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Este blog é um dos produtos da pesquisa de Mestrado "Cuidado, frágil: aproximações e distanciamentos de trabalhadores de um CAPS na atenção ao suicídio" e inclui sugestões de leitura, frases que me marcaram e vídeos que podem ser utilizados por pessoas ou grupos como disparadores para discussão e reflexão da questão do suicídio – seja na prevenção ou na compreensão dos fatores que podem estar por trás deste fenômeno - buscando compreender o sofrimento que está por trás deste acontecimento.

domingo, 13 de agosto de 2017

Prevenção do suicídio: Como podemos ajudar as Hannahs da vida real?

Difícil mensurar com precisão, mas a impressão é de que nunca se falou tanto em suicídio. O assunto mais marginal da imprensa vazou os tabus que o confinavam ao silêncio e avançou principalmente nos comentários do público. A discussão foi puxada pela série de ficção 13 Reasons Why, da Netflix, sobre a qual refletimos aqui, e estendida com o desafio da Baleia Azul, cujos boatos e realidades exploramos aqui.
Com mais de 11 milhões de tweets em 20 dias, 13 Reasons Why é a série mais comentada de 2017 até agora no Twitter, segundo dados obtidos pela revista norte-americana Variety. Na trama, Hannah, uma garota de 17 anos, grava em fitas K7 os 13 motivos pelos quais ela decidiu se matar. Os 13 episódios da série mostram o que ocorre após o suicídio, com uma narrativa que cruza o tempo presente - e os efeitos dolorosos vividos por seus pais e por quem a amava - com o passado dos relatos de sofrimento da garota.
Para além da ficção e dos temores com o Baleia Azul, o suicídio apareceu nas conversas com uma preocupação: o que pode ser feito para ajudar uma pessoa querida que esteja pensando ou planejando se matar?
Para que tal auxílio ocorra, é preciso que o assunto encontre um espaço sem julgamentos para ser falado, e isso faz toda a diferença para a prevenção.
"Conversar abertamente sobre suicídio é importantíssimo e pode ajudar muito aqueles que estão em grande sofrimento psíquico e vendo a morte como uma alternativa para dar um basta ao seu sofrimento", explica ao HuffPost Brasil a psicanalista Soraya Carvalho, coordenadora do Núcleo de Estudo e Prevenção do Suicídio (NEPS), na Bahia, membro da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (Abeps) e autora do livro A morte pode esperar? Clínica psicanalítica do suicídio (Campo Psicanalítico, 2014).
O ideal é que a pessoa seja escutada por um profissional especialista no assunto ou por voluntários do CVV (Centro de Valorização da Vida), que recebem treinamento para abordar pessoas em risco de suicídio. Entretanto, a família, um amigo ou um professor podem ajudar muito sem que tenham um preparo especial para lidar com tal assunto, desde que sigam algumas recomendações básicas e fundamentais.
É crucial partir do pressuposto de que a pessoa está mergulhada em grande sofrimento e de que ela mais precisa ser ouvida do que ouvir nossos conselhos, explica Carvalho. Portanto, é preciso escutar mais do que falar. "Acolher o sofrimento, escutando com atenção, neutralidade, respeito e interesse."
Segundo a especialista, podemos fazer isso a partir de duas perguntas essenciais:
1. O que há com você, o que está doendo?
2. Como posso lhe ajudar?
"Mas só pergunte se você puder escutar. Caso contrário, melhor nem iniciar o diálogo", pondera Carvalho. Ela explica o que significa poder escutar:
  • Não fazer julgamentos prévios e preconceituosos, baseados em ideias como "quem ameaça não se mata" e "quem quer morrer não avisa";
  • Não fazer interpretações como "suicídio é um ato para chamar atenção, manipular, de fraqueza, de covardia, de coragem, de falta de fé, de Deus ou de amor";
  • Evitar rótulos como "pessoa fraca" ou "desequilibrada";
  • Nunca minimizar, desvalorizar, comparar, rotular, abandonar, incentivar ou desafiar;
  • Sempre levar a sério, escutar sem julgamento, oferecer ajuda e acompanhar.
Um hábito comum, mas não recomendado, é sugerir que a pessoa precisa ter pensamento positivo, que ela tem que se ajudar ou reagir.
Nunca conheci alguém que tenha desistido da ideia de se matar porque recebeu um conselho desse tipo. Muito pelo contrário. O depoimento de pacientes é que este tipo de abordagem faz que se sintam ainda piores, uma vez que se sentem incapazes de melhorar porque isso não depende da vontade deles. Por isso me pergunto para quem serve este tipo de incentivo: para quem dá ou para quem recebe?

Atenção aos sinais

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), tirar a própria vida é a segunda principal causa da morte entre pessoas de 15 a 29 anos e já mata mais que o HIV. A cada dia, pelo menos 32 brasileiros se matam. Se houvesse prevenção, nove entre dez pessoas ainda estariam vivas.
"Todos podem prestar atenção aos sinais de que uma pessoa próxima pode estar pensando em se matar", afirma Carlos Correia, voluntário do CVV, entidade sem fins lucrativos que oferece apoio emocional gratuito e voluntário e prevenção do suicídio há 55 anos.
No fim de abril, o CVV, em parceria com a Safernet Brasil e o Facebook, lançou o guia "Ajude um Amigo em Necessidade", com dicas para identificar sinais de que um amigo pode estar enfrentando dificuldades emocionais e do que fazer para ajudar em situações como essa. Algumas das "pistas" aparecem em mensagens, fotos ou vídeos nas redes sociais com o usuário dizendo que se sente sozinho e desamparado. Irritabilidade ou hostilidade fora do comum também são indícios de que essa pessoa pode precisar de ajuda.
Mas alguns alertas podem ser bastante sutis, destaca a psicóloga Blanca Guevara Werlang, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), em um artigo para a Fapesp:
Elas [as pessoas] podem dar indícios mais diretos e dizer: 'Não quero mais viver', 'Um dia eu vou sumir' ou 'Vocês ainda vão sentir minha falta'. Ou dar pistas indiretas como alterar hábitos, começar a distribuir objetos pessoais ou visitar amigos e familiares que há muito tempo não vê.
O guia destaca a importância de demonstrar que não é errado pedir ajuda e de mencionar que há opções de assistência, como as oferecidas pelo CVV e pela Safernet, por meio do site www.canaldeajuda.org.br. Além disso, é fundamental buscar ajuda profissional com um psicanalista, psicólogo ou psiquiatra. "Se a pessoa fizer uma ameaça explícita de suicídio, deve-se ligar para o 190 ou para uma linha direta para prevenção de suicídio como a do CVV", reforça o serviço voluntário.

Ouvidos atentos

Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 141, para o CVV - Centro de Valorização da Vida, ou acesse o site. O atendimento é sigiloso e não é preciso se identificar.
O movimento Conte Comigo oferece informações para lidar com a depressão. No exterior, consulte o site da Associação Internacional para Prevenção do Suicídio para acessar redes de apoio disponíveis.



domingo, 6 de agosto de 2017

Por que você deve conversar com seus filhos sobre suicídio

O lançamento da série da Netflix 13 Reasons Why (baseada no livro homônimo, traduzido em português como Os 13 Porquês) e a divulgação de casos de mortes de adolescentes brasileiros com possível ligação com o desafio da Baleia Azul, nos últimos meses, colocaram em pauta o tema do suicídio entre jovens. O seriado conta a história de uma jovem que sofre bullying, abuso sexual e problemas na escola e, por isso, decide se matar. Antes, grava fitas para serem ouvidas pelas pessoas que considera culpadas por sua decisão. Já o desafio – que não se sabe ainda se é real e é alvo de investigação policial – tem sido divulgado como uma série de tarefas que um curador de grupo de WhatsApp envia para os membros, sendo que a última seria uma ordem de tirar a própria vida.

