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Este blog é um dos produtos da pesquisa de Mestrado "Cuidado, frágil: aproximações e distanciamentos de trabalhadores de um CAPS na atenção ao suicídio" e inclui sugestões de leitura, frases que me marcaram e vídeos que podem ser utilizados por pessoas ou grupos como disparadores para discussão e reflexão da questão do suicídio – seja na prevenção ou na compreensão dos fatores que podem estar por trás deste fenômeno - buscando compreender o sofrimento que está por trás deste acontecimento.

domingo, 28 de junho de 2015

Não te rendas ________________Mario Benedetti.


"Não te rendas, ainda é tempo
De se ter objetivos e começar de novo,
Aceitar tuas sombras,
Enterrar teus medos
Soltar o lastro,
Retomar o vôo.


Não te rendas que a vida é isso,
Continuar a viagem,
Perseguir teus sonhos,
Destravar o tempo,
Correr os escombros
E destapar o céu.


Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio queime,
Ainda que o medo morda,
Ainda que o sol se esconda,
E o vento se cale,
Ainda existe fogo na tua alma.
Ainda existe vida nos teus sonhos.


Porque a vida é tua e teu também o desejo
Porque o tens querido e porque eu te quero
Porque existe o vinho e o amor, é certo.
Porque não existem feridas que o tempo não cure.
Abrir as portas,
Tirar as trancas,
Abandonar as muralhas que te protegeram,


Viver a vida e aceitar o desafio,
Recuperar o sorriso,
Ensaiar um canto,
Baixar a guarda e estender as mãos
Abrir as asas
E tentar de novo
Celebrar a vida e se apossar dos céus.


Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio te queime,
Ainda que o medo te morda,
Ainda que o sol ponha e se cale o vento,
Ainda existe fogo na tua alma,
Ainda existe vida nos teus sonhos
Porque cada dia é um novo começo,
Porque esta é a hora e o melhor momento
Porque não estás sozinho, porque eu te amo".




Matéria publicada no Diário Oficial de Santos, em 16 de junho de 2015.

Morte e desenvolvimento humano______________________KOVÁCS

“Fenômeno ‘Cry for Help’: o sujeito atenta contra a própria vida como forma de chamar a atenção das pessoas à sua volta, para as suas necessidades, buscando maior amor e valorização pessoal. É uma forma de comunicação. Há uma ambivalência entre desejo de viver e morrer” (p. 172-173).

“Muitas pessoas morrem porque consideram que a vida não merece ser vivida. Outros paradoxalmente se matam pelas ideias ou ilusões que lhes dão prazer de viver. Para Camus, o suicídio é um gesto preparado como uma grande obra, no silêncio do coração, é uma confissão a si mesmo de que a vida não vale a pena, é uma tragédia” (p. 179).

“[...] matar-se em vez de ser executado é conservar no íntimo a ilusão da onipotência, e pelo ato do suicídio tornar-se senhor da vida e da morte” (p. 182).

“Cassorla (1991): ‘os profissionais de saúde tratam estes pacientes com desprezo, agressão, chegando a maltratá-los. Esta agressão pode ser a reação de um médico assustado. O aspecto manipulativo do ato é o que mais irrita a equipe de saúde. Eles estão lá para salvar a vida e minorar o sofrimento, mas os desejos podem ser conflitantes, um quer salvar e o outro quer morrer. Isto exacerba a sensação de impotência, culpa e remorso da equipe” (p. 193)   

KOVÁCS, Maria Júlia. Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008.


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Quando a noite cai – Entendendo a depressão e o suicídio________________Kay Redfield Jamison


“As noites de verão no Bistrô Gardens, em Beverly Hills, tendiam a ser longas [...] Eu e meu amigo Jack Ryan íamos lá com frequência [...] A conversa estava me deixando inquieta e perturbada. Falávamos sobre suicídio e estávamos fazendo um juramento de sangue: se qualquer um de nós dois se tornasse profundamente propenso ao suicídio, concordamos, iríamos nos encontrar na casa de Jack em Cape Cod. Uma vez lá, o não suicida de nós teria uma semana para convencer o outro a não dar o passo fatal; uma semana para apresentar todas as razões possíveis para que o outro voltasse a usar o lítio, presumindo que a interrupção do tratamento era o motivo mais provável para o risco de suicídio (ambos éramos maníaco-depressivos e, apesar do melhor e frequentemente expressado julgamento de outros, tendíamos a parar de tomar nosso lítio); uma semana para persuadir o potencial suicida a procurar um hospital; apelar para a consciência; impressionar o outro sobre a dor e o dano que o suicídio inevitavelmente traria a nossas famílias.  
[...] Muitos anos depois [...] recebi um telefonema da Califórnia: Jack encostara um revólver na cabeça, disse um parente dele. Jack havia se matado.
Nada de uma semana em Cape Cod [...] este homem notavelmente imaginativo não havia sido inventivo o bastante para descobrir uma solução alternativa para uma violenta morte autoinflingida.
Embora abalada pelo suicídio de Jack, isto não me surpreendeu. Nem fiquei surpresa por ele não ter ligado para mim. Afinal, eu mesma estivera perigosamente à beira do suicídio em várias ocasiões desde o nosso pacto no Bistrô Gardens, e por certo não ligaria para ele. Nem algum dia eu havia pensado em ligar. O suicídio não é devedor de quaisquer promessas de uma noite, nem dá ouvidos a planos esboçados em momentos de lucidez e repletos de boas intenções” (p.09-11).


“Como muitos que sofrem de doença maníaco-depressiva, também conheci o suicídio de uma maneira particular e terrível, e rastreio a perda de uma inocência fundamental até o dia em que pela primeira vez pensei no suicídio como a única solução possível para um nível insuportável de dor mental. Até aquela época eu tinha tomado como certo, e amado mais do que sabia, uma caprichosa leveza de ânimo e uma expectativa de vida fabulosa. Eu só conhecia a morte no mais abstrato dos sentidos; nunca imaginei que seria algo a se planejar ou procurar” (p. 11).

“Um ato contra o próprio ser, o suicídio é também um baque violento na vida dos outros. Ele é incompreensível quando mata o jovem; é terrível no idoso, inexplicável no fisicamente saudável ou bem sucedido, e por demais explicado nos doentes ou fracassados. [...] por certo, ninguém jamais descobriu um meio de curar os corações ou organizar as mentes daqueles que ficaram para trás em seu rastro pavoroso. Aquilo que não sabemos mata” (p. 22).

“Com frequência, as pessoas querem ao mesmo tempo viver e morrer; o ato suicida é saturado de ambivalência. Alguns desejam escapar, mas apenas por um instante. Uns poucos usam ameaças ou tentativas suicidas para fazer com que outras pessoas ‘paguem’ por uma afronta ou rejeição, embora alguns as usem para provocar mudanças nas decisões e comportamentos de pessoas que conhecem” (p. 39).

