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Este blog é um dos produtos da pesquisa de Mestrado "Cuidado, frágil: aproximações e distanciamentos de trabalhadores de um CAPS na atenção ao suicídio" e inclui sugestões de leitura, frases que me marcaram e vídeos que podem ser utilizados por pessoas ou grupos como disparadores para discussão e reflexão da questão do suicídio – seja na prevenção ou na compreensão dos fatores que podem estar por trás deste fenômeno - buscando compreender o sofrimento que está por trás deste acontecimento.

domingo, 31 de maio de 2015

A história de Amanda Todd





"TERÇA-FEIRA, 16 DE OUTUBRO DE 2012
BULLYING MATA AMANDA TODD, 15 ANOS



A esta altura, você provavelmente já ouviu falar de Amanda Todd, uma garota canadense de 15 anos que se suicidou na semana passada. Sua história é de partir o coração. Pelo menos pra quem tem coração, porque olha, o relato faz com que a gente perca um tanto de fé na humanidade.

Quando Amanda estava na sétima série (ou seja, 13 anos), num grupo de bate-papo na internet, um cara a elogiou e a convenceu a mostrar seus seios. Ela mostrou. Um ano depois, recebeu um recado no Facebook de alguém que sabia tudo sobre ela (endereço, nomes dos amigos e familiares). Ele a ameaçou: ou ela fazia um showzinho particular pra ele, ou ele mandava as imagens de seus seios pra todo mundo. Foi o que ele fez. Amanda teve ansiedade e depressão e foi se refugiar em álcool e drogas. Trocou de escola pra ver se deixava seu terrível passado (mostrar os seios por alguns segundos) pra trás.
Não funcionou. O cara fez um perfil com os seios de Amanda como avatar. Ela chorava toda noite. Perdeu seus amigos, passou a se cortar. “Ninguém gostava de mim”, disse ela, num vídeo que fez com plaquinhas.

Amanda trocou de escola de novo. Lá teve umas paquerinhas com um rapaz que já tinha namorada. Quando a namorada viajou, ele avisou Amanda e pediu para que ela fosse até sua casa. Ela foi. “Pensei que ele gostasse de mim,” contou ela. 
Na semana seguinte, um grupo de meninas da sua outra escola apareceu no novo colégio para humilhá-la, xingá-la, bater nela. Colegas filmaram a cena. Quando os professores apareceram, Amanda fugiu e se escondeu numa vala. Seu pai a encontrou. Chegando em casa, ela tentou se matar tomando alvejante. Foi levada às pressas para o hospital, e salva. Os recados no Facebook: “ela mereceu”, “espero que ela morra”, “você tirou a lama do seu cabelo?”.

Desta vez ela mudou não só de escola, mas também de cidade. Foi morar com a mãe. Porém, seis meses depois do último incidente, as pessoas continuavam postando fotos de alvejante. “Tomara que ela use um alvejante diferente e morra desta vez”, escreveu uma delas. 
“Por que recebo essas coisas?”, perguntou Amanda. “Eu errei, mas por que continuar me seguindo? […] Todo dia eu penso: por que ainda estou aqui?”.
Ela estava com depressão, se autoflagelando, fazendo terapia. Teve uma overdose e foi parar no hospital por dois dias. 

Mas continuava sobrevivendo. E termina seu relato silencioso com um papel escrito “Não tenho ninguém. Preciso de alguém. Meu nome é Amanda Todd”. Impossível haver um pedido mais direto de ajuda. 
Poucas semanas depois, Amanda se enforcou.
Agora todo mundo está devastado. Um memorial em homenagem a ela no Facebook vai passar de um milhão de “curtidas”. E, toda vez que uma jovem se mata em consequência de bullying, condenamos o bullying. Mas condenamos por pouco tempo. Logo esquecemos. Pior: tem muita gente que acha que bullying é bom. Que forma caráter.

Semana passada, uma professora me contou que o bullying já começa quando as crianças têm dois anos. É, crianças passam a atazanar a vida umas das outras quando elas mal conseguem falar. E, com a internet, o bullying não fica restrito apenas ao tempo que a criança passa na escola. É possível incomodá-la o tempo todo, dizendo-lhe como ela é feia, inadequada, detestável –- numa fase em que a pessoa quer, acima de tudo, ser aceita. 
Amanda não foi a primeira e, infelizmente, não será a última adolescente a se matar por causa da pressão crueldade dos outros. E isso que ela era magra, linda, e hétero. Imagine quantxs jovens gordxs e gays o bullying não leva até a morte. 

Por isso eu fiz questão de recomendar o vídeo da âncora de TV que foi advertida por um espectador, típico concern troll, de que ela, por ser gorda, estaria passando um péssimo exemplo para sua comunidade. A jornalista respondeu que é forte, mas que se preocupa com as crianças que recebem e-mails desse tipo várias vezes por dia, todo santo dia, e que não têm a segurança necessária pra lidar com aquilo. “Não deixem sua autoestima ser definida por bullies”, pediu ela. Outubro é, nos EUA, o mês nacional contra bullying, um grave problema que só cresce.
Por coincidência, olha o título da máteria que saiu ontem na Marie Claire: “Professora decide emagrecer após sofrer bullying dos próprios alunos”. O que foi publicado na seção Bem Estar do Globo (é, bullying como bem estar), traduzida de um artigo do jornal britânico Daily Mail, é um pouco diferente. Não é que um aluno disse pra professora que ela era como um camarão –- só se aproveita a cabeça, o resto pode ser jogado no lixo. Ela ouviu alunos comentando sobre sua aparência, mas eles não sabiam que ela estava ouvindo. O que os três artigos têm em comum é que foi uma maravilha a professora ter ouvido aquele insulto. Porque, graças a ele, ela emagreceu 55 quilos. “Perder peso foi a melhor coisa que já fiz”, disse a professora de 31 anos, casada e mãe de uma filha.

Quais são as mensagens nada subliminares passadas por essas matérias? 1) Que, se você é professora e ouve seus alunos falarem coisas horríveis sobre uma pessoa, sua função não é educá-los, não é ensiná-los a ser tolerantes com as diferenças. Não. É chorar e fazer uma dieta imediatamente. Afinal, o problema está na pessoa que é bullied, não nos bullies. 2) Que um bully está no fundo ajudando a pessoa que está perseguindo. Se não fosse o bully, como a vítima saberia que ela tem um ou vários defeitos, e como ela poderia se esforçar pra mudar?
Sei. Essas mesmas revistas e jornais poderiam escrever sobre um dos inúmeros jovens gays que são bullied até a morte todo ano: “Adolescente gay decide virar hétero após sofrer bullying dos amigos”. Talvez, se Amanda tivesse sobrevivido, não fariam um título assim: “Adolescente decide ser menos vadia após sofrer bullying dos próprios colegas”. Afinal, uma menina que mostrou os seios e transou com um menino que já tinha namorada só pode ser uma vadia. E bullying só pode ser garantia de um final feliz para todos os envolvidos.
Vale ressaltar: Amanda foi apenas uma das muitas vítimas de bullying que, desesperadas, pedem ajuda e são ignoradas. Não podemos mais ajudá-la. Mas podemos ajudar jovens que sofrem bullying diariamente. Podemos dizer que ofender e perseguir pessoas não é legal.
Que a morte de Amanda não tenha sido em vão."

