Seja bem-vindo!

Este blog é um dos produtos da pesquisa de Mestrado "Cuidado, frágil: aproximações e distanciamentos de trabalhadores de um CAPS na atenção ao suicídio" e inclui sugestões de leitura, frases que me marcaram e vídeos que podem ser utilizados por pessoas ou grupos como disparadores para discussão e reflexão da questão do suicídio – seja na prevenção ou na compreensão dos fatores que podem estar por trás deste fenômeno - buscando compreender o sofrimento que está por trás deste acontecimento.

domingo, 15 de outubro de 2017

Caminhos da Reportagem: "Precisamos falar sobre isso"


Reportagem da TV BRASIL 

 Um tema delicado e necessário nesta edição: o suicídio. Preconceito, tabu, medo do chamado efeito “contágio”, transtorno mental. Estas são algumas das razões apontadas por especialistas ouvidos pelo Caminhos da Reportagem que impedem que o suicídio seja discutido pela sociedade. E sociedade, entendem os especialistas, é a mídia, são os profissionais da saúde, pesquisadores, e até parentes e amigos de quem cometeu ou tentou o suicídio. A última pesquisa, realizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2012, aponta um aumento de mais de 10% na taxa de suicídio. “Neste período tivemos quase duas mil mortes no Brasil, o que representa mais de 30 mortes por dia, e o que deixa o país como oitavo no mundo e o primeiro na América Latina”, afirma Alexandrina Meleiro, médica-psiquiatra. Produzido de acordo com as novas regras das OMS que norteiam os jornalistas a abordar o tema, o Caminhos da Reportagem se utiliza de ética, responsabilidade e informação para tratar o assunto, considerado de saúde pública por médicos e pesquisadores. Que sinais devemos ficar atentos quando uma pessoa, em geral com algum transtorno de humor, tem o que os especialistas chamam de “ideação suicida”? O que fazer e como encarar o problema? O programa conversa com parentes das vítimas de suicídios, pessoas que tentaram e hoje dão exemplos de superação. “Precisamos falar sobre isso” explica por que o suicídio é um caso de saúde pública e como pode ser nocivo o silêncio que recai sobre as famílias que não dividem a dor, o luto e a “culpa”.

domingo, 8 de outubro de 2017

Suicídio na infância e na adolescência: é preciso romper o silêncio

Tristeza e solidão em tenra idade

Itamar Melo
itamar.melo@zerohora.com.br
No começo deste ano, uma menina de Porto Alegre subiu no telhado de sua casa e ameaçou atirar-se lá do alto. Os pais foram chamados às pressas no trabalho. Levada ao Centro de Promoção da Vida e Prevenção ao Suicídio do Hospital Mãe de Deus, a garota contou que tentara se matar porque ninguém lhe dava atenção na família. O pai e a mãe passavam os dias fora, do início da manhã até a noite. A menina tinha oito anos.
Um garoto da mesma faixa etária ingressou na emergência do hospital, pouco tempo atrás, por ter ingerido uma moeda. O otorrino retirou o objeto e liberou o paciente. Uma semana depois, ele retornou. Desta vez, havia engolido várias moedas. Na investigação, descobriu-se que a motivação para a atitude era tristeza.
Situações desse tipo estão se tornando mais comuns nesta década, segundo diferentes levantamentos, resultando em aumento de mortes entre crianças e adolescentes. Conforme a publicação Mapa da Violência, que se baseia em dados coletados pelo Ministério da Saúde, as faixas em que as taxas de suicídio mais cresceram no Brasil, entre 2002 e 2012, foram as dos 10 aos 14 anos (40%) e dos 15 aos 19 anos (33,5%).
No Rio Grande do Sul, de acordo com estatísticas da Secretaria Estadual da Saúde, ocorreram 60 suicídios nesse grupo em 2013, o maior número desde 2009. Essas mortes são a face trágica de um problema muito mais abrangente, que diz respeito às tentativas de tirar a própria vida. De acordo com os registros existentes no Centro de Informações Toxicológicas (CIT), 4.658 crianças e adolescentes gaúchos tentaram se matar, apenas por autointoxicação, entre 2005 e 2013.
"Até hoje, jamais tínhamos constatado tentativas em idade tão tenra. E agora está acontecendo isso. É uma novidade, uma coisa pouco estudada, um novo mundo. Por enquanto, estamos apenas detectando o problema. Precisamos de pesquisas e de uma política específica. Porque a metodologia de prevenção para criança e adolescente tem de ser outra. Para começar, é mais difícil de detectar o risco, porque eles não verbalizam tanto quanto a pessoa mais velha" – observa o psiquiatra Ricardo Nogueira, coordenador do Centro de Promoção da Vida e Prevenção ao Suicídio.
Para o médico Vitor Stumpf, voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV), as tentativas de suicídio ente crianças e adolescentes são um problema muito negligenciado, pouco conhecido até mesmo por profissionais:
"A massa dos pediatras não tem conhecimento nessa área. Neste mês de outubro, tentei de todos os jeitos incluir uma mesa sobre suicídio em um congresso de pediatria. Negaram."

Pesquisa aponta particularidades do problema

Os dados do CIT foram dissecados em uma dissertação de mestrado defendida na UFRGS em maio. De autoria da psiquiatra da infância e da adolescência Berenice Rheinheimer, o trabalho trouxe dados alarmantes, indicando tendência de forte aumento nas tentativas no universo dos oito aos 17 anos (abaixo dessa idade, os casos são automaticamente classificados como acidente). Em 2005, foram 492 episódios. Em 2013, apesar de a população da faixa etária ter recuado consideravelmente, os casos subiram para 626.
“Uma das coisas que chocam em relação a esses números é que a comunicação de casos ao CIT é voluntária. A realidade pode ser bem pior do que a registrada” – sustenta Berenice.
Se o suicídio entre adultos já está envolto por silêncios e tabus, é ainda mais entre crianças e adolescentes. A sociedade, em geral, não aceita a ideia de que eles possam querer se matar. Pais de adolescentes que se mataram tendem à negação, uma reação ao sentimento de culpa. Além disso, é escasso o conhecimento sobre que lógica rege os suicídios juvenis e sobre como preveni-los – os estudos e a experiência existentes dizem respeito basicamente a pessoas mais velhas.
A pesquisa de Berenice ajuda a iluminar algumas das diferenças e particularidades. Ao analisar os dados do CIT, ela descobriu que crianças e adolescentes tendem a tentar o suicídio no segundo semestre do ano – com destaque para o mês de outubro –, talvez como um reflexo de dificuldades escolares. Entre adultos, existem estudos demonstrando que a preferência é pelo verão.
Berenice percebeu também que as crianças atentam contra a vida em dias de semana – nas outras faixas etárias, o ato tende a ocorrer no sábado ou no domingo.
“Chamou a atenção que a véspera de Natal foi o dia com menos casos ao longo de nove anos. Depois, veio o Dia das Crianças. É um achado que não esperávamos. Não há relato sobre isso em lugar nenhum. Pode ter relação com o fato de nessas datas as crianças estarem em casa, com as famílias, mais satisfeitas. É uma hipótese" – observa a pesquisadora.
As tentativas de suicídio por autointoxicação envolvendo crianças e adolescentes também espantam em razão das substâncias utilizadas. Enquanto em outros países os relatos envolvem a ingestão de analgésicos, por aqui as tentativas relacionadas a medicamentos são principalmente com antidepressivos (23,47%), ansiolíticos (20,76%), antitérmicos (15,20%) e anticonvulsivantes (13,01%). Em 98,5% das situações, a tentativa é realizada em casa.
“Como é que nossas crianças estão tendo acesso a essa medicação? É uma falha das famílias e da área da saúde, por não orientar que esses medicamentos têm de ficar escondidos” – alerta Berenice.

