domingo, 30 de setembro de 2018

Pedir ajuda não é sinônimo de fraqueza

"Pedir ajuda não é sinônimo de fraqueza ou de vulnerabilidade. Na verdade é justamente o contrário: pedir ajuda é um ato de valentia através do qual conhecemos a importância de assumir nossas limitações e de reconhecer o papel que os outros têm em nosso crescimento.

Nesse sentido, podemos afirmar que pedir ajuda é um ato de humildade e de coragem, pois através do pedido de ajuda reconhecemos o valor das outras pessoas e lutamos contra a habitual pressão em relação a ideia de sermos autossuficientes.

Assim, com comentamos em outras ocasiões, o ser humano e seu complexo sistema psicológico foram desenhados para a cooperação e a relação com o seu entorno em favor do desenvolvimento coletivo.

A confiança, um elemento fundamental
Quando pedimos ajuda também estamos dando um voto de confiança aos outros, pois mostramos uma parte importante do nosso ser para que “outra pessoa cuide dela”. Com esse simples ato, fortalecemos nossos vínculos. Somos honestos e consideramos aqueles que nos cercam quando acreditamos que podem fazer algo por nós.

Tendemos a pensar no pedido de ajuda como uma faca de dois gumes que permitirá que outras pessoas se aproveitem de nós, ou que irá ferir nossa independência, ameaçando gravemente nossa capacidade de fazer as coisas por nós mesmos.

Não nos faltam motivos, mas a verdade é que não podemos viver desconfiados de que uma bigorna vai cair na nossa cabeça enquanto caminhamos pela rua. Com isso queremos transmitir a ideia de que as barreiras que impomos a nós mesmos são úteis quando a situação requer uma defesa, não depois.

Pedir ajuda também é uma boa forma de começar uma relação com alguém, além de ser uma habilidade social básica indispensável para o nosso bem-estar. Desse modo, assim como gostamos de ajudar, os outros também se sentem bem em agir dessa maneira.

Por isso, deixe para trás essa necessidade de orgulho e de se sentir infalível, assim como os cuidados excessivos em compartilhar o que acontece em nosso interior. Por outro lado, a vergonha também não faz sentido em certos momentos.

O medo do negativo é um dos fatores mais transcendentais, pois a possibilidade de sermos julgados e de que os outros vejam em nós alguma suspeita de “fraqueza” que nos torna vulneráveis nos causa pavor. Por isso, para pedir ajuda a alguém são necessárias a confiança e a sensação de conforto diante dos outros. Se não trabalhamos nesses dois pilares, os intercâmbios não fluirão como deve ser.

Por todas estas razões, não vale a pena perder a oportunidade de experimentar a bondade dos outros e de melhorar nossa visão do mundo. Quando pedimos ajuda todos saem ganhando, pois pedir é tão enriquecedor quanto dar. Ajudar é maravilhoso, mas deixar que nos ajudem não é nada mal. Vale a pena tentar".

- A mente é maravilhosa



domingo, 23 de setembro de 2018

Livro: Sobre Viver ______________________________________ Cleisla Garcia

Sobre Viver - Como Jovens e Adolescentes Podem Sair do Caminho do Suicídio e Reencontrar a Vontade de Viver