Texto retirado do blog "Escreva, Lola, escreva" 

http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2012/10/bullying-mata-amanda-todd-15-anos.html



Dizeres íntimos________________________________Florbela Espanca



É tão triste morrer na minha idade! 
E vou ver os meus olhos, penitentes 
Vestidinhos de roxo, como crentes 
Do soturno convento da Saudade! 

E logo vou olhar (com que ansiedade!) 
As minhas mãos esguias, languescentes, 
Mãos de brancos dedos, uns bebés doentes 
Que hão-de morrer em plena mocidade! 

E ser-se novo é ter-se o Paraíso 
É ter-se a estrada larga, ao sol, florida, 
Aonde tudo é luz e graça e riso! 

E os meus vinte e três anos...(Sou tão nova!)
Dizem baixinho a rir "Que linda a vida!"
Responde a minha Dor: "Que linda a cova!" 



ESPANCA, Florbela. Livro de Mágoas. Disponível em:  http://www.citador.pt/poemas/dizeres-intimos-florbela-de-alma-conceicao-espanca. 



Florbela Espanca (1894-1930), poetisa portuguesa, autora de sonetos e contos importantes na literatura de Portugal. Sua poesia é conhecida por um estilo peculiar, com forte teor emocional. Florbela Espanca morreu em decorrência de suicídio por barbitúricos, em 1930, no dia de seu aniversário, com apenas 36 anos.



quarta-feira, 27 de maio de 2015

Tentativas de Suicídio (T.S.) na Criança

"Habitualmente confundidas com as TS do adolescente, as TS da criança são raras, é verdade, mas não excepcionais, uma vez que 10% das TS de crianças e de adolescentes dizem respeito a crianças menores de 12 anos. Quanto menor é a criança, mais o problema da intencionalidade da conduta suicida é uma questão que se coloca. [...]

A significação dessas tentativas é variável, próxima daquele que se encontra em outros períodos: função de evitamento ou de fuga de uma situação desagradável, às vezes, anódina aos olhos do adulto (má nota, reprimenda banal); apelo, quando a criança busca atrair para si uma atenção ou um afeto que ela julga ter perdido (encontra-se um grande número de antecedentes de colocações familiares, de abandono, de rupturas múltiplas) é o que se chamava de maneira pejorativa o suicídio-chantagem: desejo de punição, ainda mais frequente, porque a criança não pôde entrar de maneira satisfatória no período de latência e continua a viver sob o peso da culpa edipiana excessiva. Mais próprio da criança parece ser o desejo de união mágica, além da morte, com a pessoa que a criança recém perdeu ou pensa ter perdido. Pouco antes do suicídio da criança encontra-se também com frequência o falecimento de um dos pais ou de um irmão, uma hospitalização por doença, ou uma partida.

Isso coloca o problema no plano psicopatológico da relação entre conduta suicida e estado depressivo da criança. Se a experiência de uma perda é comum nos antecedentes próximos, seria abusivo e falso assimilar a TS da criança a uma manifestação de um estado depressivo. Seria, além disso, negligenciar a problemática da agressividade em relação ao outro e de seu retorno contra si mesmo sob forma de culpa ou da agressão da imagem do outro que a criança carrega em si mesmo. Agredindo-se, ela agride ao mesmo tempo o outro. Toda mãe teve essa experiência de que, quando seu filho procura agredi-la, é, muitas vezes, através de seu próprio corpo que ele o faz: recusa de comer, por exemplo, mostrando com isso que a imagem de si e a imagem do outro são menos bem diferenciadas do que no adulto, mas também que se ataca simultaneamente, no mesmo movimento, a imagem de si e a imagem do outro que se traz em si mesmo. Há uma dialética muito sutil entre a agressão ao outro e a agressão a si mesmo, dialética constantemente encontrada nas tentativas de suicídio do adulto, mas que existe nas tentativas de suicídio da criança, ainda mais que o outro existe não só pela imagem interiorizada que a criança traz em si mesma, mas também por sua presença física constante face à criança.

No plano etiológico, enfim, a maioria dos autores insiste sobre a raridade dos estados psiquiátricos caracterizados: psicoses, neuroses típicas são excepcionais. Mais seguidamente se acham apenas vagos traços de imaturidade, de labilidade afetiva, de impulsividade, sem que um quadro preciso possa ser isolado."

-  MARCELLI in "Manual de Psicopatologia da Infância de Ajuriaguerra" (p. 161-162).

         
A ponte 
Eric Steel 

“Mais pessoas escolhem terminar suas vidas na Golden Gate em São Francisco, nos Estados Unidos, do que em qualquer outro lugar do mundo. O número de mortes é chocante, porém não surpreende. O diretor e a equipe filmaram a ponte, de dois pontos diferentes, durante todo o ano de 2004, gravando a maioria dos 24 suicídios naquele ano (e prevenindo muitos outros). Foram gravadas entrevistas com amigos, familiares e testemunhas, que recontam em detalhes dolorosas histórias de lutas contra a depressão, abuso de substâncias e doenças mentais. A Ponte é um documentário profundo e poético, uma jornada visual e visceral por um dos aspectos mais sombrios da natureza humana”.    

(Contracapa do DVD)

Disponível na íntegra, no Youtube!


Notificação de tentativa de suicídio

É importante lembrar que o suicídio e também a tentativa de suicídio devem ser notificados, de acordo com a Portaria GM/MS nº 1271/2014 e SINAN versão 5.0.


"Quanto à tentativa de suicídio, justifica-se a inclusão desse agravo na lista de agravos de notificação imediata pelo município, considerando a importância de tomada rápida de decisão, como o encaminhamento e vinculação do paciente aos serviços de atenção psicossocial, de modo a prevenir que um caso de tentativa de suicídio se concretize, pois as estatísticas demonstram um risco elevado de tentativas de suicídio subsequentes. 

É imprescindível articular a notificação do caso à vigilância epidemiológica do município, imediatamente após o seu conhecimento, seja via ficha de notificação imediata da tentativa de suicídio, e-mail ou telefone (com envio posterior da ficha de notificação) com o encaminhamento da pessoa para a rede de atenção à saúde. Isso inclui acionamento da rede de vigilância, prevenção e assistência, encaminhamento do paciente a um serviço de saúde mental, com adoção de medidas terapêuticas adequadas ao caso. 

Para medidas de prevenção, é importante que todos profissionais fiquem atentos aos sinais que indicam que uma pessoa possa estar vulnerável à tentativa de suicídio, como: tentativas anteriores de suicídio, transtorno mental, doenças graves, isolamento social, ansiedade e desesperança, crise conjugal e familiar, situações de luto, perda ou problemas no emprego e facilidade de acesso aos meios. O suicídio é a expressão final de um processo de crise. É importante também sensibilizar profissionais de outros setores, tais como: educação, segurança pública, assistência social e a população em geral sobre esse problema de saúde, com vistas a preveni-lo."