“A dor psicológica ou o estresse por si só – por maiores que sejam a perda ou a decepção, por mais profundas que sejam a vergonha ou a rejeição – raramente são o suficiente para provocar o suicídio. Boa parte da decisão de morrer está na construção dos eventos, e a maioria das mentes, quando saudáveis, não constroem qualquer evento como devastador o bastante para justificar o suicídio” (p. 86)

“[...] quando as pessoas são suicidas, seu pensamento fica paralisado, suas opções parecem escassas ou não existentes, seu estado de espírito é angustiante e a falta de esperança permeia todo o seu domínio mental. O futuro não pode ser separado do presente, e o presente é doloroso acima de tudo” (p. 87).

“Remédios e outras terapias médicas são eficazes – e com frequência notável – em evitar ou diminuir a dor e o sofrimento das principais doenças psiquiátricas mais estreitamente ligadas ao suicídio. Menos claramente, exceto no caso do lítio e talvez os antidepressivos e antipsicóticos mais recentes, eles reduzem as chances de um suicida se matar. Medicamentos, hospitalizações e TEC ( Terapia Eletro Convulsiva) salvam muitas, mas de modo algum, todas as vidas. Psicoterapia ou um forte relacionamento terapêutico com um médico podem fazer toda a diferença se alguns pacientes definitivamente vivem ou morrem” (p. 228).

“A complexidade da mente e do cérebro suicida exige para seu cuidado uma complexidade de pensamento e tratamento clínicos. A psicoterapia sozinha, se usada sem abordar ou tratar a psicopatologia ou vulnerabilidades biológicas subjacentes, costuma ser incapaz de evitar que os indivíduos profundamente suicidas se matem” (p. 229).

“O suicídio é uma morte como nenhuma outra, e aqueles que são deixados para lutar com isso devem enfrentar uma dor sem igual. Eles são deixados como choque e o infindável ‘e se’. São deixados com a raiva e a culpa e, vez por outra, com um terrível sentimento de alívio. São deixados para uma infinidade de perguntas dos outros, respondidas ou não, sobre o Motivo; são deixados ao silêncio dos outros, que estão horrorizados, embaraçados, e incapazes de formular um bilhete de pêsames, dar um abraço, fazer um comentário; e são deixados com os outros pensando – e eles também – que poderia ter sido feito mais” (p. 264).    

Nota: A autora é psiquiatra e pesquisadora, e tem um olhar bem amplo sobre a questão, pois ela também tem transtorno bipolar. Sua escrita traz estes dois aspectos de experiência pessoal, e se eu tivesse que escolher apenas um livro como referência bibliográfica, seria este. 


JAMISON, Kay Redfield. Quando a noite cai – Entendendo a depressão e o suicídio. Rio de Janeiro: Gryphus, 2010.



Elena________________________Petra Costa


Elena é um documentário brasileiro de 2012, dirigido por Petra Costa. É um documentário baseado na vida da atriz Elena Andrade, irmã mais velha de Petra. Foi premiado em diversos festivais e aclamado pela crítica, considerado uma experiência única no cinema contemporâneo, por extrair de um tema difícil - o suicídio da irmã da diretora Petra Costa - sua força poética e cinematográfica. 
Sinopse: Elena viaja para Nova York com o mesmo sonho da mãe: ser atriz de cinema. Deixa para trás uma infância passada na clandestinidade dos anos de ditadura militar e deixa Petra, a irmã de 7 anos. Duas décadas mais tarde, Petra também se torna atriz e embarca para Nova York em busca de Elena. Tem apenas pistas: filmes caseiros, recortes de jornal, diários e cartas. A todo momento Petra espera encontrar Elena caminhando pelas ruas com uma blusa de seda. Pega o trem que Elena pegou, bate na porta de seus amigos, percorre seus caminhos e acaba descobrindo Elena em um lugar inesperado. Aos poucos, os traços das duas irmãs se confundem, já não se sabe quem é uma, quem é a outra. A mãe pressente. Petra decifra. Agora que finalmente encontrou Elena, Petra precisa deixá-la partir.

Trechos de uma entrevista com Petra Costa, publicada pela revista Cláudia em abril de 2013:

“A cineasta Petra Costa tinha só 7 anos quando a irmã, Elena, se matou. Aos 26, decidiu fazer um filme para não deixá-la no ‘mundo dos esquecidos’. 
“Elena sempre quis ser atriz e decidiu se mudar para os Estados Unidos para realizar esse sonho. Poucos meses depois, eu e nossa mãe fomos morar lá também. Elena estava triste e frustrada porque suas expectativas de trabalho não estavam se concretizando. Quando chegamos, percebi sua dor, embora não entendesse bem o que acontecia. [...] Uma prima me buscou na escola e acabei dormindo na casa dela. De manhã, quando voltei para nosso apartamento, vi o olhar de choque no rosto da minha mãe. Notei logo que alguém tinha morrido. Perguntei quem era, e ela respondeu: Elena. Só consegui dizer: “It hurts my feelings’ (‘isso me machuca demais’, em uma tradução livre). Ninguém nunca escondeu de mim que ela havia se suicidado (com a ingestão de álcool e comprimidos).
Voltamos para o Brasil – e eu, que até então era uma criança desinibida, fiquei tímida por causa da tristeza. Fui fazer terapia, mas me lembro que muitos adultos me diziam para não demonstrar minha dor. Falavam que minha mãe já estava mal com tudo o que tinha acontecido e que eu não deveria preocupá-la com meu sofrimento. [...] 
Na adolescência, comecei a fazer aulas de teatro, o que ajudou a soltar minha tristeza. Fiquei menos tímida. À medida que eu crescia, as pessoas viviam dizendo quanto estava ficando parecida com Elena. No fundo, eu também tinha medo de que meu destino fosse o mesmo que o de minha irmã. [...]
Aos 26 anos, sonhei com Elena. Ela estava sobre um muro, enroscada em uma cerca elétrica e tentava tomar choques. Só que quem morria com eles era eu. Quando acordei, decidi que faria um filme sobre ela. Tinha que tirar Elena do mundo dos esquecidos. Comecei a ler seus diários, ver seus vídeos e ouvir as gravações que tinha feito em fita cassete. Entrevistei umas 50 pessoas que conviveram com ela. Eu me entreguei completamente a esse trabalho, que teve momentos difíceis. Com ele, conheci Elena intimamente: seu tom de voz, sua maneira de falar ... Tive raiva dela em certas ocasiões também. [...]
Agora, com o projeto terminado, Elena não é mais um nó nas minhas lembranças. Quando penso nela hoje, consigo vê-la com clareza. O processo serviu para que eu elaborasse e aceitasse melhor a dor por sua morte. Mas ainda é uma memória inconsolável. Já fiz exibições em vários países e nunca assisti ao filme depois de pronto. Outro ponto que considero positivo é que quem assiste Elena se sente instado a falar de suas lembranças, a enfrentar as próprias memórias inconsoláveis.”    

