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Este blog é um dos produtos da pesquisa de Mestrado "Cuidado, frágil: aproximações e distanciamentos de trabalhadores de um CAPS na atenção ao suicídio" e inclui sugestões de leitura, frases que me marcaram e vídeos que podem ser utilizados por pessoas ou grupos como disparadores para discussão e reflexão da questão do suicídio – seja na prevenção ou na compreensão dos fatores que podem estar por trás deste fenômeno - buscando compreender o sofrimento que está por trás deste acontecimento.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Veronika decide morrer ___________________ Paulo Coelho

Um livro de Paulo Coelho, lançado em 1998, "Veronika decide morrer" aborda a temática do suicídio e também da loucura.

Sinopse: O livro conta a história de Veronika, uma jovem eslovena, que não aceita a ideia de viver uma vida sem sentido, decidindo se matar com uma overdose de calmantes. O suicídio fracassa e Veronika é internada em uma clinica psiquiátrica. Atendida pelo Dr. Igor, é informada que não terá mais que algumas semanas de vida, e provavelmente, morrerá internada. Durante seu tempo interna conhece Eduard, um jovem esquizofrênico que não conversa com ninguém. Veronika e Eduard se apaixonam e resolvem fugir da clinica psiquiátrica. Paulo Coelho inspira-se na sua própria experiência de vida, vivida aos 17 anos, idade em que também esteve internado numa clínica. 

"No dia 11 de novembro de 1997, Veronika decidiu que havia - afinal! - chegado o momento de se matar. [...]" (p. 07).

"Acreditava ser uma pessoa absolutamente normal. Sua decisão de morrer devia-se a duas razões muito simples, e tinha certeza de que, se deixasse um bilhete explicando, muita gente ia concordar com ela.
A primeira razão: tudo em sua vida era igual, e - uma vez passada a juventude - a tendência era de que tudo passasse a decair, a velhice começasse a deixar marcar irreversíveis, as doenças chegassem, os amigos partissem. Enfim, continuar vivendo não acrescentava nada; ao contrário, as possibilidades de sofrimento aumentavam muito.
A segunda razão era mais filosófica: Veronika lia jornais, assistia à TV, e estava a par do que se passava no mundo. Tudo estava errado, e ela não tinha como consertar aquela situação - o que lhe dava uma sensação de inutilidade total" (p. 13).

"Aos 24 anos, depois de ter vivido tudo que lhe fora permitido viver - e olha que não foi pouca coisa! - Veronika tinha quase certeza de que tudo acabava com a morte. Por isso escolhera o suicídio: liberdade, enfim. Esquecimento para sempre. No fundo do seu coração, porém, restava a dúvida: e se Deus existe? Milhares de anos de civilização faziam do suicídio um tabu, uma afronta a todos os códigos religiosos: o homem luta para sobreviver e não para entregar-se. A raça humana deve procriar. A sociedade precisa de mão de obra. Um casal necessita de uma razão para continuar junto, mesmo depois que o amor deixou de existir, e um país precisa de soldados, políticos e artistas.

“Se Deus existe, o que eu sinceramente não acredito, entenderá que há um limite para a compreensão humana. Foi Ele quem criou esta confusão, onde há miséria, injustiça, ganância, solidão. Sua intenção deve ter sido ótima, mas os resultados são nulos; se Deus existe, Ele será generoso com as criaturas que desejaram ir embora mais cedo desta Terra, e pode até mesmo pedir desculpas por nos ter obrigado a passar por aqui.”
Que se danassem os tabus e as superstições. Sua religiosa mãe dizia: “Deus sabe o passado, o presente e o futuro.” Nesse caso, já lhe havia colocado neste mundo com plena consciência de que ela terminaria por se matar, e não iria ficar chocado com seu gesto" (p. 14).

"- Por isso eu estava chorando - disse Veronika. - Quando tomei os comprimidos, eu queria matar alguém que detestava. Não sabia que existiam, dentro de mim, outras Veronikas que eu saberia amar" (p. 70) 
     
"Estava internada num hospício, e podia sentir coisas que os seres humanos escondem de si mesmos - porque somos todos educados apenas para amar, aceitar, tentar descobrir uma saída, evitar o conflito. Veronika odiava tudo, mas odiava principalmente a maneira como conduzira sua vida - sem jamais descobrir as centenas de outras Veronikas que habitavam dentro dela, e que eram interessantes, loucas, curiosas, corajosas, arriscadas." (p. 73)




domingo, 18 de dezembro de 2016

A era da autodestruição

Os jovens buscam cada vez mais no suicídio uma fuga para seus sofrimentos. Maior acesso a drogas, isolamento e perfeccionismo são algumas das explicações para o crescimento do problema

“Eu fiz de conta que era um dia normal. Levantei, fui à escola, voltei para casa e subi no telhado do prédio. Meu pé direito já estava no ar. Bem quando ia pular, olhei para cima. Do outro lado da rua, uma família olhava para mim da janela do seu apartamento. Havia essa menininha com o olhar fixo em mim, e ela balançou a cabeça e cobriu o rosto. Por causa dela, não pulei.”

Esse é o depoimento de um jovem de 20 anos que chegou à beira do suicídio em 2009 e mudou de ideia. O relato foi postado num tópico no site Reddit sobre os usuários da rede social que tentaram se matar. No início de outubro eram quase 10 mil comentários no tópico, boa parte relatos em primeira pessoa de uma epidemia silenciosa que não para de crescer no Brasil.

Segundo dados do Mapa da Violência 2014, a taxa de suicídio de jovens com idade entre 10 e 14 anos aumentou 40% no país nos últimos 10 anos. Entre os jovens com idade entre 15 e 19 anos, o crescimento foi de 33%. O Brasil é um exemplo de uma tendência que assola o mundo: o suicídio é a principal causa de morte entre jovens em um terço dos países. Por aqui, o suicídio está atrás de homicídios e acidentes de carro, com taxas 4 e 6 vezes maiores de mortes. O problema é que o assunto ainda é um tabu — e características da adolescência, como isolamento e alterações de humor, fazem com que o comportamento suicida muitas vezes passe batido para a família.

“O adolescente não tem uma visão crítica em relação ao prejuízo. Prepotência, despreocupação com o futuro e achar que aquilo não vai dar em nada os deixam vulneráveis”, diz Jair Segal, psiquiatra especialista em comportamento suicida. “Boa parte desses jovens é exposta mais precocemente a substâncias psicoativas, especialmente o álcool, usado para minimizar o sofrimento. E a sociedade está cada vez mais tolerante ao uso de álcool em todas as faixas etárias.”

O último Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), de 2013, aponta que 36% dos jovens consomem álcool de forma nociva — quatro doses ou mais em até duas horas. É um aumento de três pontos percentuais em relação há três anos, segundo o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, da Universidade Federal de São Paulo. Quando a bebida é aliada à depressão, doença que afeta quase um terço dos adolescentes, tem-se uma combinação perigosa. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a depressão é a principal causa de doença e inaptidão de adolescentes no mundo.