Fonte: http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/notificacao-de-violencia-interpessoal-autoprovocada



domingo, 24 de maio de 2015

O Suicídio, adentrando ao mar e ao não há mar


Texto de Jorge Márcio Pereira de Andrade




Imagem publicada – a capa do filme Mar Adentro com o rosto do ator Javier Bardem, usando uma blusa de lã de gola alta, e com um leve sorriso nos lábios. Ele está interpretando o marinheiro Ramón Sampedro, no filme de Alejandro Almenábar. Ramón (Javier Bardem) é um tetraplégico que está preso a uma cama há trinta anos. A sua única janela para o mundo é a do seu quarto, perto do mar, mar em que tanto viajou. O mar onde teve o acidente que lhe roubou a juventude e a vida. Desde então que Ramón luta pelo direito a pôr termo à vida dignamente, luta pelo direito à eutanásia através de um suicídio assistido. Uma história verídica que nos instiga à reflexão sobre o viver e sobre o morrer, com dignidade.

Texto para os seres humanos que se cansam de esperar outro diálogo com a Senhora Vida... Outro encontro acolhedor... Outra saída para a Dor.
Em 2005, exatamente no dia 18 de fevereiro, me afetei e “assisti” um suicídio assistido. Não, não estava presente a este ato. Estive, para além da identificação projetiva, é vendo-o através do magnífico filme: Mar Adentro. Estive intensamente presente sim ao ver Ramón San Pedro sair voando pela janela, como seu desejo e sobrevoar, imaginariamente, até praias e um possível amor.
Ramón Sampedro é uma boa referência para este momento onde o tema do suicidar-se retorna às manchetes e à hipermidiatização. Estes dias o ator Robin Williams e seu suicídio, levou-nos à manifestações sobre o tema e o ato. Esse ato que nos obriga a pensar sobre a finitude do viver e/ou desejo dela. Um tema ao qual negamos a devida atenção e reflexão. Estaria eu e nós todos/todas pensando sobre o assunto sem o nosso ‘professor’ que nos estimulava para o Carpe Diem?

O assunto sempre me foi importante, e se tornou mais ainda quando conheci a vida e obra de Florbela Espanca. É dela uma das mais contundentes afirmações sobre quem escolhe morrer por suas convicções ou dores profundas. A poetisa que se suicidou aos 36 anos, quem sabe por profundo amor, nos disse: “Quem foi que um dia ousou lançar a um papel as letras ultrajantes da palavra covardia, essa suprema afronta, esse insultante escarro, à face dos que querem morrer!?...”. Ela também se despediu de nós, em 07 de dezembro de 1930, desejando repousar perto do oceano.
Ela nos diz também da ‘coragem desdenhosa’, da ‘altiva serenidade’, do ‘profundíssimo desprezo’, às ‘almas que partiram por querer’. E sabemos que qualquer morte nos assusta, surpreende e desgosta.
A Dona Morte que vive passeando em nossas varandas da morada do corpo, sempre fiel e presente, só entra em nossos mais íntimos sótãos ou cama se a convidarmos, insistentemente. Vivemos negando a sua convivência e coexistência com a Senhora Vida.

O espanhol Ramón ficou paraplégico ao mergulhar no mar. Era o dia de maré baixa. Ele passou então, aos 25 anos, a lutar pelo direito à própria morte. Enfrentou todas as instituições, pois depois de 30 anos utilizando-se de sua boca deixou-nos também poesia e indignação em seu livro Cartas do Inferno.
 Somente 30 anos depois em 1993, com auxílio de amigos e amigas, conseguiu um suicídio assistido. O que ele acreditava como dignidade para o morrer era o protesto contra sua forma de viver, e o cineasta Alejandro Amenábar o imortalizou, através de Javier Bardem, com o cinema e para além deste.

Ao assistir o filme, lá em 2005, fui mais uma vez lançado ao angustiante tema bioético do direito à morte com dignidade. Propus-me, então, uma metáfora com o título do filme: adentrando no mar, Morto! Muitas vezes é possível que ao se matar o sujeito já se considere ou se sinta de modo fúnebre, já falecido. E esquecido...
Esta metáfora é porque creio que estamos vivendo, todos, na chamada modernidade líquida e aniquiladora, a viver em estados quase paralisados, um tempo de alta salinidade de desamor, com uma dose de estagnação afetiva. Estamos imersos no novo e global mundo Mar Morto. Sobrenadamos, boiamos e continuamos superficiais, inclusive sobre o suicídio.

Pior ainda é quando o banalizamos e o ridicularizamos temerosos, usando discursos fanáticos para apressadamente o conectarmos com um desapego à Vida. Não podemos reduzir esse ato de tanta ousadia ou desespero ao modelo sociológico de Durkeim, apenas à anomia. Precisamos ir além da psiquiatria, da psicologia ou da psicanálise. Precisamos encará-lo como uma questão de saúde e bioética.
O século XXI, assim como o que passou, provocou enormes buracos negros em nossas singularidades. Disse-me em 2005 e repito: estamos em um mar sem ondas, sem pedras ou areias no percurso, um mar onde não pudéssemos ou poderemos nos suicidar pelo afogamento, pois, como já disse, nele boiamos e persistimos superficiais eternamente.

A palavra, e não apenas o ato, ”suicídio” ainda continua um tabu, um dogma ou uma ameaça. Temos de direito e também o dever de ampliar nossas visões, ideias, convicções ou conhecimentos sobre o suicidar-se. Temos de ir além, buscar, além do coletivo, o que faz o sujeito buscar seu próprio assujeitamento à Dona Morte. Quais são os diálogos possíveis com a Senhora Vida que nos levariam a seu pré-conhecimento e, quiçá, novos afetos que não deixariam secar o desejo de viver em nós? Há o direito de sua versão eutanásia?

As estatísticas de ocorrência de suicídios no Brasil dizem ser uma média de 25 pessoas por dia, há, então, alguma outra causa mortis tão presente ao mesmo tempo em que tão invisível? Podemos dizer que o tema é mais grave do que o número de pessoas com chamados transtornos mentais?

Estas são as pessoas que estão, na maioria dos casos, em situação de vulneração e vulnerabilidade para as tentativas e para o suicídio. Entretanto, não devemos ter como principal causa apenas as depressões graves ou persistentes. Há outras situações que nos empurram para a varanda, para convidar a Dona Morte, como solução ou resposta, por exemplo, às desilusões em nossos amores e outros dissabores do viver com intensidade ou tensão.
Há ainda que discuti-lo quando a terminalidade do viver está no ápice do sofrimento e da dor, seja ela psíquica ou física. Os estados terminais, onde os cuidados paliativos não mais aliviam, podem nos tornar ainda mais próximos do que chamo da “visitante da varanda”.

O morrer e a morte não devem ter o mesmo significado, muito embora esteja transversalizados ou subjacentes, um ao outro. Compreendemos e aceitamos os testamentos vitais dos nossos moribundos? Os náufragos sem nenhuma tábua ou resto de seus navios, aqueles que onde não há mais o mar e nem o amar?
Não tenho estas respostas, como não acho que nenhum filósofo já as tenha como certeza, mesmo concordando com Albert Camus. Podemos nos afogar em imensos oceanos de debates sobre Thanatós, Eutanásia, Ortotanásia ou Distanásia. Só não podemos fugir da perspectiva e expectativa de que a Dona Morte ainda é o mais “democrático” de todos os acontecimentos, escapando, como areia no mar, de todas nossas explicações ou teorias.

