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Este blog é um dos produtos da pesquisa de Mestrado "Cuidado, frágil: aproximações e distanciamentos de trabalhadores de um CAPS na atenção ao suicídio" e inclui sugestões de leitura, frases que me marcaram e vídeos que podem ser utilizados por pessoas ou grupos como disparadores para discussão e reflexão da questão do suicídio – seja na prevenção ou na compreensão dos fatores que podem estar por trás deste fenômeno - buscando compreender o sofrimento que está por trás deste acontecimento.

domingo, 13 de agosto de 2017

Prevenção do suicídio: Como podemos ajudar as Hannahs da vida real?

Difícil mensurar com precisão, mas a impressão é de que nunca se falou tanto em suicídio. O assunto mais marginal da imprensa vazou os tabus que o confinavam ao silêncio e avançou principalmente nos comentários do público. A discussão foi puxada pela série de ficção 13 Reasons Why, da Netflix, sobre a qual refletimos aqui, e estendida com o desafio da Baleia Azul, cujos boatos e realidades exploramos aqui.
Com mais de 11 milhões de tweets em 20 dias, 13 Reasons Why é a série mais comentada de 2017 até agora no Twitter, segundo dados obtidos pela revista norte-americana Variety. Na trama, Hannah, uma garota de 17 anos, grava em fitas K7 os 13 motivos pelos quais ela decidiu se matar. Os 13 episódios da série mostram o que ocorre após o suicídio, com uma narrativa que cruza o tempo presente - e os efeitos dolorosos vividos por seus pais e por quem a amava - com o passado dos relatos de sofrimento da garota.
Para além da ficção e dos temores com o Baleia Azul, o suicídio apareceu nas conversas com uma preocupação: o que pode ser feito para ajudar uma pessoa querida que esteja pensando ou planejando se matar?
Para que tal auxílio ocorra, é preciso que o assunto encontre um espaço sem julgamentos para ser falado, e isso faz toda a diferença para a prevenção.
"Conversar abertamente sobre suicídio é importantíssimo e pode ajudar muito aqueles que estão em grande sofrimento psíquico e vendo a morte como uma alternativa para dar um basta ao seu sofrimento", explica ao HuffPost Brasil a psicanalista Soraya Carvalho, coordenadora do Núcleo de Estudo e Prevenção do Suicídio (NEPS), na Bahia, membro da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (Abeps) e autora do livro A morte pode esperar? Clínica psicanalítica do suicídio (Campo Psicanalítico, 2014).
O ideal é que a pessoa seja escutada por um profissional especialista no assunto ou por voluntários do CVV (Centro de Valorização da Vida), que recebem treinamento para abordar pessoas em risco de suicídio. Entretanto, a família, um amigo ou um professor podem ajudar muito sem que tenham um preparo especial para lidar com tal assunto, desde que sigam algumas recomendações básicas e fundamentais.
É crucial partir do pressuposto de que a pessoa está mergulhada em grande sofrimento e de que ela mais precisa ser ouvida do que ouvir nossos conselhos, explica Carvalho. Portanto, é preciso escutar mais do que falar. "Acolher o sofrimento, escutando com atenção, neutralidade, respeito e interesse."
Segundo a especialista, podemos fazer isso a partir de duas perguntas essenciais:
1. O que há com você, o que está doendo?
2. Como posso lhe ajudar?
"Mas só pergunte se você puder escutar. Caso contrário, melhor nem iniciar o diálogo", pondera Carvalho. Ela explica o que significa poder escutar:
  • Não fazer julgamentos prévios e preconceituosos, baseados em ideias como "quem ameaça não se mata" e "quem quer morrer não avisa";
  • Não fazer interpretações como "suicídio é um ato para chamar atenção, manipular, de fraqueza, de covardia, de coragem, de falta de fé, de Deus ou de amor";
  • Evitar rótulos como "pessoa fraca" ou "desequilibrada";
  • Nunca minimizar, desvalorizar, comparar, rotular, abandonar, incentivar ou desafiar;
  • Sempre levar a sério, escutar sem julgamento, oferecer ajuda e acompanhar.
Um hábito comum, mas não recomendado, é sugerir que a pessoa precisa ter pensamento positivo, que ela tem que se ajudar ou reagir.
Nunca conheci alguém que tenha desistido da ideia de se matar porque recebeu um conselho desse tipo. Muito pelo contrário. O depoimento de pacientes é que este tipo de abordagem faz que se sintam ainda piores, uma vez que se sentem incapazes de melhorar porque isso não depende da vontade deles. Por isso me pergunto para quem serve este tipo de incentivo: para quem dá ou para quem recebe?