Sinopse: Quando foi escalada para participar da série de reportagens "Suicídio - Alerta aos jovens", da Record TV, a jornalista Cleisla Garcia não podia imaginar os relatos que ouviria ou os dados aos quais teria acesso. A cada entrevista sobre o tema, uma nova porta se abria e revelava não apenas estatísticas assustadoras - como o aumento de mais de 12% no número de suicídios entre jovens brasileiros em pouco mais de uma década e o crescimento de casos em várias regiões do mundo -, mas também o que é possível fazer para ajudar quem está pensando em tirar a própria vida.
O que leva pessoas aparentemente saudáveis e felizes a cometer suicídio? Quais sinais quem está pensando em se matar emite antes de, de fato, tentar? Como agiam os curadores do jogo Baleia Azul, que recrutavam jovens para seus desafios mortais? Filmes e séries, como 13 reasons why, podem mesmo levar pessoas a cometer suicídio ou, na verdade, servem de alerta para pais e familiares?Em Sobre viver, Cleisla aprofunda sua pesquisa e vai muito além do que foi revelado na TV.
Aqui, ela traz respostas para essas e outras perguntas por meio de relatos de jovens que tentaram tirar a própria vida, familiares que buscam se reerguer após a perda trágica de um ente querido, médicos, psicólogos e voluntários que lutam pela prevenção ao suicídio - causa de morte que já ultrapassa o número de homicídios e mortes em conflitos armados no mundo.Preocupada em seguir as cartilhas da Associação Brasileira de Psiquiatria, do Conselho Federal de Medicina e do Centro de Valorização da Vida (CVV) sobre como divulgar casos de suicídio sem incentiválos, Cleisla nos oferece um relato delicado e transformador sobre como lidar com um assunto que está, infelizmente, cada vez mais presente na nossa vida.

A jornalista Cleisla Garcia, da Record TV, foi escalada para fazer uma série de reportagens quando a "Baleia Azul" e a série "13 Reasons Why" tornaram-se os temas mais comentados em nossa sociedade.

Ao longo do percurso, entrevistou sobreviventes e profissionais da área, como Neury Botega, Alexandrina Meleiros e Robert Paris (do CVV) e tentou compreender o sofrimento emocional por trás da automutilação e do comportamento suicida.

"Para ouvir de coração, sem julgamentos e entender a dor do outro, além de ter vontade, é preciso encarar de frente e curar as próprias dores" (Robert Paris, p. 18).

"Cada um de nós é o resultado de uma combinação singular de biologia e biografia. [...] Procure se concentrar nas coisas boas que já conseguiu fazer e viver. É preciso ter planos, mas não deixe de viver cada dia [...] Problemas e crises, afinal, sempre existirão, basta estar vivo! Procure dentro. A felicidade mora dentro.
[...] ter amigos e ser um bom amigo é uma conquista! É algo que precisa ser cultivado em nossa vida. A felicidade se fortalece na interação com o outro" (Neury Botega, p. 226-227).

A história de Cleisla, no final do livro, também impacta e emociona, ao falar de outras marcas que influenciam percursos.

"Ser um parafuso sabedor da sua função ajuda você a ajustar a máquina da própria existência, romper os lacres, conspirar de forma coletiva para um universo cheio de humanidade, e não só de humanos, curar as próprias feridas" (p. 247).

Recomendo a leitura!


domingo, 16 de setembro de 2018

O suicídio infanto-juvenil na literatura como recurso terapêutico


Imagem do poster que apresentei no II Congresso Brasileiro de Prevenção e Posvenção de Suicídio da ABEPS.

Minha paixão por livros também trouxe outra forma de ter acesso às mais diferentes experiências. Como todo ser humano que se emociona diante de uma música, um filme ou um livro, acredito que a arte nos faz entrar em contato com algo que tem uma dimensão humana coletiva. Inicialmente encontrada nos mitos, a riqueza das histórias são formas de conexão com complexidades humanas. 

Como elemento da terapia popular, as histórias tratavam de conflitos interiores muito antes de a psicoterapia tornar-se uma disciplina científica. [...] Provavelmente o mais conhecido desses exemplos é a coleção de histórias As mil e uma noites, cuja história básica descreve como os contos foram usados para ajudar na cura de um governante que sofria de doença mental. A história pode ser considerada de dois ângulos: primeiro, há o bem-sucedido tratamento da enfermidade do Sultão pela esperta Sherazade; segundo, as histórias são tratamentos dados aos leitores e ouvintes,  que absorvem o conteúdo das histórias, tiram lições delas e incorporam-nas a seus pensamentos (PESESCHKIAN, 2012, p. 28).  

A ligação entre Psicologia e Literatura sempre esteve presente. A Psicologia surge de uma ramificação da Filosofia, na qual as questões existenciais e suas diferentes formas de compreensão sempre foram diversas. 