Outro fator apontado como uma das causas do aumento nos suicídios é o excesso de aulas, cursos e esportes a que os jovens são submetidos. Trata-se de um estilo de vida que está sendo investigado por psicólogos que relacionam a epidemia ao perfeccionismo. Estudo divulgado no ano passado nos EUA apontou que 70% dos 33 meninos que tiraram a própria vida tinham exigências altas demais. “O adolescente muitas vezes sofre com uma imagem fantasiada dos pais e não tem espaço para ser quem ele é, além de não tolerar a frustração”, diz Karen Scavacini, psicóloga e fundadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio.


INTERNET – Entre trolls e anjos da guarda

A internet tem um papel ambivalente quando o assunto é suicídio. Por um lado, ela pode ser a origem dos problemas dos jovens que tiram a própria vida. Um caso bastante comentado no Brasil foi o de Júlia Rebeca, que em 2013 anunciou sua própria morte pelo Twitter depois que um vídeo íntimo seu com outra jovem e um homem foi divulgado no WhatsApp. Rebeca, que morava em Parnaíba, no Piauí, foi encontrada morta enrolada no fio do aparelho de fazer chapinha. Na mesma semana, uma adolescente de 16 anos se suicidou em Veranópolis, no Rio Grande do Sul, depois que um ex-namorado vazou suas fotos íntimas na internet. “Essa exposição provoca uma dor muito grande e, se os jovens não conseguem falar sobre isso com a família ou amigos porque vão sofrer rejeição, eles correm maior risco de entrar em depressão e cometer suicídio”, diz o psiquiatra Humberto Correa.

O bullying online já levou dezenas de jovens ao suicídio e fóruns virtuais oferecem até passo a passo para se matar. Um dos primeiros casos brasileiros de suicídio assistido foi do gaúcho Vinícius Gageiro Marques, que se matou em 2006. Marques foi orientado a usar o método barbecue, ou suicídio por inalação de monóxido de carbono. Ele consiste em manter duas grelhas queimando num local fechado e pequeno, como um banheiro. Marques pediu ajuda num grupo de discussão em inglês para saber como suportar o calor até desmaiar, e um bombeiro aposentado de Chicago lhe deu instruções. Foi uma amiga virtual do Canadá que percebeu o que estava acontecendo, ligou à polícia local e pediu que avisassem as autoridades gaúchas. Era tarde demais.

Por outro lado, nem tudo é tragédia na relação entre web e jovens suicidas. A americana Trisha Prabhu, de 13 anos, criou um projeto para combater o cyberbullying, que a levou a ser finalista na Feira de Ciências do Google realizada neste ano. Trisha criou o “Rethink” (repense, em inglês), um sistema de alerta que exige que as pessoas pensem duas vezes antes de postar algo prejudicial em redes sociais. A ideia surgiu depois que ela resolveu estudar o cérebro dos adolescentes e descobriu que ele não está completamente desenvolvido, o que faz com que os jovens sejam mais impulsivos. Trisha testou o alerta com voluntários e, segundo ela, 93% desistiram de divulgar imagens depois do alerta.

A internet também pode ser um lugar onde se encontra ajuda. “As pessoas sentem que não recebem atenção ou são julgadas. Aí falam conosco e se sentem aliviadas”, disse à GALILEU Adriana Rizzo, voluntária do Centro de Valorização da Vida (CVV), ONG de combate ao suicídio que recebe um milhão de ligações por ano no Brasil. A ONG também atende por e-mail, chat e Skype. Hoje, a internet corresponde a 20% das assistências, a maioria voltada a jovens.

INFLUÊNCIA – Suicídio por contágio

Um rapaz da aristocracia alemã se apaixona por uma bela jovem casada, não é correspondido e acaba se matando com um tiro na cabeça. Esse é o resumo do romance “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Johann Wolfgang Goethe, proibido em vários países no século 18 por causa de uma onda de suicídios entre jovens que usaram o mesmo método do protagonista.

Por causa disso, a psicanálise criou o termo “efeito Werther”, ou seja, o suicídio “por contágio” ou “copycat”, quando celebridades ou figuras públicas se suicidam e influenciam multidões. Segundo pesquisas, ao menos 5% dos jovens tiram a própria vida por contágio. A atriz Marilyn Monroe, por exemplo, causou um aumento de 12% nos suicídios nos Estados Unidos após sua morte por overdose de barbitúricos em 1962.

“A forma como um suicídio é tratado na escola ou na mídia pode influenciar outros jovens, principalmente se há uma identificação muito forte com essa pessoa”, diz Karen Scavacini. O comportamento em vida de artistas também pode ser uma influência ruim. Quer dois exemplos? No clipe Everytime, a cantora Britney Spears se suicida numa banheira e renasce. Outra cantora, Demi Lovato, já declarou que se cortava para aliviar a dor.

ESTIGMA DA LOUCURA – Elefante na sala de estar

Suicídio já foi um tabu maior no passado, quando os jornais sequer falavam no tema por medo do efeito contágio. Anos de debates depois, ficou claro que, na verdade, a melhor forma de combatê-lo é exatamente falando sobre o assunto. “Há 20 anos, ninguém falava em câncer, Aids”, diz Karen. “Hoje, por que as pessoas fazem exames preventivos do câncer? Porque essas doenças foram debatidas, houve mobilização e campanhas.”

O problema do tabu é que as pessoas que tentam o suicídio são vistas como loucos, não como pessoas doentes que precisam desesperadamente de ajuda — e isso só serve para isolá-las ainda mais. Mônica Kother Macedo, psicanalista especializada em suicídio e professora da PUCRS, trabalhou diretamente com pessoas que tentaram se matar e uma das frases mais ouvidas foi “se eu dissesse o que passava na minha cabeça iam dizer que estava louco”. “Às vezes nem a pessoa leva seu sofrimento a sério”, diz Mônica.

Em mais de 90% dos casos de suicídio havia uma doença mental envolvida, sendo a depressão a mais comum. “As pessoas são capazes de ir ao médico por causa de rinite alérgica, mas não procuram ajuda para curar uma depressão. Elas veem isso como uma falência pessoal ou familiar, e não como uma doença, que tem cura, ao contrário da falência pessoal”, diz o psiquiatra Segal.

Outro obstáculo que isola ainda mais a pessoa com comportamento suicida são os mitos, como o de que quem fala em se matar não vai fazê-lo. “Pode ser que a pessoa esteja falando para chamar atenção, mas isso não é necessariamente negativo, ela está pedindo ajuda”, diz Carlos Felipe Almeida D’Oliveira, que foi coordenador da Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio.


ETNIAS – Índios em extinção

O Rio Grande do Sul é o estado com a maior taxa de suicídio do Brasil, quase o dobro da média nacional. Mas a cidade que ocupa a primeira posição do ranking de suicídios, com taxa dez vezes acima da média nacional, está no outro extremo do país: é São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. O motivo? Os índios entraram numa espécie de processo de extinção voluntária. É como se a ameaça de morte coletiva de 2012 da tribo Guarani Caiová estivesse se concretizando pouco a pouco em vários lugares do Brasil.