Diante desses dois eventos e de todas as discussões em torno deles (se a série foi feita de maneira educativa, se a cena de suicídio deveria ter sido tão expositiva, como evitar que jovens entrem no desafio…), pais têm se questionado sobre se e como devem abordar o assunto com os filhos. Encontro conversou com dois especialistas a respeito da questão. Eles apontam os problemas da série e a forma como o tema tem sido abordado, mas concordam que discutir o assunto em casa é essencial. Aliás, já seria, mesmo sem esses acontecimentos. 

ENTREVISTA 1 

Humberto Corrêa - Professor titular da Faculdade de Medicina da UFMG, vice-presidente da Associação Mineira de Psiquiatria, presidente da Associação Brasileira para o Estudo e Prevenção do Suicídio e presidente da Associação Latino-Americana de Suicidologia

Deve-se contar histórias de suicídio, especialmente em obras voltadas para o público jovem?
Falar sobre o assunto é fundamental, pois suicídio é questão de saúde pública no Brasil e no mundo. Na maioria dos países, está entre as principais causas de morte, e tem-se observado o aumento da mortalidade por suicídio na população entre 15 e 29 anos – no Brasil inclusive. Então é preciso falar do tema, sim, e sempre. Até porque é um assunto negligenciado, tabu. Contudo, há formas adequadas e inadequadas de se falar sobre isso. O seriado, em alguns aspectos, aborda o tema de maneira muito negativa.

Seria negativo o fato de a série mostrar o suicídio da protagonista de forma detalhada?
Sim. A série é destinada a adolescentes, que são um público mais propenso ao que chamamos de contágio do suicídio. Esse é um efeito que já se conhece há séculos. Sabe-se, por exemplo, que em uma escola, quando ocorre um suicídio, nos dias e semanas seguintes, aumentam a ideação suicida dos alunos, as tentativas e os suicídios. E a série mostrou o ato de forma detalhada. Isso é a primeira coisa que não se deve fazer: mostrar meios de se matar, porque isso dá o exemplo a outras pessoas.

A pessoa que tiver essa intenção não vai procurar formas de fazê-lo?
A maioria dos suicídios é impulsiva. Um exemplo concreto: qualquer medida de restrição do acesso ao método reduz a mortalidade por suicídio. Se a pessoa não tem acesso àquele meio na hora, a ideia passa e ela não se mata.

Como os pais podem lidar com o desafio da Baleia Azul?
Nós não temos a exata dimensão do que seja esse jogo no Brasil. Mas os adolescentes, que estão passando por um momento de formação de personalidade, têm essa tendência de se identificar em grupo, e às vezes é difícil para os adultos penetrar nos códigos que eles criam entre si. Isso faz parte do processo de individualização, e pode-se perceber que num grupo sempre há líderes e seguidores. Então isso faz parte do processo, mas é preciso estar atento. Se o pai perceber que o filho está envolvido em algo do tipo, é preciso dar um "não" imediatamente e chamar a polícia, pois quem promove esses desafios está cometendo um crime.

A que sinais os pais devem estar atentos?
Sabemos hoje que praticamente 100% dos suicidas tinham uma doença mental no momento em que se mataram. Em termos absolutos, a mais importante é a depressão. No adolescente, muitas vezes se pode identificar a depressão por mau desempenho na escola, isolamento, irritabilidade, mudanças no padrão de comportamento. E muitas vezes ele pode expressar tristeza, ideia de morte. E aí deve-se procurar ajuda profissional rapidamente.

Qual a importância de não se banalizar as questões pelas quais os jovens estão passando?

Alguns motivos podem nos parecer fúteis, mas não o são para eles. Na Inglaterra, estudiosos acompanharam adolescentes que haviam tentado suicídio por ter brigado com a namorada, tomado bomba na escola… Acompanharam esses jovens por dois anos. Depois desse tempo, 75% deles tentaram de novo, mesmo aquele motivo não existindo mais.

Políticas públicas de prevenção de suicídio têm efeitos consideráveis?
Países que definiram estratégias nacionais de prevenção têm conseguido, do ano 2000 para cá, reduzir 10%, 15%, 20% da mortalidade por suicídio. As estratégias variam, mas normalmente incluem, entre outras coisas, restrição ao método. Na Inglaterra, nos anos 1970, por exemplo, 90% das pessoas se suicidavam com gás de cozinha. Eles modificaram a fórmula do gás, e as pessoas deixaram de se matar assim. Houve uma pequena migração para outros métodos, mas inferior ao número de óbitos que conseguiram evitar. O Brasil, infelizmente, não tem nenhuma política nesse sentido.

ENTREVISTA 2

Juliana Marques Caldeira Borges - Psicanalista, presidente do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, vice-presidente do Círculo Brasileiro de Psicanálise e especialista na área da infância e adolescência

O que acha de o tema suicídio ter vindo à tona por causa da série e do desafio da Baleia Azul?
É um tema preocupante e que deve ser discutido, mas não pelo viés do sensacionalismo. Senão, perdemos a oportunidade de pensar na seriedade e profundidade da questão. O suicídio na adolescência não está restrito a esse momento da série ou do desafio. Abrange outras questões. E não é o mesmo ato para todos os adolescentes. Têm de ser levados em conta a particularidade do jovem e o momento pelo qual ele está passando.

Por que a senhora diz que não se pode tratar a questão de forma sensacionalista?
Existem estudos que apontam que mais de 90% dos suicídios na adolescência envolvem algum problema psíquico. Então, se o adolescente está adoecido psiquicamente e começa a ver que há muita notícia em torno de uma cena de suicídio, de um jogo, de algo que capta a atenção de toda a sociedade, ele também vai se interessar. Pode buscar aquilo que está vendo como ponto de identificação. Pode pensar "estou sofrendo como essa menina" ou "estou perdido como os jovens que participam do desafio".

Como os pais podem abordar o tema?
O grande engano dos pais é imaginar que falar sobre temas tabus fará com que filhos passem a ter uma ideia na cabeça que não tinham antes. Nenhum jovem vai fazer alguma coisa porque os pais chamaram para conversar sobre aquilo. Muitas vezes o adolescente já discute o tema fora de casa e não fala com a família, porque não achou espaço. Então os pais devem, sim, conversar, e de maneira que respeitem o jovem. Isso porque muitas vezes a conversa é unilateral - na verdade é só um sermão. Só se o filho se sentir respeitado, terá o desejo de compartilhar seu pensamento.

O que os pais devem esperar da adolescência?
Quando o filho é criança, os pais são referência. Nessa fase o filho escuta o que eles determinam sem muito questionamento. Na adolescência ele reflete sobre "quem eu sou", "meu desejo", "quem eu quero ser". Para lidar com isso, o jovem muitas vezes se afasta, pode apresentar-se um pouco arredio, sem querer estar perto dos pais ou aceitar sua fala. Nesse momento, o grupo de amigos é importante. Eles se juntam, fazem programas, têm comportamentos semelhantes. E os pais precisam entender que é importante respeitar esse grupo. Muitas vezes, os pais fazem críticas a um colega, como se estivessem desconsiderando a importância do grupo para o jovem. O filho pode se sentir ofendido e vai se afastar mais ainda da família.

E quais são os sinais de que existe um problema?
Costumo dizer que tudo que vem em exagero merece atenção. Agressividade acentuada, nervosismo grande, impaciência demais, comportamento que muda rapidamente… Isso pode apontar para uma questão psíquica mais séria ou para uso de drogas ou bebida. Da mesma maneira, um jovem que começa a se isolar demais, ficar só no quarto, que não tem nenhum amigo pode ser indicativo de que algo não vai bem. Também pode ser preciso ajuda para reconstruir o laço familiar, quando pais sentirem que não conseguem se aproximar dos filhos.

Como se envolver mais na vida do jovem sem que ele sinta que isso é uma invasão de sua privacidade?