Os números no país e no RS

Por que eles tentam se matar?

É difícil aceitar que uma criança ou adolescente possa querer se matar. Mais complicado ainda é explicar por que esse comportamento está em ascensão. O que existem são indícios e hipóteses.
O sentimento de abandono, a experiência de abusos físicos ou sexuais, a desorganização familiar, o desajustamento na escola ou em casa e a desesperança em relação ao futuro são alguns dos fatores que aparecem como motivadores. Pesquisa feita na década passada em escolas de Porto Alegre revelou que 36% dos estudantes com idades entre 15 e 19 anos manifestavam “ideação suicida”, ou seja, pensavam em se matar.
Quando se combina isso com certos fenômenos recentes, o resultado pode ser explosivo. O uso cada vez mais precoce de álcool e drogas seria um desses gatilhos.
“O álcool e a droga provocam dano no sistema nervoso central e causam depressão, o que tem consequências” – diz o psiquiatra Ricardo Nogueira.
Outro elemento que parece contribuir é o acesso fácil, instantâneo e detalhado a qualquer tipo de informação, propiciado pela web. Nos últimos anos, houve exemplos de adolescentes brasileiros que tiveram o suicídio assistido e incentivado via internet.
O primeiro caso foi o de um porto-alegrense de 16 anos, em 2006.

A rede também facilita atos coletivos. No ano passado, um suposto pacto de suicídio feito por meio de redes sociais levou a duas mortes e seis casos de automutilação em Gramado e Canela, semeando o pânico em pais da região. Os envolvidos tinham de 12 a 18 anos.
Sabe-se que, quando um suicídio acontece, há um risco considerável de que outro venha a ocorrer, não muito tempo depois, na mesma família, escola ou comunidade. No caso de crianças e adolescentes, esse fenômeno gera preocupação extra.
“Nas crianças e nos adolescentes, isso é mais forte, porque eles são mais sugestionáveis. Começamos a ver que, em cidades de pequeno porte, havia dois, três casos em um intervalo de tempo curto. Nossa hipótese é que essas pessoas se conhecessem. Pelo fato de saber que alguém fez uma tentativa, outro adolescente vai lá e também faz. Isso mostra o quanto é importante ter um trabalho nessa idade” – diz Berenice Rheinheimer.
Entre os mais novos, a situação é especialmente cruel, porque a total consciência sobre a morte se consolida apenas por volta dos 12 anos. Nessa faixa etária, estão se tornando frequentes casos de automutilação com lâminas – o que os especialistas interpretam como uma forna de aliviar a dor psíquica por intermédio da dor física.

Os sinais

Conheça fatores que, em crianças e adolescentes, podem dar indício de que há algum risco.

Abuso de drogas

Álcool e drogas são muitas vezes uma forma de fugir dos problemas e, além disso, podem favorecer algum estado depressivo. Há relatos de uso cada vez mais precoce.

Desorganização familiar

A sensação de abandono e de falta de atenção pode levar a criança a atitudes extremas.

Quadro de depressão

Os adolescentes, especialmente, têm dificuldade em lidar com a depressão. Podem reagir com raiva e agressividade.

Alterações de conduta

Tornar-se agressivo, começar a faltar às aulas, piorar o desempenho escolar, dormir demais ou muito pouco, comer muito ou quase nada e isolar-se são mudanças de comportamento que devem ser acompanhadas de perto.

Gestações precoces

Em alguns casos, meninas que tentam abortar e não conseguem acabam fazendo uma tentativa de suicídio.

Abusos e maus-tratos

Abusos sexuais e físicos podem estar relacionados às tentativas. No Estado, há uma estimativa de que 10% dos adolescentes já os tenham sofrido.

Casos conhecidos

Crianças e adolescentes são mais sugestionáveis. Dados mostram que muitas das tentativas são feitas por quem conhece outra pessoa que já tentou se matar, seja na família ou na escola.

Autolesões

Está mais comum entre crianças e adolescentes a prática de infligir lesões em si mesmo com lâminas ou estiletes.

Tentativas anteriores

Quem já tentou se matar uma vez tem mais probabilidade de tentar de novo.

Como agir

Observe sintomas de depressão

Apatia pouco usual, letargia, falta de apetite.
Insônia persistente, ansiedade ou angústia permanente.
Abuso de álcool, droga ou remédios.
Dificuldades de relacionamento e integração.-Dizer adeus, como se não fosse mais ser visto.

Preste atenção nos adolescentes

- Mantenha uma atitude não julgadora.
- Desenvolva uma escuta atenta sobre os problemas e angústias dos adolescentes.
- Ressalte a esperança na possibilidade de melhora pela psicoterapia ou pela medicação antidepressiva.
- A melhora inicial do paciente em meio ao tratamento não descarta hipótese de suicídio. Pelo contrário: em alguns casos, eles buscam a morte no momento da melhora.
- Não tenha preconceito com internação, caso especialistas recomendem.

Fique atento aos riscos da internet

- Mantenha-se vigilante em relação aos sites frequentados.
- É comum pessoas doentes buscarem na internet uma forma de se aliviar. Por vezes, acabam encontrando pessoas tão ou mais doentes ou com grupos anônimos que estimulam o suicídio.

