domingo, 25 de outubro de 2020

Livro: Suicídio - R. M. S. Cassorla

Sinopse:

"Este livro visa esclarecer e ajudar o leitor que vivenciou situações de suicídio em seu ambiente ou que já pensou em se matar. Também interessa a todos os que se defrontam com situações de sofrimento vinculadas a desejos de morrer, em especial profissionais de saúde, educação, direito e estudos sociais. O comportamento suicida inclui, sempre, um pedido de ajuda. As fantasias inconscientes subjacentes às ideias suicidas se articulam com fatores da sociedade, levando a um sofrimento insuportável. Este se tornará suportável caso seja possível contar com ajuda do ambiente e de profissionais especializados. Ao mesmo tempo, o livro nos estimula a lutar para que os seres humanos possam viver e morrer com dignidade, evitando sofrimentos desnecessários".    


"[...] as pessoas podem se matar ou procurar a morte de forma consciente ou inconsciente. Todos os seres humanos possuem [...] pulsões de vida e pulsões de morte. As primeiras levam a crescimento, desenvolvimento, reprodução, ampliação da capacidade de pensar, sentir e viver. Já as pulsões de morte lutam pelo retorno a um estado de inércia, atacando a capacidade da pessoa de lidar com as adversidades e de viver, desvitalizando as suas relações consigo mesma e com o mundo. Do ponto de vista individual, as pulsões de morte sempre vencem, pois todos os seres humanos morrem. Do ponto de vista coletivo, a vida continua, por meio de nossos descendentes” (p. 13-14).
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“O suicídio parcial também pode se manifestar por meio do prejuízo de funções mentais (sem fatores orgânicos identificáveis), de modo que a pessoa se torna incapaz de aproveitar suas potencialidades emocionais de amar, de trabalhar, de ser criativa. Quase sempre o indivíduo não tem consciência de que suas potencialidades podem ser maiores do que ele se permite usar, de que parte delas está bloqueada, ‘suicidada’ por conflitos emocionais” (p. 14-15).
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“Parte da pessoa quer deixar de existir e outra parte deseja continuar viva. Essa ambivalência faz parte do conflito, tanto de forma consciente quanto – e principalmente – inconsciente. A forma como a pessoa será ajudada ou a falta de ajuda adequada influenciarão a direção que vai ser tomada. O profissional de saúde buscará meios de fortalecer a parte que deseja viver e, ao mesmo tempo, combater a que deseja morrer (p. 30).
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“Por trás das motivações aparentes do ato suicida, existem mecanismos mentais e conflitos não conscientes. O próprio paciente sabe muito pouco de suas motivações: o que ele comunica, de alguma forma, [...] é apenas uma parte do que está vivenciando, e essa parte vem deformada por conflitos e pelo seu estado mental” (p. 38).



sábado, 3 de outubro de 2020

 

Do Facebook da Petra Costa 

"Quando a minha irmã Elena se suicidou, eu conversei pouco com alguém que entendesse o que eu, que ainda era uma criança, estava passando. No colégio, falei uma vez, quando tinha 8 anos, e todo mundo achou horrível que eu tivesse falado em Elena. Foi uma experiência traumática. Lembro de os familiares falarem para eu não chorar, porque a minha mãe já estava triste – e eu ia deixá-la mais triste. Minha mãe me deu bastante atenção, e os terapeutas também, mas faltou um olhar mais atento para o que eu estava sentindo.

Eu fiz terapia desde os 7 anos de idade, mas nunca com alguém que fosse focado na questão do suicídio. Quando fui fazer o filme “Elena”, entrevistei alguns sobreviventes. Particularmente uma mãe, nos Estados Unidos, que tinha perdido o filho e era líder de um grupo de apoio. Quando conversei com ela, foi a primeira vez que eu falei com alguém que entendia a dor pela qual eu e minha mãe tínhamos passado, que falava a mesma língua. Se eu tivesse, naquele tempo, participado de algum grupo de apoio para crianças sobreviventes, teria feito muita diferença, porque a gente passa por coisas muito parecidas. 

Da mesma forma, se a minha tivesse sido com um profissional que tivesse essa experiência, ou em algum dos centros para sobreviventes que existem atualmente, teria me poupado muita coisa. Primeiro, vem a culpa, depois tememos a morte dos outros (eu comecei a temer a morte da minha mãe), depois pensamos que a mesma coisa vai acontecer com a gente. Ninguém me falou que isso eram respostas normais. 

Eu nunca falei com ninguém, até o encontro com aquela mãe dos EUA, 20 anos depois. Por isso, acho importantíssimo encontrar lugares e pessoas com quem se possa compartilhar a dor e buscar pessoas que tiveram uma dor parecida e poderão compreender a dimensão da sua. 

Quando falo que “Elena é minha memória inconsolável” e que é disso que “tudo nasce e dança” quero dizer que ela é um potencial inspirador que me ensina sobre a morte, portanto, sobre a essência da vida.


https://web.facebook.com/PetraCostaOficial/posts/4405395432869252?comment_id=4405517929523669&notif_id=1601656121706743&notif_t=comment_mention&ref=notif