Uma das características da adolescência é o sentimento de onipotência, de que nada de errado vai acontecer. Por isso os jovens têm tanta resistência quanto aos pais os monitorarem de perto. Então, isso tem de ser construído na família. Pais têm de conversar, orientar e dizer: "Se você perceber que está envolvido em algo complicado, tem de confiar em nós e talvez tenhamos de ver as mensagens juntos". Mas tudo é caso a caso. Não há uma norma geral. Se a situação ficar realmente complicada, podem também procurar a ajuda de um profissional.

http://www.revistaencontro.com.br/canal/revista/2017/05/por-que-voce-deve-conversar-com-seus-filhos-sobre-suicidio.html

domingo, 30 de julho de 2017

Há 23 anos, Robert Paris é voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV) . Como atual presidente da entidade, ele defende que a saída para diminuir as altas taxas de suicídio do país passa principalmente por abordar o tema, sem preconceitos ou tabus. 

Também é fundamental estabelecer um canal aberto de comunicação com os jovens, que respondem por 80% dos contatos com o CVV via chat. Ao todo, a organização recebe 1 milhão de contatos por ano, 90% pelo telefone.  Confira a entrevista:

Vocês ainda percebem muito preconceito ou tabu em relação ao suicídio?
Felizmente se fala um pouco mais sobre isso, mas o assunto ainda é tabu. Isso é a maior barreira para que as pessoas busquem ajuda. O suicídio está relacionado com algum distúrbio mental ou transtorno afetivo. 90% das pessoas que se matam têm algum transtorno. O estigma, o tabu, não conseguir ver com normalidade a doença mental é a principal barreira. 

O contato com o CVV continua acima da média devido ao 13 Reasons Why, seriado da Netflix, e o Desafio da Baleia Azul?
Esse Baleia Azul é um material criminoso, que é mais caso de polícia do que de saúde pública. Mas de uma maneira ou de outra, por causa da Baleia Azul e do seriado se fala mais do assunto. Então vamos aproveitar para falar de maneira produtiva e fazer com que as pessoas peçam mais ajuda e sejam mais ajudadas. Foi um pico, sim. Muitas pessoas que nos ligaram na ocasião continuam em contato conosco, o que é muito bom, principalmente os jovens. Eles precisam ter uma abertura, um canal de comunicação desentupido. O pico passou, nós estamos ainda atendendo muito e continuando no nosso ritmo. Mais importante é discutir o que precisamos fazer para nos aproximarmos dessa juventude, para que possam falar do que os preocupa, o que os desespera, para ter o acolhimento que precisam. Essa é a nossa luta. 

E como abrir esse canal com os jovens?
Em primeiro lugar é a questão do estigma mesmo. Quando você tem uma dor no joelho, você vai ao ortopedista e tudo bem. Quando vocês está se sentindo mal e aquilo te oprime mentalmente, você sabe que algo está errado e você não vê a mesma normalidade em procurar um psicólogo ou psiquiatra. Esse é o primeiro ponto. Coisas que acontecem na nossa vida podem nos levar a nos sentirmos mal por dentro. Falar sobre isso com a juventude, dizer que desabafar e comunicar é bom é fundamental. O CVV por exemplo abriu um canal para os jovens que é o chat. Há oito anos fizemos essa experiência e os jovens abraçaram. Eles respondem por 80% dos contatos por esse meio e a gente percebe que eles têm muito a falar. 

Como os pais podem ajudar?
Normalmente eles demonstram sinais. Mudanças de comportamento, tipo tinham um hobby e não querem mais fazer, o desempenho escolar de alguma maneira pode estar sendo prejudicado. Pode ser uma fase, mas é um sinal que não estão se dedicando as coisas. Irritabilidade e isolamento também exigem uma visão cuidadosa. Perguntar sempre "como você está se sentindo", não "por que está fazendo isso?". Evitar se aproximar do jovem de maneira crítica, mas acolhedora. Muitos jovens se automutilam, usam roupas compridas mesmo em dias quentes, tudo são sinais. Com as redes sociais também tem que tomar cuidado. Mas não costumo demonizar, porque tem muito auxílio que a gente pode dar nas redes também. A Câmara dos Deputados analisa pelo menos nove projetos de lei de prevenção ao suicídio incentivado por meio da internet.

Qual o papel da internet neste contexto?
A internet pode vir tanto para bem como para mal. A gente tem conversado muito com todos esses agentes, Twitter e Facebook, porque a gente tem que saber como tratar isso. Tem coisas que temos que denunciar e diminuir essa exposição. Mas suicídio é uma realidade e precisamos falar sobre isso. Quando as pessoas se sentem compreendidas, isso é quase que mágico. Elas percebem que não acontece só com elas. 17% da população brasileira vai pensar pelo menos uma vez em por fim a própria vida. Mas se você se sente um ET em ter um pensamento suicida já dificulta pedir ajuda e a gente em ajudar.


O que esperar do futuro, com a taxa de suicídio em ascensão?

É uma oportunidade, porque tem muita atenção em cima disso para que se tome medidas efetivas. O Ministério da Saúde está retomando o Plano Nacional de Prevenção ao Suicídio. As escolas precisam trabalhar a proximidade com os jovens, desenvolvimento de programas para habilidades socioemocionais, capacitação de professores. E precisamos de uma rede de saúde mental melhor estruturada, com capacitação do pessoal que atende, mesmo na atenção primária. Porque muitas vezes já se detecta os sinais na unidade básica de saúde mas isso não é cuidado ou relatado. Olha quanto sucesso tivemos com a Aids e outras campanhas, obviamente importantíssimas, mas que matam muito menos que o suicídio. São 12 mil casos por ano no país, nenhuma outra doença tem esses números. 



domingo, 23 de julho de 2017

Livro: As virgens suicidas ________________________ Jeffrey Eugenides

Orelha do livro: "Num típico subúrbio dos Estados Unidos nos anos 1970, cinco irmãs adolescentes se matam em sequência e sem motivo plausível. A tragédia, ocorrida no seio de uma família que, em oposição aos efeitos já perceptíveis da revolução sexual, vive sob severas restrições morais e religiosas, é narrada pela voz coletiva e fascinada de um grupo de garotos da vizinhança. O coro lírico que então se forma ajuda a dar um tom sui generis a esta fábula da inocência perdida.
Adaptado ao cinema por Sofia Coppola, publicado em 34 idiomas, o livro de estreia de Jeffrey Eugenides rapidamente se tornou um cult da literatura norte-americana contemporânea". 

Da contracapa:

No livro, conhecemos a história da família Lisbon, com suas cinco filhas - Cecilia (13 anos), Lux (14 anos), Bonnie (15 anos), Mary (16 anos) e Therese (17 anos). A narrativa começa com a tentativa de suicídio de Cecilia ...

   
"Segurando o queixo da menina com delicadeza, o médico perguntou: 'O que você está fazendo aqui, meu bem? Você nem tem idade para saber o quanto a vida pode se tornar ruim'.
E foi então que Cecilia forneceu oralmente aquilo que seria sua única forma de bilhete de suicídio [...]: 'É óbvio, doutor', ela disse, 'você nunca foi uma menina de treze anos'" (p. 11).


"Todo mundo tinha uma teoria para explicar por que ela havia tentado se matar. Para a sra. Buell, a culpa era dos pais. 'Aquela menina não queria morrer', disse a nós.  'Tudo que ela queria era sair daquela casa' " (p. 20).



domingo, 16 de julho de 2017

Cutting: automutilação na adolescência é indício de tristeza

O fenômeno - um transtorno mental manifestado em pequenos cortes pelo corpo - é diferente de tentativa de suicídio, mas a automutilação deve ser sempre tratada como uma demonstração de tristeza.

O que fazer ao perceber que seu filho está machucando a si mesmo? “A mesma coisa que faria ao perceber que ele está chorando”. Esta é a orientação da psiquiatra do Ambulatório da Infância e Adolescência do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq HC - USP), Jackeline Giusti. A automutilação deve ser sempre tratada como uma demonstração de tristeza, diz.

Pequenos cortes pelo corpo e a tentativa de escondê-los dos pais são os principais sintomas da automutilação, ou cutting, que é reconhecida como um transtorno mental desde 2013, segundo a psiquiatra. No Brasil, não existem estudos epidemiológicos sobre a automutilação, mas pesquisas feitas nos Estados Unidos mostram que a prática está ficando mais frequente na última década.