Nos últimos 10 anos, o suicídio entre jovens no Amazonas cresceu 134%, e a situação é parecida em outros estados do Norte, como Acre e Rondônia, que viram dobrar suas taxas de suicídios. E essa tendência não é registrada apenas no Brasil. Nos Estados Unidos, os jovens nativos com idade entre 15 e 24 anos se suicidam 3,3 vezes mais do que o restante dos norte-americanos. Já entre os indígenas Inuit do Canadá o índíce de suicídio é 11 vezes maior do que a média nacional. “Conflitos de terra, questões culturais, abuso de álcool. Precisamos de uma decisão política para considerar que é um problema de saúde pública”, diz o médico Carlos Felipe Almeida D’Oliveira.

DEPOIMENTO – O pior luto

“No dia 13 de março de 2014, dia do Arcano da morte segundo a minha religião, minha filha mais velha, de 18 anos, nos deixou. Naquela quinta-feira, ela almoçou comigo, pediu um suco de manga e conversou normalmente. Deixei-a na casa da mãe com o combinado de nos encontrarmos no final da tarde, perto das 19 horas, que é a hora em que meus outros dois filhos chegam da escola. Minha filha de 16 anos chegou 10 minutos mais cedo e viu a cena. No início ela achou que não era verdade, já que o corpo estava semiapoiado na escada. Eu cheguei na sequência, ela já gritando, meu filho também, chegando da perua.

Eu a peguei, a outra filha cortou a corda, o pequeno tirou os óculos, e tentei reanimá-la. Ela se matou falando no WhatsApp, sem explicação. Ela calculou tudo: foi no dia em que sabia que eu estaria lá porque é o dia da semana que eu sempre passo na casa deles. Ela já tinha feito vestibular para Direito e concurso de técnico judiciário, estava só esperando as respostas. Ela deixou um bilhete, que diz basicamente que ninguém tem culpa, que ela não aguentava mais. Terminou com uma frase destacada: “gente morta não decepciona ninguém”.

No bloco de notas que encontramos havia o desenho de um laço e, como ela já foi escoteira, fez dois laços de tal forma que demorei a soltar do pescoço. O livro de escoteiro estava fora do lugar, e depois descobrimos que havia um bonequinho enforcado no quarto dela. Sinais que só fiquei sabendo depois. Ela não sofria de depressão, ainda não conseguimos entender por que ela resolveu fazer isso.

Eu era o pai herói, fiz o parto dela, fui a primeira e última pessoa que ela viu na vida. A primeira palavra que ela falou foi “papai”. Era meu orgulho. Às vezes ainda ouço a sua voz. O luto de uma morte natural ou acidental uma hora acaba e vira uma saudade. O luto do suicídio não acaba nunca. Foi o que ouvi em depoimentos no grupo de enlutados por suicídio que frequento. É infinitamente pior saber que ela foi porque quis nos deixar. Por mais que queiramos racionalizar, fica a sensação de que não estávamos à altura para satisfazê-la.


DNA – Gene suicida

Já pensou se um simples exame de sangue detectasse tendências suicidas? Desde 1920, a neurociência e a psiquiatria se debruçam sobre os fatores genéticos do tema, e os resultados recentes são interessantes. Existe um denominador comum entre pessoas que tentaram se matar ou pensaram no assunto: uma mutação no SKA2, gene que desempenha um papel importante na forma como lidamos com o estresse. Estudo publicado no Jornal Americano de Psiquiatria mostra que os níveis de SKA2 estavam reduzidos nos genomas de pessoas que cometeram suicídio. O gene, responsável por orientar os receptores de hormônios do estresse nos núcleos das células, inibe pensamentos negativos e controla a impulsividade. Outro risco genético de suicídio está relacionado ao transporte do hormônio da felicidade. Estudos publicados nos últimos 10 anos relacionam depressão e tentativas de suicídio a alterações no transportador da serotonina, o gene 5-HTTLPR. O psiquiatra Jair Segal fez sua tese de doutorado com base nessa hipótese e diz que familiares de pessoas que se mataram têm um alto risco de tentar o suicídio, assim como gêmeos idênticos, com uma possibilidade de 15% no caso de um ter se suicidado. No entanto, essa relação é apenas um fator de vulnerabilidade. “Não existe determinismo genético, só sabemos que isso está ligado ao suicídio quando há algum transtorno mental”, explica.

RANKING – Epidemia silenciosa

O suicídio está na 16ª posição no ranking da Organização Mundial de Saúde de doenças que mais matam no mundo. Embora não tire tantas vidas quanto a isquemia (que ocupa o primeiro lugar na lista), ele mata mais do que muitas patologias  e que guerras. Acompanhe:

HISTÓRICO – Uma longa história

A forma de encarar o suicídio mudou nos últimos 2,5 mil anos. Em Roma, quem queria se matar tinha de pedir autorização ao Senado, enquanto no Japão era um ritual de honra. Descubra o que mudou:

510 a.C. – Lucrécia, de origem nobre, foi estuprada pelo filho do tirano etrusco Tarquínio, o soberbo. Antes de cravar uma adaga no peito, pediu vingança e provocou uma revolta popular.

399 a.C. – Condenado à morte pelo povo de Atenas, Sócrates escolheu se suicidar com uma taça de cicuta a renunciar às suas ideias.

30 a.C. – Cleópatra, última rainha do Egito, morreu após tomar um coquetel de drogas aos 39 anos de idade. O mesmo destino teve seu amante, o líder romano Marco Antônio.

452 – O Cristianismo considerou o suicídio um “trabalho do demônio” no Concílio de Arles, uma espécie de julgamento da Igreja Católica.

Século 12 – Surge no Japão o haraquiri, o ritual de estripação de samurais para demonstrar pureza de caráter. Os pilotos suicidas da Segunda Guerra Mundial seguiram a mesma lógica de manter a honra.

Século 17 – Começa o processo de “secularização do suicídio”. A discussão sobre insanidade englobou o suicídio, que começou a ser visto a partir de uma perspectiva mental.

Século 19 – O sociólogo Émile Durkheim interpreta o suicídio por meio de fatores sociais, como a incapacidade de integração à sociedade, no livro O Suicídio, um Estudo Sociológico.

Século 20 – Em 1918, o papa Bento XV reconhece o suicídio como insanidade. Paralelamente, o ato deixa de ser crime em vários países e é estudado pela Psicologia.

ALERTA: Se você tem pensamentos suicidas ou está deprimido, entre em contato com um voluntário do CVV pelo telefone 141 ou através do site www.cvv.org.br .