Entrevista publicada na Revista Cláudia de abril de 2013.






domingo, 21 de junho de 2015

Vídeo







Eu já assisti a esse vídeo várias vezes, e em todas eu me emociono novamente.
Como não se sensibilizar com uma questão tão importante quanto os efeitos do bullying na vida de um jovem, ainda mais quando sua mãe descreve tão bem a dor que seu filho Daniel sentia, e a sua própria dor?

Duas coisas que mexem muito comigo, além da história em si:
- O fato como essa mãe se refere a esse filho no presente e no passado: "Ele é", "Ele era" ... mostrando todo o seu sofrimento para aceitar essa morte ...

- Quando ela diz que seu filho falou a respeito de sua intenção de suicídio, para diversas pessoas ... e ninguém fez nada ... a não ser incentivar ou ignorar o que ele dizia.

Para pensar  e repensar ...      

VIDA REAL: Eu, Leitora “Tentei me matar pulando do 15º andar”

Por Gláucia Balbachan e Maria Laura Neves

O que leva alguém a se jogar do 15o andar? Pouca gente sobreviveu para responder. A fisioterapeuta Julia (*), 31 anos, conseguiu essa façanha. Deprimida, só queria aliviar a dor que sentia. A única saída, para ela, era o suicídio. Aqui, ela conta sua história para Gláucia Balbachan e Maria Laura Neves.