O mais importante é reconhecê-la como um transtorno mental que precisa de atenção e cuidado, por meio de avaliação psiquiátrica. Em casa, o apoio da família é essencial. Os pais não devem dar bronca ao perceber os cortes ou tratar o ato como travessura, mas sim oferecer conforto e compreensão. A família precisa entender que é um problema e que existe tratamento.

O cutting não tem como objetivo chamar a atenção, mas é usado como um escape para aliviar a tensão. Quem o pratica não quer que os pais saibam, porque quer continuar usando esse “analgésico” para dor emocional. Segundo Jackeline, quanto mais cedo o transtorno for tratado, maiores são as chances de a prática não se repetir.

As principais características do transtorno, que normalmente começa em torno dos 13 anos de idade, são pequenos cortes superficiais feitos pelo próprio adolescente, em locais do corpo que possam ficar escondidos sob a roupa, sendo os braços o local mais comum.

Segundo Jackeline, no entanto, a automutilação é diferente da tentativa de suicídio; a pessoa se corta mas sabe que não vai morrer por causa disso. “A motivação referida pelos pacientes é que eles se cortam para aliviar uma sensação ruim”, diz. Sensação de vazio, angústia, raiva de si mesmo, tristeza com ou sem motivo e até para relaxar são outros motivos apontados.

Filmes e vídeos podem incentivar
A automutilação muitas vezes está relacionada a outros problemas psicológicos, como depressão, ansiedade, transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e transtornos alimentares. Até a influência da mídia pode iniciar um episódio de cutting, porque o adolescente fica sabendo que a prática existe por meio de filmes, seriados ou em vídeos na internet. Segundo a psiquiatra, a adolescência é uma fase de experimentação, de modo que ver alguém se cortando pode ser suficiente para fazer também, seguir como se fosse uma “moda”, diz.

Nem todo adolescente que tenta o cutting uma vez vai continuar praticando. A pessoa só sente o alívio ao se cortar se já tem uma situação de estresse prévia; caso contrário, só sente dor. Se o paciente está em condição psicológica normal, ele não repete mais.

O transtorno também pode se manifestar sem a necessidade de influência externa. Segundo Jackeline, em um acesso de raiva, o adolescente se machuca, se fere sem querer com algum objeto e percebe que, com a dor física, ele sente algum alívio. Em pacientes que praticam por períodos longos, um ano ou mais, pode acontecer de se cortarem em momentos de tristeza e também de euforia. É como um vício, e a pessoa pode sentir a necessidade de se machucar mesmo sem estar passando por problema algum.

Apesar de diminuir ou até desaparecer com o tempo, a automutilação pode ocorrer em adultos. É um transtorno que tem idade para começar mas não para acabar, segundo a psiquiatra. Tende a diminuir depois dos 20 anos, mas, se não tratado, pode continuar ao longo da vida. E se o prejuízo social já é grande quando ocorre na adolescência, na vida adulta pode ser ainda pior.

O papel da escola
A escola precisa reagir ao observar qualquer processo de sofrimento com crianças e adolescentes, diz a integrante do Núcleo Vida e Cuidado e professora aposentada de Pedagogia do Centro de Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Ana Maria Borges de Souza. O professor que está em contato direto com os alunos tem que olhar com atenção para qualquer forma de sofrimento - observar o corpo, porque, muitas vezes, é ele que expressa o sofrimento.

A escola deve acolher afetivamente esse aluno, demostrar que está disponível para escuta e que pode compreender seus problemas. Segundo a professora, a conversa deve ser primeiro com o aluno, mostrando que a palavra da criança tem valor na escola. Essa conversa também deve servir para verificar se existe algum conflito familiar, e só depois a escola deve chamar a família para discutir o problema. “Se o motivo está em um problema em casa, chamar os pais primeiro pode ser ainda mais prejudicial para a criança”, diz.

Bullying
Sofrer bullying pode provocar o transtorno porque o adolescente busca uma forma de liberar a tensão que vive na escola. Se os cortes e marcas na pele são descobertos por outros alunos, podem virar motivo para o bullying. Segundo Ana Maria, nesses casos, a escola deve promover uma conversa com todos os envolvidos na situação. Levar o tema para a sala de aula, conversar com os amigos próximos da criança ou adolescente que está sofrendo, com os alunos que promovem o bullying, com o namorado ou a namorada.

De acordo com a professora, é necessária uma medida pedagógica que não foque apenas no sujeito que se corta, mas que também absorva o contexto e busque compreender os motivos que levam ao sofrimento, se é homofobia, racismo ou qualquer outro tipo de preconceito. A escola também precisa oferecer proteção - não individualmente, mas criar uma rede em torno do aluno vulnerável, mobilizando todo o grupo escolar. E, se identificada uma situação de violência doméstica, o caso precisa ser encaminhado para as autoridades competentes.

Tratamento
Transtornos mentais como o cutting não podem ser tratados apenas com medicamentos. Segundo Jackeline, o tratamento deve ser metade medicação e metade psicoterapia (acompanhamento psicológico). Como é muito comum ter outros problemas psiquiátricos associados, eles devem ser tratados ao mesmo tempo, mas sempre com o cuidado de utilizar remédios que não atrapalhem a vida escolar do adolescente.



domingo, 9 de julho de 2017

Artigo: O suicídio e sua essência transgressora

"Resumo: Este ensaio pretende discutir como o suicídio pode ser concebido por meio de suas características de transgressão do domínio da vida privada e do padrão ocidental de morte. Para demonstrar essa hipótese, nós discutiremos alguns eventos suicidas: fragmentos de cenas de suicídios privados, um suicídio público e um suicídio ocorrido no limite do espaço público-privado. Nossas análises apontam para o suicídio como transgressão em sua essência, no qual abordaremos as reações, de sujeitos e instituições, derivadas desse ato processual de violação de tabus que é o suicídio.

Palavras-chave: suicídio, comunicação, morte, tabu, cultura".

"Os eventos de suicídios talvez sejam uma das poucas situações nas quais é possível uma experiência com a morte na sociedade contemporânea, para além dos rituais de afastamento programados na cultura. Nestes rituais que envolvem um número de aparatos diversos, como velórios em lugares externos às residências, maquiadores profissionais, preparadores do “corpo”, crematórios, enterramento organizado por especialistas, e, principalmente, a morte no hospital; raras vezes a muralha em torno da morte pode ser transposta. Enfim, o fenômeno da morte tornou-se discreto e afastado dos olhos dos vivos, mas o suicídio não. Dessa forma temos, com o suicídio, uma transgressão da morte interdita".



domingo, 2 de julho de 2017

Como Apoiar um Amigo que Tentou Cometer Suicídio


"Se algum amigo seu tentou cometer suicídio recentemente, é bem provável que você esteja preocupado e ao mesmo tempo sem saber o que dizer. O melhor que se tem a fazer é oferecer o seu apoio e a sua amizade durante essa fase difícil. É muito importante pensar antes de falar e sempre lidar com a situação com carinho e amor.

 1. OFERECENDO SEU APOIO

 1. Esteja disponível. A melhor coisa que você tem a oferecer para um amigo que tentou cometer suicídio é estar presente para apoiá-lo. Abrace-o e ofereça o seu ombro e o seu ouvido para ajudá-lo a seguir em frente. Deixe claro que pode receber ligações e ficar com ele o tempo que for preciso. Obviamente, ele pode não querer falar sobre o ocorrido e pode também não ser tão expressivo quanto antes, o que é normal. Não deixe que isso o impeça de passar um tempo com ele; às vezes, a sua companhia é justo o que ele precisa. 
Não é preciso tocar no assunto do suicídio, mas esteja disposto a ouvir sobre ele caso seu amigo queira discuti-lo.
Caso a tentativa seja recente, ofereça o seu apoio e pergunte o que pode fazer para ajudar. Deixe claro que está feliz com a presença de seu amigo.
   