Este é um trabalho que pretendo aprofundar.

PESESCHKIAN, Nossrat. O mercador e o papagaio: histórias orientais como ferramentas na psicoterapia. Trad. Luis Henrique Beust e Robert Walker. Campinas, SP: Papirus, 1992.

domingo, 9 de setembro de 2018

Vídeo: A incrível história de Kevin Hines


Na véspera do Dia Internacional de Prevenção do Suicídio, compartilho com vocês a história incrível de Kevin Hines, que também faz parte, em outro momento, do documentário "A Ponte", disponível no Youtube, no link https://www.youtube.com/watch?v=RQgcXTUvJJQ.

domingo, 2 de setembro de 2018

Suicídios: o que ainda precisa ser dito _____________Maria Júlia Kovács

Suicídio é tema tabu, mesmo sendo um evento presente na história da humanidade desde a Antiguidade. O ato suicida pode ser visto como liberdade, domínio, autonomia e controle. Mas ainda é frequentemente julgado e condenado, visto como fraqueza ou covardia.

Toda e qualquer resposta simplista sobre suicídios tem grande possibilidade de erro. Nos últimos anos, observamos mudança na mentalidade de que o suicídio precisa ser ocultado. Não falar sobre suicídio não diminuiu seus índices, pelo contrário, eles têm aumentado. A perspectiva atual é falar sobre o tema, trazendo números e porcentagens, quais são as pessoas em risco, diferenças de gênero e, no extremo, chega-se a falar do número de tentativas de suicídio em minutos, dias, meses ou anos.

Os dados epidemiológicos servem como alerta e fomentam programas de intervenção. Os índices de suicídio nos convocam a prestar atenção nas pessoas ao nosso redor. Junto com programas de prevenção temos que desenvolver, em nosso meio, também programas de posvenção (termo ainda pouco conhecido no Brasil), que têm como objetivo principal cuidar do sofrimento de pessoas com ideação e tentativa de suicídio e familiares enlutados, oferecendo acolhimento e psicoterapia.

Levando-se em conta o que foi apresentado acima, vamos trazer outras questões para reflexão, agora considerando as pessoas já atingidas pelo fenômeno do suicídio, por ideação ou atos suicidas e pelos familiares que perderam pessoas queridas por esse evento. Essas pessoas necessitam de escuta, apoio, acolhimento e cuidados a longo prazo, não querem saber de números, estatísticas ou porcentagens. Precisam falar de seu sofrimento existencial.

Toda e qualquer resposta simplista sobre suicídios tem grande possibilidade de erro. Nos últimos anos, observamos mudança na mentalidade de que o suicídio precisa ser ocultado. Não falar sobre suicídio não diminuiu seus índices, pelo contrário, eles têm aumentado.

Estatísticas apontam tendências, dados epidemiológicos, estatísticas, fundamentando programas de saúde mental. Pessoas afetadas pelo suicídio precisam de particularização, singularidade, respeito pela sua história que tem um início e que ainda não foi finalizada. Pessoas com ideação, tentativa de suicídio e familiares enlutados demandam atendimento de qualidade com profissionais capacitados, psicólogos, psiquiatras, psicoterapeutas, que possam acolher o sofrimento humano, cujo objetivo principal não deve ser evitar o suicídio a todo custo. Exemplificando, a atenção só voltada para impedir o suicídio pode restringir o sujeito, restringindo sua autonomia e liberdade.

Em casos extremos, pessoas podem ser amarradas no leito para que não realizem qualquer ação que possa colocar sua vida em risco. Essas ações podem resultar na diminuição do número de suicídios, mas o que podemos falar sobre a dor, falta de opção ou sofrimento dessa pessoa? Como profissionais de saúde mental nunca incentivaremos o suicídio, mas será que o impedir a todo custo não aumenta o sofrimento e a dor?

