal que você sofra, que não durma bem, que não queira se alimentar. Estranho seria se você quisesse ir ao cinema logo depois do enterro. Então, vá para casa, chore, sofra, viva seu luto, compartilhe-o com as pessoas que você ama e volte aqui na semana que vem para conversarmos mais”. Alguns voltarão algumas vezes e agradecerão depois por você não ter se aproveitado de sua fragilidade momentânea para rotulá-lo com um diagnóstico psiquiátrico. Alguns não voltarão porque buscarão outras soluções e modos de lidar com a perda. Uma minoria voltará muitas vezes, porque aquela perda foi realmente insuportável e quebrou a pessoa de tal maneira que a ajuda profissional será fundamental para que ela consiga seguir caminhando. E alguns outros não voltarão, porque irão procurar outro profissional que atenda o seu pedido, que lhe dê uma anestesia, uma droga qualquer que faça calar seu mal-estar. É claro que, lamentavelmente, encontrarão quem faça isso. 

O tratamento, no caso, seria “autorizar” a pessoa a ser “infeliz”? Ou a sentir frustração, tristeza, desânimo, ansiedade, saudade, medo etc… ?
Rita – Sim. Para trabalharmos de forma ética, não temos de dizer apenas o que a pessoa quer ouvir, mas, sobretudo, o que ela precisa ouvir. Sendo assim, temos que, muitas vezes, desconstruir sua demanda inicial, autorizando-a a sofrer, a ficar infeliz, a perder o sono e o apetite, quando isso faz parte de um contexto normal de perda, luto, fracasso, desentendimento familiar. Até para que a pessoa possa, a partir daí, fazer perguntas sobre sua vida, suas escolhas, seu modo de ser… No caso daquela mulher que não dormia por causa do marido que a ameaçava, por exemplo, não medicá-la, não acabar com sua insônia, foi fundamental para que ela pudesse questionar seu casamento, a posição dela naquela relação, e possibilitar que ela pudesse fazer novas escolhas e buscar outros caminhos. 

Você poderia dar outros exemplos concretos da experiência no consultório?
Rita – Dias atrás recebemos em acolhimento um homem de meia idade queixando-se de dificuldade para dormir e nervosismo. Ele queria a receita de um remédio que já tinha usado uma vez e que, segundo ele, foi muito bom. Ou seja, ele apresentou uma queixa e, em seguida, a solução, tudo em poucos minutos. Tentando desacelerar sua pressa, como deve ser a nossa conduta nesses casos, tratei de fazer as perguntas que ele mesmo deveria estar se fazendo naquele momento. Como estava a sua vida, a sua relação com o trabalho, com o lazer, com a família, o que o deixava nervoso, o que pensava nas noites insones… Respondendo a estas perguntas, ele confessou que, depois da morte da esposa, há alguns anos, decidiu mergulhar intensivamente no trabalho, “para não pensar”. Ele trabalha no trânsito, um local por si só muito estressante, cerca de 14 horas por dia, incluindo feriados e finais de semana, sem horário certo para comer ou dormir. Não tem lazer, mora sozinho e não conseguiu, desde a morte da esposa, se relacionar afetivamente. No decorrer da nossa conversa, ele conseguiu perceber que, com a vida que estava vivendo, era impossível que não estivesse insone e estressado. No final da consulta, estava decidido a reduzir seu tempo de trabalho, a definir horários regulares para comer e dormir, a voltar a fazer uma atividade física e a programar seu lazer. Pedi que ele nos telefonasse em um mês para dar notícias sobre as mudanças, se elas tinham produzido o efeito esperado. Minha experiência me diz que, neste caso, conseguimos produzir o efeito desejado: auxiliar a pessoa a sair de uma posição de paralisia e impotência diante de seus sintomas. 