 2. Seja compreensivo. É difícil compreender o que levou seu amigo a tentar tirar a própria vida. É bem provável que você tenha alguns sentimentos diferentes quanto à tentativa, como raiva, culpa ou vergonha, mas seja compreensivo para ajudá-lo nesse momento tão difícil. Tente entender a dor imensa que estava por trás da tentativa, seja ela causada pela depressão, por um acidente, pelo desolamento, por uma perda recente, por uma doença, um vício ou pelo isolamento. Lembre-se de que seu amigo está sofrendo, independentemente da causa.
        É possível que você nunca compreenda o que se passa na cabeça de uma pessoa antes de uma tentativa de suicídio. Se você se importa com seu amigo e sabe o que tem ocorrido na vida dele, é possível se esforçar para compreender a dor dele.

    3. Ouça. Muitas vezes, o melhor que você pode fazer para seu amigo é ouvi-lo. Dê o espaço do qual ele precisa para se expressar e evite interrompê-lo ou tentar "solucionar" os problemas dele. Não compare a situação dele com a sua ou de qualquer outra pessoa; lembre-se de que os nossos sentimentos são únicos. Livre-se das distrações e concentre-se completamente em seu amigo para demonstrar que se importa.
        Ouvir pode ser tão importante quanto dizer a coisa certa. Quando estiver ouvindo, evite julgamentos e não tente perguntar os motivos dele. Concentre-se no que o seu amigo está sentindo e no que ele precisa de você.
        Caso ele queira discutir a tentativa o tempo inteiro, seja paciente e deixe-o falar por quanto tempo quiser. Trata-se de um modo natural de processar o ocorrido.
        
        
        4. Ofereça a sua ajuda. Não é preciso fazer nada grandioso; pequenos gestos também podem ser muito importantes. Pergunte do que ele precisa e ofereça a sua ajuda. Se possível, pergunte o que ele não quer, para que você não acabe fazendo algo desnecessário ou que vá piorar a situação.
            Por exemplo, caso ele esteja nervoso quanto às sessões de terapia, ofereça-se para acompanhá-lo até o consultório. Caso ele esteja se sentindo sobrecarregado com tudo, ofereça-se para cozinhar o jantar, cuidar dos filhos dele, entre outras coisas que possam deixá-lo mais relaxado.
            Ajudar com as menores tarefas pode fazer uma diferença enorme. Nunca pense que algo é pequeno demais.
            A ajuda também pode assumir a forma de tirar os problemas da cabeça dele. Caso ele esteja cansado de pensar no ocorrido, leve-o ao cinema ou para jantar.

        
        5. Aprenda mais sobre como ajudar. Caso a tentativa de suicídio seja recente e você acredite que ele possa tentar novamente, esforce-se para levar seu amigo para a segurança. Saiba quem chamar para pedir ajuda, seja um psicólogo, um pai ou mesmo a polícia em casos extremos. Existem também linhas diretas disponíveis 24 horas por dia, como o Centro de Valorização da Vida no número 141. 
O centro também pode ser contatado através de um chat online e do Skype.
http://www.cvv.org.br/
            Não hesite em ligar para o CVV nunca, pois eles têm voluntários treinados e dispostos a ajudar.
            Lembre-se de que você não pode fazer muita coisa sozinho. Os familiares e os outros amigos também devem ajudar a pessoa a se manter longe das coisas que possam despertar os pensamentos suicidas.
       
      
        6. Pergunte como mantê-lo seguro. Caso seu amigo tenha ido para o hospital após a tentativa ou esteja fazendo terapia, é bem provável que ele tenha um plano de segurança. Converse com ele para descobrir mais sobre o plano e sobre como você pode ajudar. Caso ele não tenha um plano, faça algumas pesquisas na internet para ajudá-lo a criar um. Aprenda a identificar quando ele estiver sobrecarregado e descubra como pode ajudar. Peça a colaboração dele para saber quais sinais você deve ficar de olho para intervir, se necessário.
            Por exemplo, seu amigo pode comentar que não saiu da cama o dia inteiro e está evitando telefonemas, um sinal de que ele está se afastando dos outros. Essa pode ser a hora de chamar alguém que pode ajudar.

        
        7. Ajude o seu amigo a seguir com a vida. Ele deve consultar um terapeuta ou algum outro profissional de saúde mental e, em alguns casos, tomar remédios. Além de apoiá-lo na busca de ajuda, você também pode ajudá-lo com pequenas mudanças na vida. As mudanças não devem ser drásticas no começo, lembre-se!
            Por exemplo, caso a depressão tenha se originado em um relacionamento fracassado, você pode ajudar seu amigo a se distrair planejando atividades divertidas. Com o tempo, ajude-o a voltar para a vida amorosa.
            Caso a depressão tenha se originado do sentimento de que a vida profissional dele está acabada, ajude-o a atualizar o currículo ou converse com ele sobre retomar os estudos.

        
        8. Não fique sozinho. Não se considere egoísta por pedir ajuda de outras pessoas (amigos, parentes e mesmo profissionais de saúde) para apoiar o seu amigo. Fazê-lo pode ajudá-lo a não ficar sobrecarregado. Caso comece a ficar esgotado, diga ao seu amigo que precisa passar um tempo sozinho ou com outros amigos para cuidar de si. Lembre-o de que precisa apenas recarregar as baterias e que logo voltará renovado. Se possível, defina alguns limites e deixe claro o que pode fazer e o que não está disposto.
            Por exemplo, deixe claro que ficaria feliz em jantar uma vez por semana com seu amigo, mas que não vai esconder os problemas dele e que vai buscar ajuda quando necessário.
            Seu amigo não deve pedir que você guarde segredo sobre a tentativa de suicídio. Pessoas próximas e importantes devem saber do ocorrido para que também possam ajudar.
        Ofereça um pouco de esperança sobre o futuro. Fazê-lo pode impedir futuras tentativas de suicídio. Faça com que seu amigo pense e fale sobre a esperança; pergunte sobre como ela o tem influenciado ultimamente. Algumas coisas para se perguntar:
            Para quem você ligaria para pedir ajuda para sentir-se mais esperançoso?
            Quais sensações, imagens, sons, cores ou objetos você costuma associar com a esperança?
            Como fortalece e alimenta a sua esperança?
            Quais coisas costumam ameaçar a sua esperança?
            Tente imaginar uma imagem que represente esperança para você. O que vê?
            Para onde você corre quando está se sentindo desolado?

        
        10. Mantenha o contato. Esforce-se para deixar claro que está pensando em seu amigo, mesmo quando estiverem separados. Pergunte se pode manter o contato e qual seria a frequência ideal. Pergunte também qual o método preferido dele para manter o contato, seja por telefone, mensagem de texto ou visitas.
            Não há necessidade de perguntar sobre o suicídio com frequência, a menos que pense que o problema possa se repetir. Simplesmente pergunte como ele está e se precisa de algo.

        
        11. Fique atento aos sinais de alerta. Não pense que seu amigo nunca mais vai tentar se machucar novamente só por ter fracassado antes. Infelizmente, cerca de 10 % das pessoas que tentam cometer suicídio acabam se matando mesmo. Isso não significa que você deve observar todos os movimentos dele, mas que deve ficar vigilante para os sinais de alerta que indicam o suicídio. Se acredita que há uma chance da tentativa ocorrer novamente, converse com alguém e peça ajuda, principalmente ao notar ameaças ou discussões sobre automutilações e suicídio. Lembre-se dos sinais:

  •  Desejo de morrer
  •  Abuso de substâncias
  •  Falta de propósito
  •  Ansiedade
  •  Sensação de aprisionamento
  •  Desesperança
  • Afastamento
  • Raiva
  • Imprudência
  • Mudanças no humor

         PARTE 2 - EVITANDO COMPORTAMENTOS NOCIVOS


               
        1. Não dê um sermão. O que seu amigo precisa agora é de amor e apoio, não de lições de certo e errado. Ele provavelmente sente vergonha e culpa pelo que fez. Um sermão não o ajudará a se aproximar da pessoa ou a manter o relacionamento de vocês.
            Há uma chance de que você esteja bravo com a tentativa de suicídio e queira perguntar por que ele não pediu ajuda[25], mas questionar não ajudará em nada na relação de vocês, principalmente se a tentativa for recente.

