Seja bem-vindo!

Este blog é um dos produtos da pesquisa de Mestrado "Cuidado, frágil: aproximações e distanciamentos de trabalhadores de um CAPS na atenção ao suicídio" e inclui sugestões de leitura, frases que me marcaram e vídeos que podem ser utilizados por pessoas ou grupos como disparadores para discussão e reflexão da questão do suicídio – seja na prevenção ou na compreensão dos fatores que podem estar por trás deste fenômeno - buscando compreender o sofrimento que está por trás deste acontecimento.

domingo, 10 de dezembro de 2017


    O documentário "Jornada de família: a cura e a esperança após o suicídio", material realizado pela AFSP (Fundação Americana de Prevenção do Suicídio), do qual o Instituto Vita Alere é associado, pelo Dia Internacional dos Sobreviventes.
    O vídeo traz depoimentos e histórias emocionantes e reais de pessoas que perderam seus entes queridos por suicídio e como tem sido sua jornada desde então.
    Obs: Para legendas em português, clique na CC.




domingo, 3 de dezembro de 2017

Livro: Depois do suicídio ______________________ Sheila Clark



Entre os poucos livros voltados especificamente para os enlutados por suicídio, "Depois do suicídio: apoio às pessoas em luto" traz informações e sugestões com muita delicadeza.

Na apresentação, a autora já traz sua proposta:

"Alguém que você amava e por quem se preocupava tirou a própria vida. Talvez você tenha ficado arrasado. Pode ter se sentido chocado, horrorizado. Por que essa pessoa fez isso? Poderia ter feito algo para impedi-la?
Essas e inúmeras outras emoções podem sufocá-lo, fazendo-o sentir-se ferido, indefeso e confuso. Haverá momentos em que você chegará a questionar sua própria sanidade e se perguntará se você ou sua família são as únicas pessoas no mundo a sentir esse trauma. Esses pensamentos são muito normais.
Você não está sozinho. Antes de você, muita gente enfrentou a mesma crise e sobreviveu. Este livro é a compilação  dessas experiências.
A morte pelo suicídio pode afetar profundamente a família e amigos mais chegados, mas não apenas esses. Ela também causa dor a conhecidos e a parentes mais distantes, como avós, primos, amigos, professores, colegas de trabalho e terapeutas.
Este livro foi escrito como resposta a muitos pedidos de ajuda feitos por pessoas que passaram pelo luto causado pelo suicídio. Ele tem a intenção de lhe dar alguma compreensão sobre a dor que você está sentindo, e de ajudá-lo a viver novamente de forma plena. Ele também pode ajudar as pessoas que o cercam a compreender suas necessidades" (p. 23).


A parte final, com autorização para fotocópia, traz dicas importantes sobre como ajudar os sobreviventes:


Ajudando o enlutado


O que ajuda

Reservar um tempo de sua vida e escutar atentamente.

Deixar claro que a situação pela qual estão passando é normal.

Estimular a manifestação dos sentimentos à maneira de cada um.

Aceitar seu comportamento – choro, grito, silêncio, riso.

Mostrar simpatia – é a base de um relacionamento.

Procurar entender e aceitar essa pessoa.  Cada pessoa é diferente de outra.

Permitir expressões como raiva, culpa. Reflita sobre o sentido de suas palavras. Deixar claro que você compreende o que estão dizendo.

Mostrar que o luto dura algum tempo para passar.

Manter contato pessoal ou por telefone. As visitas não precisam ser longas.

Abraçar quando julgar apropriado.

Falar da pessoa que morreu.

Incluir as crianças no luto familiar.


O que não ajuda

Evitar falar sobre a perda.

Inibir a pessoa oferecendo conselhos.

Dar sermões ou argumentação.

Esperar ou julgar como deveria ter sido.

Usar clichês.

Realizar falsos consolos.

Dizer ‘sei como você se sente’.

Tentar fazer tudo no lugar da pessoa.

Tornar a perda algo trivial.

Comparar com outras perdas.

Descrever a teoria do luto.

Tirar o foco daquilo que estão dizendo.

Interpretar.

Incluir seus sentimentos na situação atual.

Deixar de lado a pessoa, se o fardo se tornar muito pesado.

Dar detalhes de seu luto.


Ofereça:

Um bom ouvido;

Tempo para escutar;

Um abraço carinhoso.

Mantenha contato. (CLARK, 2007, p. 134-135).