Para alguns deixo a provoca-ação de vida e ideias de Deleuze, para quem nada há para interpretar ou compreender, mas sim para experimentar, intensamente viver, deixando-se no “mar à deriva”, novos argonautas Pessoanos que se indagam: “Se queres te matar, porque não te queres matar?”.
Então vejamos que ‘Pontes’ para o futuro estamos construindo para os que se suicidam ou tentam morrer. Vejamos nossas multiplicidades, bem como as singularidades. Aquelas que o Mar Adentro pode provocar diferente e multiculturalmente, pois até o Gilles também escolheu se despedir de nós, após lenta e sofrida escalada de sua doença e sofrimento, assim como o fez Freud, que pediu ao seu médico, Max Schur, um único e último alívio. Ambos podem ser tomados como suicídio, os meios e métodos é que foram diferentes: um solitário e o outro assistido.

O SUICÍDIO NÃO É UM FIM, NEM PRECISARIA SER, 
SÓ QUANDO NEGADO, INVISIBILIZADO, NATURALIZADO.

ANDRADE, Jorge Márcio Pereira de. O Suicídio, adentrando ao mar e ao não há mar. Texto publicado em 14 de agosto de 2014. 
Disponível em: http://ulbra-to.br/encena/2014/08/14/Suicidio-adentrando-ao-mar-e-ao-nao-mar

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Quem cala, consente

Quem cala, consente 16/05/2015 | 13h31

Revista "MIX" mergulha em um tema tratado à meia-luz: o suicídio

Obra Viver É a Melhor Opção — A Prevenção do Suicídio no Brasil e no Mundo foi lançada pelo jornalista André Trigueiro na última edição da Feira do Livro de Santa Maria



"Há sempre como interferir positivamente em algum elo da cadeia beneficiando todo o sistema". Lida fora de contexto, a frase do jornalista André Trigueiro pode ser interpretada das mais variadas formas. Mas, nesse caso, ela trata da importância de que cada um faça sua parte para que se retire o manto de silêncio que encobre um tema ainda hoje tratado à meia-luz.

Reconhecido e premiado por sua atuação no jornalismo ambiental, atualmente, Trigueiro se coloca à frente de outro importante debate. Desde 1999, o escritor se dedica à pesquisa sobre suicídio. Esse, inclusive, foi o principal motivo da vinda dele a Santa Maria, onde participou da 42ª edição da Feira do Livro. O jornalista, de 48 anos, lançou seu mais novo livro: Viver É a Melhor Opção — A Prevenção do Suicídio no Brasil e no Mundo. Além de apresentar alternativas para que se combata os mais 800 mil casos de autoextermínio registrados anualmente em todo o planeta, a obra demonstra a urgência de quebrar esse silêncio para que, assim, a sociedade reconheça o tema como um problema a ser enfrentado.

As mortes autoinfligidas são quase sempre atos doentios, sem qualquer glamour ou resquício de heroísmo. Elas abalam e multiplicam o sofrimento dos que ficam. E esse drama, por mais distante que pareça, é considerado uma questão de saúde pública no Brasil e no mundo. Para se ter uma ideia da dimensão do impacto, basta uma olhada rápida no primeiro Relatório Global para Prevenção do Suicídio. O documento, divulgado em setembro do ano passado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), apresenta dados estarrecedores sobre o assunto. São 2,2 mil casos consumados por dia, um cada 40 segundos, representando 1,4% de todas as mortes no mundo. Em 2012, 803,9 mil pessoas cometeram suicídio. O número é quase o dobro dos registros oficiais de óbitos por homicídio ou em conflitos armados, que fizeram 437 mil vítimas no mesmo período.

Mesmo sendo uma pessoa bem informada e atualizada, talvez o leitor esteja se sentindo incomodado com o fato de ignorar esses dados. Mas há uma explicação. O suicídio é tabu e, por isso, se mantém-se distante do radar curioso da sociedade. Com o temor de incentivar suicidas em potencial, a imprensa não destina o devido espaço ao problema. E, assim, jogado para baixo do tapete, perpetua-se o nocivo estigma que rodeia o tema.

Como afirma Trigueiro em seu livro, "do ponto de vista científico, a maioria absoluta dos casos, aproximadamente 90%, é ligada a patologias de ordem mental diagnosticáveis e tratáveis". O cálculo é simples: se de cada 10 casos, nove são preveníveis, significa que há muito o que se fazer para que essas vidas não sejam perdidas. Para psicólogos, psiquiatras e pesquisadores, é justamente com a informação que se faz a prevenção.

"O suicídio não pode ficar escondido. Falar sobre suicídio é uma questão importante, como foi importante falar sobre a Aids. Foi enfrentando o tabu e o preconceito que se abriu caminho para um modelo de atendimento eficiente ao paciente soropositivo em todo o mundo, inclusive no Brasi" afirma o psiquiatra Carlos Felipe D'Oliveira, um dos mais respeitados suicidólogos do país, em entrevista a Trigueiro. 