Temos poucas opções de cuidados contínuos em hospitais, Centros de Atenção Psicossocial e nas Unidades Básicas de Saúde. Entre as ONGS, cabe destacar o Centro de Valorização da Vida, que realiza de maneira exemplar o trabalho de atendimento em crise e o acolhimento. É fundamental que o “Setembro Amarelo”, além de programas de prevenção proponham também a contratação e capacitação de profissionais especializados para atender em continuidade pessoas em sofrimento existencial, que buscam a morte para aplacar a profunda dor psíquica que estão vivendo. Alertamos que o atendimento psicoterápico e psiquiátrico deve ser realizado por profissionais competentes e especializados e não por estagiários ou voluntários.

É preciso diferenciar acolhimento em crise realizado pelo Centro de Valorização da Vida, que é muito importante, por ser, em muitos casos, o primeiro passo para o atendimento de pessoas com ideação ou tentativa de suicídio de um atendimento especializado como, por exemplo, o atendimento psicoterápico e medicamentoso. Em muitos casos é necessário o atendimento psicológico e psiquiátrico especializado para lidar com a difícil tarefa de compreender emoções intensas, a ambivalência entre o desejo de viver e morrer, ampliar a visão estreita que considera a morte como única solução para o sofrimento. Sentir-se aceito, compreendido e não julgado, ter o sofrimento respeitado podem ser caminhos importantes para pessoas encontrarem sentido para continuar vivendo.

Temos poucas opções de cuidados contínuos em hospitais, Centros de Atenção Psicossocial e nas Unidades Básicas de Saúde. Entre as ONGS, cabe destacar o Centro de Valorização da Vida, que realiza de maneira exemplar o trabalho de atendimento em crise e o acolhimento.

Gostaria de tecer reflexões sobre os familiares enlutados pelo suicídio de uma pessoa próxima. No “Setembro Amarelo”, a ênfase recai sobre números, prevenção de suicídios e os sinais de alerta que precisam ser observados, podendo aumentar o sofrimento de um familiar que com todo empenho não conseguiu evitar o suicídio. As cartilhas apontam que sinais devem ser observados, acirrando a culpa daqueles que sentem que foram descuidados, por não percebê-los a tempo. É preciso enfatizar que os sinais tão claros nas cartilhas, não são tão claros na realidade. Esses familiares sofrem muito no Setembro Amarelo porque a ênfase recai principalmente sobre a prevenção e não sobre o cuidado ao sofrimento, que estão vivendo. É evidente que os programas de prevenção devem continuar, mas é fundamental agregar nas campanhas a prevenção do sofrimento daqueles atingidos pelo suicídio, em políticas de posvenção. Devemos desenvolver campanhas de cuidados também, e ajudar no difícil processo de luto de quem perdeu pessoas pelo suicídio, que são vistos, em alguns casos, como aqueles que provocaram o suicídio.

Ao final desse texto, chamamos atenção para os cuidados oferecidos nos pronto-atendimentos e enfermarias de hospitais para pessoas que tentaram pôr fim à vida. Eles são tratados de forma pouco atenciosa, descuidada ou até com violência, porque alguns profissionais sentem seu trabalho desvalorizado porque foram formados para salvar vidas. Além de serem tratados dessa forma, pessoas que tentaram suicídio só recebem cuidados clínicos, recebendo alta, sem preocupação com seu sofrimento psíquico e dor emocional. Essa abordagem incompleta e violenta pode, ao contrário de cuidar, estimular pessoas desesperadas a tentar suicídio de formas ainda mais letais. Além da prevenção do suicídio, precisamos também falar daqueles que buscam consumar o ato suicida, de forma impulsiva ou planejada e que não morreram: e dos familiares que os acompanham, também desesperados, sem saber o que fazer. Observamos poucas referências sobre a questão dos cuidados nos documentos da Organização Mundial da Saúde (OMS), nas políticas públicas do Ministério da Saúde e nas cartilhas apresentadas. Esperamos um Setembro Amarelo que também enfoque os cuidados a pessoas em situação de sofrimento e dor.