CLARK, Sheila. Depois do suicídio: apoio às pessoas em luto. São Paulo: Gaia, 2007.




domingo, 26 de novembro de 2017

Perder um filho é sempre uma experiência difícil. Mas quando se trata de um suicídio, o luto pode ser ainda mais complexo, pelas perguntas que ficarão sem respostas e pela diversidade de sentimentos que aparecem. Neste processo, os sobreviventes buscam diferentes formas de seguir em frente. 

O casal Terezinha e Joseval resolveu criar uma página para compartilhar sua experiência com outras pessoas e também como forma de homenagear sua filha, Marina.

"Em seu perfil no WhatsApp ela havia escrito a frase em Catalão “Si us plau, no m’oblidis” = “por favor, não me esqueça”. Frase que levamos meses após sua partida, para descobrir o seu significado e logo depois resolvemos fazer este blog para falar como é viver depois que se perde alguém que se ama por suicídio, contar nossas experiências e descobertas".

Terezinha escreveu no texto "O luto do sobrevivente":

 
"O Luto é uma fase de mudanças e adaptações, é um período muito difícil para qualquer pessoa que perde alguém que ama, e o luto por suicídio é um luto ainda mais  complicado, pois além de sofrer com a perda do ente querido, ainda sofremos pela forma que se deu, ficamos em choque  e assimilar tudo é bem difícil. E ainda fica aquela dúvida se houve ou não culpa, se realmente fizemos tudo que estava ao nosso alcance e o motivo de uma atitude tão radical.
É um  misto de sentimentos e eu pensei que ficaria louca, e pior é um  luto solitário. Sentia o desconforto das pessoas quando falava no assunto, então veio o isolamento, as pessoas passaram a se afastar, eu precisava falar e por vezes não tinha ninguém para me ouvir.
Passei a pesquisar na internet sobre o assunto e descobri os grupos de apoio ao enlutado por suicídio e na primeira reunião, quase 1 mês depois da morte da minha filha, aprendi o que é a Posvenção e  que somos chamados de sobreviventes, que   cada luto é único e deve ser vivenciado,   que não é possível dimensionar a dor do outro, que realmente para algumas pessoas  falar é necessário, que nós sobreviventes somos estigmatizados de uma forma muito cruel, que alguns sentem vergonha, medo, desamparo e que o luto por suicídio é mais longo que os demais.
Descobri que todos os sentimentos que me afligiam são comuns nos casos de enlutados por suicídio, que o afastamento das pessoas também é normal, já que ninguém sabe lidar com a questão, que a maioria das pessoas incluindo profissionais da área da saúde  não sabem muita coisa a respeito dos suicídios.
Me senti acolhida e a  empatia dos demais sobreviventes enlutados e dos facilitadores me fez sentir um alívio que até então não havia tido desde a partida da Marina, não me senti julgada pois a maioria ali está na mesma condição.
Infelizmente, são poucos os grupos de apoio específicos  e pouco é falado sobre o luto de quem fica, assim como é pouco divulgado sobre o suicídio de uma forma esclarecedora sem sensacionalismo. Por ser tabu  o sofrimento de quem perde alguém querido por suicídio só aumenta com esse silêncio, incluindo o do próprio sobrevivente enlutado que por vezes nem sabe que não está só".

Com textos delicados, informações sobre grupos de apoio, vídeos e outros materiais, a página vale a visita.




domingo, 19 de novembro de 2017

Suicídio e manejo psioterapêutico em situações de crise: uma abordagem gestáltica


 Autoras:
Karina O. Fukumitsu e Karen Scavacini

RESUMO

O suicídio é um gesto de comunicação e, ao mesmo tempo, de falta de comunicação, de recusa e de surpresa. O artigo tem como objetivo apresentar relações entre o suicídio e a Gestalt-terapia, bem como a compreensão dos mecanismos neuróticos e do manejo e das intervenções em situações de conflito e crise experienciados pela pessoa que percebe, no suicídio, uma alternativa para eliminar seu desespero e sofrimento. Além disso, pretende-se incentivar a discussão do tema e suas repercussões nas lides acadêmicas, principalmente nos cursos que lidam com o humano, pois se trata dos aspectos relacionados à vida, e o profissional, ao deparar com o desespero existencial do cliente, pode perceber sua falta de instrumentalização para manejar situações de crise. O conflito, segundo o aporte gestáltico, é configurado como um distúrbio do campo e significa a possibilidade de crescimento, uma vez que oferece ao indivíduo o confronto com novas figuras.


Palavras-chave: Suicídio; Intervenção na Crise; Prevenção do suicídio; Gestalt-terapia.

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672013000200007



domingo, 12 de novembro de 2017

Fique!