Como é o método de trabalho nos CAPS? Há uma preocupação de que as pessoas não sejam medicadas sem necessidade, quando, em muitos casos, como você conta, a demanda é por um diagnóstico de transtorno mental, com a consequente receita de pílulas? Ou, dito de outra forma, como evitar que os CAPS virem fábricas de doentes mentais e dependentes de drogas legais?
Rita – Como eu disse, o sistema público de saúde funciona em rede. Os CAPS compõem o trançado da rede que oferece uma escuta especializada no campo da saúde mental. Sendo assim, apesar de, em alguns casos, recebermos demanda espontânea, o mais comum é recebermos encaminhamentos dos demais parceiros da rede, em especial da atenção primária. Ao chegar ao CAPS, a pessoa passará por um dispositivo chamado “acolhimento”. Este é um dispositivo que deve ser utilizado por todos os CAPS, uma diretriz para o que chamamos de “porta de entrada” do serviço. Regular esta porta de entrada é fundamental para que os CAPS, como você disse, não se transformem em fábricas de doentes mentais. O acolhimento, como o próprio nome diz, é o momento em que a pessoa será acolhida em sua demanda, será escutada com cuidado, sem pressa, em uma ou mais entrevistas, por um ou mais profissionais do serviço, para que se possa construir uma estratégia de intervenção. E a intervenção pode ser, inclusive, desconstruir a demanda inicial pelo diagnóstico e pela medicação, para incluir outras demandas, nas quais a pessoa pode atuar como protagonista de sua própria história – e não como um mero usuário de drogas legais, para usar suas palavras. 

O “direito à felicidade” tem sobrecarregado o sistema público de saúde? Qual é a sua experiência? É a maioria dos casos na área de saúde mental?
Rita – O Ministério da Saúde, através da Coordenação de Saúde Mental, tem passado orientações no sentido de evitar a psiquiatrização e medicalização das situações cotidianas, obviamente por entender que esse tipo de conduta é, na atualidade, uma realidade na saúde pública brasileira. A Linha Guia de Atenção em Saúde Mental de Minas Gerais – uma publicação da Secretaria Estadual de Saúde que define as diretrizes da política de saúde do estado – alerta para o problema do uso inadequado dos chamados benzodiazepínicos, comumente indicados como se fossem uma fórmula mágica para solucionar problemas pessoais e sociofamiliares. Os benzodiazepínicos – classe de medicamentos com propriedades ansiolíticas, hipnóticas, anticonvulsivantes e miorrelaxantes – estão entre os medicamentos mais prescritos no mundo e inúmeras vezes de maneira inadequada. Geralmente, segundo essa Linha Guia, são prescritos quando o médico se sente impotente diante das queixas de seus pacientes. Hoje, o uso abusivo de benzodiazepínicos pela população tornou-se um grave problema de saúde pública. 
No nosso cotidiano de trabalho nos CAPS, especialmente no trabalho em parceria com a atenção primária, onde podemos fazer um diagnóstico do que leva as pessoas a procurarem tratamento em saúde mental, temos percebido um aumento na demanda por psiquiatrização e medicalização dos problemas cotidianos. O bom é que, na saúde pública, temos mais liberdade de desconstruir esse tipo de demanda: com a pessoa que nos procura, com a sua família e até com o colega profissional de saúde.

O “direito à felicidade”, na sua opinião, tem levado então a uma maior medicação das pessoas?
Rita – Sim, sem dúvida. A maioria das pessoas que nos procura quer ser medicada – diagnosticada e medicada. Querem um nome para a sua doença e uma pílula milagrosa que resolva seu mal-estar. E, quando dizemos a elas que o remédio não vai resolver seus conflitos familiares, não vai solucionar seus problemas financeiros, não vai dissolver uma culpa ou uma perda, assustam-se e ficam pensativas. Acho que as pessoas realmente acreditam que há um remédio que solucionará isso para elas. E, na verdade, elas não acreditam nisso por acaso. Elas acreditam porque há um discurso, extremamente forte e presente em nossa sociedade, alimentado principalmente pela indústria farmacêutica, que sustenta a ideia de que é possível encontrar na prateleira da farmácia um remédio para qualquer mal-estar que nos incomode. Este é um excelente exemplo, na saúde, de quando a oferta gera a demanda. Existe demanda por felicidade em pílula porque o multimilionário mercado farmacêutico oferta esse tipo de solução. 
Isso não quer dizer que os medicamentos psiquiátricos nunca devam ser usados, que são um mal em si. A crítica que se faz é à medicação excessiva e sem norteamento ético. O medicamento precisa servir para que a pessoa fale, para que ela compareça – e não para que ela se cale, se transforme numa morta-viva, num zumbi. Às vezes, a doença psíquica chega ao ponto de impedir a pessoa de ir e vir, de se comunicar, paralisando-a completamente, impedindo-a de fazer laços ou apagando a sua subjetividade. Nestes casos, o medicamento pode e deve ser usado, mas somente com o intuito de fazer com que a pessoa se movimente, fale, compareça. Resumindo: no campo da saúde mental sabemos que estamos usando o medicamento de forma correta e ética quando ele está servindo para fazer a pessoa falar – e não para fazê-la calar.