“O bullying está fortemente associado”

Entrevista:
Carlos Estellita-Lins, coordenador do Grupo de Pesquisa de Prevenção ao Suicídio da Fundação Oswaldo Cruz (RJ)
Por que aumentou o suicídio na infância e na adolescência?O que há são explicações epidemiológicas. É como na economia. Por que a bolsa subiu?
Você encontra três ou quatro eventos importantes relacionados e diz que deve ter sido por isso. Esse tipo de critério cientítico é bastante frouxo, mas é o melhor que a gente tem. A partir dos nove anos, você tem dados de suicídio. A partir dos 12 anos, já é relevante. O modelo do suicídio é sofrimento psíquico grande, depressão, ansiedade. No caso do jovem, é importante mencionar, existem situações de violência. A violência no Brasil não diminuiu, ela cresceu.
A violência da sociedade tem um impacto no suicídio?
Tem, por alguns mecanismos obscuros e outros claros. Situações de violência geram sofrimento psíquico, geram perdas. E especialmente o abuso, a violência física, com humilhação. Uma forma de violência institucional, que é o bullying, está fortemente associada ao suicídio no adolescente.
Alguma pressão social nova surgiu sobre os adolescentes nos últimos anos?
O aumento é, na verdade, uma curva de elevação. Não está marcando um acontecimento novo. O ponto que a gente pode discutir é a digitalização da sociedade, a virtualização. Há vantagens, mas cada vez mais a gente começa a observar as perdas, os malefícios, que ainda estão sendo estudados.
Que tipo de impacto teria a onipresença da internet?
No adolescente, a gente discute se há síndromes e distúrbios novos. A pessoa ficar vivendo num mundo virtual, levando a um maior afastamento, introspecção, a mais depressão, a um isolamento.
A internet facilita também o acesso a informaçõoes sobre suicídio
Isso é preocupante, porque o conhecimento dos meios muitas vezes é buscado por quem está com ideação suicida. Ele pode começar a planejar, e isso auxilia. Outro aspecto são ambientes virtuais onde se pode falar tudo, exortar o jovem a fazer. Onde, de modo inconsequente, protegida pelo anonimato, a pessoa exorta o suicídio, dá conselhos, banaliza. A gente viu casos de meninas que foram humilhadas, que tiveram suas imagens eróticas divulgadas de maneira ilegal. É uma forma de cyberbullying. Isso gerou uma forma de suicídio menos típica, que não está relacionada com sofrimento psíquico continuado, e sim com o amor-próprio. Isso é uma novidade. É muito grave.

Número gratuito para facilitar acesso à prevenção

Uma dificuldade adicional para a prevenção do suicídio entre crianças e adolescentes é o fato de esse público ser menos afeito a buscar ajuda por meio de uma ligação telefônica, afirma o médico Vitor Stumpf, do Centro de Valorização da Vida (CVV).
É no teclado e na internet que as novas gerações sentem-se mais à vontade. Esse é um motivo, explica ele, para o CVV ter passado a oferecer atendimento por chat ou chamadas de voz online.Desde setembro, em uma parceria com o Ministério da Saúde, o CVV do Rio Grande do Sul passou a ser o primeiro do país a oferecer ligações totalmente gratuitas. Por causa do projeto, que será estendido a todo o país em caso de êxito, o tradicional número do CVV foi abandonado no Estado. Agora, a organização atende pelo 188. A mudança torna mais ágil o atendimento: o sistema do CVV conta com um roteador que consegue direcionar os telefonemas para unidades de atendimentos que estejam ociosas em outras cidades.
“A gratuidade é muito importante. Acredito que fomos escolhidos para começar esse projeto porque somos o Estado com mais notificação de suicídios” – observa Stumpf.

Como contatar

Por telefone: 188 (as ligações são gratuitas, inclusive por celular)
Por chat ou chamada de voz online: acesse cvv.org.br

domingo, 24 de setembro de 2017

Cartilha Suicídio: Informando para prevenir



"O suicídio pode ser definido como um ato deliberado executado pelo próprio indivíduo, cuja intenção seja a morte, de  forma  consciente  e  intencional,  mesmo  que  ambivalente, usando um meio que ele acredita ser letal. Também fazem parte do que habitualmente chamamos de comportamento  suicida:  os  pensamentos,  os  planos  e  a  tentativa  de  suicídio". (p. 09)

"Os dois principais fatores de risco são:
• Tentativa prévia de suicídio: É o fator preditivo isolado mais importante. Pacientes que tentaram suicídio previamente têm de cinco a seis vezes mais  chances  de  tentar  suicídio  novamente.  Estima-se  que 50% daqueles que se suicidaram já haviam tentado previamente.

• Doença mental: Sabemos  que  quase  todos  os  suicidas  tinham  uma  doença  mental,  muitas  vezes  não  diagnosticada,  frequentemente não tratada ou não tratada de forma adequada"(p. 16).

"Os  transtornos  psiquiátricos  mais  comuns  incluem  depressão,  transtorno  bipolar,  alcoolismo  e  abuso/dependência de outras drogas e transtornos de personalidade e esquizofrenia. Pacientes com múltiplas comorbidades psiquiátricas têm um risco aumentado, ou seja, quanto mais diagnósticos, maior o risco". (p. 17)

"Destacam-se outros fatores de risco:
• Desesperança, desespero, desamparo e impulsividade: Sentimentos  de  desesperança,  desamparo  e  desespero  são  fortemente  associados  ao  suicídio. 
É preciso  estar  atento, pois a desesperança pode persistir mesmo após a remissão de outros sintomas depressivos.
Impulsividade,  principalmente  entre  jovens  e  adolescentes, figura como importante fator de risco. A combinação de impulsividade, desesperança e abuso de substâncias pode ser particularmente letal" (p. 18)

"Eventos adversos na infância e na adolescência:
Maus tratos, abuso físico e sexual, pais divorciados, transtorno  psiquiátrico  familiar,  entre  outros  fatores,  podem  aumentar  o  risco  de  suicídio.  Na  assistência  ao  adolescente, os  médicos, os professores e os pais devem estar atentos  para  o  abuso  ou  a  dependência  de  substâncias associados  à  depressão,  ao  desempenho  escolar  pobre,  aos conflitos familiares, à incerteza quanto à orientação sexual,  à  ideação  suicida,  ao  sentimento  de  desesperança e à falta de apoio social.
 
Um fator de risco adicional de adolescentes é o suicídio de  figuras  proeminentes  ou  de  indivíduo  que  o  adolescente  conheça  pessoalmente.  Existe,  também,  o  fenômeno  dos  suicidas  em  grupo  ou  comunidades  semelhantes que emitem o estilo de vida.
 
• História familiar e genética: O  risco  de  suicídio  aumenta  entre  aqueles  com  história  familiar  de  suicídio  ou  de  tentativa  de  suicídio.  Estudos  de  genética  epidemiológica  mostram  que  há  componentes genéticos, assim como ambientais envolvidos. O risco  de  suicídio  aumenta  entre  aqueles  que  foram  casados com alguém que se suicidou". (p. 21)

"Fatores protetores: São menos estudados e geralmente são dados não muito consistentes, incluindo: autoestima elevada; bom suporte familiar;  laços  sociais  bem  estabelecidos  com  família  e  amigos;  religiosidade  independente  da  afiliação  religiosa  e  razão  para  viver;  ausência  de  doença  mental;  estar  empregado;  ter  crianças  em  casa;  senso  de  responsabilidade  com  a  família;  gravidez  desejada  e  planejada;  capacidade  de  adaptação  positiva;  capacidade  de  resolução  de  problemas  e  relação  terapêutica  positiva,  além  de  acesso  a  serviços  e  cuidados  de  saúde  mental".  (p. 24)

"A  OMS  aponta  três  características  psicopatológicas  comuns no estado mental dos suicidas. São elas:
 
1.  Ambivalência: o  desejo  de  viver  e  de  morrer  se  confundem no sujeito. Há urgência em sair da dor e do sofrimento com a morte, entretanto há o desejo de sobreviver a esta tormenta. Muitos não aspiravam realmente morrer, apenas queriam sair do sentimento momentâneo de infelicidade, acabar com a dor, fugir dos problemas, encontrar descanso ou final mais rápido para seus sofrimentos. Se for dado  oportunamente  o  apoio  emocional  necessário  para  reforçar o desejo de viver, logo a intenção e o risco de suicídio diminuirão.
 