Quando me sentei no confortável sofá de padrões azuis no consultório de minha terapeuta, aninhada no meio das almofadas suaves de pelúcia brancas, girava meu suporte de rabo de cavalo ao redor do meu pulso repetidamente, quando ela me perguntou:
"Para onde você se transportou agora?"
“Lugar algum. Eu simplesmente me distraí." Respondi, enquanto olhava para o sol, cujos raios dançavam pelo peitoril da janela.
Mas isso estava longe de ser verdade. Eu estava pensando sobre a vida e a morte, o significado da minha existência, meu nível de desesperança e como eu queria muito acabar com a dor e, finalmente, acabar de vez com a minha vida.
Eu tenho pensado muito nisso ultimamente. Então, hoje, quando minha terapeuta me deu a tarefa de escrever cartas para mim; cartas que eu possa ler durante os períodos difíceis ou sem esperança, pensei: que melhor carta para escrever do que um lembrete para ficar por aqui.
Aqui está - minha carta de lembrete para me manter viva e ficar por aqui:
“Para mim, quando eu precisar lembrar.
Eu sei que as coisas não têm sido fáceis ultimamente e a dor que geralmente sinto é demais para suportar. A morte parece ser uma opção muito mais aceitável do que esperar que as coisas melhorem ou se tornem mais fáceis. Você vive dizendo a si mesma que está cansada, que é uma doente crônica, uma fracassada e que não tem solução - mensagens que você realmente acredita definirem o núcleo do seu ser. Você realmente não consegue enxergar além da escuridão que circunda o seu dia a dia. A luz cobiçada no final do túnel? Não é mais do que uma miragem fugidia que você sempre está perseguindo sem nunca conseguir alcançar.
Você está cansada de lutar em uma batalha implacável com doenças mentais. Qualquer pessoa entenderia porque você está exausta. Faz sentido - assim como querer por um fim definitivo à dor também faz sentido. A depressão tem uma maneira de encolher seu mundo para uma única sala solitária. Ela faz o mundo se resumir aos pensamentos negativos, aos sentimentos desesperadores e ao desejo de morte que dominam dentro das quatro paredes do seu quarto, te impossibilitando de sair da cama.
O que você não percebe é que existe um mundo além dessas cortinas densas de pensamentos, sentimentos e desejos obsessivos e escuros. Um mundão lá fora grande e brilhante e que está à espera de ser descoberto. Embora pareça aterrorizante nesse momento pensar em abraçar o ruído, o caos e a luz - eu prometo que nem sempre se sentirá tão esmagada. Você só tem que segurar a onda e ficar o tempo suficiente para ver isso por si mesma as coisas na tua vida se transformando. Por isso:
Fique!
Fique quando sentir vontade de entrar no quarto. Fique quando tudo em você estiver gritando por alívio. Fique o suficiente para ver as faíscas inflamarem-se em chamas e a esperança arder em você mais uma vez. Fique mais um dia. Fique para ver uma outra pessoa sorrir. Talvez um dia seja você quem vai sorrir também. Fique para assistir a outro pôr-do-sol e respire fundo enquanto contempla os tons de algodão doce que cobrem a vastidão do céu. Fique por algum tempo, até ter a chance de ouvir sua voz falar mais alto. Você ainda tem muito a dizer e a fazer e pode ser uma força poderosa se você se permitir ficar. Fique para que possa experimentar mais uma xícara de café. Pelo menos saberá que alguma coisa te provoca sensações gostosas. Fique para que possa fazer mais uma viagem e tirar fotos que ficarão guardadas para sempre na forma de memórias. Fique mesmo sabendo que vai chorar mais uma vez. Lembre-se de que você é humana, e ser humano é uma coisa bagunçada e dolorosa, mas também, ocasionalmente, linda. Fique para que você possa segurar a mão de alguém. Fique para ver as mudanças acontecendo ao seu redor. Fique para sentir seu coração ficar pleno e você se sentir cheia de viva, mesmo tendo certeza de que esses sentimentos não durarão. Fique para ter essas experiências. Peço-lhe que fique, por favor. O mundo precisa, sim, de você, mesmo que não acredite no momento. Você é digna e amada e merece ocupar o seu espaço na vida.
Então, fique um pouco mais nesse mundo.
Conquiste o seu espaço.
Faça ouvirem sua voz.
Experimente a vida em toda sua bagunçada beleza.
Deixe sua marca neste mundo. Só ficando por aqui é que você pode causar um impacto nas outras pessoas, e não importa quão pequeno você possa sentir que esse impacto possa ser.
Você ficará bem. Acredite. Talvez não hoje ou mesmo amanhã, mas se você optar por ficar então será a primeira a testemunhar a incrível força, poder e bravura que você possui. Você, minha querida, é corajosa.
Fique.
Te vejo amanhã.”
Morrer, partir! Muitas vezes sentimos ser essa a escolha mais acertada. Pensamos que essa decisão significaria alívio e um final para uma história de vida que, quem sofre, nunca quis ter. É vital, especialmente quando os pensamentos depressivos se tornam agressivamente dominantes, que os lembretes permaneçam: para me lembrar de porque eu preciso ficar. Não importa o quão ridículo ou bobo possam parecer para alguém de fora. Os meus motivos para ficar podem parecer diferentes dos seus, e está tudo bem. Crie seus próprios motivos, mantenha-os próximos e acesse-os quando estiver equivocadamente acreditando que deixar esse mundo é mais atraente do que ficar. Como minha terapeuta me disse uma vez: "O mundo levaria um grande golpe se você não estivesse aqui, porque você é inerentemente digna de viver." O mundo precisa de nós, mesmo que ainda não possamos acreditar. Fique um pouco mais.
Siga sua jornada, aqui.