Você acredita que existe diferença na demanda nos serviços de saúde mental da rede pública e na demanda nos consultórios privados, com respeito à felicidade e à forma como as pessoas se relacionam com dores como frustração, angústia, tristeza, medo etc?
Rita – Eu sou uma entusiasta defensora do nosso sistema público de saúde – o SUS. Na minha opinião, deveríamos ir às ruas levantando bandeiras para exigir financiamento adequado e melhores condições para os seus trabalhadores. E, dentre os inúmeros motivos que me fazem defender esta proposta, vou dizer apenas um que considero fundamental. O melhor sistema de saúde privado que poderíamos conceber não é capaz de fazer uma coisa que só o SUS pode fazer: intervir sem estar submetido à lei de mercado ou à lógica do consumo. Não podemos negar que a medicalização dos nossos problemas cotidianos faz muito bem ao desenvolvimento da indústria farmacêutica – e só o SUS é capaz de manter uma distância segura dessa influência. 
Além disso, no SUS, podemos com mais tranquilidade desconstruir a demanda por uma especialidade ou por uma intervenção específica, pelo próprio sistema de rede. Na rede privada ou conveniada, qualquer um de nós pode, a qualquer momento, marcar uma consulta com qualquer especialista, mesmo que não haja nenhuma indicação para tal. Só isso já aumenta muito a probabilidade de uma pessoa ser diagnosticada e medicada sem o cuidado necessário – algumas vezes por uma falta de cuidado ético do profissional, em outras vezes pela própria pressão do usuário em ser atendido no seu pedido. Especialmente porque, no setor privado, o usuário é, na verdade, um cliente. E sabemos que, na sociedade de consumo, o cliente sempre tem razão.