Rompemos o silêncio e mergulhamos nessa complexa e devastadora realidade. Afinal, como alertam os especialistas consultados pela reportagem, não há motivos plausíveis para que avalizemos novos casos de autoextermínio com o nosso silêncio. Quem cala consente. E como disse o dramaturgo Millôr Fernandes, "morrer é uma coisa que se deve deixar sempre pra depois".
90% dos casos são evitáveis
Ao longo dos anos, construiu-se a certeza de que que qualquer abordagem menos cuidadosa sobre suicídio poderia precipitar novos casos — especialmente, em pessoas mais vulneráveis. Esse fenômeno recebeu o nome de mimetismo, processo que serve de inspiração para a repetição do ato. Na história moderna, por exemplo, a divulgação da morte da atriz Marilyn Monroe — reportada como suicídio — foi apontada como determinante para o aumento em 12% na taxa de casos nos Estados Unidos, em agosto de 1962.
Mas como Trigueiro faz questão de ressaltar em seu livro, não é mais possível que sejamos reféns da falta de informação. "Em nome da prudência, elimina-se o assunto do noticiário, fazendo como se não existisse", afirma o pesquisador. 
Para especialistas, o maior prejuízo de não se tocar no assunto é o de não informar, com embasamento científico, que 90% dos suicídios são evitáveis. Ou seja, da mesma forma que o amplo debate foi fundamental para que fossem traçadas estratégias de prevenção e redução de danos para males como Aids, tabagismo, câncer de mama e tantos outros, será também para o suicídio. Como concluiu o estudo feito pela OMS, é falsa a premissa, amplamente disseminada, de que não há o que fazer quando alguém deseja se matar.
"O silêncio em torno do assunto alimenta a passividade, quando o momento deveria ser de ação", afirma Trigueiro em seu livro.
17% dos brasileiros já pensou em suicídio
A prevenção do suicídio enquanto movimento articulado teve origem em Londres, onde, em 1906, foi criado o Exército da Salvação. O ponto de partida, com maior comprometimento dos governos, no entanto, foi registrado somente em 1996, com a publicação pela ONU do documento Prevenção do Suicídio: Diretrizes para a Formulação e a Implementação de Estratégias Nacionais. No mesmo ano, a OMS passou a monitorar os suicídios e as tentativas, além de chamar a atenção para a importância da implantação de políticas públicas e medidas de prevenção.
Seguindo diretrizes mundiais, o Ministério da Saúde lançou, em 2005, a Estratégia Nacional de Prevenção ao Suicídio. Mas, ao que parece, as décadas de omissão por parte do Estado contribuíram para o emergencial contexto atual. Em número absolutos, o país ocupa a 8ª posição no ranking mundial, com 11.821 mortes por suicídio em 2012. Para se ter uma ideia, é quase o mesmo número de portadores do vírus HIV no mesmo período (11.826). Isso equivale a uma média de 32 suicídios/dia no Brasil.
A ideia de que o país é uma nação alegre perde ainda mais força ao olharmos para a cartilha publicada, em 2014, em uma parceria entre Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e Conselho Nacional de Medicina (CNM). Conforme o documento, 17% da população brasileira já pensou em suicídio, 5% já planejou e 3% já tentou.
As diferentes causas
De acordo com dados da OMS, para cada pessoa que consegue se matar, mais de 20 tentam, sem sucesso, uma ou mais vezes. Isso significa que há uma tentativa a cada dois segundos em todo o mundo, ou que pelo menos 16 milhões de tentativas são registradas por ano. Mas o que leva uma pessoa a esse ato extremo?
Para o suicidólogo Carlos Felipe D'Oliveira, "o suicídio, na verdade, não tem a ver com a morte, mas com a vida, no sentido de que as pessoas querem ter uma vida agradável. Ninguém suporta a dor contínua". No livro Viver É a Melhor Opção — A Prevenção do Suicídio no Brasil e no Mundo, o jornalista André Trigueiro afirma que "o comportamento suicida é um fenômeno complexo causado por vários fatores inter-relacionados: pessoais, sociais, psicológicos, culturais, biológicos e ambientais".
— É sempre um pedido de socorro. Ao contrário do se diz, se uma pessoa fala em suicídio, acredite, escute, sirva de testemunho e apoio para o drama que a envolve. Quando uma pessoa pensa que a morte é uma saída para sua dor, é por que essa é a alternativa última, o limite — complementa Marta Conte.
Álcool e suicídio lado a lado
No livro O Suicídio, o francês Émile Durkheim (1858-1917), considerado o pai da sociologia, afirma que a decisão de se matar teria sempre um fundamento social. Ela seria a expressão individual de um fenômeno coletivo que, sustentada por um conjunto de fatores, faz com que algumas pessoas tenham uma predisposição a interromper a própria existência.
Não há respostas fáceis ou conclusivas para a questão. Em vez de voltar as atenções a uma causa específica, o mais correto é atentar aos fatores de risco. Segundo um manual publicado em parceria pelo Ministério da Saúde, pela Organização Pan-Americana da Saúde e a Unicamp, transtornos mentais (especialmente a depressão), abalos psicológicos (como perdas recentes de entes queridos), e restrições físicas (como doenças incapacitantes) são importantes fatores de risco.
Outra informação reveladora foi constatada em uma pesquisa realizada pelo suicidólogo e consultor da OMS José Manoel Bertole. A partir da análise de 31 artigos científicos publicados entre 1959 e 2001, de onde compilou 15.629 casos consumados, concluiu que 90% dos casos podem estar associados a psicopatologias diagnosticáveis e tratáveis. É consenso entre pesquisadores que sofrimentos psíquicos e abuso de drogas acompanham suicidas em potencial. Estima-se que cerca de 50% dos portadores de transtorno bipolar tentam suicídio ao menos uma vez na vida, enquanto 15% o cometem. A OMS afirma ainda que, entre 15% e 25% dos casos de suicídio estariam relacionados com o alcoolismo, doença que atinge cerca de 11,2% da população brasileira."O principal fator de risco é a primeira tentativa de suicídio, ou seja, quem tentou se matar uma vez precisa de ajuda, porque a probabilidade de tentar novamente é alta", afirma Trigueiro.
Falta assistência
Um dos grandes problemas para a questão do suicídio no Brasil está relacionado à falta de assistência habilitada para acolher quem tenta tal ato. A psicóloga Marta Conte explica que a prevenção pode ser classificada em termos universais, seletivos e específicos. A universal visa reduzir a incidência de novos casos por meio de ações educativas para toda a comunidade. A se seletiva concentra em grupos expostos a situações de risco: pessoas em vulnerabilidade social, que consomem álcool ou outras drogas de forma prejudicial, ou em sofrimento com outros transtornos mentais, com doenças graves e limitantes e dores crônicas, entre outros. Já a específica deve ser direcionada a pessoas que manifestam desejo ou idealização suicida.
— Seria muito razoável construir, de forma intersetorial, uma "Linha de Cuidado em Saúde", sob a perspectiva da saúde coletiva, que inclua um conjunto de ações que fossem desde as habilidades na abordagem da crise e as ações de acompanhamento pós-crise. Envolveria a comunidade e os recursos governamentais e não-governamentais, até a superação da situação — comenta a psicóloga.
Essa estratégia, conforme a pesquisadora, exige, frequentemente, observação, intervenção e ações sociais nos ambientes que estariam levando a pessoa, jovem ou idosa, a desejar se matar.
— Ela exige ainda uma atenção integral à sua saúde, tendo em vista que as tentativas de suicídio frequentemente estão associadas a enfermidades físicas e mentais, problemas familiares, à perda de autonomia e a problemas socioeconômicos — completa.
Limitar acesso aos meios pode salvar vidas
Ampliação da cobertura da Atenção Básica para 100% da população, fortalecimento de redes de apoio e proteção no município com auxílio de ações integradas intersetoriais (educação, saúde, comunicação, segurança, cultura, habitação, esporte e lazer, entre outras) foram algumas das medidas adotadas por municípios gaúchos que conseguiram reverter os índices de suicídio. Outro forte aliado nessa batalha pela vida, segundo a socióloga Marta Conte, é o que ela chama de "aquecimento das relações sociais".
— Isso se faz com estímulo à solidariedade, resgate de valores éticos e ampliação do espírito que contempla o coletivo acima dos interesses individuais e narcisistas, ofertando lugares sociais tanto para os jovens quanto para os idosos — explica a psicóloga.
Além das iniciativas elencadas pela pesquisadora, a OMS destaca uma série de ações importantes que, dependendo da região, podem ser fundamentais para a prevenção do suicídio. Entre elas, destaca-se a restrição dos meios comumente empregados para consumar os atos. "A restrição dos meios, com a consequente redução do número de casos, revela um comportamento curioso: entre os que desejam se matar, parece numeroso um contingente que não deseja fazê-lo de qualquer maneira, empregando qualquer método. Ao se restringir o meio considerado o mais adequado, a empreitada torna-se mais difícil ou mesmo impossível", afirma Trigueiro em seu livro.
Dificultar a aquisição de pesticidas, restringir licenças para porte ou uso de armas de fogo, além de limitar o acesso a pontes e edifícios visados, podem fazer a diferença na hora de salvar uma vida. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) de Santa Maria sabe bem o significado dessas iniciativas. Um levantamento sobre o número de tentativas de suicídio na Ponte Sobre o Vale do Menino Deus, na BR-158, entre 2001 e 2005, registrou 69 casos. Em apenas cinco, a pessoa conseguiu consumar o fato. A maioria é salva pelos policiais, que já têm estratégias para impedir esse tipo de tragédia.
— Quando percebemos um pedestre caminhando pelas proximidades do posto, ele é abordado e tem a passagem a pé proibida. Quando existe a suspeita de que a pessoa possa cometer algo nesse sentido, entramos em contato com algum familiar. Também há uma orientação para que a encaminhemos ao Husm — explica Marcelo Ramos da Silva, chefe da 9ª Delegacia da Polícia Rodoviária Federal.
Husm realiza ações voltadas à prevenção
Preocupados com a situação em Santa Maria e região, um grupo de profissionais do Husm resolveu enfrentar o problema. Desde junho do ano passado, representantes do Ambulatório de Transtornos do Humor (ATH) e da Associação de Familiares, Amigos e Bipolares de Santa Maria (AFAB), coordenados pela enfermeira Vergínia Rossato e pela psiquiatra Martha Helena Noal, vêm realizando uma série de ações voltadas à prevenção do suicídio.