        
     
        2. Reconheça a tentativa de suicídio. Não finja que nada aconteceu e espere que as coisas voltem ao normal. Nunca se deve ignorar completamente o ocorrido, mesmo que seu amigo não toque no assunto. Diga algo gentil e demonstre o seu apoio, mesmo que acabe se atrapalhando no meio da conversa. É melhor tocar no assunto do que não dizer nada.
            Por exemplo, uma opção é dizer que sente muito pelo que seu amigo estava passando e perguntar se há algo que você pode fazer. Lembre-se de reforçar que se importa muito com ele.
            Você está em uma situação desconfortável e é normal não saber como agir. Ninguém sabe muito bem como lidar com um amigo que tentou cometer suicídio.

               
        3. Leve a tentativa de suicídio a sério. Muitas pessoas acreditam que trata-se apenas de um modo de chamar atenção e que a pessoa não estava levando a situação a sério. Trata-se de uma questão muito séria e que demonstra que existe uma dor emocional muito grande por dentro da pessoa. Nunca diga que ele estava tentando chamar a atenção, pois você apenas menosprezará a seriedade da decisão dele e diminuirá as emoções dele ao mesmo tempo.
            Seja o mais sensível possível. Se disser que seu amigo estava apenas tentando chamar atenção, você demonstrará que não está realmente tentando compreender a situação.
            Por mais que seja mais fácil minimizar os problemas dele, fazê-lo não o ajudará em nada.

         4. Não faça seu amigo sentir-se culpado. Fazê-lo é insensível, mesmo que você se sinta magoado ou traído por conta da tentativa de suicídio. Ele provavelmente já está sentindo culpa ou vergonha por preocupar aqueles ao redor. Em vez de dizer algo como: "Você não pensou em seus amigos ou familiares?", tente demonstrar empatia.
            Lembre-se de que ele provavelmente ainda está depressivo ou frágil. O que ele precisa agora é de apoio e amor.
        
        Dê tempo ao tempo. Não existe nenhuma solução fácil ou rápida para uma tentativa de suicídio. Não se deve esperar que remédios vão simplesmente deixar tudo bem de um dia para o outro. O processo de pensamento que leva ao suicídio é bastante complexo, assim como o processo de recuperação. Por mais que seja importante fazer com que seu amigo busque ajuda, não menospreze os problemas dele dizendo que a solução é simples.
            Você provavelmente quer tirar a dor de seu amigo para que tudo volte ao normal. Lembre-se de que ele deve lutar contra a dor, e o máximo que você pode fazer é apoiá-lo e oferecer a sua ajuda.
       
Dicas
            Planeje atividades que ajudem no bem-estar. Saiam para caminhar ou nadar, por exemplo. Dê ao seu amigo algo pelo qual ficar empolgado.
            Deixe claro que é natural chorar e sentir emoções fortes ou conflitantes, mas reforce que não é saudável ficar sobrecarregado com elas. Seja uma fonte de inspiração.
       Não sinta-se pressionado a fazer algo grandioso. A sua companhia provavelmente é o suficiente. Esteja presente na vida de seu amigo para ajudá-lo.
            Não sinta pena demais, ou seu amigo pensará que é um fardo, o que pode aumentar a depressão.
      
Avisos
            Qualquer relação com uma pessoa depressiva ou suicida pode ser difícil e desafiadora.
            Não importa quão sincero você seja ao tentar ajudar, a sua amizade pode ser rejeitada. Não leve para o lado pessoal; a depressão dificulta muito a aceitação da ajuda, mesmo de pessoas conhecidas.
            Tome cuidado para não deixar o seu amigo acuado ou preso durante a primeira conversa após a tentativa de suicídio. Demonstre o seu apoio".

http://pt.wikihow.com/Apoiar-um-Amigo-que-Tentou-Cometer-Suic%C3%ADdio

Brasil poderá ter evento nacional destinado à prevenção do suicídio

Começa a tramitar nesta terça-feira (30) no Senado um projeto de lei que institui a Semana Nacional de Valorização da Vida, um evento anual para prevenção ao suicídio. Durante a semana, governos e sociedade deverão promover atividades em todo o país para debater estratégias de conscientização e esclarecer a população sobre questões como o que pode levar alguém a tirar a própria vida, quais os possíveis sinais de alerta e onde procurar ajuda. O evento deverá ser realizado na semana do dia 10 de setembro, Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio.

O projeto, do senador Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), é uma resposta a uma preocupação antiga de entidades médicas. O suicídio é um grave problema de saúde pública. Faz mais vítimas do que a guerra e os homicídios, somados. É a segunda causa de morte de jovens no mundo. Mata mais do que o HIV. E apesar dessa gravidade, ainda é um tabu, cercado de preconceitos e do qual pouco se fala.
Doze mil pessoas se matam a cada ano no Brasil, e os números estão crescendo. A maioria dessas mortes poderia ser evitada, sustentam profissionais da área. Mas o tabu prejudica a prevenção, impedindo que mais gente em sofrimento procure ajuda. Por isso, é preciso falar sobre suicídio, rompendo o silêncio para informar a população.
— Temos 800 mil casos de suicídio por ano no mundo. Esse problema precisa ser debatido abertamente, não pode ser ignorado — diz Garibaldi, que acredita que a campanha ajudará a reduzir essas mortes no país.

Preocupação mundial


A Organização Mundial da Saúde (OMS) já reconhece o suicídio como prioridade e ressalta que as mortes, em 90% dos casos, podem ser prevenidas, se quem está em risco receber assistência.
A organização conclamou os países-membros a diminuir a incidência em 10% até 2020. O Brasil é um desses países. Aqui, porém, os números estão aumentando (veja quadro).

Entidades médicas criticam a falta de campanhas governamentais de prevenção e a insuficiência da rede pública de atenção psicossocial, que inclui, entre outras estruturas, os centros de atenção psicossocial (os Caps, que hoje são quase 2,5 mil no país). Também condenam a lentidão do governo em tirar do papel as diretrizes nacionais de prevenção ao suicídio, de 2006.
Agora, 11 anos depois, o governo deve lançar em setembro o Plano Nacional de Prevenção ao Suicídio. O anúncio foi feito pelo coordenador de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Quirino Cordeiro Junior, durante a audiência pública promovida na quinta-feira pela Comissão de Assuntos Sociais (CAS) para instruir o projeto de Garibaldi. O plano terá três eixos principais: fortalecimento do cuidado com pessoas com transtornos mentais, já que a presença desse tipo de transtorno é o principal fator de risco; ações de prevenção; e foco em informação e mídia.
Cordeiro anunciou também uma parceria com o Centro de Valorização da Vida (CVV) para disponibilização de um telefone gratuito de atendimento. O serviço do CVV não é cobrado, mas as ligações para o 141 pagam pulso telefônico. O número gratuito (188) já está funcionando no Rio Grande do Sul. A gratuidade, inclusive para quem liga de celular, resultou em um aumento de ligações para o serviço.

Doenças mentais

Garibaldi relata que decidiu apresentar o projeto após ser procurado por integrantes da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), que expuseram a ele a importância de combater o estigma em torno do suicídio e também da doença mental. Por isso, outro foco da Semana de Valorização da Vida será mobilizar a sociedade contra o preconceito em relação a essas doenças, que estão diretamente relacionadas ao risco de morte autoinfligida.
Coordenadora da Comissão de Estudo e Prevenção ao Suicídio da ABP, a psiquiatra Alexandrina Meleiro explica que, segundo a literatura médica mundial, a grande maioria das pessoas que se suicidaram tinha, ao menos no momento do ato, uma patologia mental, como depressão, e não foi devidamente tratada. Esses casos eram passíveis de prevenção, diz. Para a psiquiatra, é preciso deixar de ter medo de falar sobre o assunto:
— Se conseguirmos vencer o preconceito contra a doença mental, vamos poder identificar e tratar mais pessoas que precisam de ajuda.
A presidente da Associação Psiquiátrica de Brasília, Maria Dilma Teodoro, ressalta que o desconhecimento da sociedade sobre a depressão e outros transtornos mentais impõe uma dor extra a quem sofre do mal:
— Na depressão, que é uma das patologias com maior prevalência de suicídio, as pessoas acham que você não é forte, que tem que reagir. Não entendem que você não consegue reagir porque tem uma doença que traz alterações cerebrais que fazem com que surjam aqueles sintomas.
Isso faz com que o indivíduo, quanto mais é criticado, mais se recolha e se sinta incapaz, às vezes buscando o suicídio para aliviar o sofrimento, diz ela:
— Por causa desse preconceito, dessa dificuldade de buscar ajuda, estamos perdendo pessoas, e famílias estão sofrendo.