De certo modo, você percebe na sua prática clínica cotidiana que tudo o que é do humano virou patologia. De novo, o que isso revela? E o que isso causa?
Rita - Sim, hoje, tudo o que nos torna humanos é passível de ser diagnosticado e medicado. Acho que isso revela que nós nos tornamos uma sociedade extremante “careta”. Careta no sentido de ser capaz de interpretar todo o tipo de transgressão ou de atitude fora do padrão como um provável transtorno mental a ser diagnosticado e tratado. Ou seja: normatizado. Tenho 43 anos e três filhos, dois deles adolescentes de 17 e 15 anos. Quando eu tinha a idade deles, uma atitude qualquer que eu cometesse, fora das normas e das regras, era tratada como uma transgressão, apenas. E tínhamos certo orgulho da punição que recebíamos, já que ela era como um troféu e também uma espécie de acerto de contas, que nos autorizava a transgredir novamente. Já meus filhos não têm a mesma sorte que eu tive. Precisarão de muito cuidado para escolher seu modo de transgredir, pois, ao invés de ser entendido como um ato de rebeldia ou travessura adolescentes, pode ser interpretado através de um diagnóstico psiquiátrico, condenando-os assim a um tratamento psicológico ou medicamentoso. Acho isso uma grande caretice. 
Vivi recentemente uma situação no mínimo inusitada, que retrata bem o que estou dizendo. Uma mãe nos procurou no CAPS com seu filho adolescente de 15 anos. Demandava uma avaliação psiquiátrica para ele. Nos CAPS em que trabalho, temos como protocolo que o acolhimento seja feito por outro profissional, que não o médico, exatamente para esvaziar essa demanda imediata pelo medicamento. Eu, então, fui fazer o atendimento com mãe e filho. Segundo o relato da mãe na consulta, o rapaz estava repetidamente se envolvendo em atos delinquentes. No último deles foi punido pela Justiça e condenado a uma pena alternativa, pelo fato de ser menor de idade. A mãe queria que descobríssemos qual transtorno mental seu filho tinha. Transtorno este que, supostamente, estaria fazendo com que ele tivesse aquelas atitudes. Em seguida, assisti a um bate-boca inusitado entre mãe e filho. Ela tentando me provar que ele tinha uma doença mental ou que estava sob o efeito de alguma droga, enquanto ele afirmava que seu comportamento nada tinha de patológico, já que ele tinha plena consciência de seus atos, estava no seu juízo perfeito e não cometeu os delitos sob o efeito de drogas. Enquanto a mãe queria que eu rotulasse o filho com algum diagnóstico, o filho tentava dizer a ela que infringiu a lei conscientemente e pretendia pagar pelo seu ato ilícito. Naquele momento, fiquei com muita pena daquela mãe tentando desesperadamente transformar o filho num doente mental, mas, ao mesmo tempo, também fiquei com pena daquele menino que queria apenas ser tratado como um rebelde, um fora da lei – e não como um doente. Vivemos tempos estranhos…

E por que vivemos tempos estranhos?
Rita – O estranhamento é exatamente a sensação que temos quando percebemos uma mudança que ainda não compreendemos totalmente. Acho muito estranho que alguém prefira ter um filho portador de transtorno mental a ter um filho que transgrediu a lei. Acho estranho que todas as nuances do comportamento humano sejam passíveis de serem nomeadas e medicalizadas. Ou seja: passíveis de normatização. 

Como a questão do “direito à felicidade” se manifesta na relação entre pais e filhos? E qual é o papel do consumo nessa relação?
Rita – Você já trouxe alguns textos com esse tema aqui na sua coluna. Hoje, toda criança já nasce gozando do direito pleno e irrestrito à felicidade. E assim sendo, as crianças não precisam mais lutar por ela ou desejá-la. Se a felicidade é um direito, cabe a elas tão somente se queixarem ou cobrarem quando esse direito não está sendo atendido. E os pais têm sido os mais cobrados para fazer valer esse direito. Os filhos dessa geração exigem que seus pais os façam felizes, que não os frustrem e, o que é pior, vemos muitos pais completamente perdidos, acreditando que serão mesmo capazes de ofertar felicidade plena aos filhos, ou que poderão atender ao imperativo de nunca os frustrarem. Por isso os pais de hoje têm tanta dificuldade em dizer “não”. 
Vou dar um exemplo extremo desse medo dos pais. Há cerca de quatro anos, fui procurada por uma mãe em meu consultório particular, que queria atendimento para o filho. Sua queixa era a de que este filho, de 9 anos, voltara a fazer “cocô na calça”. Fiz algumas entrevistas iniciais com a mãe, para avaliar melhor a demanda, antes de pedir que ela trouxesse o menino. A mãe me explicou que o filho sujava a calça com frequência, especialmente em momentos nos quais a família estava fora de casa, em alguma atividade social – um aniversário, um passeio, um jantar. Ela contou que já estavam evitando sair de casa por causa do comportamento do filho. Perguntei, então, se ela já tinha questionado o filho sobre o motivo que o levava àquele comportamento. Essa mãe me respondeu: “Claro que não!”. Confessou-me que ela e o marido jamais falavam do assunto na presença do menino. Segundo ela, para não traumatizá-lo. Explicou que ela e o marido, nesses eventos sociais, ficavam sempre atentos e, diante de qualquer “cheiro estranho”, pegavam o filho e saíam imediatamente do local. Sem falar nada com ele sobre o episódio, levavam o menino para casa, lhe davam banho e trocavam sua roupa. Em seguida, continuavam agindo como se nada tivesse acontecido. Este é um caso extremo, mas vemos muitas outras atitudes, não tão incomuns como esta, sendo repetidas pelos pais de hoje, tudo para poupar o filho de uma possível frustração.
Temos tratado nossos filhos como se fossem peças de louça muito delicadas. Ao condená-los à felicidade ampla, geral e irrestrita, estamos produzindo uma geração de jovens extremamente frágeis e imaturos, que se quebram ao menor arranhão.
Obviamente a sociedade de consumo se aproveita muito disso. Temos filhos querelantes, que sabem como ninguém exigir seu “lugar ao sol”. Ou, adaptando o termo ao discurso capitalista, temos filhos que sabem como ninguém exigir a mercadoria que lhes convêm na prateleira. E temos pais que temem dizer “não”, pois não querem frustrar ou traumatizar seus filhos. Junta-se a isso uma sociedade que mede o grau de felicidade das pessoas pelo tanto de coisas, bens ou serviços que elas são capazes de consumir e chegamos a uma combinação perfeita. Que mais a sociedade de consumo pode querer?