⇒ Fonte: Revista Galileu

https://psicologiaacessivel.net/2016/11/22/a-era-da-autodestruicao/


domingo, 11 de dezembro de 2016

"Prezada Depressão,

Você não vai vencer. Às vezes você é ardilosa e parece que está vencendo e às vezes você está mesmo vencendo, mas eu sou conhecida por meus retornos e no final eu vou vencer. Você tenta jogar esses jogos de manipulação, procura isolar a todos e cada um de seus "jogadores", fazendo com que se sintam sozinhos e como se cada um de nós fôssemos os únicos neste jogo malicioso seu. Você não nos engana. Nós nos reunimos todos os dias e existe um poder e uma forte resistência que se forma quando as pessoas se reúnem. Nós não estamos jogando este jogo sozinhos, estamos jogando como uma equipe. E como uma pessoa nesta equipe, que chegou muito perto de desistir deste jogo que chamamos de vida, aqui vai o que eu quero dizer aos meus companheiros de equipe:
Eu estava na ponte, muito perto de ser vencida. A depressão não parava de me dizer: "Você está com tanta dor, isso vai fazer tudo desaparecer. Basta saltar. Você não vai conseguir nada tentando lutar por mais tempo. Você nunca vai ficar melhor. Eu sempre vou voltar. Que vida é essa que você está vivendo? Você é inútil, indigna de ser amada e nunca poderá fazer nada direito. Basta saltar. É essa a hora."
Depressão, você acha que eu não sei reconhecer esses pensamentos? 
Isso é você falando comigo, não sou eu! 
Você é como uma nuvem que desce sobre o meu cérebro e mascara quem eu sou realmente e esconde os meus pensamentos mais autênticos. Meus verdadeiros pensamentos têm lógica. Seus pensamentos são falsos, mesmo que eu acredite neles em alguns momentos. Eu ainda nem sempre acredito que sou digna, que posso ser amada e capaz de cometer erros, porque isso é o que significa ser humano. Mas estou aprendendo. 
Eu não sou você, depressão! 
Eu sou muito mais do que você. Eu tenho muito potencial. Eu sou bonita. Eu faço a diferença aqui na Terra. A viagem não é fácil. É terrivelmente difícil e às vezes parece insuportável, mas acreditem em mim, outras pessoas estão cientes de você, outras pessoas sabem quem você é, e por causa dessa conexão que temos vamos lutar com você juntas e, não, deixar você nos vencer. 
Mais uma coisa, só porque eu luto com você muitas vezes não significa que eu tenha vergonha de você. Eu não estou envergonhada por você ou por me fazer sentir, às vezes, como se eu fosse louca. Você é uma doença. Você é como qualquer doença física, exceto que as pessoas estigmatizam você, porque eles simplesmente não te entendem. Mas para mim e todos os outros que você faz sofrer está certo, OK. 
Nós estamos levando um dia de cada vez.
Atenciosamente,
Michelle, a guerreira


Texto original: Dear Depression, You Will Not Win / By  Michelle Janiak
https://themighty.com/2016/10/a-letter-to-depression-you-will-not-win/

http://homemcontrasimesmo.blogspot.com.br/2016/10/prezada-depressao-voce-nao-vai-vencer.html


domingo, 4 de dezembro de 2016


"A escritora Martha Manning descreveu sua depressão e TEC [tratamento por eletrochoque] [...] Ela teve uma experiência intensa e prolongada com a TEC quando sua depressão estava em seu momento mais grave. Decidiu submeter-se ao tratamento depois de descobrir o endereço de uma loja de armas para se matar.

- Não queria morrer porque me odiava, mas porque me amava o suficiente para querer o fim da dor. Eu me apoiava na porta do banheiro de minha filha a cada dia para ouvi-la cantar - ela tinha onze anos e sempre cantava no chuveiro -, e aquilo era um convite para que eu não sucumbisse por mais um dia. Eu não conseguia me importar, mas de repente percebi que, se comprasse uma arma e a usasse, aquela menina pararia de cantar. Eu a silenciaria. Naquele dia mesmo me internei [...]".

- Andrew Solomon in "O demônio do meio-dia" (p. 116) 


domingo, 27 de novembro de 2016


Para falar sobre prevenção do suicídio, acredito que é preciso ir além de manuais e também mergulhar na literatura de ficção - e compreender que, ao contrário de uma visão reducionista que poderia classificar o fenômeno apenas como resultado de um transtorno mental, ele pode ser visto de forma ampliada, em diferentes versões.  

Os jovens personagens destes livros (que pensam em suicídio ou foram afetados por uma perda - sobreviventes) permitem que haja uma história complexa por trás do ato - como na realidade é.

E ainda podem ser uma forma de trabalhar esse tema com adolescentes. 

"A depressão é a imperfeição no amor. [ ...]. Quando ela chega, destrói o indivíduo e finalmente ofusca sua capacidade de dar ou receber afeição. Ela é a solidão dentro de nós que se torna manifesta e destrói não apenas a conexão com outros, mas também a capacidade de estar em paz consigo mesmo. Embora não previna contra a depressão, o amor é que tranquiliza a mente e a protege de si mesma. Medicamentos e psicoterapia podem renovar essa proteção, tornando mais fácil amar e ser amado, e é por isso que funcionam. Quando estão bem, certas pessoas amam a si mesmas, algumas amam a outros, há quem ame o trabalho e quem ame Deus: qualquer uma dessas paixões pode oferecer o sentido vital de propósito, que é o oposto da depressão".

- Andrew Solomon in "O demônio do meio-dia" (p. 15).


domingo, 20 de novembro de 2016

Perdão, Leonard Peacock ______________________ Matthew Quick


Dica de livro [Atenção: contém spoilers]

"Perdão, Leonard Peacock", de Matthew Quick (o autor de "O lado bom da vida". Comecei e acabei de ler esse livro em um dia ...

Sinopse: "Hoje é o aniversário de [18 anos de] Leonard Peacock. Também é o dia em que ele saiu de casa com uma arma na mochila. Porque é hoje que ele vai matar o ex-melhor amigo e depois se suicidar com a P-38 que foi do avô, a pistola do Reich.
Mas antes ele quer encontrar e se despedir das quatro pessoas mais importantes de sua vida: Walt, o vizinho obcecado por filmes de Humphrey Bogart; Baback, que estuda na mesma escola que ele e é um virtuose do violino; Lauren, a garota cristã de quem ele gosta, e Herr Silverman, o professor que está agora ensinando à turma sobre o Holocausto.

Encontro após encontro, conversando com cada uma dessas pessoas, o jovem ao poucos revela seus segredos, mas o relógio não para: até o fim do dia Leonard estará morto".


A história vai apresentando os motivos de Leonard para pensar em matar seu ex-amigo e se matar no dia do seu 18º aniversário, bem como sua busca para encontrar um motivo para não conseguir isso ... Ao longo do dia, Leonard quer se despedir de quatro pessoas que foram importantes para ele, deixando para cada uma um presente.