Conforme Vergínia, responsável pelo Núcleo de Vigilância Epidemiológica Hospitalar (NVEH) do hospital, os números demonstram a seriedade da situação na região. Dos diferentes tipos de violência autoinflingida, as notificações de casos de tentativa de suicídio são as que detêm a taxas mais elevadas. Ela explica que de um total de 299 notificações em 2014, 165 foram tentativas de suicídio, sendo 96 casos entre as mulheres e 69 entre os homens.
— A epidemiologia mostra as situações que devem ser atacadas. Nossas ações foram pautadas nos resultados, para que pudéssemos fazer a divulgação desses dados e, com isso, despertar uma consciência nas pessoas para que ajudem umas as outras, percebendo situações que devem ser encaminhadas — explica Vergínia.
A partir do 1º Encontro Regional Promoção da Vida e Prevenção do Suicídio, que contou com a participação de 168 profissionais da saúde de Santa Maria e outras seis cidades da região, foram realizadas outras oito intervenções de capacitação — seminários, supervisões e rodas de conversas voltadas à sensibilização e desenvolvimento de habilidades na prevenção de suicídio — em diferentes órgãos como postos de atenção básica e Centros de Atenção Psicossocial (Caps).
— Em cada fala, em cada abordagem, havia pessoas assistindo e que nos procuravam depois para pedir orientações sobre o que poderia ser feito em determinada situação. A prevenção passa por poder enxergar mais — conta Vergínia.
Além desse trabalho de capacitação, a enfermeira adianta que o grupo e a gestão do hospital estão pensando em outros mecanismos que possam auxiliar a população a buscar ajuda. A ideia é que seja criado um canal, por telefone ou no próprio site do Husm, no qual a comunidade encontre com mais facilidade um acolhimento de qualidade.
RS lidera taxa de suicídios
Entre os Estados com melhores indicadores sociais do país, o Rio Grande do Sul se destaca também num contexto sem motivos para comemoração. O Estado é recordista nacional em taxas de suicídio. Em números absolutos, ocupamos a segunda posição do ranking, com 11.977 casos entre 2002 e 2012. Isso representa um crescimento de 14% de casos em uma década. Mas, se forem considerados apenas casos registrados em 2012, estamos no topo do ranking com 10,9 casos por 100 mil habitantes, seguido por Santa Catarina (8,6) e Mato Grosso do Sul (8,4). Especialistas acreditam que a influência alemã e italiana na colonização deve ser levada em consideração na interpretação do fenômeno. Nessas culturas, há um perfil mais exigente, que torna a cobrança de resultados maior. Talvez eles encarem insucessos como fracassos pessoais, o que pode levar a uma maior vulnerabilidade ao comportamento suicida.
A psicóloga Marta Conte explica que cada caso tem sua singularidade e, entre as diferentes razões ligadas ao suicídio, pode estar a depressão decorrente do uso de agrotóxicos.
Nos anos 1990, uma pesquisa da UFRGS levantou uma hipótese que associava os casos registrados no Estado ao uso de agrotóxicos organofosforados nas plantações de fumo. O debate sobre a questão fez com que até um projeto de lei tentando banir o uso desse tipo de produto fosse encaminhado ao Congresso. A proposta está parada desde 2011.
A preocupação levou a Secretaria de Saúde a lançar, em 2006, um projeto piloto envolvendo Santa Cruz do Sul, Candelária, Venâncio Aires e São Lourenço do Sul. A rede intersetorial envolveu entidades como Centro de Valorização da Vida (CVV), Emater, Unisc e diversos órgãos da área da saúde e segurança pública. Entre as atividades realizadas, destacam-se a capacitação de agentes comunitários de saúde, apoio aos sobreviventes e às famílias, bem como a criação de rede de apoio envolvendo escolas.
Combate à vingança pornô
Ser jovem no mundo de hoje, definitivamente, não é fácil. Além da perturbação metabólica e psicológica inerente ao amadurecimento humano, há uma série de questões existenciais que tornam o desabrochar algo angustiante.
Da falta de habilidade para lidar com certos problemas à preocupação em arranjar um emprego em um mercado de trabalho amplamente modificado por novas tecnologias e insurgentes modelos de negócio, passando por casos extremos, tudo pode descambar para resultados trágicos.
Não são raros os casos de jovens e adolescentes que cometeram suicídio após sofrerem com a exposição involuntária da intimidade na internet. O combate àproliferação da chamada vingança pornô, por exemplo, está relacionado com as orientações da OMS sobre prevenção. Por isso, a lei popularmente conhecida como Lei Carolina Dieckman, que entrou em vigor em 2013, tornou-se um importante instrumento legal para coibir e punir esse tipo de crime.
Conforme a OMS, na faixa etária entre 15 e 29 anos, o autoextermínio corresponde a 8,5% das mortes em todo o mundo. Roraima detém o incômodo posto de campeã nacional nesta faixa etária com 12,9 casos por 100 mil habitantes. O cenário é tão recorrente no Brasil e no mundo que há sites, blogs e páginas em redes sociais que ensinam as melhores técnicas e ferramentas para que crianças e adolescentes tirem a própria vida. Em agosto de 2006, um adolescente de 16 anos, morador de Porto Alegre, teve o suicídio assistido e incentivado pela internet, naquele que se caracterizou como o primeiro caso conhecido do país.
— Dados mostram que, a cada suicídio adulto, há de 10 a 20 tentativas que não acabaram em morte. No caso de crianças, são estimadas 300 tentativas para um suicídio consumado, seja porque elas usam método pouco letal, seja por dificuldade de acesso a instrumentos — afirma a psicóloga do Hospital Sanatório Partenon Marta Conte.
"Não pode achar que é bobagem"
A psicóloga Marta Conte ressalta, novamente, que, "quanto mais proibido e silenciado o tema do suicídio mais sintomas de passagens ao ato pode-se esperar". No caso de crianças e adolescentes, a situação é ainda pior. Segundo ela, ninguém fala sobre o assunto, apesar de estudos mostrarem que 90% dos jovens atendidos em emergência psiquiátrica chegam lá após tentativas de se matar.
— Muitas são reincidentes: já tentaram se matar outra vez e, machucados, passaram por um clínico geral que os liberou em seguida — alerta.
Mas como identificar um comportamento suicida? Especialistas afirmam que é preciso prestar atenção a qualquer sinal que a criança ou o adolescente demonstrem sobre a vontade de tirar a própria vida. Além de comunicar verbalmente o objetivo de se matar, ela pode apresentar sinais como tristeza prolongada, mudança brusca de comportamento, agressividade e intolerância.
O suicidólogo Carlos Felipe D'Oliveira orienta que "a primeira coisa a fazer é considerar que há um risco. Não pode achar que é bobagem, coisa momentânea ou feita para chamar atenção. O suicídio tem um aspecto importante, que é a comunicação. Se a pessoa está dizendo que tem um tipo de sofrimento e que não encontra saída, é preciso ficar atento e procurar um serviço de saúde mental".
CVV, o amigo das horas incertas
De acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), por mais planejado que seja, o suicídio parte de um ato geralmente motivado por eventos negativos. Esse impulso é transitório e tem duração de alguns minutos ou horas. Ou seja, acolher uma pessoa durante a crise pode interromper o impulso suicida, evitando a perda daquela vida.
Talvez muita gente não saiba, mas há quase quatro anos, Santa Maria ganhou um forte aliado nessa luta. Trata-se do Centro de Valorização da Vida (CVV). Há mais de cinco décadas, a organização não-governamental presta serviço de apoio emocional voluntário, gratuito e sigiloso a todas as pessoas que procuram o serviço, desejando compartilhar seus sentimentos.
Conforme Jorge Brandão, um dos fundadores da unidade local, são cerca de 25 voluntários capacitados para ouvir os sentimentos do outro, sem qualquer tipo de pré-conceito, juízo de valor ou aconselhamento.
— O CVV é o amigo certo das horas incertas. Pesquisas comprovam que mais de 50% das pessoas que cometem suicídio não passam por consultórios de terapeutas, psicólogos ou psiquiatras. Estamos presentes em um momento de fragilidade no qual as pessoas precisam conversar, desabafar — comenta o voluntário.
Se precisar, ligue 141
Não são poucas as pessoas que, diante de um momento de extrema angústia, recorrem ao telefone 141. No Brasil, são cerca de 80 postos que recebem, em média, 1 milhão de ligações por ano. Em Santa Maria, são cerca de 300 ligações por mês, sem contar os acolhimentos presenciais. Mas a expectativa é que a procura aumente a partir de junho. Por ser considerado um serviço de utilidade pública, as ligações passarão a ser gratuitas — hoje, quem procura o serviço paga o custo de uma ligação local.
É necessário ressaltar que não é objetivo do CVV substituir o trabalho de profissionais especializados, como psicólogos e psiquiatras. O voluntário Luciano Benitez explica que a ONG desempenha um trabalho preventivo. Trabalhando com a empatia e seguindo fundamentos da psicologia humanista, eles se colocam no lugar do outro. Segundo Benitez, isso "auxilia a pessoa a valorizar as coisas que são importantes para ela. E, assim, ajudá-la a encontrar nela própria o suporte que precisa para superar as dificuldades enfrentadas no momento em que estão procurando ajuda".
Brandão acredita ainda que a pessoa que pensa em suicídio não quer morrer, mas, sim, "fugir de uma dor psíquica insuportável".
— À medida em que ela conversa e consegue se reorganizar, esse momento passa. Todos nós temos ambivalência, temos o desejo do autoextermínio em função dessa dor psíquica insuportável, mas, também, temos naturalmente o desejo de viver. Então, valorizar esse desejo de viver é o nosso trabalho. Quando valorizamos a vida, evitamos o suicídio — argumenta.
Sobreviventes de suicídio
O termo luto por suicídio descreve o período de ajustamento a uma morte experimentado por familiares, amigos e pessoas próximas ao falecido.
De acordo com a OMS, a cada ano, cerca de 7% da população mundial é afetada por casos de autoextermínio. Pesquisas estimam que até seis pessoas sejam intimamente afetadas em cada tentativa ou caso consumado.
O tabu em torno do assunto faz com que o suicídio deixe como legado um estigma negativo que persegue, principalmente, as pessoas mais próximas da vítima.
Conforme a enfermeira Vergínia Rossato, o relato de pessoas que perderam alguém para o suicídio demonstram a angústia e o "dissabor que é não estar junto dessa pessoa, o sentimento de raiva e de culpa por não ter conseguido ajudá-la, mesmo ela tendo dado sinais".
"A pecha suicida é motivo de grande desconforto para os familiares que, além da dor da perda, ainda lidam com a sensação de culpa ou impotência diante do ocorrido", escreve o jornalista André Trigueiro no livro Viver É a Melhor Opção — A Prevenção do Suicídio no Brasil e no Mundo. Não por acaso, países como os Estados Unidos definem pais, mães, irmãos, filhos e amigos de "vítimas de si mesmas" como "sobreviventes de suicídio".