“Tinha 15 anos quando minha vida ficou sem sentido pela primeira vez. Perdi a calma. Os pensamentos ruins me dominavam. Me achava tonta, idiota. Não tinha fome nem sono. Passava noites em claro em meio a um turbilhão de autocríticas. Durante o dia, a angústia não me largava. Em casa, na sala de aula, no carro. Lembranças de momentos ruins voltavam a minha mente com frequência: um colega falando que eu não era inteligente, um ex-namorado dizendo que eu não era animada. Um replay de cenas humilhantes. Não tinha coragem de me abrir com ninguém.
Tudo começou porque fiquei com o medo de não passar no vestibular. Minhas notas eram altas, mas me sentia burra e incapaz. Durou alguns meses, passou com a terapia. A mesma coisa aconteceu quando estava terminando a faculdade de fisioterapia (*). Tinha medo de não virar uma boa profissional. As crises foram parecidas: surgiam sempre junto com uma insegurança com o que estava por vir. Medo do futuro, de fracassar. Quando passava, com ajuda de um terapeuta, levava uma vida normal. Os psicólogos nunca me diagnosticaram com depressão.
Depois que saí da faculdade, no ano 2000, vivi um período animado de solteirice, saía à noite e tinha vários amigos e peguetes. Comecei a namorar o Pedro (*), um amigo de escola, aos 27 anos. Estávamos solteiros e saímos uma noite para dançar. Não tinha a intenção de ficar com ele, mas nossos amigos vinham de cinco em cinco minutos dizer para eu mudar de ideia. Fizeram um lobby. Eu estava alegrinha, fui dançar perto dele e o abracei. Ficamos um tempão só abraçadinhos. Então eu o beijei. Foi uma delícia. Ficamos a noite toda grudados, mas não dormimos juntos. No dia seguinte, saímos outra vez. Não desgrudamos mais e assim começamos a namorar.
Depois de um ano e meio de namoro, nos casamos no civil. Sem festa, sem nada. Preferimos juntar dinheiro. Compramos um lindo apartamento, enorme, com varanda, churrasqueira, tudo o que sonhávamos, em uma área nobre da cidade de São Paulo. Nos mudamos em janeiro do ano passado. Dois meses depois, diminuí meu ritmo de trabalho. A ideia era ter mais tempo livre para terminar de arrumar a nova casa e me preparar para engravidar em 2009.
Parei de tomar pílula, mas nos protegíamos pela tabelinha. Nos primeiros meses no novo apartamento, fiquei resolvendo pendências do acabamento final: ia comprar piso, detalhes da mobília. Foram tardes muito gostosas e agitadas. Enquanto isso, sonhávamos com o nosso bebê, que nasceria em 2010.
Até que tudo ficou pronto e estava na hora de começar a me dedicar inteiramente à gravidez - que ainda não tinha acontecido. O que deveria ser um sonho virou um pesadelo. Passava muito tempo sozinha: pensando, pensando, pensando. Em mim e no bebê. Comecei a sentir um desânimo, um tédio. Foi tudo muito rápido. Dias depois, comecei a me sentir inútil, uma profissional fracassada. Me culpava por não estar trabalhando o suficiente e ganhando dinheiro. Minha cabeça se encheu de preocupações. Me comparava com outras mulheres e me achava menos inteligente, menos esperta, menos descolada, menos bonita do que elas. De tanto pensar que eu não prestava, fiquei ansiosa. Meu coração batia rápido, tinha insônia e falta de apetite. Também passei a sentir medo. Medo de não ser uma boa mãe, medo de não conseguir educar meu filho. Medo de os outros perceberem o quanto eu era incapaz. Sentia que jamais conseguiria escolher uma escola, a roupa, a comida da criança. Não teria discernimento. Me achava tonta, idiota, lerda. Os sintomas das crises anteriores reapareceram ainda mais intensos. A paz sumiu.
As cenas humilhantes do passado, como as frases que aquele ex-namorado me disse, reapareceram na minha cabeça. Os sentimentos ruins, o pessimismo, as autocríticas começaram a infestar minha mente com uma intensidade tão grande, que eu não conseguia pensar em outra coisa. Vivia com a ideia fixa de que eu não servia para nada. A única solução era morrer. Não conseguia pensar em outra coisa. Entrei em um looping do qual eu não conseguia sair. O desespero tomou conta de mim.
Embora minha cabeça estivesse uma merda, o casamento ia bem. O sexo continuava ótimo, éramos muito carinhosos um com o outro. Mas não tinha coragem de comentar com Pedro o que estava se passando naqueles dias. Fiquei com medo de que ele me abandonasse como fez um outro namorado, em uma das crises. Ele apenas perguntava por que eu andava tão quietinha. Eu dizia que eram problemas no trabalho.
Num sábado de janeiro, viajei para a casa da minha mãe no interior de São Paulo e contei tudo a ela. Disse que não tinha mais calma, mas não que queria me matar. Ela me levou ao centro espírita que frequentamos e tomei um passe. Rezei com fé, mas aqueles pensamentos ruins ficaram comigo. No dia seguinte, continuava triste. Não via graça em nada, sabe? Ficava me perguntando por que as pessoas trabalham, acordam. Mesmo a minha religião não permitindo, o suicídio continuava sendo minha única saída. Não dava mais para mim. O jeito era tentar resolver meus problemas em outra vida. Recomeçar do zero.
Voltei para São Paulo de carona com um tio na tarde do domingo. Ele me deixou em uma estação de metrô. Chovia quando saltei do carro. Estava completamente fora do ar. Tive a sensação de que tanto fazia o lado que eu fosse, o que aconteceria comigo. Se me roubassem, se me sequestrassem. Tanto fazia estar viva ou morta. Ninguém se importaria se eu morresse. Sofreriam um pouco, mas depois viveriam normalmente. Minha vida tinha perdido o sentido mais uma vez. Liguei para o Pedro me egar.Quando ele chegou, eu não disse o que sentia.
Quando chegamos em casa, deixei minha mala no quarto e fui para o escritório. Escrevi um bilhete de despedida, dizendo para minha família e para meu marido que eu os amava muito, mas que eu precisava me livrar do inferno em que andava minha cabeça. Disse que estava louca, confusa, que não aguentava mais. Estava procurando um lugar para pular, quando Pedro apareceu. Ele não viu o bilhete, disfarcei e ele não percebeu nada. Fomos ver televisão juntos e eu dormi nos seus braços. No dia seguinte, fui trabalhar. Estava tão fora de mim que não lembro de nada do que aconteceu naquela segunda. Me disseram, depois, que eu estava muito quietinha.
Na terça pela manhã acordei, me vesti e fui até o quarto que tínhamos feito de escritório. Estava decidida. Não pensei em nada nem em ninguém. Não hesitei, não tive medo de me arrepender. Nem dava para pensar nos outros, minha cabeça estava um turbilhão [faz movimentos circulares com a mão ao redor da cabeça e chora]. Uma ideia fixa me atazanava: não dá, desiste, não vai dar certo, vai embora, você nunca vai conseguir ser feliz nessa vida. Escrevi outro bilhete com o mesmo conteúdo do primeiro, coloquei em cima da mesa, com uma caneta em cima para o papel não voar e Pedro poder encontrar rapidamente o que seria a prova de que ele não tinha nada a ver com o meu suicídio. Como ele estava dormindo no quarto, achei que pudessem querer tentar incriminá-lo. Subi na cadeira, subi na mesa e sentei no parapeito da janela. Olhei para baixo e vi que havia homens trabalhando em uma obra na frente do meu prédio. Ninguém me viu. Foi minha última lembrança. Pulei do 15º andar.
Caí sentada em um vão do prédio, na grama. Embora eu tenha me quebrado inteira - coluna, bacia, costelas -, minha cabeça não sofreu nenhum arranhão. É um milagre eu estar andando [com ajuda de uma bengala]. Meu braço esquerdo absorveu a maior parte do impacto da queda porque bateu em uma laje antes de o meu corpo encostar no chão. Ele está destruído até hoje, sem sensibilidade, não consigo movê-lo. Fui encontrada pelo porteiro.
A lembrança seguinte é confusa. Uma mistura de sonho e realidade. Eu estava caminhando em um lugar de terra, indo para um campo de árvores secas, quando ouvi alguém dizer: 'Nesses casos não sobrevive, não'. Era um enfermeiro ou funcionário careca da UTI em que eu estava internada havia 15 dias. Fiquei com raiva. Pensei: 'Meu, estou viva e eu vou sobreviver'. Lembrei do que aconteceu. Rezei. Fiz barulhos com a boca para ele me ouvir. Depois, não lembro mais nada. Por causa da sedação, as memórias do período no qual fiquei internada na UTI são confusas.
Nos primeiros dias hospitalizada, eu não conseguia me mexer nem falar. As pessoas me perguntavam coisas e eu respondia 'sim' piscando uma vez. Minha família diz que eu conversei com ela várias vezes, mas não lembro. Uma das primeiras memórias que tenho desse período foi a de acordar e ver minha irmã e o Pedro no quarto. Ele me perguntou se eu queria que passasse a noite no hospital. Apertei as pálpebras com todas as forças que me restavam. Ele ficou até eu dormir.
Durante os dois meses e meio em que fiquei internada, recebi visitas todos os dias. Meu pais, que moravam no interior, se revezavam para passar o tempo todo comigo. Pedro vinha à noite. Minhas irmãs, meus tios, meus primos e meus amigos também apareciam com frequência. A família montou um mural com fotos da minha infância e adolescência na parede do quarto. Fizeram um almoço especial quando eu já podia comer. Queriam que eu lembrasse que a vida podia ser boa. Recebi carinho, amor. Em nenhum momento perguntaram por que eu tinha feito aquilo. Quanto mais eu percebia a dedicação que tinham comigo, mais eu me arrependia, sentia vergonha. Foi assim, vendo que tenho uma família maravilhosa, que recuperei a vontade de viver.
Eu não sabia que a enorme tristeza que sentia podia ter cura. Só descobri nas sessões de terapia do hospital que sofro de depressão. Meu humor ainda oscila muito. Tem vezes que passo o dia todo chorando. Outro dia fui ao shopping e vi um cadeirão de bebê para vender. Fiquei me perguntando por que as pessoas têm filhos, do que adianta viver. Tudo tinha perdido o sentido mais uma vez. Em outros momentos, fico melhor. Minha família tem medo que eu tente de novo. Mas não vou tentar.
Conforme fui melhorando, Pedro deixou de ir ao hospital. Em uma das suas últimas visitas, falei que queria voltar para nossa casa quando estivesse boa. Ele me disse que não conseguiria viver comigo naquele momento. Pediu para eu me colocar no lugar dele. 'Imagine se eu tivesse feito isso com você?', perguntou. De fato, se fosse o contrário eu teria ficado louca. Fiquei triste, mas entendi. Ele também não se recuperou do que aconteceu, deu uma pirada. Começou a me ligar no hospital chorando, raivoso, me culpando. Disse que estava feliz comigo antes da tentativa. Não conseguia me perdoar. Eu ficava desesperada com as coisas que ele dizia. Chorava também. Em uma dessas conversas, ele me disse que naquela noite em que dormimos abraçados ele estava com sede e não se levantou para beber água. Não queria me acordar. Perguntou, então, como eu pude ter feito aquilo com ele.
Vendemos nosso apartamento. Hoje, seis meses depois da tentativa, moro com meus pais no interior. Passo os dias indo a médicos, fazendo terapias. Não consigo mexer o braço esquerdo, que ainda está machucado. Falo com o Pedro quase todos os dias. Faço fisioterapia para voltar a andar sem bengala. Sinto dor quando fico sentada por muito tempo e por isso passo a maior parte do dia deitada. Acho que ele ainda não está bem. Ele não teve o apoio emocional que eu tive. Vivemos uma amizade colorida. Nos chamamos de 'amor, fofo', mas não estamos juntos. Eu ainda o amo e acho que poderemos voltar.'