domingo, 5 de novembro de 2017

Em 2001, alarmada com os altos índices de suicídio entre seus profissionais, a Polícia Militar de São Paulo lançou uma campanha na TV que tinha como objetivo emocionar os PMs. A ideia era tentar fazê-los desistir de cogitar a possibilidade de dar cabo da própria vida. A garota-propaganda escolhida foi Bruna Marquezine, então uma criancinha bochechuda de 5 anos.

https://www.youtube.com/watch?v=G8TcP7PeLkU

domingo, 29 de outubro de 2017



"Em linhas gerais, diante de um sujeito que se decide pela morte, o que pode um psicólogo? Primeiramente, acolher a dor, o sofrimento, a queixa do paciente, por meio de uma escuta atenta e interessada, sem julgamentos ou expectativas.  Para  enfrentar  os  desafios  na  clínica  com  esses  pacientes,  é  preciso  ter  ânimo.   

Â-N-I-M-O  é  uma  sigla  que  traz  em  si  as  letras  que  direcionam  nosso  trabalho: 

(A)  de  atenção:  porque  é  fundamental  estar  atento  ao percurso desse sujeito, tanto na vida quanto no tratamento. Por exemplo, se  ele  falta  à  sessão,  devemos  contatá-lo  para  saber  o  motivo  de  sua  falta,  remarcar a sessão; quando algo importante em sua vida está por acontecer ou diante de uma decisão importante que tenha de tomar, telefonamos para saber os desdobramentos. O psicólogo deve estar atento, ser ativo, atuante.

(N)  de  neutralidade:  diante  do  que  se  escuta,  e  isto  quer  dizer  ouvi-lo  sem  críticas ou julgamentos, não significa passividade.

(I) de interesse: que é uma das principais características do nosso trabalho. Estar interessado no que o paciente tem a dizer, na sua singularidade, na sua história. [...] É simples: quando atendemos um paciente um paciente, principalmente se ele está deprimido, escutá-lo com interesse faz a diferença. E, por fim, precisamos ter

(MO) de motivação, aquela dose de entusiasmo necessária para sustentar o trabalho com essa clínica. Uma clínica em que precisamos ser pacientes para suportar sem pressa ou expectativas, o tempo do paciente. [...]

Outro desafio é o despreparo emocional tanto da família quanto da equipe, responsável por permitir interpretações simplistas do fenômeno e por provocar  reações  de  indignação,  de  punição,  ou  mesmo  de  compaixão  quanto  ao  paciente. Então, se havia proposto o ânimo para enfrentar os desafios com o paciente, com a equipe e a família proponho PIC, (P) de parceria, (I) de informação e (C) de coragem. Portanto, ÂNIMO e PIC são ingredientes que não podem faltar no trabalho conjunto para fazer  frente, desafiar, prevenir o suicídio”.

- Soraya Carvalho Rigo em “Suicídio e os desafios para a Psicologia” (CFP, 2013, p. 40-41)



domingo, 22 de outubro de 2017

Dossiê sobre suicídio: Comunica que muda

Os números são angustiantes. De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), 32 pessoas se suicidam por dia no Brasil, ou uma a cada 45 minutos, o que faz do país o oitavo com mais suicídios do planeta. Mas o problema é bem maior, por conta do silêncio da sociedade em torno do tema. Se em alguns dos países com maior incidência de suicídio a taxa está estável, no Brasil ela tem crescido.
Esta foi uma das razões que fez a nova/sb, por meio do Comunica Que Muda (CQM), ir a fundo no assunto a partir do que se fala nas redes sociais que resultou no nosso novo dossiê. Foram capturadas 1.230.197 menções sobre suicídio entre os meses de abril e maio de 2017 nas principais redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter e YouTube). Durante o período, os destaques foram os expressivos números de comentários sobre o crime virtual da Baleia Azul e a série 13 Reasons Why (Netflix), o que fez o tema alcançar seu ápice de buscas no Google dos últimos cinco anos.