Suicídio e Alma ____________________________________ James Hillman


 “E é na vida que surge o suicídio. Contrariamente às crenças populares, há maior probabilidade de o suicídio ocorrer no lar do que no hospício. Ele acontece às pessoas famosas sobre quem lemos, perto de nós a alguém que conhecemos, na família – ou em nós mesmos. Como qualquer golpe do destino- amor, tragédia, glória – somente quando é distorcido, quando forma parte de uma síndrome psicótica é que o suicídio torna-se um caso para o psiquiatra. Em si mesmo, o suicídio não é nem síndrome, nem sintoma. Por isso, essa investigação não pode ser especializada; focalizará, ao invés disso, o suicídio no ambiente humano da análise, isto é, como ele poderia aparecer, e de fato aparece, dentro do curso normal de qualquer vida” (p. 24).

“[...] em nome deste propósito – promover a vida – justifica-se ao médico usar qualquer meio que impeça um paciente de tirar a própria vida. [...] O próprio modelo médico sustenta a regra-padrão: qualquer indicação de suicídio, qualquer ameaça de morte exige a ação imediata de cadeados e drogas e vigilância constante – tratamento normalmente reservado aos criminosos” (p. 44).

“[...] o suicídio é uma das possibilidades humanas. A morte pode ser escolhida. O significado dessa escolha é diferente, de acordo com as circunstâncias e o indivíduo. Exatamente aqui, onde terminam os relatórios e as classificações, começa o problema analítico. Um analista preocupa-se com o significado individual de um suicídio, que não consta nas classificações. Trabalha a partir da premissa de que, cada morte é significativa e de algum modo compreensível, para além das classificações” (p. 51).

“Não somos responsáveis pela vida e pela morte uns dos outros, a vida e a morte de cada homem é dele próprio. Somos, porém, responsáveis por nossos envolvimentos” (p. 94).       