Depoimento publicado na Revista Marie Claire de agosto de 2009. Disponível em http://revistamarieclaire.globo.com/Revista/Common/0,,ERT96114-17597,00.html.



Sobre o suicídio______________________________Karl Marx

Sim, Marx também escreveu sobre esse assunto! 


“O suicídio é significativo, tanto para Marx como para Peuchet, sobretudo como sintoma de uma sociedade doente, que necessita de uma transformação radical. [...] Cada indivíduo está isolado dos demais, é um entre milhões, numa espécie de solidão em massa. As pessoas agem entre si como estranhas, numa relação de hostilidade mútua: nessa sociedade de luta e competição impiedosas, de guerra de todos contra todos, somente resta ao indivíduo é ser vítima ou carrasco. Eis, portanto, o contexto social que explica o desespero e o suicídio” (p. 15-16).

“Madame de Stael [...] tentou demonstrar que o suicídio é uma ação antinatural e que não se deve considerá-lo um ato de coragem; sobretudo, ela sustentou a ideia de que é mais digno lutar contra o desespero do que a ele sucumbir. Argumentos como esses afetam muito pouco as almas a quem a infelicidade domina. Se são religiosas, as pessoas especulam sobre um mundo melhor; se, ao contrário, não crêem em nada, então buscam a tranquilidade do Nada. [...] o suicídio não é, de modo algum, antinatural, pois diariamente somos suas testemunhas” (p. 24-25).

“No que diz respeito à coragem, se se considera que ela existe naquele que desafia a morte à luz do dia no campo de batalha, estando sob o domínio de todas as emoções, nada prova que ela necessariamente falte quando se tira a própria vida e em meio às trevas” (p. 25). 

“Para saber se o motivo que determina o indivíduo a se matar é leviano ou não, não se pode pretender medir a sensibilidade dos homens usando-se uma única e mesma medida; não se pode concluir pela igualdade das sensações, tampouco pela igualdade dos caracteres e dos temperamentos; o mesmo acontecimento provoca um sentimento imperceptível em alguns e uma dor violenta em outros” (p. 25).  


 MARX, Karl. Sobre o suicídio. São Paulo: Boitempo, 2006.



quarta-feira, 17 de junho de 2015

O demônio do meio-dia_______________________Solomon

O Demônio do Meio-Dia – Uma anatomia da Depressão
Andrew Solomon

O autor, jornalista, escreveu esse livro a partir de sua própria experiência com a depressão. Entre os capítulos, um trata especificamente do suicídio.


“Muitos depressivos nunca se tornam suicidas. Muitos suicídios são cometidos por pessoas que não são depressivas. [...] A tendência ao suicídio é um dos nove sintomas do episódio depressivo catalogado no DSM-IV, mas muitos depressivos são tão propensos a acabar com sua vida quanto pessoas com uma artrite medonha: a capacidade humana de suportar a dor é absurdamente forte” (p. 232).

“Não existe nenhuma relação forte entre a gravidade da depressão e a probabilidade do suicídio: alguns suicídios parecem ocorrer durante disfunções severas, embora algumas pessoas em situações desesperadas apeguem-se à vida. Algumas pessoas oriundas de regiões mais deterioradas das grandes cidades, que perderam todos os filhos para a violência das gangues, que estão aleijados fisicamente, com inanição, que jamais conheceram um minuto de amor de qualquer espécie, mesmo assim agarram-se à vida com cada tiquinho de energia. Outros, com infinitas promessas brilhantes em suas vidas, cometem suicídio. O suicídio não é a culminância de uma vida difícil; nasce de algum lugar escondido além da mente e da consciência” (p. 233).

“Na depressão, muitos querem morrer, fazer uma passagem concreta do estado em que se encontram para se libertar das aflições da consciência. Querer se matar, contudo, requer um nível extra de paixão e uma certa violência direcionada. O suicídio não é o resultado da passividade; é o resultado de uma ação. Requer uma grande quantidade de energia e uma vontade forte, além de uma crença na permanência do estado atual e pelo menos um toque de impulsividade” (p. 233)

“O suicídio é notoriamente uma solução duradoura para um problema com frequência temporário. O direito ao suicídio devia ser uma liberdade civil básica; ninguém deve ser forçado a viver contra sua vontade. Por outro lado, a tendência ao suicídio é muitas vezes temporária, e legiões de pessoas ficam contentes por terem sido salvas de tentativas de suicídio ou impedidas de realizá-las. Se algum dia eu tentasse o suicídio, gostaria que alguém me salvasse, a não ser que tivesse chegado a um ponto no qual acreditasse nitidamente que a quantidade de alegrias que me sobraram não pudesse ser maior que a de sofrimento ou dor” (p. 236).  


SOLOMON, Andrew. O demônio do meio-dia: uma anatomia da depressão. 2ª Edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.       



Suicídio: Testemunhos de Adeus _____________________Maria Luiza Dias



A autora, que é psicóloga e socióloga, traz um histórico sobre o tema e analisa, sob a perspectiva psicanalítica, bilhetes, cartas e fitas de áudio deixados por suicidas. O objetivo seria “investigar que intencionalidade carrega o discurso suicida (apreendido através das mensagens de adeus) e como ele pode ser compreendido no universo relacional do sujeito” (p. 83).

“O suicídio representado no imaginário simbólico do suicida não tem a ver com a ideia de morte como um fim, como extinção da vida, como término da existência. [...] Paradoxalmente, para o indivíduo suicida, a morte representa uma passagem, uma entrada para um outro estado também vivo, certamente mais prazeroso que este aqui” (p. 87).

“[...] ‘Talvez um dia a gente se veja de novo. [...] Até algum dia. Me perdoem’.
[...] ‘e se eu puder de onde estiver ajudo vocês. [...] Tchau um dia nós nos encontraremos lá em cima.”
[...] ‘Olha, se querem realmente, que eu me sinta feliz seja onde eu estiver, eu sei que estarei bem, tá?’ 
– Trechos de mensagens de suicidas

Para onde vão estas pessoas? Observa-se o tempo todo, nestas falas, um desejo intenso de perpetuação, de seguir para algo que é vivido mais como uma etapa da vida, do que como a sua extinção.  Isso não quer dizer que o indivíduo deseje viver: ele realmente aspira partir para um outro tipo de existência. A finitude humana é substituída por uma noção de entrada para a eternidade desejada na vida, e a vivência do sujeito suicida parece coincidir com a transposição de uma porta para um outro estado também vivo [...]” (p. 88-89).  