– No Brasil, os idosos apresentam as maiores taxas, com oito suicídios para cada 100 mil habitantes, segundo dados do Mapa da Violência. A causa mais comum, com aproximadamente 70% dos suicídios nessa fase, é a depressão, muitas vezes não diagnosticada ou tratada inadequadamente. Psicoses e abuso de drogas, principalmente o álcool, também estão entre os motivos mais frequentes.
“Entretanto, é entre os jovens que as taxas apresentaram o maior crescimento, de 2002 a 2012, o que preocupa bastante. Ninguém é culpado por um suicídio. Ele não é previsível, mas pode ser prevenido. O suicídio tem sido tabu por um longo tempo e as taxas continuam crescendo. Não falar não está ajudando. Não tratar um problema não faz com que ele desapareça. Ao contrário, apenas permite que cresça no escuro. Por isso, precisamos derrubar esse tabu. Esta inclusive é a orientação dos especialistas e da própria Organização Mundial de Saúde (OMS)”, destaca Bia Pereira, da nova/sb.

Outros dados – Segundo o Mapa da Violência, entre 2002 e 2012, o total de suicídios passou de 7.726 para 10.321, um aumento de 33,6%, o triplo da taxa de crescimento da população, que ficou em 11,1%. São 5,3 casos para cada 100 mil habitantes. O índice fica acima do de outras formas de mortes violentas no mesmo período, como homicídios (2,1%) e acidentes de trânsito (24,5%).




Link para baixar o Dossiê: 

http://dossie.comunicaquemuda.com.br/suicidio/

domingo, 15 de outubro de 2017

Caminhos da Reportagem: "Precisamos falar sobre isso"


Reportagem da TV BRASIL 

 Um tema delicado e necessário nesta edição: o suicídio. Preconceito, tabu, medo do chamado efeito “contágio”, transtorno mental. Estas são algumas das razões apontadas por especialistas ouvidos pelo Caminhos da Reportagem que impedem que o suicídio seja discutido pela sociedade. E sociedade, entendem os especialistas, é a mídia, são os profissionais da saúde, pesquisadores, e até parentes e amigos de quem cometeu ou tentou o suicídio. A última pesquisa, realizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2012, aponta um aumento de mais de 10% na taxa de suicídio. “Neste período tivemos quase duas mil mortes no Brasil, o que representa mais de 30 mortes por dia, e o que deixa o país como oitavo no mundo e o primeiro na América Latina”, afirma Alexandrina Meleiro, médica-psiquiatra. Produzido de acordo com as novas regras das OMS que norteiam os jornalistas a abordar o tema, o Caminhos da Reportagem se utiliza de ética, responsabilidade e informação para tratar o assunto, considerado de saúde pública por médicos e pesquisadores. Que sinais devemos ficar atentos quando uma pessoa, em geral com algum transtorno de humor, tem o que os especialistas chamam de “ideação suicida”? O que fazer e como encarar o problema? O programa conversa com parentes das vítimas de suicídios, pessoas que tentaram e hoje dão exemplos de superação. “Precisamos falar sobre isso” explica por que o suicídio é um caso de saúde pública e como pode ser nocivo o silêncio que recai sobre as famílias que não dividem a dor, o luto e a “culpa”.