"Quero me despedir deles adequadamente. Quero dar para cada um algo que os faça se lembrar de mim. Para que saibam que eu realmente me preocupo com eles e que lamento não ter sido mais do que fui - não poder ter continuado por perto - e que o acontecerá hoje não é culpa deles" (p. 13). 


Leonard respeita e admira muito seu professor Silverman. Ele valoriza seus alunos, fazendo questão de cumprimentar a todos no início de cada aula, além de realmente procurar estimulá-los em suas aulas. Leonard tem observado que o professor sempre tem os braços cobertos, mesmo nos dias quentes, e começa a imaginar se o professor tem alguma cicatriz que gostaria de esconder.

"Para mim é difícil crer que Herr Silverman tenha tentado se suicidar, porque ele é uma pessoa muito centrada hoje em dia; é realmente o adulto mais admirável que conheço. Às vezes, chego a desejar que em algum momento ele tenha se sentido vazio, sem esperança e desamparado o bastante para cortar os pulsos até os ossos, porque, se ele sentiu essas coisas horríveis e sobreviveu para se tornar um adulto tão fantástico, então talvez haja esperança para mim" (p. 14-15). 

"- Minha vida vai melhorar? Você acredita mesmo nisso? - pergunto, embora eu saiba o que ele vai dizer, o que a maioria dos adultos sente que precisa ser dito quando lhe fazem esta pergunta, embora a enorme quantidade de evidências e experiências de vida sugiram que a vida das pessoas fica cada vez pior até elas morrerem. A maioria dos adultos simplesmente não é feliz, isto é um fato. Mas eu sei que soará menos mentiroso vindo de Herr Silverman. 
- É possível. Se você estiver disposto a fazer com que isso aconteça. 
- Acontecer o quê? 
- Não deixar o mundo destruí-lo. Essa é uma batalha diária" (p. 187).

O mistério dos braços cobertos acaba sendo um gancho para um pedido de ajuda por parte de Leonard ...

As "cartas do futuro", ideia do seu professor preferido, também são muito significativas. Nelas, Leonard tenta imaginar para si mesmo um futuro bem diferente, no qual ele encontra todo o afeto que gostaria de encontrar no seu presente. 

Trechos de uma delas: 

"[...] Você acredita no futuro agora. É fácil para você, porque ama o presente. E, também, porque agora você tem S. Você ainda fica melancólico algumas vezes, especialmente quando pensa no passado, mas geralmente você é feliz. É uma vida boa e estranha. Somos uma pequena família feliz. Eu entendo que você esteja passando por um momento difícil, Leonard. [...] Eu sei que você realmente quer matar aquele certo alguém. Que você se sente abandonado por seus pais. Desprezado na escola. Sozinho. Sem amigos. Preso. Com medo.

Seu passado - aquilo que você está experimentando atualmente - seria difícil para qualquer um suportar. Você teve de ser muito forte para conseguir chegar tão longe. Admiro sua coragem, e espero que você possa aguentar mais um pouco. Vinte anos parecem muito tempo, aposto, mas vão passar mais rápido do que você pode imaginar.


Eu sei que você só quer que tudo acabe, que não consegue ver nada de bom em seu futuro, que o mundo parece escuro e terrível, e talvez você tenha razão, o mundo pode ser, definitivamente, um lugar apavorante. Eu sei que você mal está suportando. Mas, por favor, aguente mais um pouco. Por nós. Por si mesmo. [...] Um estranho, belo e novo mundo o aguarda, Leonard. Nós encontramos um oásis em suas ruínas. De verdade.
Se quiser conhecê-lo, apenas aguente, está bem?" (p. 36-37).


Enfim, um livro muito bem escrito sobre a importância dos encontros que temos ao longo das nossas vidas.

domingo, 13 de novembro de 2016

“[...] um dos maiores enigmas continua sendo a relação do homem com sua vida e, consequentemente, com sua morte, já que começamos a nos convencer de que a morte é parte da vida e a maneira de morrer é parte integral da maneira de viver de um indivíduo’. (p. XI). Desta maneira, o suicídio está longe de ser um comportamento simples, e ‘qualquer um que afirme que há respostas fáceis, para essa complicada questão humana, simplesmente não compreende a natureza do homem’ (SHNEIDMAN, 1975, p. 1774).

In: WERLANG, Blanca. “Proposta de uma entrevista semi-estruturada para autópsia psicológica em casos de suicídio” (2000, p. 33)



domingo, 6 de novembro de 2016


Tristeza e dignidade do suicídio ___________________ Contardo Calligaris

"O ato suicida guarda sua dignidade porque é imprevisível como qualquer ato humano

Quando eu tinha 12 anos, um tio meu se suicidou. Era um tio de quem eu gostava e que gostava de mim. Ele enfiou a cabeça no forno e abriu a torneira do gás. Deixou uma nota, sucinta, que dizia: "Suicídio por razões profissionais e amorosas".
Meus pais não esconderam de mim as circunstâncias da morte do tio e me mostraram seu bilhete. Mesmo assim, imaginei perceber, em meus pais, uma certa vergonha. Isso, porque, no fundo, eu os culpava. 
Foi a grande crise na minha idealização dos meus pais e, por conseqüência, na tranqüilidade de meu mundo: aparentemente, a amizade e o amor que eles ofereciam não tinham sido suficientes para dar a meu tio a vontade de continuar vivendo. 
Nada me garantia, portanto, que eles saberiam fazer o necessário para que eu estivesse a fim de viver. 
Foi assim que o luto pelo suicídio do meu tio foi também o fim de minha infância. Mas, em regra, quando se suicida um próximo de quem gostamos e que gostava de nós, não atribuímos vergonha e culpa a terceiros: esses sentimentos surgem em nós, ao descobrir que nossa presença e nosso amor não bastaram para que o outro quisesse viver. Em alguns casos, essa ferida nunca cicatriza. 
Quando o suicida é nosso pai ou nossa mãe, o sentimento de não termos sido a razão suficiente para ele ou ela viverem fica conosco para sempre, como um fundo melancólico, como a sensação de uma insuficiência essencial ou de uma impossibilidade de sermos amados. 
Quando o suicida é um filho ou uma filha, a perda (irreparável, pois o luto pelos nossos descendentes é contra a ordem das gerações) é acompanhada pelo sentimento de um fracasso, como se não tivéssemos conseguido transmitir o básico: a vontade de viver. Deve ser por isso que os monoteísmos consideram o suicídio como um pecado contra o criador: o suicida demonstraria o malogro de Deus. Assisti ao filme "A Ponte", de Eric Steele, e espero que continue em cartaz. Em São Paulo, já passa em apenas uma sala, duas vezes por dia. 
Alguns anos atrás, Ted Friend publicou, na "New Yorker" (13/10/ 2003), um artigo sobre a estranha freqüência com que a famosa ponte Golden Gate de San Francisco é escolhida pelos suicidas. Aparentemente inspirado pelo artigo, Steele, durante um ano inteiro, filmou a ponte, sem parar. Houve 24 suicídios e várias tentativas que foram sustadas também graças à equipe de Steele (eles informavam a polícia quando detectavam, de longe, comportamentos "suspeitos"). 
Além disso, Steele entrevistou parentes e amigos próximos dos suicidas. O tom é justo, comovedor e tocante. O filme evita o caminho mais fácil, que consistiria em nos acusar sub-repticiamente, como se, quando alguém decide morrer, fôssemos todos, de uma maneira ou de outra, responsáveis. A maior qualidade do filme é, ao contrário, a sobriedade. O ato suicida guarda sua dignidade porque, apesar das explicações dos próximos, ele permanece misterioso e radicalmente imprevisível, como qualquer ato humano. 
[...]
Pensei nas poucas vezes em que, num tribunal, tive de dizer, em nome de minha "ciência", se alguém, a partir de então, seria ou não um bom pai ou uma boa mãe. 
A verdade é que, uma vez os fatos acontecidos, somos capazes de interpretar, de encontrar explicações e mesmo de assumir responsabilidades e culpas que temos ou não temos. Mas tudo isso apenas retroativamente. 
Em matéria de comportamento humano, somos quase sempre incapazes de prever. Não sei se é um mal: talvez essa ignorância seja a condição de nossa liberdade." 