HILLMAN, James. Suicídio e Alma. Tradução de Sônia Maria Caiuby Labate. 4ª. Ed – Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.





domingo, 17 de maio de 2015

CVV - Falando abertamente sobre suicídio

COMO PODEMOS DEFINIR O SUICÍDIO?
Suicídio é um gesto de autodestruição, realização do desejo de morrer ou de dar fim à própria vida. É uma escolha ou ação que tem graves implicações sociais. Pessoas de todas as idades e classes sociais cometem suicídio. A cada 40 segundos uma pessoa se mata no mundo, totalizando quase um milhão de pessoas todos os anos. Estima-se que de 10 a 20 milhões de pessoas tentam o suicídio a cada ano. De cada suicídio, de seis a dez outras pessoas são diretamente impactadas, sofrendo sérias consequências difíceis de serem reparadas.

O SUICÍDIO ESTÁ VINCULADO A ALGUMA DOENÇA MENTAL?
O suicídio resulta de uma crise de duração maior ou menor, que varia de pessoa para pessoa. Não está necessariamente ligado a uma doença mental, mas sim a um momento crítico que pode ser superado. As pessoas correm menos risco de se matar quando aceitam ajuda.


AS PESSOAS QUE TENTAM SUICÍDIO PEDEM SOCORRO?
Sim, é frequente pedir ajuda em momentos críticos, quando o suicídio parece uma saída. A vontade de viver aparece sempre, resistindo ao desejo de se autodestruir. De forma inesperada, as pessoas se veem diante de sentimentos opostos, o que faz com que considerem a possibilidade de lutar para continuar vivendo. Encontrar alguém que tenha disponibilidade para ouvir e compreender os sentimentos suicidas fortalece as intenções de viver.

O SUICÍDIO PODE SER PREVENIDO?
Sim. Segundo a OMS – Organização Mundial de Saúde, 90% dos casos de suicídio podem ser prevenidos, desde que existam condições mínimas para oferta de ajuda voluntária ou profissional. No Brasil, o CVV – rede voluntária de prevenção – atua nesse sentido há mais de 50 anos. 

http://www.cvv.org.br/images/stories/saibamais/falando_abertamente_sobre_suicidio.pdf


Manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental

Aspectos psicológicos no suicídio

Existem estágios no desenvolvimento da intenção suicida, iniciando-se geralmente com a imaginação ou a contemplação da idéia suicida. Posteriormente, um plano de como se matar, que pode ser implementado por meio de ensaios realísticos ou imaginários até, finalmente, culminar em uma ação destrutiva concreta. Contudo, não
podemos esquecer que o resultado de um ato suicida depende de uma multiplicidade de variáveis que nem sempre envolve planejamento.

Existem três características próprias do estado em que se encontra a maioria das pessoas sob risco de suicídio:

1. Ambivalência: é atitude interna característica das pessoas que pensam em ou que tentam o suicídio. Quase sempre querem ao mesmo tempo alcançar a morte, mas
também viver. O predomínio do desejo de vida sobre o desejo de morte é o fator que possibilita a prevenção do suicídio. Muitas pessoas em risco de suicídio estão com
problemas em suas vidas e ficam nesta luta interna entre os desejos de viver e de acabar com a dor psíquica. Se for dado apoio emocional e o desejo de viver aumentar, o risco de suicídio diminuirá.

2. Impulsividade: o suicídio pode ser também um ato impulsivo. Como qualquer outro impulso, o impulso de cometer suicídio pode ser transitório e durar alguns minutos ou horas. Normalmente, é desencadeado por eventos negativos do dia-a-dia. Acalmando tal crise e ganhando tempo, o profissional da saúde pode ajudar a diminuir o risco suicida.

3. Rigidez/constrição: o estado cognitivo de quem apresenta comportamento suicida é, geralmente, de constrição. A consciência da pessoa passa a funcionar de forma
dicotômica: tudo ou nada. Os pensamentos, os sentimentos e as ações estão constritos, quer dizer, constantemente pensam sobre suicídio como única solução e não são capazes de perceber outras maneiras de sair do problema. Pensam de forma rígida e drástica: “O único caminho é a morte”; “Não há mais nada o que fazer”; “A única coisa que poderia fazer era me matar”. Análoga a esta condição é a “visão em túnel”, que representa o estreitamento das opções disponíveis de muitos indivíduos em vias de se matar.

A maioria das pessoas com idéias de morte comunica seus pensamentos e intenções suicidas. Elas, freqüentemente, dão sinais e fazem comentários sobre “querer morrer”, “sentimento de não valer pra nada”, e assim por diante. Todos esses pedidos de ajuda não podem ser ignorados.

Fique atento às frases de alerta. Por trás delas estão os sentimentos de pessoas que podem estar pensando em suicídio. São quatro os sentimentos principais de quem pensa em se matar. Todos começam com “D”: depressão, desesperança, desamparo e desespero (regra dos 4D). Nestes casos, frases de alerta + 4D, é preciso investigar
cuidadosamente o risco de suicídio. 

Frases de alerta
“Eu preferia estar morto”.
“Eu não posso fazer nada”.
“Eu não agüento mais”.
“Eu sou um perdedor e um peso pros outros”.
“Os outros vão ser mais felizes sem mim”.

Sentimentos
Quatro D:
Depressão
Desesperança
Desamparo
Desespero

Idéias sobre suicídio que levam ao erro
“Se eu perguntar sobre suicídio, poderei induzir o paciente a isso.” 
– Questionar sobre idéias de suicídio, fazendo-o de modo sensato e franco, aumenta o vínculo com o paciente. Este se sente acolhido por um profissional cuidadoso,
que se interessa pela extensão de seu sofrimento.

“Ele está ameaçando suicídio apenas para manipular.”
 – A ameaça de suicídio sempre deve ser levada a sério. Chegar a esse tipo de recurso indica que a pessoa está sofrendo e necessita de ajuda.

“Quem quer se matar, se mata mesmo.” 
– Essa idéia pode conduzir ao imobilismo terapêutico, ou ao descuido no manejo das pessoas sob risco. Não se trata de evitar todos os suicídios, mas sim os que podem ser evitados.

“Quem quer se matar não avisa.” 
– Pelo menos dois terços das pessoas que tentam ou que se matam haviam comunicado de alguma maneira sua intenção para amigos, familiares ou conhecidos.

“O suicídio é um ato de covardia (ou de coragem)”.
– O que dirige a ação auto-inflingida é uma dor psíquica insuportável e não uma atitude de covardia ou coragem.

“No lugar dele, eu também me mataria.” 
– Há sempre o risco de o profissional identificar-se profundamente com aspectos de desamparo, depressão e desesperança de seus pacientes, sentindo-se impotente para a tarefa assistencial. Há também o perigo de se valer de um julgamento pessoal
subjetivo para decidir as ações que fará ou deixará de fazer.


Fonte: WERLANG, B.G.; BOTEGA, N. J. Comportamento suicida. Porto Alegre: Artmed Editora, 2004.

Parte do material disponível no link abaixo:


Material do Ministério da Saúde.

http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_editoracao.pdf