O “direito à felicidade” tem permeado as relações na sociedade brasileira – assim como no Ocidente, em geral. No Brasil, inclusive, tem sido tema tanto do judiciário quanto do legislativo, até com proposta de emenda constitucional. Por mais que as intenções sejam boas e aparentemente são, a felicidade como direito fundamental é no mínimo questionável. Que tipo de consequências da suposta garantia do “direito à felicidade” já testemunhamos e quais ainda podemos esperar?
Rita – Penso que a felicidade deveria ser um tema tratado apenas pelos poetas, músicos, escritores. Trazer o tema da felicidade para o campo da razão, para o campo jurídico ou científico, é um equívoco. A felicidade é um tema subjetivo. Sempre que tentamos circunscrevê-la com algum discurso burocrático, tendemos a formatá-la num padrão ideal, num modelo que sirva para todos. E não existe um ideal de felicidade, cada um de nós irá percebê-la ao seu modo. 
Além das consequências que já citamos aqui, existe uma outra, tão empobrecedora para a nossa subjetividade quanto a medicalização do sofrimento cotidiano, que é a judicialização da vida. O que também já está acontecendo com frequência.
Nossos pais não nos amaram o suficiente? Fim de um relacionamento amoroso? Traição de um amigo? Dificuldades com o chefe? Diante de alguns destes problemas, mesmo os mais corriqueiros, bastará que entremos na Justiça para cobrar uma reparação, nem que seja financeira. Ou seja, quando a felicidade for uma espécie de direito constitucional, poderemos também resolver nossas infelicidades nos tribunais. E assim seremos finalmente considerados incapazes de resolver por nós mesmos nossas frustrações e dificuldades de relacionamento.

O que você entende por felicidade?
Rita – Como disse, prefiro deixar este tema para o campo das artes. Não há como entender a felicidade com a razão, não é possível mensurá-la ou pensá-la como um modelo que valha para todos, todo o tempo. Se estamos numa relação atribulada, felicidade pode ser um momento de solidão. Se estamos solitários, felicidade pode ser receber um telefonema. Guimarães Rosa, na pele de Riobaldo, diria assim: “No sertão, até enterro simples é festa”. 
A sensação de felicidade é uma experiência singular, única para cada pessoa. Acredito que o desafio atual seja pensar um projeto coletivo capaz de trazer esse tema para a pauta, mas não para o campo da lei, da burocracia, da simples garantia de direitos, ou da ciência – mas, quem sabe, para o campo da ética. No campo da ética, as pessoas podem entender que elas também têm o direito de ficarem infelizes, que infelicidade não é doença, mas parte da condição humana – e que, sem ela, perdemos metade da nossa humanidade.

Qual é a importância da infelicidade?
Rita – Acredito que, em tempos de ditadura da felicidade, respeitar e autorizar essa infelicidade nossa de cada dia é uma forma de resistência, uma espécie de libertação.