 “É frequente, então, esta ideia de que na morte todos podem passar a saber o que se passava no mundo interno do sujeito e, aí, ele passa a ser conhecido e partilhado. O suicida foge do confronto emocional cara a cara:
‘Creiam todos que eu os amei muito. Creiam ainda que amei inesquecivelmente, por quem chorei e choro diversas vezes sozinho e em silêncio ...’
‘Conheço bem minhas razões. Solidão [...]’

O suicida, no ato de sua morte, está liberado para falar, revelar segredos, expressar sentimentos com intensidade, etc. Pode-se, então, concluir que todo suicídio é uma maneira de comunicação com os outros que se dá através da morte do sujeito. A morte para estas pessoas significa o canal possível de contato, uma expressão drástica de emoções” (p. 135-136).  


DIAS, Maria Luiza. Suicídio: Testemunhas de Adeus. São Paulo: Brasiliense, 1991.






domingo, 14 de junho de 2015

Cerimônia do Oscar 2015.

"Ao subir ao palco para receber a estatueta dirigida ao melhor roteiro adaptado pelo filme 'O jogo da imitação', o escritor e produtor Graham Moore revelou para o mundo algo importante do seu universo íntimo: 'Quando eu tinha 16 anos, tentei me matar porque eu me sentia estranho, me sentia diferente, sem pertencimento. E agora eu estou aqui. Gostaria de dedicar esse momento para aquele garoto lá fora que se sente estranho ou diferente, que não se sente encaixado na vida. Sim, você se encaixa. Continue estranho. Continue diferente. Quando chegar a sua vez, e você permanecer firme, por favor, passe a mesma mensagem para a pessoa seguinte".

- Trecho retirado do livro "Viver é a melhor opção", de André Trigueiro (p. 49).  


"Acreditar que a epidemia mundial de depressão pode ser erradicada com pílulas é afirmar que no nosso mundo nada falta. E um pouco mais grave que isso: é acreditar não apenas que é possível atingir uma vida em que nada falte, como atingi-la é uma mera questão de adaptação, pró-atividade e saúde. 
No âmbito do indivíduo, tratar a depressão apenas com medicamentos é tornar ilegítima a sua dor. É dizer ao depressivo que o que ele sente não merece ser ouvido porque é produto apenas de uma disfunção bioquímica. É reforçar a crença de que o depressivo não tem nada a dizer sequer sobre ele mesmo. É cristalizar o estigma. Sem contar que tentar calar os sintomas da depressão à custa de remédios leva ao embotamento da experiência, ao esvaziamento da subjetividade. O que se sente é silenciado – e não elaborado. E, ainda que alguém achasse que vale a pena se anestesiar da condição humana, o efeito do remédio, como bem sabemos, é temporário."

BRUM, Eliane. “O depressivo na contramão" Disponível em: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI107441-15230,00-O+DEPRESSIVO+NA+CONTRAMAO.html



O suicídio e sua prevenção____________________________Bertolote

“O suicídio é a pior de todas as tragédias humanas. Não apenas representa a culminância de um sofrimento insuportável para o indivíduo, mas também significa uma dor perpétua e um questionamento torturante, infindável, para os que ficam. [...] Sabe-se que, no mundo ocidental, no mínimo de cinco a seis pessoas ficam profundamente afetadas por uma morte causada por suicídio. Em sociedades menos individualistas, as ‘emoções partilhadas’ podem tornar comunidades inteiras afetadas pela tragédia de uma única decisão fatal. Esse fenômeno é relatado com frequência em comunidades indígenas" (p. 07).

Fatores habitualmente encontrados em pessoas com risco de comportamentos suicidas (p.73):

Fatores predisponentes (distais em relação ao ato suicida)
- Tentativa (s) prévia (s) de suicídio
- Transtornos psiquiátricos (principalmente depressão, alcoolismo, esquizofrenia e certos transtornos de personalidade
- Doenças físicas (terminais, dolorosas, debilitantes, incapacitantes, desaprovadas socialmente - como a AIDS)
- História familiar de suicídio, alcoolismo ou outros transtornos psiquiátricos
- Estado civil divorciado, viúvo ou solteiro
- Isolamento social
- Desempregado ou aposentado
- Luto ou abuso sexual na infância
- Alta recente de internação psiquiátrica

Fatores ambientais
- Fácil acesso a métodos de suicídio
Estressores recentes
- Separação conjugal
- Luto
- Conflitos familiares
- Mudança de situação empregatícia ou financeira
- Rejeição por parte de pessoa significativa
- Vergonha e temor de ser considerado culpado

Exemplos de programas de prevenção do suicídio efetivos, por nível de cobertura populacional (p.90):  
- Universal (para toda a população): Limitação de acesso a substâncias tóxicas.
- Seletiva (para indivíduos com risco baixo a moderado de comportamentos suicidas): Tratamento de pessoas com transtornos mentais (incluindo transtornos por uso de substâncias psicoativas).
- Indicada (para indivíduos com risco evidente de comportamentos suicidas, ou que já os iniciaram): Seguimento terapêutico frequente de portadores de transtorno bipolar ou com episódios psicóticos recorrentes; Seguimento psicossocial frequente de pessoas com história de tentativas prévias de suicídio. 

“Os profissionais de saúde podem se defrontar com diversas situações associadas a comportamentos suicidas. Na maioria dos casos, há muita incerteza e indecisão sobre como proceder e o que fazer. Isso decorre de uma série de mitos a respeito do suicídio:

- Mito: Quem fala sobre suicídio nunca comete suicídio.
- Realidade: Os pacientes que cometeram suicídio em geral deram avisos ou sinais de sua intenção. Qualquer ameaça deve ser levada a sério.
- Mito: Falar sobre suicídio com um paciente pode provocar um comportamento suicida.
- Realidade: Falar sobre suicídio em geral reduz a ansiedade ligada a esse tema, o que pode fazer que o paciente se sinta compreendido e aliviado.  

Em qualquer caso em que um profissional da saúde suspeitar de tal situação, o melhor a se fazer é se dispor a dedicar um pouco mais de tempo àquele paciente, mesmo que haja diversos outros esperando. Uma boa maneira de começar a abordagem do assunto é perguntar algo como: ‘O(A) senhor(a) me parece estar bastante incomodado(a) com alguma coisa. Poderia me falar algo a esse respeito?’. Ouvir o (a) paciente com atenção e empatia ajuda bastante a reduzir a ansiedade associada à ideação suicida”.  (p. 108-109).   