2. Impulsividade:  o suicídio, por mais planejado que seja, parte de um ato que é usualmente motivado por eventos negativos.  O  impulso  para  cometer  suicídio  é  transitório  e  tem  duração  de  alguns  minutos  ou  horas.  Pode  ser  desencadeado  por  eventos  psicossociais  negativos  do  dia  a  dia e por situações como: rejeição; recriminação; fracasso; falência;  morte  de  ente  querido;  entre  outros.  Acolher  a  pessoa  durante  a  crise  com  ajuda  empática  adequada  pode interromper o impulso suicida do paciente.
 
3.  Rigidez: quando  uma  pessoa  decide  terminar  com a  sua  vida,  os  seus  pensamentos,  sentimentos  e  ações  apresentam-se  muito  restritivos,  ou  seja,  ela  pensa  constantemente sobre o suicídio e é incapaz de perceber outras maneiras  de  enfrentar  ou  de  sair  do  problema.  Estas  pessoas  pensam  rígida  e  dramaticamente  pela  distorção  que  o  sofrimento  emocional  impõe.  Todo  o  comportamento  está inflexível quanto à sua decisão: as ações estão direcionadas ao suicídio e a única saída possível que se apresenta é a morte; por isso é tão difícil encontrar, sozinho, alguma alternativa.
 
O  funcionamento  mental  gira  em  torno  de  três  sentimentos:   intolerável   (não   suportar);   inescapável   (sem   saída);  e  interminável  (sem  fim).  Existe  uma  distorção  da  percepção  de  realidade  com  avaliação  negativa  de  si  mesmo, do mundo e do futuro. Há um medo irracional e uma  preocupação  excessiva.  O  passado  e  o  presente  reforçam seu sofrimento e o futuro é sombrio, sem perspectiva e com ausência de planos. Surge a ideação e a tentativa  de  suicídio,  que  pode  culminar  com  o  ato  suicida.  O  peso  da  decisão  de  morrer  repousa  na  interpretação  dos  eventos  e  a  maioria  das  pessoas,  quando  saudável,  não  interpreta  nenhum  evento  como  devastador  o  suficiente para justificar o ato extremo. (p. 24-26)


 Fonte:  Associação Brasileira de Psiquiatria. Suicídio: informando para prevenir   Comissão de Estudos e Prevenção de Suicídio. – Brasília: CFM/ABP, 2014.

Material disponível em:
 

 

domingo, 17 de setembro de 2017

Artigo: Tentativas de suicídio e o acolhimento nos serviços de urgência: a percepção de quem tenta

Resumo

A maioria dos casos de tentativa de suicídio é atendida em serviços médicos de emergência, o que deveria ser uma excelente oportunidade para que os profissionais de saúde realizassem alguma intervenção preventiva e terapêutica. No entanto, nem sempre essa oportunidade é aproveitada pela equipe, que geralmente exibe condutas caracterizadas por hostilidade e rejeição. Este trabalho pretende investigar, a partir da percepção do usuário, como se dá o acolhimento ao indivíduo que tenta suicídio e sugerir estratégias que possam favorecer o vínculo com a equipe de saúde. Trata-se de um estudo descritivo com abordagem qualitativa, desenvolvido com pacientes ambulatoriais referenciados pelo serviço de urgência de Barbacena, Minas Gerais. Foram entrevistadas 28 mulheres com histórico de tentativa de suicídio. A identificação e a classificação das unidades de análise fizeram emergir três categorias: discriminação, negação do ato, encaminhamento. Cada categoria foi submetida à análise qualitativa. A baixa capacitação das equipes de atendimento e as deficiências estruturais dos serviços induzem os profissionais a se posicionarem de maneira impessoal e com dificuldade de atuação de forma humanizada. A análise dos dados indica a necessidade de melhorar a formação dos profissionais da saúde, em especial os que trabalham nos serviços de pronto atendimento.

Palavras-chave: tentativa de suicídio; pesquisa qualitativa; saúde mental; medicina de emergência.

 "Eles  falaram  assim  “não  é  possível,  tanta  coisa  pra  gente  fazer e socorrer e fulano tentando morrer... e tem que fazer lavagem, que frescurada, aí é que dá vontade de matar mesmo”.  As  pessoas  acham  que  é  sem-vergonhice.  Eles  não vêem o que se passa na nossa mente". (P8)

"No  hospital  eu  lembro  que  o  médico  chegou  perto  de  mim, bateu no meu ombro, falou que eu não tinha nada, que eu era uma moça bonita, pra viver minha vida, que era pra arrumar um namorado
". (P7)


 "As enfermeiras falavam 'toma chumbinho, água de bateria, não adianta vir pra cá, tomar remédio, só dá trabalho pra gente'. Eu me sentia um rato quando tentava, quando elas me falavam ficava pior ainda. Por que elas não falaram que eu precisava era de um psiquiatra? Elas falavam 'vai pra casa e dorme bastante, isso não é nada, isso vai passar' ”.

"Lesões   autoprovocadas   sem   intenção   suicida   também   são  atendidas  em  serviços  de  urgência.  A  incidência  desses  agravos  tem  aumentado  nos  últimos  anos e  esse  comportamento  pode  ser  um  fator  de  risco  para  ideação  suicida. Independente  do  grau  de  intenção  suicida,  os  pacientes  que  exibem comportamento    autoagressivo    representam    um    grande desafio para a equipe de atendimento e podem gerar atitudes ambivalentes na condução do tratamento".

"A  reação  das  pessoas,  dos  médicos,  quando  eu  tomava  remédio e ia pro hospital, sempre que eu chegava, as enfermeiras  e  o  médico  falavam  ‘tem  juízo  não?  vaso  ruim  não quebra, entra na frente de um trem [...] remédio não mata não, remédio melhora". (P12)

"Mas aqui não tem nada pra ajudar os deprimidos, aqueles que tentam. Lá no postinho também é assim, parece que a receita já ta pronta. O médico não quer escutar a gente".

"A equipe reage com descaso, deve ser por eles acharem que é errado tentar, deixam a gente jogado, ficam fazendo comentário entre eles, ficam rindo, no dia que fizeram a lavagem eles falaram 'tá doendo? na hora de tomar os remédios não doeu, né?' "

"Avaliar um paciente suicida comumente desperta fortes sentimentos no médico examinador, especialmente ansiedade  por  um  erro  de  conduta  e  temor  das  consequências.  O  profissional  pode  experimentar  também  sentimentos  de  impotência e mobilizar emoções de caráter negativo".