domingo, 8 de outubro de 2017

Suicídio na infância e na adolescência: é preciso romper o silêncio

Tristeza e solidão em tenra idade

Itamar Melo
itamar.melo@zerohora.com.br
No começo deste ano, uma menina de Porto Alegre subiu no telhado de sua casa e ameaçou atirar-se lá do alto. Os pais foram chamados às pressas no trabalho. Levada ao Centro de Promoção da Vida e Prevenção ao Suicídio do Hospital Mãe de Deus, a garota contou que tentara se matar porque ninguém lhe dava atenção na família. O pai e a mãe passavam os dias fora, do início da manhã até a noite. A menina tinha oito anos.
Um garoto da mesma faixa etária ingressou na emergência do hospital, pouco tempo atrás, por ter ingerido uma moeda. O otorrino retirou o objeto e liberou o paciente. Uma semana depois, ele retornou. Desta vez, havia engolido várias moedas. Na investigação, descobriu-se que a motivação para a atitude era tristeza.
Situações desse tipo estão se tornando mais comuns nesta década, segundo diferentes levantamentos, resultando em aumento de mortes entre crianças e adolescentes. Conforme a publicação Mapa da Violência, que se baseia em dados coletados pelo Ministério da Saúde, as faixas em que as taxas de suicídio mais cresceram no Brasil, entre 2002 e 2012, foram as dos 10 aos 14 anos (40%) e dos 15 aos 19 anos (33,5%).
No Rio Grande do Sul, de acordo com estatísticas da Secretaria Estadual da Saúde, ocorreram 60 suicídios nesse grupo em 2013, o maior número desde 2009. Essas mortes são a face trágica de um problema muito mais abrangente, que diz respeito às tentativas de tirar a própria vida. De acordo com os registros existentes no Centro de Informações Toxicológicas (CIT), 4.658 crianças e adolescentes gaúchos tentaram se matar, apenas por autointoxicação, entre 2005 e 2013.
"Até hoje, jamais tínhamos constatado tentativas em idade tão tenra. E agora está acontecendo isso. É uma novidade, uma coisa pouco estudada, um novo mundo. Por enquanto, estamos apenas detectando o problema. Precisamos de pesquisas e de uma política específica. Porque a metodologia de prevenção para criança e adolescente tem de ser outra. Para começar, é mais difícil de detectar o risco, porque eles não verbalizam tanto quanto a pessoa mais velha" – observa o psiquiatra Ricardo Nogueira, coordenador do Centro de Promoção da Vida e Prevenção ao Suicídio.
Para o médico Vitor Stumpf, voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV), as tentativas de suicídio ente crianças e adolescentes são um problema muito negligenciado, pouco conhecido até mesmo por profissionais:
"A massa dos pediatras não tem conhecimento nessa área. Neste mês de outubro, tentei de todos os jeitos incluir uma mesa sobre suicídio em um congresso de pediatria. Negaram."

Pesquisa aponta particularidades do problema

Os dados do CIT foram dissecados em uma dissertação de mestrado defendida na UFRGS em maio. De autoria da psiquiatra da infância e da adolescência Berenice Rheinheimer, o trabalho trouxe dados alarmantes, indicando tendência de forte aumento nas tentativas no universo dos oito aos 17 anos (abaixo dessa idade, os casos são automaticamente classificados como acidente). Em 2005, foram 492 episódios. Em 2013, apesar de a população da faixa etária ter recuado consideravelmente, os casos subiram para 626.
“Uma das coisas que chocam em relação a esses números é que a comunicação de casos ao CIT é voluntária. A realidade pode ser bem pior do que a registrada” – sustenta Berenice.
Se o suicídio entre adultos já está envolto por silêncios e tabus, é ainda mais entre crianças e adolescentes. A sociedade, em geral, não aceita a ideia de que eles possam querer se matar. Pais de adolescentes que se mataram tendem à negação, uma reação ao sentimento de culpa. Além disso, é escasso o conhecimento sobre que lógica rege os suicídios juvenis e sobre como preveni-los – os estudos e a experiência existentes dizem respeito basicamente a pessoas mais velhas.
A pesquisa de Berenice ajuda a iluminar algumas das diferenças e particularidades. Ao analisar os dados do CIT, ela descobriu que crianças e adolescentes tendem a tentar o suicídio no segundo semestre do ano – com destaque para o mês de outubro –, talvez como um reflexo de dificuldades escolares. Entre adultos, existem estudos demonstrando que a preferência é pelo verão.
Berenice percebeu também que as crianças atentam contra a vida em dias de semana – nas outras faixas etárias, o ato tende a ocorrer no sábado ou no domingo.
“Chamou a atenção que a véspera de Natal foi o dia com menos casos ao longo de nove anos. Depois, veio o Dia das Crianças. É um achado que não esperávamos. Não há relato sobre isso em lugar nenhum. Pode ter relação com o fato de nessas datas as crianças estarem em casa, com as famílias, mais satisfeitas. É uma hipótese" – observa a pesquisadora.
As tentativas de suicídio por autointoxicação envolvendo crianças e adolescentes também espantam em razão das substâncias utilizadas. Enquanto em outros países os relatos envolvem a ingestão de analgésicos, por aqui as tentativas relacionadas a medicamentos são principalmente com antidepressivos (23,47%), ansiolíticos (20,76%), antitérmicos (15,20%) e anticonvulsivantes (13,01%). Em 98,5% das situações, a tentativa é realizada em casa.
“Como é que nossas crianças estão tendo acesso a essa medicação? É uma falha das famílias e da área da saúde, por não orientar que esses medicamentos têm de ficar escondidos” – alerta Berenice.