Atenção aos sinais

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), tirar a própria vida é a segunda principal causa da morte entre pessoas de 15 a 29 anos e já mata mais que o HIV. A cada dia, pelo menos 32 brasileiros se matam. Se houvesse prevenção, nove entre dez pessoas ainda estariam vivas.
"Todos podem prestar atenção aos sinais de que uma pessoa próxima pode estar pensando em se matar", afirma Carlos Correia, voluntário do CVV, entidade sem fins lucrativos que oferece apoio emocional gratuito e voluntário e prevenção do suicídio há 55 anos.
No fim de abril, o CVV, em parceria com a Safernet Brasil e o Facebook, lançou o guia "Ajude um Amigo em Necessidade", com dicas para identificar sinais de que um amigo pode estar enfrentando dificuldades emocionais e do que fazer para ajudar em situações como essa. Algumas das "pistas" aparecem em mensagens, fotos ou vídeos nas redes sociais com o usuário dizendo que se sente sozinho e desamparado. Irritabilidade ou hostilidade fora do comum também são indícios de que essa pessoa pode precisar de ajuda.
Mas alguns alertas podem ser bastante sutis, destaca a psicóloga Blanca Guevara Werlang, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), em um artigo para a Fapesp:
Elas [as pessoas] podem dar indícios mais diretos e dizer: 'Não quero mais viver', 'Um dia eu vou sumir' ou 'Vocês ainda vão sentir minha falta'. Ou dar pistas indiretas como alterar hábitos, começar a distribuir objetos pessoais ou visitar amigos e familiares que há muito tempo não vê.
O guia destaca a importância de demonstrar que não é errado pedir ajuda e de mencionar que há opções de assistência, como as oferecidas pelo CVV e pela Safernet, por meio do site www.canaldeajuda.org.br. Além disso, é fundamental buscar ajuda profissional com um psicanalista, psicólogo ou psiquiatra. "Se a pessoa fizer uma ameaça explícita de suicídio, deve-se ligar para o 190 ou para uma linha direta para prevenção de suicídio como a do CVV", reforça o serviço voluntário.

Ouvidos atentos

Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 141, para o CVV - Centro de Valorização da Vida, ou acesse o site. O atendimento é sigiloso e não é preciso se identificar.
O movimento Conte Comigo oferece informações para lidar com a depressão. No exterior, consulte o site da Associação Internacional para Prevenção do Suicídio para acessar redes de apoio disponíveis.



domingo, 6 de agosto de 2017

Por que você deve conversar com seus filhos sobre suicídio

O lançamento da série da Netflix 13 Reasons Why (baseada no livro homônimo, traduzido em português como Os 13 Porquês) e a divulgação de casos de mortes de adolescentes brasileiros com possível ligação com o desafio da Baleia Azul, nos últimos meses, colocaram em pauta o tema do suicídio entre jovens. O seriado conta a história de uma jovem que sofre bullying, abuso sexual e problemas na escola e, por isso, decide se matar. Antes, grava fitas para serem ouvidas pelas pessoas que considera culpadas por sua decisão. Já o desafio – que não se sabe ainda se é real e é alvo de investigação policial – tem sido divulgado como uma série de tarefas que um curador de grupo de WhatsApp envia para os membros, sendo que a última seria uma ordem de tirar a própria vida.

Diante desses dois eventos e de todas as discussões em torno deles (se a série foi feita de maneira educativa, se a cena de suicídio deveria ter sido tão expositiva, como evitar que jovens entrem no desafio…), pais têm se questionado sobre se e como devem abordar o assunto com os filhos. Encontro conversou com dois especialistas a respeito da questão. Eles apontam os problemas da série e a forma como o tema tem sido abordado, mas concordam que discutir o assunto em casa é essencial. Aliás, já seria, mesmo sem esses acontecimentos. 