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1309200732.htm




domingo, 30 de outubro de 2016

Eventos do mês



http://www.b9.com.br/67133/podcasts/mamilos/mamilos-82-suicidio/

Pecado, egoísmo, exibicionismo, fraqueza, tabu. O suicídio é uma tragédia secreta de números impressionantes. Desde 2014, setembro foi eleito o mês de prevenção ao suicídio, o Setembro Amarelo. Um mês para falar, discutir e aprender a acolher esse que talvez seja um dos nossos maiores tabus. Até porque, sofrimento, dor, desesperança e medo não desaparecem quando empurrados para baixo do tapete. Falar é um passo importante para o processo de cura e para ressignificar o sentimento de quem ficou para trás, sem nem saber como nomear a sua dor.

Para conduzir a conversa com muita sensibilidade trouxemos o psiquiatra Fe Duarte e a voluntária do CVV Pinheiros Silvia Conceição. E contamos com participações muito especiais: Elaine Alves, psicóloga, pós doutorando do Instituto de Psicologia da USP, Tiago Zortea, psicólogo e pesquisador na Universidade de Glasgow, Paula Fontenelle, jornalista e autora do livro “Suicídio, futuro interrompido” e Larissa Vasques, mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica e Cultura da Universidade de Brasília e voluntária da CVV.

Essa é uma conversa que entendemos que gere resistência, porque ninguém quer ter. Mas que é necessária e foi feita com muito cuidado para representar as vozes dos sobreviventes. E pra ser um farol em tempos escuros, sempre a um clique de quem precisar.

Vem de coração aberto, taca-lhe o play nesse Mamilos.



domingo, 23 de outubro de 2016

Primeiros socorros em Saúde Mental

"[...] a ASEC publica esta semana a tradução de um guia, baseado no programa Mental Health First Aid (Primeiros Socorros em Saúde Mental),  com passos para os “primeiros socorros” de pessoas com transtornos mentais ou em situação de crise emocional. Você também pode ser um “socorrista em saúde mental” com estes passos e ajudar alguém próximo!

DIGNIDADE EM SAÚDE MENTAL

Por: Betty Kitchener, presidente da “Mental Health First Aid Internacional”

Para tornar a dignidade em saúde mental uma realidade, cada membro da sociedade precisa trabalhar coletivamente para tornar a saúde mental visível e não algo para se envergonhar. As pessoas precisam saber que as doenças mentais são doenças assim como as demais. E precisam saber como reconhecer problemas de saúde mental em uma pessoa e como oferecer-lhes ajuda. Elas não precisam ser profissionais de saúde mental para ter essas habilidades de primeiros socorros.

Na Austrália, o programa de Mental Health First Aid (MFHA – Primeiros Socorros em Saúde Mental) foi desenvolvido para ensinar as pessoas leigas a reconhecer e ajudar outras pessoas que estão desenvolvendo problemas de saúde mental ou que estão em uma situação de crise emocional. O plano de Ação MHFA dá orientações sobre como as pessoas podem fazer isso. Este Plano de Ação, o conteúdo de um curso presencial de 12 horas e de um curso misto (educação à distância e presencial) foi baseado em extensa pesquisa, que estabeleceu um consenso entre as opiniões especializadas de pacientes com doença mental, seus familiares e profissionais de saúde mental.

(…)

AÇÃO 1: Aproxime-se da pessoa, avalie e dê assistência à qualquer crise

A primeira tarefa é aproximar-se da pessoa, estar atento a quaisquer crises e ajudar a pessoa a lidar com elas. Os pontos chave são:

Converse com a pessoa sobre as suas preocupações
Encontre um tempo e espaço adequados em que ambos se sintam confortáveis
Se a pessoa não iniciar uma conversa com você sobre como está se sentindo, você deve dizer algo a ela
Respeite a privacidade e confidencialidade da pessoa.
Um socorrista de saúde mental precisa estar atento e ajudar com qualquer eventual crise, tal como:

A pessoa tenta prejudicar-se (por exemplo, por tentativa de suicídio, usando substâncias para se intoxicar ou se lesionando sem intenções suicidas);
A pessoa experimenta sofrimento extremo (por exemplo, um ataque de pânico, um evento traumático ou um estado psicótico grave);
O comportamento da pessoa é muito perturbador para os outros (por exemplo, eles se tornam agressivos ou perdem contato com a realidade).
Se o socorrista não acredita que a pessoa esteja em crise, ele pode perguntar como a pessoa está se sentindo e há quanto tempo se sente assim.

AÇÃO 2: Ouça sem julgamentos

É importante ouvir sem julgamentos em todos os momentos quando atuando como socorrista em saúde mental. Ao ouvir, qualquer julgamento sobre a pessoa ou a sua situação precisa ser colocado de lado, e não expresso. A maioria das pessoas que estão experimentando emoções e pensamentos angustiantes querem ser ouvidos empaticamente antes que sejam oferecidos opções e recursos que possam ajudá-los. Ao ouvir sem julgamentos, o socorrista precisa adotar certas atitudes e empregar habilidades de escuta não verbais que:

Permitam que o ouvinte possa realmente ouvir e entender o que está sendo dito a eles, e
Tornem mais fácil para a outra pessoa sentir que pode falar livremente sobre seus problemas sem ser julgada.
AÇÃO 3: Dê apoio e informação

Uma vez que uma pessoa com um problema de saúde mental se sentiu ouvida, pode ser mais fácil para o socorrista oferecer apoio e  informação. O apoio oferecido neste momento inclui suporte emocional, tal como empatia com o que a pessoa sente e oferecer a esperança de recuperação, e ajuda prática com as tarefas que podem parecer insuperáveis no momento. O socorrista também pode perguntar para a pessoa se ela gostaria de algumas informações sobre problemas de saúde mental.