Baleia Azul

Desde abril, um repentino interesse pelo tema tomou conta das conversas na mídia, nas escolas, nas famílias. Um falso jogo virtual, o Baleia Azul — acusado de incentivar a automutilação e o suicídio entre jovens —, e uma série sobre uma garota que se mata, Os 13 Porquês (13 Reasons Why, no original), alarmaram a opinião pública, trazendo à tona um problema que costumava ficar encoberto. No Brasil, o suicídio vem crescendo mais entre os jovens do que em outras faixas etárias. Na população em geral, o número aumentou 10% desde 2002. Entre jovens, cresceu 33%.
Para entidades como a ABP e o Conselho Federal de Medicina (CFM), que em abril lançaram uma nota pública para esclarecer a população sobre o Baleia Azul, esses acontecimentos foram uma oportunidade para orientar sobre o problema. Na nota, as entidades alertam para o equívoco de simplificar o comportamento suicida, associando-o a uma única causa, e esclarecem sobre a relação com transtornos mentais, lembrando que crianças e adolescentes em sofrimento estão mais vulneráveis a conteúdos desse tipo. A nota também orienta pais, escolas e profissionais de saúde a estarem atentos para identificar condutas de risco.
Mas se serviu para despertar o interesse pelo assunto, por outro lado a reação aos dois eventos mostrou o despreparo de parte da mídia ao lidar com o tema e a incapacidade da população de discernir entre boatos e informações verdadeiras na internet, avaliam especialistas.
Durante a audiência na CAS, o psicólogo e diretor de Educação da SaferNet Brasil, Rodrigo Najm, afirmou que o desafio Baleia Azul surgiu de uma fake news (notícia falsa) divulgada na Rússia, em 2016, e que se alastrou por causa da cobertura sensacionalista da imprensa. A notícia teria chegado ao Brasil ironicamente no dia 1º de abril, veiculada por uma emissora de TV, e passou a ser disseminada na mídia e na rede, sem que houvesse preocupação em checar as informações.
Investigações feitas pela SaferNet (associação de defesa da cidadania e dos direitos humanos na internet) e outras entidades concluíram que não há um grupo estruturado por trás do desafio, e sim pessoas em vá- rios países que se aproveitaram das falsas notícias para atrair seguidores ao suposto jogo. Com isso, o que era boato tornou-se um risco real, diz Najm.
O psicólogo ressaltou que é importante não demonizar a internet, e sim usar o poder da rede para multiplicar informações corretas e falar de prevenção.

Jovens em risco

 Gabriela tinha 13 anos quando tentou se matar pela primeira vez. Ficava triste por não entender o que estava sentindo. Com o tempo, passou a achar que não havia saída. Ela ainda não sabia que sofria de depressão.

— Na época, não tive coragem de falar com meus pais. Não conseguia expressar verbalmente o que estava sentindo. Tive medo.
Em situações de angústia, ela fazia cortes nos braços e nas pernas, como forma de aliviar a dor. Depois de duas tentativas de suicídio, resolveu pedir ajuda e viu que não estava sozinha.
— Cheguei a um ponto em que me deixei ser ajudada. E isso foi crucial para conseguir melhorar — diz, lembrando que “ninguém tem culpa de ter uma doença psicológica, não é algo que a pessoa escolhe ter”.
O relato de Gabriela, hoje com 21 anos, integra a reportagem “Prevenção ao Suicídio — É preciso falar. É possível salvar vidas”, da Rádio Senado, que em abril ganhou o Prêmio de Comunicação da CNBB.
O depoimento expressa a complexidade de perceber condutas de risco em jovens. A psiquiatra Alexandrina Meleiro diz que os pais precisam estar atentos para identificar sinais de depressão ou ideação suicida em uma fase em que as alterações de humor e de comportamento podem ser vistas como “coisa de adolescente”.

 

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Além da depressão, o abuso de drogas (especialmente o álcool), o bullying, o abuso sexual e a agressão física estão entre os fatores que podem levar a condutas de risco.
Mudança brusca de comportamento, isolamento social, abandono de atividades prazerosas e tristeza persistente são alguns dos sinais de alerta. Os pais também devem perceber alterações do sono e apetite, queda no rendimento escolar, lesões sem razão aparente (sugerindo automutilação) e mensagens de desesperança, despedida ou com conteúdo de morte nas mídias sociais. Se algo for observado, é preciso conversar e procurar tratamento, diz ela:
— Os adolescentes sofrem calados muitas vezes, porque têm vergonha de dizer o que estão sentindo. Os pais devem abordar o assunto com carinho, atenção e sobretudo compreensão. Não questione seu filho já com crítica, julgamento, represália. É a compreensão, o estar junto, que fará com que ele possa se abrir e ser cuidado.
Ela cita também a importância de fatores protetivos, como família, amigos ou crença religiosa.

Apoio emocional

Em abril, quando o tema suicídio ganhou a mídia, o posto de atendimento do CVV de Brasília teve um aumento de 150% nos atendimentos. Para o voluntário Marcio Peixoto, isso mostra que, quando o assunto é divulgado de forma correta na mídia, com foco nas formas de prevenção, mais pessoas procuram o serviço.
— As pessoas querem falar, dividir sua angústia, e muitas vezes têm vergonha de se abrir com um familiar ou um amigo. O que fazemos é ouvir de forma empática, verdadeira, e com sigilo. Não temos registro de quem liga. Estamos aqui para dar atenção a quem nos procura, não para julgar.
Criado em 1962 no Brasil, o CVV é um serviço de utilidade pública que oferece apoio emocional e prevenção ao suicídio. O centro registra 1 milhão de atendimentos por ano no país e tem 2 mil voluntários treinados.
Em Brasília, 60 voluntários atuam para manter o atendimento 24 horas por dia, todos os dias. Atendem pelo telefone 141 e por chat, e-mail e Skype.
Peixoto diz que, muitas vezes, a tentativa de suicídio é um pedido de ajuda. A pessoa quer se livrar do sofrimento, e não necessariamente tirar a própria vida.
— É importante ouvir as pessoas. Isso é algo que quase não se consegue fazer hoje em dia. É importante que a gente olhe em volta, observe quem está no nosso entorno: pode ser alguém em sofrimento. É preciso estar atento para poder ajudar.

domingo, 25 de junho de 2017

Como '13 Reasons Why' nos alerta das metáforas do desespero adolescente

Especial para o HuffPost Brasil


A série '13 Reasons Why' aborda o sofrimento e o suicídio de adolescente.
"Oi, é a Hannah. Hannah Baker."
Assim começam as últimas palavras da protagonista de 13 Reasons Why, produção original da Netflix que estreou na última sexta-feira (31).
Nó na garganta para uns, ameaça para outros, a desconfortável despedida de Hannah é um convite urgente da série para pensarmos os efeitos das palavras na vivência adolescente em um contexto de emoções subestimadas.
A gravação, deixada em analógicas fitas K7, lista os 13 motivos pelos quais Hannah, de 17 anos, decidiu terminar seu sofrimento com um suicídio. Cada motivo corresponde a um episódio.
Apesar de este texto conter alguns spoilers, o suicídio não é um deles. É a premissa da narrativa, baseada no livro homônimo de Jay Asher, de 2007, e que no Brasil foi lançado com o título Os 13 Porquês (Ática, 2009).
Enquanto o colega Clay Jensen, de 17 anos, ouve as fitas, acompanhamos a trajetória de Hannah, do próprio Clay e de alguns alunos na Liberty High School e nos espaços que orbitam a escola de ensino médio, como a lanchonete frequentada por eles (Monet's), as festas e as casas de cada um.
Dois lares são especialmente abordados: o dos pais de Hannah, enlutados e marcados pela ausência brutal da única filha, e da família de Clay, cujos pais tentam traçar alguma comunicação com o filho que nada revela.