Link do trabalho completo: http://www.scielo.br/pdf/cadsc/v21n2/02.pdf

 

domingo, 10 de setembro de 2017



eu sei como dói.
sei que dói e não é de agora.
sei que você já suportou muito e tanto, que às vezes se pergunta “tô suportando tudo isso pra quê?”, porque dentro de ti, já não faz mais sentido.
mesmo que ora ou outra aquela chama ainda acesa (porém pequena) de esperança em alguma coisa mostra que ainda existe
[a gente nem sempre tem esperança na melhora,
às vezes é só num dia melhor,
num momento bom,
às vezes ela aparece naquele riso inesperado,
naquela palavra amiga,
naquele conforto velado,
naquele texto que parece que nos lê ou que foi escrito por mãos parecidas com as nossas de tão parecido com a gente que é,
naquela música que nos acalma, que nos abraça quando ninguém mais faz isso,
naquele pôr do sol que vemos quando lembramos que basta olhar pro céu pra vermos algo novo e bonito].
eu sei que é difícil viver com um parasita dentro da gente que nos faz ver a vida de um jeito distorcido e te faz querer fugir de tudo, mesmo que a dor esteja em você.
e eu sei, eu sei que você chora muito que tem dias que quer chorar e não consegue mais, como se as lágrimas tivessem acabado, o que dói mais do que chorar descontroladamente.
eu sei que deitar a cabeça no travesseiro à noite não te dá sossego, sei que o monstro que te atormenta vem com mais frequência nesse horário e não te deixa dormir, não te dá paz.
sei que as outras pessoas não parecem confiáveis, que o mundo não parece mais mundo, é só um lugar que você está e não quer estar.
eu sei como às vezes parece que o universo quer que a gente desista.
e desistir é tão mais fácil, né? é tão mais fácil só pôr um fim,
mas você é tão forte por não desistir, eu juro pra você que vejo tua força exalando de você até mesmo quando tu chora.
tu não é fraco, tu não é só uma tristeza, tu não é só uma decepção.
tu é tantas & tantas coisas boas, feito até do que ainda não tem nome mas é tão bom te ter no mundo.
eu sei, assim como muita gente sabe, porque eu juro pra você que: tu nunca está sozinho, a tua dor faz parte da nossa.
e o mundo não é horrível como parece, as situações que são.
nem todas as pessoas são as mesmas que te machucaram.
e nenhuma dor dura pra sempre. a sua pode estar durando muito, mas ela vai terminar, você mesmo vai acabar com ela.
não permita que a dor acabe com você,
porque meu bem, a sua batalha está perdurando tanto porque tu é mais forte que ela, não é você quem está desistindo, é você quem está persistindo (mesmo que dentro de você haja um sentimento de derrota, é a sua auto-destruição que não deixa você ver o quão guerreiro tu é, mas toda vez que te vejo vivo, te vejo um vitorioso).
você é mais real do que essa dor que se alojou dentro de você e se espalhou por todos os cantos do teu ser, porque ela PRECISA de você pra existir, VOCÊ NÃO PRECISA DA DOR PRA EXISTIR.
eu tenho fé em você, eu acredito na tua batalha.
tudo bem perder lutas diárias, mas não desista de você. 


- Via Desbotando Tumblr

 

Não é o jogo da baleia azul que está matando os adolescentes, é nossa insensibilidade.




O suicídio já mata mais que homicídios, desastres e HIV em todo o mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde. Isso quer dizer que o seu assassino mais provável é você mesmo.
PUBLICIDADE
Entre os jovens, a incidência é maior: Na faixa etária de 15 a 29 anos, apenas acidentes de trânsito superam o suicídio. Neste grupo, as mais afetadas são as mulheres (não por acaso, o gênero que é treinado para a dependência emocional).
Sintomaticamente, o jogo da Baleia Azul é viral. São 50 desafios que envolvem automutilação e atividades arriscadas em geral. O último desafio é tirar a própria vida: só assim, eles dizem, você ganha o jogo.
“Ganhar o jogo”, para muitos de nossos adolescentes, é se livrar da obrigação de continuar vivendo – e se isso não te choca, bem, eu desisto.
Por que, afinal, é mais provável que as pessoas queiram se matar quando são jovens?
Porque os velhos já se conformaram.


Quanto mais jovem se é, mais coisas são uma questão de vida ou morte. Quando se é jovem, absolutamente tudo parece irreversível.
Na adolescência, então, é sempre tudo ou nada, então não é exatamente estranho querer abandonar um mundo que não te entende e, sobretudo, um mundo que você também não entende.
Deve ter acontecido na sua família. Ou na família de um amigo. Ou com o amigo de um amigo. Ou com o próprio amigo. Não é difícil que você conheça uma história de suicídio ou de tentativa de suicídio: acontece todo dia.
Aconteceu comigo. Na época, morri de vergonha. A única frustração foi não ter conseguido – porque eu não tinha medo de morrer, eu tinha medo de viver.
Disseram que eu só queria chamar atenção. Era falta de Deus. Falta de amor. Falta de porrada. Na verdade, não era nada disso: era depressão. E se eu não tivesse uma família e amigos que compreendem a depressão – compreendiam mesmo antes de 13 reasons why, por exemplo – talvez eu nem estivesse aqui.
Talvez eu nem tivesse descoberto que as prioridades mudam, o sol abre novamente, os anos passam e doenças psíquicas são perfeitamente – embora não facilmente – tratáveis.
Talvez eu nunca tivesse saído daquela fase em que você desiste facilmente porque afinal não há muitas razões para não desistir: você ainda não tem quase nada, você ainda não sabe quase nada, você ainda não é quase nada – e a vida te bate mesmo assim.
A questão do suicídio (entre os adolescentes, sobretudo) é urgente e inadiável. Não dá mais para trata-la como piada, embora tantos insistam. O jogo da baleia azul não é o problema: é apenas uma parte ínfima – quase desprezível – do problema.
Aliás, encaremos os fatos: o problema é que somos uma geração fodida (e enquanto não houver uma verdadeira mudança de paradigmas, as próximas gerações serão cada vez mais fodidas).
A nossa geração ainda se importa pouco com doenças psíquicas, ainda trata como loucos os psicoatípicos, comove-se  com uma série bem feita mas é incapaz de se comover perante o sofrimento dos outros – o sofrimento real.
A nossa geração tem desaprendido muito sobre amor e compreensão: amar é, cada vez mais, para os fracos. Mães e pais despreparados estão, cada vez mais, surtando – por não saberem o que fazer, berram ou simplesmente ignoram.
O que antes eram paixões adolescentes fulminantes, agora são crushes: o bom e velho amor platônico com uma nova roupagem.
Vivemos tempos em que todo mundo tem a obrigação tácita de querer pouco ou nada, todo mundo tem que se bastar, ir em frente, ignorar as próprias dores, se valer sozinho.
Para uma geração que quase vive virtualmente, é pedir demais. A conta não bate.
Há – e que haja! – quem me acuse de exagerada e conspiracionista, mas não é sintomático que, justo nessa geração desapegada, bem-resolvida e feliz sob os filtros do Instagram, a Netflix seja um sucesso absoluto?
Não é sintomático, no mínimo, que a juventude do século XXI esteja trancada em casa maratonando séries no sábado à noite porque já não tem paciência (ou habilidade, nunca saberemos) para relações interpessoais?
Não é sintomático, sobretudo, que a série mais assistida da história da Netflix seja justamente uma série sobre suicídio?
Os nossos jovens estão se suicidando, e cada vez mais, porque a gente não presta atenção neles. A gente também não presta atenção na gente. Estamos preocupados em fazer piada de suicídio na internet e, quem sabe, ganhar uns likes. Na geração dos egos inflados, não sobra espaço pra mais nada.
Não é o desafio da baleia azul que está matando os nossos adolescentes. É a nossa insensibilidade.