AÇÃO 4: Incentivar a pessoa a buscar ajuda profissional adequada

O socorrista também pode informar a pessoa acerca de todas as opções disponíveis para ajuda e apoio. Uma pessoa com problemas de saúde mental geralmente têm uma melhor recuperação com a ajuda profissional adequada. No entanto, eles podem não saber sobre as várias opções que estão disponíveis para eles, tais como medicação, aconselhamento ou terapia psicológica, apoio aos membros da família, assistência com objetivos vocacionais e educacionais, e assistência com renda e alojamento.

AÇÃO 5: Incentivar outros suportes

Incentivar a pessoa a usar estratégias de autoajuda e buscar o apoio da família, amigos e outros. Outras pessoas que sofreram problemas de saúde mental também podem fornecer ajuda valiosa na recuperação da pessoa.

Há evidência significativa de que MHFA pode ensinar às pessoas habilidades para ajudar os outros e tornar-se mais receptivos e menos estigmatizante em suas atitudes. Uma meta-análise dos principais ensaios de avaliação demonstra que MHFA aumenta o conhecimento dos participantes acerca da saúde mental, diminui suas atitudes negativas e aumenta os comportamentos de apoio para com os indivíduos com problemas de saúde mental. O programa MHFA parece recomendável para ação de saúde pública.

Como resultado, o programa se espalhou por toda a Austrália e outros 23 países: https://mhfa.com.au/our-impact/international-mhfa-programs

O que precisamos é que todas as pessoas em comunidades ao redor do mundo tenham as habilidades para reconhecer e ajudar as pessoas que estão desenvolvendo problemas de saúde mental, e não pensar que apenas profissionais de saúde mental podem ajudar. Obter ajuda nas fases iniciais de qualquer doença geralmente dá um resultado muito melhor. Os cursos de primeiros socorros são comuns em muitos países. Nós precisamos da mesma oferta de cursos de primeiros socorros em saúde mental.

Os cidadãos podem criar uma comunidade com mais apoio e carinho para com as pessoas com problemas de saúde mental, intervindo precocemente de modo que a pessoa consiga obter um bom suporte e acelere sua recuperação. Isto irá contribuir para o avanço da causa da “Dignidade em Saúde Mental” globalmente.

É importante cuidar de si mesmo

Depois de fornecer primeiros socorros em saúde mental para uma pessoa que está em perigo, você pode sentir-se desgastado, frustrado ou mesmo irritado. Você também pode precisar lidar com os sentimentos e as reações que você deixou de lado durante o encontro. Pode ser útil encontrar alguém para conversar sobre o que aconteceu. Se fizer isso, porém, você precisa se lembrar de respeitar o direito da pessoa à privacidade; se você falar com alguém, não compartilhe o nome da pessoa que você ajudou, ou quaisquer detalhes pessoais, que poderiam torná-los identificáveis para a pessoa que você escolher para compartilhar."

http://www.asecbrasil.org.br/blog/primeiros-socorros-em-saude-mental/


domingo, 16 de outubro de 2016

O último adeus _______________ Cynthia Hand

Sinopse:


“Desculpa, mãe, mas eu estava muito vazio.” – Tyler

A autora de fantasia que está encantando leitores com a força de sua escrita lança seu primeiro romance contemporâneo – uma trama comovente e impactante situada nos dias de hoje. Depois de sucessos internacionais como a saga Sobrenatural, Cynthia Hand demonstra todo o seu talento numa história sobre perda, culpa e superação. O Último Adeus é narrado em primeira pessoa por Lex, uma garota de 18 anos que começa a escrever um diário a pedido do seu terapeuta, como forma de conseguir expressar seus sentimentos retraídos. Há apenas sete semanas, Tyler, seu irmão mais novo, cometeu suicídio, e ela não consegue mais se lembrar de como é se sentir feliz. O divórcio dos seus pais, as provas para entrar na universidade, os gastos com seu carro velho. Ter que lidar com a rotina mergulhada numa apatia profunda é um desafio diário que ela não tem como evitar. E no meio desse vazio, Lex e sua mãe começam a sentir a presença do irmão. Fantasma, loucura ou apenas a saudade falando alto? Eis uma das grandes questões desse livro apaixonante. O Último Adeus é sobre o que vem depois da morte, quando todo mundo parece estar seguindo adiante com sua própria vida, menos você. Lex busca uma forma de lidar com seus sentimentos e tem apenas nós, leitores, como amigos e confidentes. 

Cynthia Hand divide seu tempo entre o sul da Califórnia, onde vive com o marido e o filho, e o sudeste de Idaho, perto das Montanhas Teton. Escritora best-seller do New York Times, Hand dá aulas de escrita criativa na Universidade de Pepperdine. Na mesma linha de Os 13 Porquês (Jay Asher) e Se eu Ficar (Gayle Forman), O Último Adeus é o seu primeiro romance contemporâneo. “Um romance emocionalmente complexo e poderoso que permanece com os leitores muito tempo após fecharmos o livro. Brilhante e ao mesmo tempo de estilhaçar de dor, com vida e esperança.”

Atenção. Contém spoilers.

Indicado por uma amiga, este é um dos livros mais interessantes sobre o processo de perda dos sobreviventes. Com certeza, parte da sua força e da sua delicadeza surgem da experiência pessoal da escritora:

"Meu irmão se matou em 1999. Ele tinha 17 anos e estava no terceiro ano do ensino médio; eu tinha 20 anos e estava no terceiro ano da faculdade. Eu sinto saudade dele todos os dias. Estes são os fatos.
Dito isso, quero deixar claro que este romance é uma obra de ficção. Meus fatos não são o que acontecem nestas páginas. [...]" (p. 348).

Um trecho a respeito de uma consulta de Alexis com seu psicoterapeuta:

"Dave é um cara legal. Não sei ainda para que ele é realmente bom, além de ser uma maneira errada de a minha mãe sentir que está fazendo algo por mim nesse momento de necessidade. Como se a vida não fosse ficar uma droga agora, independentemente do que aconteça. Mas não importa. Meu irmão morreu. Não estou falando muito, e não estou saindo com meus amigos, e não estou sendo a Lexie normal que todos esperam.
Então, está claro que eu deveria fazer terapia.
Assim, eu fico na sala de Dave por trinta minutos até conseguir pensar em algo produtivo a dizer. Até agora, ele está bem com isso - deixa que eu fale quando estiver pronta [...]