BERTOLOTE, José Manoel. O suicídio e sua prevenção. São Paulo: Editora Unesp, 2012.        



quarta-feira, 10 de junho de 2015

O que é suicídio_____________________________________CASSORLA

“No suicídio parcial o indivíduo mata uma parte de si mesmo. Pode ser consciente – por exemplo, as automutilações – mas, geralmente, é inconsciente: as doenças, o não funcionamento ou o mau funcionamento de órgãos são suicídios parciais. A frigidez e a impotência sexual são exemplos claros em que uma parte do indivíduo está como que morta. Mas, sempre o que se mata é a satisfação, o prazer, a vida que provêm desses órgãos. Outras vezes, o suicídio parcial se manifesta através do prejuízo de funções mentais (sem repercussão orgânica clara), a pessoa não podendo aproveitar suas potencialidades emocionais: de amar, de trabalhar, de ser criativa. Quase sempre, o indivíduo não tem consciência de que suas potencialidades podem ir além do que ele se permite usar, de que parte delas está ‘suicididada’, ‘bloqueada’, devido a conflitos emocionais” (p. 13).

“Mas é muito difícil exterminar a vida (e até o indivíduo suicida sabe como é difícil matar-se): existe sempre a vida em potencial e possibilidades de um renascimento, às vezes até das cinzas. E, muitas vezes essa vida, quanto mais inibida e restringida o foi em seu desenvolvimento, emerge com mais força e vitalidade” (p. 17).

“ [...] existe uma independência entre o desejo de morrer e o de matar-se. A pessoa que se mata não quer necessariamente morrer (pois nem sabe o que seja isso). A pessoa se mata porque deseja outra forma de vida, fantasiada, na terra ou em outro mundo, mas na verdade, essa outra forma de vida está em sua mente. Nessa outra vida ela encontra amor ou proteção, se vinga dos inimigos, se pune por seus pecados, ou reencontra pessoas queridas” (p. 29).

“O médico, a equipe de saúde foram treinados para salvar vidas, para enfrentar a morte, numa delegação da sociedade. Dessa forma, frente a alguém que o procura tentando preservar a vida, existe concordância de expectativas: ambos querem combater a morte. No entanto, quando o paciente tentou matar-se, destroem-se ou confundem-se, na equipe de saúde, as premissas de seu treinamento. Agora ela terá de lidar com pessoas que estão (geralmente, em parte) do lado da morte, e que às vezes veem o profissional como um inimigo” (p. 37-38).

“O direito ao suicídio. É uma questão antiga em que se têm digladiado muitas escolas filosófica. Sou da opinião de que na grande maioria das vezes o indivíduo, o que acredita estar efetuando o ato por seu livre-arbítrio, está enganado. Quase sempre, essa pessoa está sob a influência de conflitos inconscientes, que descobertos, fazem com que ele encontre outras saídas” (p. 97).

CASSORLA, Roosevelt M. S. O que é suicídio. 2ª. edição. São Paulo: Brasiliense, 1986.  


 De 11 a 13 de junho, estarei participando do Simpósio Latino-Americano de Prevenção ao Suícidio, em Belo Horizonte.

O trabalho "Cuidado, frágil: aproximações e distanciamentos de trabalhadores de um CAPS na atenção ao suicídio" foi um dos trabalhos selecionados 
para apresentação em pôster.






"Ora, é óbvio para qualquer psicoterapeuta que, em muitas situações, é aconselhável tentar modificar o humor do paciente quimicamente. Por exemplo, um paciente deprimido a ponto de não sair da cama e não abrir a boca também não terá a mínima motivação necessária para operar algumas mudanças em sua vida, com ou sem a ajuda de um terapeuta. Uma correção química do nível de serotonina poderá, com um pouco de sorte, permitir que ele encontre as forças para se mexer.


Mas ninguém, com a exceção talvez dos acionistas das companhias farmacêuticas, sonha com um mundo em que as causas de nossos afetos seriam sistematicamente negligenciadas e nossos humores pacificados com uma contínua intervenção química capaz de impor ao cérebro um equilíbrio ideal.

Todos sabemos que, por mais que eu tome a pílula mágica na hora da morte de meu amigo, algum dia terei de enfrentar a dor de um luto. A não ser que decida viver para o resto de minha vida sob anestesia.(p. 129-130)"


CALLIGARIS, Contardo. “Cartas a um jovem terapeuta”. 2ª Edição. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008.



domingo, 7 de junho de 2015

Portaria 1.876/2006 - Diretrizes Nacionais para Prevenção do Suicídio


Ministério da Saúde
Gabinete do Ministro
PORTARIA Nº 1.876, DE 14 DE AGOSTO DE 2006



Institui Diretrizes Nacionais para Prevenção do Suicídio, a ser implantadas em todas as unidades federadas, respeitadas as competências das três esferas de gestão.

O MINISTRO DE ESTADO DA SAÚDE, no uso de suas atribuições, e

Considerando a Constituição Federal, no capítulo saúde, em seus artigos 196 a 200 e as Leis Orgânicas da Saúde nº 8.080, de 19 de setembro de 1990, e nº 8.142, de 28 de dezembro de 1990;

Considerando que o fenômeno do suicídio é um grave problema de saúde pública, que afeta toda a sociedade e que pode ser prevenido;

Considerando a importância epidemiológica do registro do suicídio e das tentativas de suicídio em todo o território nacional;

Considerando a importância epidemiológica e a relevância do quadro de co-morbidade  e transtornos associados ao suicídio e suas tentativas, em populações vulneráveis, tais como: indivíduos com transtornos psíquicos, especialmente as depressões; indivíduos que já tentaram suicídio; usuários de álcool e outras drogas; populações residentes e internadas em instituições específicas (clínicas, hospitais, presídios e outros); adolescentes moradores de rua, gestantes e/ou vítimas de violência sexual; trabalhadores rurais expostos a determinados agentes tóxicos e/ou a precárias condições de vida; indivíduos portadores de doenças crônico-degenerativas; indivíduos que convivem com o HIV/AIDS e populações de etnias indígenas, entre outras;

Considerando o aumento observado na freqüência do comportamento suicida entre jovens entre 15 e 25 anos, de ambos os sexos, escolaridades diversas e em todas as camadas sociais;

Considerando o impacto e os danos causados pelo suicídio e as tentativas nos indivíduos, nas famílias, nos locais de trabalho, nas escolas e em outras instituições;

Considerando a possibilidade de intervenção nos casos de tentativas de suicídio e que as mortes por suicídio podem ser  evitadas por meio de ações de promoção e prevenção em todos os níveis de atenção à saúde;