ENTREVISTA 1 

Humberto Corrêa - Professor titular da Faculdade de Medicina da UFMG, vice-presidente da Associação Mineira de Psiquiatria, presidente da Associação Brasileira para o Estudo e Prevenção do Suicídio e presidente da Associação Latino-Americana de Suicidologia

Deve-se contar histórias de suicídio, especialmente em obras voltadas para o público jovem?
Falar sobre o assunto é fundamental, pois suicídio é questão de saúde pública no Brasil e no mundo. Na maioria dos países, está entre as principais causas de morte, e tem-se observado o aumento da mortalidade por suicídio na população entre 15 e 29 anos – no Brasil inclusive. Então é preciso falar do tema, sim, e sempre. Até porque é um assunto negligenciado, tabu. Contudo, há formas adequadas e inadequadas de se falar sobre isso. O seriado, em alguns aspectos, aborda o tema de maneira muito negativa.

Seria negativo o fato de a série mostrar o suicídio da protagonista de forma detalhada?
Sim. A série é destinada a adolescentes, que são um público mais propenso ao que chamamos de contágio do suicídio. Esse é um efeito que já se conhece há séculos. Sabe-se, por exemplo, que em uma escola, quando ocorre um suicídio, nos dias e semanas seguintes, aumentam a ideação suicida dos alunos, as tentativas e os suicídios. E a série mostrou o ato de forma detalhada. Isso é a primeira coisa que não se deve fazer: mostrar meios de se matar, porque isso dá o exemplo a outras pessoas.

A pessoa que tiver essa intenção não vai procurar formas de fazê-lo?
A maioria dos suicídios é impulsiva. Um exemplo concreto: qualquer medida de restrição do acesso ao método reduz a mortalidade por suicídio. Se a pessoa não tem acesso àquele meio na hora, a ideia passa e ela não se mata.

Como os pais podem lidar com o desafio da Baleia Azul?
Nós não temos a exata dimensão do que seja esse jogo no Brasil. Mas os adolescentes, que estão passando por um momento de formação de personalidade, têm essa tendência de se identificar em grupo, e às vezes é difícil para os adultos penetrar nos códigos que eles criam entre si. Isso faz parte do processo de individualização, e pode-se perceber que num grupo sempre há líderes e seguidores. Então isso faz parte do processo, mas é preciso estar atento. Se o pai perceber que o filho está envolvido em algo do tipo, é preciso dar um "não" imediatamente e chamar a polícia, pois quem promove esses desafios está cometendo um crime.

A que sinais os pais devem estar atentos?
Sabemos hoje que praticamente 100% dos suicidas tinham uma doença mental no momento em que se mataram. Em termos absolutos, a mais importante é a depressão. No adolescente, muitas vezes se pode identificar a depressão por mau desempenho na escola, isolamento, irritabilidade, mudanças no padrão de comportamento. E muitas vezes ele pode expressar tristeza, ideia de morte. E aí deve-se procurar ajuda profissional rapidamente.

Qual a importância de não se banalizar as questões pelas quais os jovens estão passando?

Alguns motivos podem nos parecer fúteis, mas não o são para eles. Na Inglaterra, estudiosos acompanharam adolescentes que haviam tentado suicídio por ter brigado com a namorada, tomado bomba na escola… Acompanharam esses jovens por dois anos. Depois desse tempo, 75% deles tentaram de novo, mesmo aquele motivo não existindo mais.

Políticas públicas de prevenção de suicídio têm efeitos consideráveis?
Países que definiram estratégias nacionais de prevenção têm conseguido, do ano 2000 para cá, reduzir 10%, 15%, 20% da mortalidade por suicídio. As estratégias variam, mas normalmente incluem, entre outras coisas, restrição ao método. Na Inglaterra, nos anos 1970, por exemplo, 90% das pessoas se suicidavam com gás de cozinha. Eles modificaram a fórmula do gás, e as pessoas deixaram de se matar assim. Houve uma pequena migração para outros métodos, mas inferior ao número de óbitos que conseguiram evitar. O Brasil, infelizmente, não tem nenhuma política nesse sentido.