Certo. Tivemos uma discussão na semana passada.
Porque eu contei a ele sobre o buraco em meu peito. Sobre como tenho a impressão de que vou morrer nas vezes em que o buraco aparece. Que estou morrendo de medo que esses momentos aconteçam cada vez mais, e de que eles durem cada vez mais tempo, até que eu só sinta o buraco, e então, talvez ele me engula para sempre.
Pensei que tinha sido corajoso da minha parte me confessar. Eu estava tentando me abrir para ele. Eu estava tentando fazer o que se tem que fazer.
Eu queria que Dave me dissesse era que o buraco é horrível, sim, totalmente horrível, mas que é normal, e que vai melhorar, não piorar, e que não vou morrer, pelo menos ainda não. Vai doer por um tempo, mas eu vou viver.
E então, eu tentaria acreditar nele.
Mas o que ele disse foi: 'Podemos receitar um remédio para você'. 
[...]
Eu disse: 'Você quer me dar antidepressivos?'
Ele falou que os antidepressivos com terapia tradicional formavam uma combinação muito eficiente.
Eu perguntei: 'Você acha que estou deprimida?'
Ele tossiu. 'Acho que você passou por algo muito difícil, e o remédio pode facilitar um pouco as coisas'.
'Compreendo. Você já leu o livro Admirável Mundo Novo, do Huxley?', perguntei.     
Ele piscou algumas vezes. 'Não, acho que não.'
'É sobre uma sociedade no futuro na qual haverá uma droga chamada soma que deixa todo mundo feliz', expliquei. 'Essa droga conserta tudo. Não está satisfeito com o  trabalho? Não tem problema. Se usar soma, nada te perturba. Sua mãe morreu? Tome soma, e tudo vai ficar ótimo.'
'Alexis', disse Dave. 'Estou tentando ajudar. O que você está falando sobre esse buraco mais parece uma descrição de ataque de pânico ...'
'Mas aí está', falei. 'Aquela sociedade futurística na qual todo mundo é drogado para ser feliz, o tempo todo, independentemente do que aconteça, é horrível - monstruosa, até -, é como o fim da humanidade. Porque temos que sentir coisas, Dave. Meu irmão morreu, e eu tenho que sentir'.
(p. 42-45).

Outro trecho impactante, que mostra a complexidade das marcas que ficam nos sobreviventes,  é quando Alexis conversa com sua mãe em uma viagem para Graceland. Lexie foi aceita no MIT e propõe que a mãe se mude com ela para um novo lugar.

"Se minha mãe fosse para Massachussets comigo, não seria como eu pensei, com as conversas de fim de noite no quarto e passeios com grupos de amigos. Mas poderia ser melhor: porque, assim, minha mãe não estaria sozinha, e poderíamos escapar de Nebraska e do que aconteceu na nossa garagem. Não teríamos que voltar nunca mais. Poderíamos começar do zero. Nós duas.
'Minha vida acabou', diz ela de novo.
[...]
'Sua vida não acabou. Isso é babaquice'.
Ela arregala os olhos. 'Alexis. Olha como fala'.
'É babaquice', repito para enfatizar, e dessa vez, consigo dizer com convicção. [...] Se tem alguém que vai viver até os cem anos é você. Então, pare de dizer que sua vida acabou. Não está nem na metade. E sim, seu filho morreu, e é terrível, e dói, mas não é sua culpa. E sabe de uma coisa? Todo mundo morre e todo mundo perde pessoas amadas - todo mundo - e isso não é desculpa para você morrer ... Amo você, e preciso que você seja minha mãe, e preciso que você tenha uma vida. Então, supere.'" (p. 240)

Um evento como esse de fato pode afetar muito as famílias. E a personagem fala de diferentes vivências ... da complexidade de sentimentos que podem surgir ... de diferentes formas ...
Em seguida, ela tenta expressar seus sentimentos em relação ao irmão.

"Espero. [...] Até jantarmos. Até minha mãe dormir. Então, desço para o quarto de Ty. [...]
Ele não está aqui. Mas quero que esteja.
' Quero conversar com você' digo. 'Ty'.
'Vamos. Não podemos fugir, certo? Era o que você estava tentando me dizer hoje? Que você sempre vai ficar aqui, no banco de trás. Seu cheiro. Sua sombra. Sua memória. [...]
'Você é egoísta', digo à escuridão. 'Sabia disso? Você é a pessoa mais egoísta que conheço. Você nem pensou em como isso afetaria a mamãe, não é? [...] " (p. 244)

Outra face do sentimento da personagem é de culpa pelo que aconteceu. Na noite em que seu irmão se matou, Alexis estava com o namorado e recebeu uma mensagem de texto do irmão. E não respondeu. E passou a se culpar por isso. E terminou o namoro em seguida.

E durante o processo de luto, quase no final do livro, ela escreve uma carta para Steven, seu ex-namorado.

"Preciso contar sobre aquela noite. Sei que você já sabe os detalhes. Você estava lá. Mas preciso que veja as coisas pela minha perspectiva, para que entenda por que fiz o que fiz.
[...]
Puxei sua cabeça para beijá-lo de novo, mas meu telefone vibrou de repente.
Eu o peguei e olhei.
Era uma mensagem de texto.
Não contei a você de quem era. Não disse 'É o meu irmão.' Não contei o que estava escrito.
Durante todo esse tempo, nunca contei a ninguém.
Mas vou contar agora.
Estava escrito: Ei, mana, pode conversar?
Aqui é a parte em que a realidade se mostra para mim, a parte em que desliguei o celular e o afastei de mim, e voltamos a nos beijar.
Mas existe uma versão alternativa do que aconteceu naquela noite. Sempre haverá, para mim. [...] Nessa realidade - que eu sei que não é uma realidade, mas uma fantasia, um desejo, uma oração que não foi ouvida - Ty me conta o que preciso saber. Que ele está triste. Que está preso no presente. Que não consegue ver além. Que perdeu o futuro.
Então, digo a ele que ele é forte o bastante para superar a tristeza.
Digo a ele que não quero viver neste mundo louco sem ele, e digo que preciso dele.
[...]
Digo que o amo.
E o fato de eu dizer essas coisas basta para matar os demônios dele.
E ele sobrevive àquela noite.
Ele vive.
No entanto, em vez disso, desliguei o telefone e beijei você. [...]
Olhei para você e pensei: Isso é culpa sua. [...] 
Se eu não estivesse tão envolvida nas emoções que sentia por você, nas emoções impraticáveis, eu teria respondido à mensagem.
[...]
Agora, compreendo que ninguém poderia ter salvado o Ty, além dele mesmo. Não há mais ninguém a culpar. Nem você. Nem eu. Ty tinha as rédeas nas mãos.
Compreendo isso agora, racionalmente.
Meu coração ainda quer a máquina do tempo. Terei que fazer meu coração nos perdoar por aquela noite.
Consigo perdoar você com muito mais facilidade do que consigo perdoar a mim mesma" (p. 329-336)

Quase no final, Lexis tem um último sonho com seu irmão, Tyler. Eles jogam uma partida de cartas.
'Então, o que você quer, se ganhar?', pergunta ele.
Olho em seus olhos castanhos. Quero responder àquela mensagem a tempo, penso. Quero salvar você. Mas acima de tudo está: 'Quero ter uma chance de dizer adeus. Não consegui. Você não me deu isso'. (p. 343).

Enfim, uma leitura sensível e que traz muitas reflexões.