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/nao-e-o-jogo-da-baleia-azul-que-esta-matando-os-adolescentes-e-nossa-insensibilidade-por-nathali-macedo/


domingo, 3 de setembro de 2017


Causa de uma morte a cada 40 segundos no mundo, o suicídio começa a perder o status de tabu e passa a ser discutido como questão de saúde pública


reportagem KARINA SGARBI E MISAEL LIMA
arte ALAN MACHADO
A primeira vez foi em 2012. Remédios, muitos deles, hospital, mentiras para esconder – foi apenas um comprimido a mais, confusão na hora de tomar. A vida segue, mas é como se não fizesse diferença, continua a doer. Três anos se passam e tudo volta. Mais forte, mas agora nem mesmo as justificativas que já tinham alcançado sucesso anteriormente são capazes de esconder a verdade.
Fica claro como a luz do dia: trata-se de tentativa de suicídio, pela segunda vez. E não há garantia de que isso deixe de se repetir, conforme a escritora de 41 anos, moradora da região, que conta como é a vida de quem não tem vontade de viver. “Quando tu tá mal, não quer encontrar tratamento. Hoje eu estou OK, tomando medicamentos, mas sinto que eu não mereço mais estar viva”, relata.
Conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio é responsável por uma morte a cada 40 segundos no mundo. No Brasil, em 2013, esta foi a causa de 69.783 óbitos, sendo 3.850 deles no Estado. O tema é tabu na sociedade, na mídia, nas escolas, nas famílias, e ganhou espaço desde o início do mês, com a série 13 Reasons Why, da Netflix, e com o jogo Blue Whale, ou Baleia Azul, que desafia jovens a cumprirem tarefas, sendo que a última delas é tirar a própria vida.
“Não digo que a série foi perfeita ao abordar o assunto, mas isso não exclui o impacto que iniciou uma boa discussão sobre suicídio. Ela trouxe luz ao assunto e isso sim é importante”, afirma a psicóloga Éllen Martins, que trabalha com a prevenção de suicídio. O vazio, a dor, um sofrimento sem fim que nem mesmo quem sente consegue explicar. Para quem sobreviveu a duas tentativas, nem sempre há uma razão que motive o suicídio. “Quando eu tentei, as duas vezes, nunca deixei carta porque achava que não precisava, porque eu não tinha uma razão para fazer aquilo. Era porque eu não queria mais existir e eu não tinha que explicar isso a alguém”, conta a escritora. Diagnosticada com depressão desde 2009, ela relata que há dias em que não passa uma hora sem que pense no assunto, já que, como escreveu num de seus livros, “a infelicidade não tem cura”. “Tu não querer viver não é o mesmo que querer morrer. Não é algo fácil chegar e dizer que vou acabar com a minha vida. Cada um carrega o seu sofrimento”, afirma.

Que série e que jogo são esses?

Lançada em 31 de março pela Netflix, a produção 13 Reasons Why é baseada em um livro de mesmo nome. Na história, o adolescente Clay Jensen volta da escola e encontra uma caixa com fitas gravadas pela amiga Hannah Baker, que cometeu suicídio duas semanas antes. Nas gravações ela explica as 13 razões pelas quais decidiu tirar a própria vida. Blue Whale ou Baleia Azul é um suposto jogo do qual se tem pouca informação ainda. Teria surgido na Rússia, com 50 desafios repassados em grupos do Facebook e WhatsApp, onde o último consiste em se jogar de um prédio. Em todo o mundo, diversos casos – tanto de suicídio quanto de tentativas – estão sendo investigados por possível relação com o desafio, mas ainda não há confirmações.




Mestre em disfarce



Nem sempre a dor é aparente. “A gente se torna mestre em disfarce, porque na verdade quando as pessoas perguntam se tá tudo bem, elas não querem saber se tá bem ou não realmente”, comenta a escritora. Seu diagnóstico foi feito ao consultar um psiquiatra antes de uma cirurgia. “Começa por aí, tu nem sabe que tem a doença. A pessoa com depressão tem momentos bons, momentos felizes, mas na maior parte do tempo é uma angústia, um sofrimento que não dá pra explicar”, relata. A primeira tentativa de tirar a vida ocorreu em 2012. “Quando eu tentei, não deu certo, eu me apavorei e fui para o médico. Disse para a minha mãe que tinha tomado medicamento para dor, uma dose a mais, e ela não soube que era uma tentativa de suicídio”, conta.
Depois disso, no mesmo ano, ela foi ficou internada em uma clínica por 29 dias, recebendo atenção adequada e cumprindo o tratamento. Em 2015, houve nova tentativa, desta vez no trabalho. “O sentimento que eu tinha era de desesperança, de que nada ia melhorar e que, se é pra ser assim, não tem razão continuar aqui.”
Ela chegou a ser xingada por um psiquiatra durante o atendimento. “Ele perguntou por que eu não tinha me jogado de um prédio, se queria morrer”, lembra. Hoje, mesmo recebendo ajuda, sente a questão do suicídio presente, mas afirma que poder compartilhar o que sente tem trazido um alívio. “Eu vejo que hoje eu consigo falar muito sobre isso, porque percebi que quando começo a falar e a pessoa ouve sem julgar, eu me sinto amparada”, diz.