Divulgação/Netflix
Com sua trama e linguagem adolescentes, 13 Reasons Why à primeira vista pode parecer uma novelinha de angústias particulares, mas desenvolve profundidade e temáticas obrigatórias não só para pais de crianças e adolescentes, como também para a sociedade como um todo.
Nos EUA, a assustadora recorrência de tiroteios em escolas nos leva a pensar em um problema localizado, mas o bullying e o cyberbullying presentes nos colégios brasileiros estão relacionados a desfechos igualmente trágicos, como automutilações, agressões e assassinatos.
Mais do que alarmante, a narrativa é uma tentativa de entendimento do suicídio para fins preventivos e também reflexivos. Sinais que passam despercebidos, metáforas de desespero não assimiladas e sofrimento silenciado costumam vir à tona tardiamente como pedido de ajuda, gerando ainda mais angústia diante do irreversível.
Longe da ficção, Sue Klebold, mãe de Dylan Klebold, um dos adolescentes responsáveis pela tragédia na escola americana Columbine, em 1999, se recrimina por não ter percebido as intenções do filho que, antes de se suicidar, atirou e matou colegas da escola:

Seus amigos mais próximos, garotos com quem ele conviveu todos os dias durante anos, não sabiam quanto ele estava desesperado. Alguns se recusam a acreditar nessa caracterização até hoje. Mas eu era a mãe dele. Eu deveria saber.Sue Klebold, no livro 'O Acerto de Contas de uma Mãe – A Vida Após a Tragédia de Columbine'
O suicídio pressupõe uma dolorosa especulação: por que uma pessoa amada resolve desistir da própria vida? Em um dos momentos mais comoventes da série, a mãe de Hannah, Olivia, lamenta a ausência de um bilhete que dê algum tipo de justificativa para a decisão da filha.
Nem Olivia nem o marido, Andy, conseguem conciliar a memória que tinham da garota com o presente devastador que agora precisam enfrentar. Para tentar suprir essas lacunas, entram na Justiça pedindo a responsabilização da escola.
13 Reasons Why não deixa de ser um preenchimento ficcional em cima de uma angústia, uma fantasia de explicação que permite dar sentido ao que aconteceu -- pois na vida real não temos tais respostas, mesmo quando bilhetes ou posts nas redes sociais são deixados.

Transbordamento sem aviso prévio

Nas 13 motivações de Hannah, narradas como acontecimentos que vão aumentando a falta de perspectiva no futuro, o suicídio não é apontado como desfecho dramático de um acontecimento único, como o cyberbullying de uma foto mal-intencionada, uma humilhação na frente de toda a classe ou o fim de um relacionamento. "O suicídio é o desfecho de uma série de fatores que se acumulam na história do indivíduo", esclarece a Associação Brasileira de Psiquiatria.
A ideia suicida vem do acúmulo de situações, como um copo que vai se enchendo e que transborda com uma gota d'água (a perda de um emprego, por exemplo), levando à sensação de total impotência e desespero, explicaram ao HuffPost Brasil os voluntários do Centro de Valorização da Vida (CVV), que há 55 anos atua na prevenção do suicídio no Brasil.

"Dificuldades financeiras, assim como guerras, ditaduras e outros cenários críticos podem ser fatores de pressão externa e 'adicionar água ao copo' de muitas pessoas, mas não podem ser apontados como motivos exclusivos de suicídio. Cada pessoa tem um limite próprio e reage de maneira diferente aos mesmos estímulos, então é essencial sempre encontrar maneiras de 'esvaziar o copo' antes que chegue na borda."
Esvaziar o copo, porém, passa pelo reconhecimento de que este esteja cheio, e na vivência adolescente, em que as emoções particulares de cada um ficam obscurecidas, camufladas ou disfarçadas, o transbordamento chega sem aviso prévio.
Comportamentos que poderiam ser interpretados como sinais, como o silêncio ou a agressividade, são reduzidos à faixa etária: "isso é fase, vai passar". Como se a adolescência em si justificasse os sintomas apresentados...
A transição de uma criança para o universo adulto jamais deveria ser tratada como banal, e esta parece ser a maior contribuição de 13 Reasons Why.
No mundo adulto da independência e das responsabilidades cabem a raiva, a tristeza, o medo e a dissimulação. Por que haveria de ser diferente no "não-lugar" que é a adolescência, esse período da vida em que um pé está no infantil, e o outro ensaia passos adultos?
A intensidade dos sentimentos tem resposta proporcional à maneira como as pessoas reagem ao que é dito para elas. Uma ofensa em um vulnerável período de constituição da identidade faz reverberar inseguranças e frustrações, e só mesmo a ressignificação daquilo que machuca poderia dar ou devolver o sentimento de integridade.
Hannah tenta colocar em palavras, para destinatários específicos, as suas motivações. Curiosamente, ao terminar a fita 12, Hannah sente certo sentido em viver. Mas o que ocorre é a mortal impossibilidade de conseguir conversar com os pais, com Clay ou com o conselheiro da escola.
Ela não encontrou escuta para seu sofrimento nem insistiu em tentar comunicá-lo, muito possivelmente por não saber colocá-lo em palavras.
Crianças invariavelmente recorrem aos jogos e brincadeiras para expressar o que se passa em seus mundos internos. Nem a mais aparente eloquência de um adolescente, porém, pode garantir que ele consiga dar vazão às suas emoções. Ao mesmo tempo, a escola dela falhou em fazer a escuta sensível daquilo que não se consegue pronunciar.


A Comunicação Indispensável

As redes sociais se apresentam como poderosos meios de comunicação, mas como vemos no cyberbulling de Hannah, também configuram novas formas de sofrimento e ressaltam, para mais pessoas, desamparos e desesperos alheios.
O público suplanta o íntimo, e prevalecem as aparências em detrimento de um interior necessitado, mas sem a gramática necessária para pedir ajuda.
Clay demonstra, em vida, essa falta de comunicação dos próprios sentimentos, reservando às lágrimas no chuveiro e à raiva as únicas possibilidades de extravasar seu (temporariamente) arruinado mundo particular.
Falar de suicídio é falar de prevenção; é dar nome ao que atormenta e ao que se apresenta como impossível. A cada dia, pelo menos 32 brasileiros se matam, segundo dados do Ministério da Saúde e da OMS.
A prevenção poderia salvar a vida de nove entre dez pessoas que hoje se suicidam. A produção da Netflix parece encampar essa mensagem com personagens que podem ser reconhecidos em escolas de todo o mundo.
O estímulo à prevenção surtiu efeitos, pelo menos no Brasil. Segundo o CVV, desde a estreia do série, os pedidos de ajuda ou de conversa enviados por e-mail aumentaram em mais de 100%, com 25 mensagens mencionando 13 Reasons Why.
Ainda que apresentada como série adolescente de mistério, com personagens carismáticos e algumas tiradas de humor, 13 Reasons Why não foge do incômodo e da perplexidade provocados por um suicídio. O tempo todo se especula em torno da narrativa de Hannah, até que o suicídio em si abruptamente nos coloca na posição de encarar o fato, a decisão, a dor e a finitude que vem com ele.
O que a ficção da série consegue é um debruçar nosso sobre o insuportável da realidade, sobre aquilo que não se diz, nem tampouco se escreve. Sobre a angústia da ausência de respostas, e sobre a inibição de perguntas que podem apontar novos caminhos diante do sofrimento insuportável, porém, reversível.