Os números no país e no RS

Por que eles tentam se matar?

É difícil aceitar que uma criança ou adolescente possa querer se matar. Mais complicado ainda é explicar por que esse comportamento está em ascensão. O que existem são indícios e hipóteses.
O sentimento de abandono, a experiência de abusos físicos ou sexuais, a desorganização familiar, o desajustamento na escola ou em casa e a desesperança em relação ao futuro são alguns dos fatores que aparecem como motivadores. Pesquisa feita na década passada em escolas de Porto Alegre revelou que 36% dos estudantes com idades entre 15 e 19 anos manifestavam “ideação suicida”, ou seja, pensavam em se matar.
Quando se combina isso com certos fenômenos recentes, o resultado pode ser explosivo. O uso cada vez mais precoce de álcool e drogas seria um desses gatilhos.
“O álcool e a droga provocam dano no sistema nervoso central e causam depressão, o que tem consequências” – diz o psiquiatra Ricardo Nogueira.
Outro elemento que parece contribuir é o acesso fácil, instantâneo e detalhado a qualquer tipo de informação, propiciado pela web. Nos últimos anos, houve exemplos de adolescentes brasileiros que tiveram o suicídio assistido e incentivado via internet.
O primeiro caso foi o de um porto-alegrense de 16 anos, em 2006.

A rede também facilita atos coletivos. No ano passado, um suposto pacto de suicídio feito por meio de redes sociais levou a duas mortes e seis casos de automutilação em Gramado e Canela, semeando o pânico em pais da região. Os envolvidos tinham de 12 a 18 anos.
Sabe-se que, quando um suicídio acontece, há um risco considerável de que outro venha a ocorrer, não muito tempo depois, na mesma família, escola ou comunidade. No caso de crianças e adolescentes, esse fenômeno gera preocupação extra.
“Nas crianças e nos adolescentes, isso é mais forte, porque eles são mais sugestionáveis. Começamos a ver que, em cidades de pequeno porte, havia dois, três casos em um intervalo de tempo curto. Nossa hipótese é que essas pessoas se conhecessem. Pelo fato de saber que alguém fez uma tentativa, outro adolescente vai lá e também faz. Isso mostra o quanto é importante ter um trabalho nessa idade” – diz Berenice Rheinheimer.
Entre os mais novos, a situação é especialmente cruel, porque a total consciência sobre a morte se consolida apenas por volta dos 12 anos. Nessa faixa etária, estão se tornando frequentes casos de automutilação com lâminas – o que os especialistas interpretam como uma forna de aliviar a dor psíquica por intermédio da dor física.

Os sinais

Conheça fatores que, em crianças e adolescentes, podem dar indício de que há algum risco.

Abuso de drogas

Álcool e drogas são muitas vezes uma forma de fugir dos problemas e, além disso, podem favorecer algum estado depressivo. Há relatos de uso cada vez mais precoce.

Desorganização familiar

A sensação de abandono e de falta de atenção pode levar a criança a atitudes extremas.

Quadro de depressão

Os adolescentes, especialmente, têm dificuldade em lidar com a depressão. Podem reagir com raiva e agressividade.

Alterações de conduta

Tornar-se agressivo, começar a faltar às aulas, piorar o desempenho escolar, dormir demais ou muito pouco, comer muito ou quase nada e isolar-se são mudanças de comportamento que devem ser acompanhadas de perto.

Gestações precoces

Em alguns casos, meninas que tentam abortar e não conseguem acabam fazendo uma tentativa de suicídio.

Abusos e maus-tratos

Abusos sexuais e físicos podem estar relacionados às tentativas. No Estado, há uma estimativa de que 10% dos adolescentes já os tenham sofrido.

Casos conhecidos

Crianças e adolescentes são mais sugestionáveis. Dados mostram que muitas das tentativas são feitas por quem conhece outra pessoa que já tentou se matar, seja na família ou na escola.

Autolesões

Está mais comum entre crianças e adolescentes a prática de infligir lesões em si mesmo com lâminas ou estiletes.

Tentativas anteriores

Quem já tentou se matar uma vez tem mais probabilidade de tentar de novo.

Como agir

Observe sintomas de depressão

Apatia pouco usual, letargia, falta de apetite.
Insônia persistente, ansiedade ou angústia permanente.
Abuso de álcool, droga ou remédios.
Dificuldades de relacionamento e integração.-Dizer adeus, como se não fosse mais ser visto.