Considerando a necessidade de organizar uma rede de atenção à saúde que garanta linha de cuidados integrais no manejo dos casos de tentativas de suicídio, com vistas a reduzir o dano do agravo e melhorar o acesso dos pacientes ao atendimento especializado, quando necessário;

Considerando a importância do suporte oferecido pelas organizações da sociedade civil na área de Prevenção do Suicídio, como os Centros de Crise e outros;

Considerando os custos elevados dos procedimentos necessários às  intervenções após as tentativas de suicídio;

Considerando a necessidade de promover estudos e pesquisas na área de Prevenção do Suicídio;

Considerando o papel importante dos meios de comunicação de massa por intermédio das diversas mídias no apoio à prevenção e no tratamento humanizado dos casos de tentativas;

Considerando os Pactos pela Saúde, em suas três dimensões: Pela Vida, em Defesa do SUS e de Gestão, estabelecidos pela Portaria nº 399/GM/MS, de 2006 e a recomendação da Organização Mundial da Saúde de que os Estados-Membros desenvolvam diretrizes e estratégias nacionais de prevenção do suicídio; e

Considerando a Portaria nº 2.542/GM, de 22 de dezembro de 2005, que instituiu Grupo de Trabalho com o objetivo de elaborar e implantar a Estratégia Nacional de Prevenção ao Suicídio, resolve:

Art. 1°  Instituir as Diretrizes Nacionais para Prevenção do Suicídio, a ser implantadas em todas as unidades federadas, respeitadas as competências das três esferas de gestão.

Art. 2°  Estabelecer que as Diretrizes Nacionais para Prevenção do Suicídio sejam organizadas de forma articulada entre o Ministério da Saúde, as Secretarias de Estado de Saúde, as Secretarias Municipais de Saúde, as instituições acadêmicas, as organizações da sociedade civil, os organismos governamentais e os não-governamentais, nacionais e internacionais, permitindo:

I - desenvolver estratégias de promoção de qualidade de vida, de educação, de proteção e de recuperação da saúde e de prevenção de danos;

II - desenvolver estratégias de informação, de comunicação e de sensibilização da sociedade de que o suicídio é um problema de saúde pública que pode ser prevenido;

III - organizar linha de cuidados integrais (promoção, prevenção, tratamento e recuperação) em todos os níveis de atenção, garantindo o acesso às diferentes modalidades terapêuticas;

IV - identificar a prevalência dos determinantes e condicionantes do suicídio e tentativas, assim como os fatores protetores e o desenvolvimento de ações intersetoriais de responsabilidade pública, sem excluir a responsabilidade de toda a sociedade;

V - fomentar e executar projetos estratégicos fundamentados em estudos de custo-efetividade, eficácia e qualidade, bem como em processos de organização da rede de atenção e intervenções nos casos de tentativas de suicídio;

VI - contribuir para o desenvolvimento de métodos de coleta e análise de dados, permitindo a qualificação da gestão, a disseminação das informações e dos conhecimentos;

VII - promover intercâmbio entre o Sistema de Informações do SUS e outros sistemas de informações setoriais afins, implementando e aperfeiçoando permanentemente a produção de dados e garantindo a democratização das informações; e

VIII - promover a educação permanente dos profissionais de saúde das unidades de atenção básica, inclusive do Programa Saúde da Família, dos serviços de saúde mental, das unidades de urgência e emergência, de acordo com os princípios da integralidade e da humanização.

Art. 3°  Determinar à Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde (SAS/MS), em conjunto com outras áreas e agências do Ministério da Saúde, que adote as providências necessárias para a estruturação das Diretrizes Nacionais para Prevenção do Suicídio instituídas por esta Portaria.

Art. 4° Determinar à Secretaria de Atenção à Saúde que constitua um Grupo de Trabalho, a ser instituído por portaria específica, para propor a regulamentação dessas diretrizes no prazo máximo de 120 (cento e vinte) dias.

Art. 5°  Determinar que a regulamentação dessas diretrizes seja apresentada e pactuada no âmbito da Comissão Intergestores Tripartite - CIT.

Art. 6º  Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação.

JOSÉ AGENOR ÁLVARES DA SILVA

Saúde Mental _______________________Rubem Alves

Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.
Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maikóvski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. van Gogh se matou. Wittgenstein se alegrou ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakóvski suicidou.

Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.
Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias se comportam bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado, nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme!), ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, que tenha a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é coisa muito perigosa...

Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idiotas de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. É claro que nenhuma mamãe consciente quererá que o seu filho seja como van Gogh ou Maiakóvski. O desejável é que seja executivo de grande empresa, na pior das hipóteses funcionário do Banco do Brasil ou da CPFL. Preferível ser elefante ou tartaruga a ser borboleta ou condor. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego. Mas nunca ouvi falar de político que tivesse stress ou depressão, com exceção do Suplicy. Andam sempre fortes e certos de si mesmos, em passeatas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.
Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.

Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas se chama hardware, literalmente coisa dura e a outra se denomina software, coisa mole. A hardware é constituída por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. A software é constituída por entidades espirituais - símbolos, que formam os programas e são gravados nos disquetes.

Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos, o cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo espirituais, sendo que o programa mais importante é linguagem.

Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso de símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.

Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos do Drummond e o corpo fica excitado.

Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e acessórios, o software, tenha a capacidade de ouvir a música que ele toca, e de se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta, e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei, no princípio: a música que saía do seu software era tão bonita que o seu hardware não suportou.

A beleza pode fazer mal à saúde mental. Sábias, portanto, são as empresas estatais, que têm retratos dos governadores e presidentes espalhados por todos os lados: eles estão lá para exorcizar a beleza e para produzir o suave estado de insensibilidade necessário ao bom trabalho.

Dadas essas reflexões científicas sobre a saúde mental, vai aqui uma receita que, se seguida à risca, garantirá que ninguém será afetado pelas perturbações que afetaram os senhores que citei no início, evitando assim o triste fim que tiveram.

Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são especialmente perigosos. Já o roque pode ser tomado à vontade, sem contra indicações. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do Dr. Lair Ribeiro, por que arriscar-se a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. A saúde mental é um estômago que entra em convulsão sempre que lhe é servido um prato diferente. Por isso que as pessoas de boa saúde mental têm sempre as mesmas idéias. Essa cotidiana ingestão do banal é condição necessária para a produção da dormência da inteligência ligada à saúde mental. E, aos domingos, não se esqueca do Sílvio Santos e do Gugu Liberato.
Seguindo esta receita você terá uma vida tranquila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, ao invés de ter o fim que tiveram os senhores que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já não mais saberá como eles eram.
(Provavelmente escrito em 1994)
ALVES, Rubem. Saúde Mental. Disponível em:   http://www.rubemalves.com.br/site/10mais_10.php.