ENTREVISTA 2

Juliana Marques Caldeira Borges - Psicanalista, presidente do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, vice-presidente do Círculo Brasileiro de Psicanálise e especialista na área da infância e adolescência

O que acha de o tema suicídio ter vindo à tona por causa da série e do desafio da Baleia Azul?
É um tema preocupante e que deve ser discutido, mas não pelo viés do sensacionalismo. Senão, perdemos a oportunidade de pensar na seriedade e profundidade da questão. O suicídio na adolescência não está restrito a esse momento da série ou do desafio. Abrange outras questões. E não é o mesmo ato para todos os adolescentes. Têm de ser levados em conta a particularidade do jovem e o momento pelo qual ele está passando.

Por que a senhora diz que não se pode tratar a questão de forma sensacionalista?
Existem estudos que apontam que mais de 90% dos suicídios na adolescência envolvem algum problema psíquico. Então, se o adolescente está adoecido psiquicamente e começa a ver que há muita notícia em torno de uma cena de suicídio, de um jogo, de algo que capta a atenção de toda a sociedade, ele também vai se interessar. Pode buscar aquilo que está vendo como ponto de identificação. Pode pensar "estou sofrendo como essa menina" ou "estou perdido como os jovens que participam do desafio".

Como os pais podem abordar o tema?
O grande engano dos pais é imaginar que falar sobre temas tabus fará com que filhos passem a ter uma ideia na cabeça que não tinham antes. Nenhum jovem vai fazer alguma coisa porque os pais chamaram para conversar sobre aquilo. Muitas vezes o adolescente já discute o tema fora de casa e não fala com a família, porque não achou espaço. Então os pais devem, sim, conversar, e de maneira que respeitem o jovem. Isso porque muitas vezes a conversa é unilateral - na verdade é só um sermão. Só se o filho se sentir respeitado, terá o desejo de compartilhar seu pensamento.

O que os pais devem esperar da adolescência?
Quando o filho é criança, os pais são referência. Nessa fase o filho escuta o que eles determinam sem muito questionamento. Na adolescência ele reflete sobre "quem eu sou", "meu desejo", "quem eu quero ser". Para lidar com isso, o jovem muitas vezes se afasta, pode apresentar-se um pouco arredio, sem querer estar perto dos pais ou aceitar sua fala. Nesse momento, o grupo de amigos é importante. Eles se juntam, fazem programas, têm comportamentos semelhantes. E os pais precisam entender que é importante respeitar esse grupo. Muitas vezes, os pais fazem críticas a um colega, como se estivessem desconsiderando a importância do grupo para o jovem. O filho pode se sentir ofendido e vai se afastar mais ainda da família.

E quais são os sinais de que existe um problema?
Costumo dizer que tudo que vem em exagero merece atenção. Agressividade acentuada, nervosismo grande, impaciência demais, comportamento que muda rapidamente… Isso pode apontar para uma questão psíquica mais séria ou para uso de drogas ou bebida. Da mesma maneira, um jovem que começa a se isolar demais, ficar só no quarto, que não tem nenhum amigo pode ser indicativo de que algo não vai bem. Também pode ser preciso ajuda para reconstruir o laço familiar, quando pais sentirem que não conseguem se aproximar dos filhos.

Como se envolver mais na vida do jovem sem que ele sinta que isso é uma invasão de sua privacidade?

Uma das características da adolescência é o sentimento de onipotência, de que nada de errado vai acontecer. Por isso os jovens têm tanta resistência quanto aos pais os monitorarem de perto. Então, isso tem de ser construído na família. Pais têm de conversar, orientar e dizer: "Se você perceber que está envolvido em algo complicado, tem de confiar em nós e talvez tenhamos de ver as mensagens juntos". Mas tudo é caso a caso. Não há uma norma geral. Se a situação ficar realmente complicada, podem também procurar a ajuda de um profissional.

http://www.revistaencontro.com.br/canal/revista/2017/05/por-que-voce-deve-conversar-com-seus-filhos-sobre-suicidio.html