"O sofrimento é muito particular"



Mediadora do grupo de estudos sobre Suicídio do Núcleo de Atendimento Psicológico (NAP), que começará as atividades em 31 de maio, a psicóloga Janete Maria Ritter destaca que os sinais que indicam a tendência ao suicídio variam de pessoa para pessoa. “A manifestação do sofrimento é muito particular. Pode-se observar se há mudança de comportamento muito brusca, isso independente da idade. Quando tem alguém que muda o comportamento muito bruscamente é um sinal de alerta”, comenta.
Ela destaca ainda que essa dor pode não ter uma explicação. “Acho que é preciso falar cada vez mais sobre suicídio. Se eu percebo que alguém falou, numa roda de amigos, que não tem vontade de viver, por exemplo, é importante perguntar o que quer dizer com isso. Não perguntamos porque não queremos saber a resposta. E isso tem que ser feito num tom de ouvir, não de julgar, e com interesse”, orienta.
A psicóloga Éllen Martins critica o tabu que envolve o tema. “O mito mais comum é de que falar de suicídio induz ao suicídio, o que não é verdade. Quanto mais informação houver sobre os meios de prevenção, mais pessoas podem ser ajudadas”, afirma.

  Uma capivara para enfrentar a baleia

Com o rápido crescimento dos desafios da Baleia Azul, o blog Capinaremos criou um desafio para valorizar a vida. O grupo Capivara Amarela no Facebook, criado pelo gaúcho Sandro Sanfelice, já reúne mais de 5 mil pessoas com desafios e curadores que auxiliam aqueles que sofrem com males como depressão e ansiedade e que já cogitaram a possibilidade de tirar a própria vida. “Ela é basicamente o oposto da Baleia Azul, um jogo do bem, também composto por 50 desafios diários, mas com o objetivo de fazer com que a pessoa tenha outra perspectiva da vida. Temos desafios iniciais dentro da zona de conforto do participante, os intermediários que buscam criar laços sociais com outras pessoas, como passeios e jantares e os finais, que são de introspecção e empatia com o outro, ver que o mundo é um coletivo”, comenta. Ele afirma que o grupo tem o apoio de profissionais da área e se utiliza de materiais do CVV, e que, de forma alguma, substitui a busca por um profissional especializado. “O curador não trata ninguém, ele está mais para um ombro amigo, alguém para ser empático”, explica. “Atualmente, já temos mais de 500 curadores cadastrados. E cerca de 700 desafiantes. Com a ajuda de profissionais da área, elegemos 100 desafios ‘oficiais’”, detalha.


domingo, 27 de agosto de 2017

Tico Santa Cruz em 14/04/2017

Eu lido com a ideia do suicídio desde a adolescência. Fantasio essa morte. Perdi a conta de quantas vezes só me faltou coragem para ir adiante. Os motivos sempre foram dos mais variados. Não sofri Bullying na escola, na minha época o Bullying não tomava as proporções que a internet potencializou. Minha questão estava relacionada com a sensação de rejeição que eu sentia por parte das pessoas próximas. Da incompreensão. Da não aceitação da minha maneira de ver o mundo de viver a vida. Dos conflitos intermináveis que vivi dentro da minha casa com minha família. Do sentimento de que esse lugar aqui é hostil demais para mim.
Lembro quando sentei na janela do prédio onde morava e fui vasculhando cada espaço entre os miolos do meu cérebro para encontrar o impulso que desse fim ao meu sofrimento. Não consegui. Me senti um covarde.
Eu me imaginava fincado na grade de segurança do prédio. No fundo eu queria me vingar do mundo, das pessoas.
À medida que fui crescendo, o pensamento nunca deixou de frequentar minha mente. Nos momentos mais complicados, e não foram poucos, só essa saída me parecia viável.
Não quero expor outras pessoas, mas fiz contato com o suicídio ou a tentativa dele por gente que eu amo muito, algumas vezes.
Quando comecei a fazer sucesso como artista, você pode imaginar que a realização do meu sonho me daria milhares de motivos para continuar a viver. Eu tive um filho e uma companheira forte e corajosa. Mas o contato com o outro lado da cortina - os bastidores - me revelou ainda mais farsas, falsidades, mentiras, egocentrismos, vaidades, manipulações e muitas limitações. Isso
me conduziu a um quadro de depressão e ansiedade. Comecei a ter crises de pânico diante de tantos compromissos, noites sem dormir, pequenas pressões, brigas, desgastes infinitos.
Quando tudo isso atingia o meu limite, começava a buscar novamente minha saída de emergência.
E fantasiava cortando os pulsos numa banheira, entupido de remédio e álcool para não sentir dor.
É o desespero. A falta de esperança. A falta de caminhos, perspectivas e a dificuldade de buscar outras formas de resolver as questões que mais inflamavam minha existência.

Ainda está aí?
Foi então que resolvi procurar uma terapia. Era isso ou a morte. Porque eu já sentia que estava bem perto de conseguir concretizar meu objetivo.
E encurtando um pouco outros episódios, foi que comecei a administrar meus fantasmas e meus anseios mais obscuros.
Sim!!! Foi a terapia quem me salvou. Foram os dias e dias, semanas, meses, anos de uma rotina terapêutica com a ajuda de uma especialista, que soube me conduzir a um encontro comigo mesmo que me ensinou a domar e lidar com essa questão.

Até hoje tenho meus pensamentos suicidas! Não sei... É algo que de fato está presente na minha cabeça. Contudo estou muito mais preparado para lidar com eles. E nunca tive vergonha de pedir ajuda. Ajuda mesmo!
Nestes três anos que se passaram onde eu entrei no olho do furacão dessa loucura que virou a questão política do Brasil, tive minha imagem exposta de diversas formas horríveis. Fui humilhado, bloqueado em meu trabalho, acusado de receber dinheiro que nunca recebi, rejeitado, apontado, ofendido, difamado, inclusive pelos meus próprios fãs. Exposto a linchamentos públicos por pessoas que considerava meus amigos. Minha família foi AMEAÇADA de morte, recebi milhares de mensagens de ódio com conteúdos absurdamente doentios. Vi tudo que eu havia construído com muita dedicação e amor, ser atingido por todo tipo de ataques.
Só que eu já me conhecia bem. A Terapia me deu todas as armas que eu precisava para lutar contra esse caos.
Você não tem a menor ideia do que é ser uma pessoa pública, um artista, e se ver diante de tanto ódio e tanta exposição negativa.
Calhou também de eu ter optado por ficar limpo, não estar usando nenhuma droga nesse período. Porque a droga te mina, deixa sua cabeça mais fraca, te fragiliza, te dá paranóias. Então se eu estivesse usando drogas nesse momento que passei, certamente não teria conseguido segurar a onda.
Teria dado um tiro na cabeça e resolvido tudo.

Porém, eu sou forte. Aprendi a ser forte! Encarei meus desafios de cabeça erguida. Continuo encarando. A ideia do suicídio ainda aparece para mim? Sim... Mas eu sei lidar com ela, graças a terapia.
Ver essa série que trata sobre o esse ponto tão delicado da existência humana, tem mexido muito comigo. Eu sei o que é aquilo ali, de forma diferente, mas sei. Me angustia profundamente. Eu choro sem querer. Me identifico. Lido com um turbilhão de sensações. Não consigo assistir mais de 2 capítulos seguidos. Ainda não terminei.
Mas me motivou a abrir essa parte da minha vida publicamente. Para dizer que apesar de tudo, vale a pena continuar vivendo e lutando contra meus monstros. Vale a pena seguir acreditando que seja possível vencer as barreiras, as rejeições, o ódio, e todo esse cenário de medo e desespero que estamos vivendo.