Preste atenção nos adolescentes

- Mantenha uma atitude não julgadora.
- Desenvolva uma escuta atenta sobre os problemas e angústias dos adolescentes.
- Ressalte a esperança na possibilidade de melhora pela psicoterapia ou pela medicação antidepressiva.
- A melhora inicial do paciente em meio ao tratamento não descarta hipótese de suicídio. Pelo contrário: em alguns casos, eles buscam a morte no momento da melhora.
- Não tenha preconceito com internação, caso especialistas recomendem.

Fique atento aos riscos da internet

- Mantenha-se vigilante em relação aos sites frequentados.
- É comum pessoas doentes buscarem na internet uma forma de se aliviar. Por vezes, acabam encontrando pessoas tão ou mais doentes ou com grupos anônimos que estimulam o suicídio.

“O bullying está fortemente associado”

Entrevista:
Carlos Estellita-Lins, coordenador do Grupo de Pesquisa de Prevenção ao Suicídio da Fundação Oswaldo Cruz (RJ)
Por que aumentou o suicídio na infância e na adolescência?O que há são explicações epidemiológicas. É como na economia. Por que a bolsa subiu?
Você encontra três ou quatro eventos importantes relacionados e diz que deve ter sido por isso. Esse tipo de critério cientítico é bastante frouxo, mas é o melhor que a gente tem. A partir dos nove anos, você tem dados de suicídio. A partir dos 12 anos, já é relevante. O modelo do suicídio é sofrimento psíquico grande, depressão, ansiedade. No caso do jovem, é importante mencionar, existem situações de violência. A violência no Brasil não diminuiu, ela cresceu.
A violência da sociedade tem um impacto no suicídio?
Tem, por alguns mecanismos obscuros e outros claros. Situações de violência geram sofrimento psíquico, geram perdas. E especialmente o abuso, a violência física, com humilhação. Uma forma de violência institucional, que é o bullying, está fortemente associada ao suicídio no adolescente.
Alguma pressão social nova surgiu sobre os adolescentes nos últimos anos?
O aumento é, na verdade, uma curva de elevação. Não está marcando um acontecimento novo. O ponto que a gente pode discutir é a digitalização da sociedade, a virtualização. Há vantagens, mas cada vez mais a gente começa a observar as perdas, os malefícios, que ainda estão sendo estudados.
Que tipo de impacto teria a onipresença da internet?
No adolescente, a gente discute se há síndromes e distúrbios novos. A pessoa ficar vivendo num mundo virtual, levando a um maior afastamento, introspecção, a mais depressão, a um isolamento.
A internet facilita também o acesso a informaçõoes sobre suicídio
Isso é preocupante, porque o conhecimento dos meios muitas vezes é buscado por quem está com ideação suicida. Ele pode começar a planejar, e isso auxilia. Outro aspecto são ambientes virtuais onde se pode falar tudo, exortar o jovem a fazer. Onde, de modo inconsequente, protegida pelo anonimato, a pessoa exorta o suicídio, dá conselhos, banaliza. A gente viu casos de meninas que foram humilhadas, que tiveram suas imagens eróticas divulgadas de maneira ilegal. É uma forma de cyberbullying. Isso gerou uma forma de suicídio menos típica, que não está relacionada com sofrimento psíquico continuado, e sim com o amor-próprio. Isso é uma novidade. É muito grave.

Número gratuito para facilitar acesso à prevenção

Uma dificuldade adicional para a prevenção do suicídio entre crianças e adolescentes é o fato de esse público ser menos afeito a buscar ajuda por meio de uma ligação telefônica, afirma o médico Vitor Stumpf, do Centro de Valorização da Vida (CVV).
É no teclado e na internet que as novas gerações sentem-se mais à vontade. Esse é um motivo, explica ele, para o CVV ter passado a oferecer atendimento por chat ou chamadas de voz online.Desde setembro, em uma parceria com o Ministério da Saúde, o CVV do Rio Grande do Sul passou a ser o primeiro do país a oferecer ligações totalmente gratuitas. Por causa do projeto, que será estendido a todo o país em caso de êxito, o tradicional número do CVV foi abandonado no Estado. Agora, a organização atende pelo 188. A mudança torna mais ágil o atendimento: o sistema do CVV conta com um roteador que consegue direcionar os telefonemas para unidades de atendimentos que estejam ociosas em outras cidades.
“A gratuidade é muito importante. Acredito que fomos escolhidos para começar esse projeto porque somos o Estado com mais notificação de suicídios” – observa Stumpf.

Como contatar

Por telefone: 188 (as ligações são gratuitas, inclusive por celular)
Por chat ou chamada de voz online: acesse cvv.org.br