Tenho razões claras para dizer a você que assim como eu já pensou ou já chegou bem perto de dar fim a própria vida. Procure ajuda! Lute! Não desista!
A gente está aqui para aprender e o sofrimento nos ensina muito! A maturidade vem. É possível seguir!
Acredite em mim.




https://www.facebook.com/ticosantacruz/posts/1113477672118205 

domingo, 20 de agosto de 2017

Quais perguntas fazer a alguém que se sinta suicida?

Quando uma pessoa querida, um familiar ou amigo, está pensando em suicídio, às vezes pode ser difícil saber o que fazer ou dizer diante dessa situação.
Talvez um colega de trabalho lhe tenha expressado, de passagem, sentir que ninguém notaria se ele desaparecesse para sempre. Talvez um membro da família tenha manifestado que o melhor seria se ele pudesse dormir e nunca mais acordar. Ou talvez um amigo tenha contado a você sobre um plano concreto para acabar com a própria vida. Seja qual for a situação, esse tipo de conversa é séria e não deve ser ignorada.
Queríamos saber quais perguntas fazer a alguém que se sinta suicida, então pedimos aos membros do nossa comunidade de saúde mental para compartilhar uma pergunta que eles desejaram que lhes tivessem sido feitas quando se sentiram suicidas. É importante lembrar que cada pessoa que experimenta pensamentos suicidas tem sua própria necessidade. As perguntas podem ser um excelente ponto de partida, mas não deve ser a única medida para conseguir uma aproximação. A atitude que deve seguir a estas perguntas é que pode realmente ajudar as pessoas a se sentirem compreendidas e amadas.
Eis o que eles tinham a dizer:
1. “Você quer sair? Muitas vezes, em meus piores momentos, sempre me senti isolada e sozinha. Foi a partir deste ano que as pessoas realmente começaram a perceber e passaram a me convidar quando eu começava a me sentir isolada. "- Kira M.

2. “Posso me deitar aqui com você? Não precisava de mais conversa. Minha cabeça já estava cheia o suficiente. Eu precisava era de um abraço para saber que sim, eu existia para alguém. "- Michelle M.

3. “Qual é a pior coisa que você está pensando ou sentindo agora? Quando me sinto muito mal, vejo-me obrigada a esconder o que sinto das pessoas. Seria um alívio saber que eu posso conversar e falar abertamente sobre isso com alguém. "- Elizabeth M.

4. "Eu queria que alguém me perguntasse o que estava acontecendo ou como eles poderiam ajudar. Eu queria que alguém me ouvisse. No meio em que vivo as pessoas não dão a mínima atenção se o assunto não for conveniente para elas. É triste, tentei falar com alguns amigos sobre suicídio, mas eles empurraram o assunto para debaixo do tapete. "-Ashley M.

5. "Eu queria que eles simplesmente me perguntassem se eu pensava em suicídio. Sempre me fazem pergunta tipo: “Como você está”?" 'Você está bem?' "Algum mau pensamento?" "Você está tendo um dia bom ou ruim?" E tantas outras perguntas que parecem evitar a palavra " suicídio ". Quando essas pessoas evitam dizer a palavra suicídio ou se constrangem em perguntar se estou me sentindo suicida, penso logo que não querem saber como estou realmente me sentindo. "- Makayla F.

6. “Posso segurar sua mão esta noite? Eu acho que é importante poder sentar-se com alguém que é suicida e, não, procurar colocar um band-aid... Apenas sente-se sem julgamento e deixe a pessoa sentir que há alguém de verdade ao seu lado. "- Gyna R.

7. “Como posso ajudar? E se eu não sei o que dizer, porque, realmente, quando me sinto assim eu não sei como ser ajudada, apenas esteja lá. "- Jessi W.

8. “Por quê? Uma pergunta simples que nunca me fizeram de uma maneira sincera. Sem julgamento, sem nenhuma tentativa distorcida de fazer com que meus problemas pareçam menos importantes do que eu sinto que são. Perguntar por que com a verdadeira intenção de entender. Cuidar de mim sem me odiar por meus pensamentos. É o que eu precisaria. O que ainda preciso às vezes. "- Lydia D.

9. “Posso ficar com você? Às vezes, quando eu estou suicida, tudo o que preciso é que alguém esteja ao meu lado, que fisicamente não me deixe sozinha e que eu possa sentir a presença de uma outra pessoa que deseje realmente  que eu permaneça viva. "- Alyse R.

10. “Você está realmente OK? Se alguém tivesse dito isso me olhando dentro dos olhos e estivesse aberto em ouvir tudo o quanto eu gostaria de dizer, teria sentido que alguém se importou de verdade comigo. Ninguém nunca tentou ultrapassar a resposta de sempre: "Sim, estou bem", e eu realmente queria que alguém tivesse. "- Kacey K.

11. “Posso ir / posso ir buscá-la? Eu tenho (um filme / jogo de tabuleiro / jogo de cartas / maquiagem nova / etc e / pipoca / doces / bolo / etc). Seria bom estar com alguém que só queira estar comigo. Não precisa querer me “ajudar” ou “me tirar do fundo do poço”. Apenas esteja lá. Literalmente. Distraia-me. Faça com que me divirta. "- Brianne O.

12. “Você quer ajuda com algumas de suas tarefas? Você pode falar comigo sobre isso? Como você está se sentindo? Você pode me dizer o que está acontecendo para que eu possa entender o que você está passando? Existe alguma coisa que eu possa fazer para apoiá-lo nessa sua luta? Qualquer um destas perguntas seria bem vinda. "- Devin L.

13. “Você quer que eu procure um profissional para você se tratar? Eu nunca falo porque não quero ser um fardo e preocupar as pessoas, mas eu apreciaria se alguém levasse o que sinto a sério e me fizesse essa pergunta. "- Valentina V.

14. “Como posso te ajudar? As pessoas costumam ouvir que eu sou suicida, mas digo que não é nada disso, peço desculpas e desapareço por um tempo até que eu fique "melhor". Eu não precisaria de uma ajuda grandiosa, coisas até bobas - um texto ou uma visita à minha casa quando eu estou ansiosa para ver alguém, que enviem um meme tolo, mas pelo menos me perguntem: “Como eu posso te ajudar”?" Mas eu nunca vou contar a ninguém nada disso. "- Ciara L.

15. "A única coisa que sempre, sempre e sempre preciso ouvir é isso: Eu não vou deixar você. "-  Krystal S.

Se você ou alguém que você conhece está lutando com as questões abordadas neste texto, por favor, procure a ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra e ligue para o número do CVV: 141.

Texto original: By Juliette Virzi  https://themighty.com/2017/07/questions-to-ask-someone-suicidal-thoughts/ via @TheMightySite.

 Texto livremente traduzido e adaptado.