domingo, 29 de maio de 2016

“Transformamos problemas cotidianos em transtornos mentais”

ENTREVISTA | ALLEN FRANCES
“Transformamos problemas cotidianos em transtornos mentais”

Catedrático emérito da Universidade Duke comandou a redação da ‘bíblia’ dos psiquiatras


27 SET 2014 


Allen Frances (Nova York, 1942) dirigiu durante anos o Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM), documento que define e descreve as diferentes doenças mentais. Esse manual, considerado a bíblia dos psiquiatras, é revisado periodicamente para ser adaptado aos avanços do conhecimento científico. Frances dirigiu a equipe que redigiu o DSM IV, ao qual se seguiu uma quinta revisão que ampliou enormemente o número de transtornos patológicos. Em seu livro Saving Normal (inédito no Brasil), ele faz uma autocrítica e questiona o fato de a principal referência acadêmica da psiquiatria contribuir para a crescente medicalização da vida.

Pergunta. No livro, o senhor faz um mea culpa, mas é ainda mais duro com o trabalho de seus colegas do DSM V. Por quê?
Resposta. Fomos muito conservadores e só introduzimos [no DSM IV] dois dos 94 novos transtornos mentais sugeridos. Ao acabar, nos felicitamos, convencidos de que tínhamos feito um bom trabalho. Mas o DSM IV acabou sendo um dique frágil demais para frear o impulso agressivo e diabolicamente ardiloso das empresas farmacêuticas no sentido de introduzir novas entidades patológicas. Não soubemos nos antecipar ao poder dos laboratórios de fazer médicos, pais e pacientes acreditarem que o transtorno psiquiátrico é algo muito comum e de fácil solução. O resultado foi uma inflação diagnóstica que causa muito dano, especialmente na psiquiatria infantil. Agora, a ampliação de síndromes e patologias no DSM V vai transformar a atual inflação diagnóstica em hiperinflação.

P. Seremos todos considerados doentes mentais?
R. Algo assim. Há seis anos, encontrei amigos e colegas que tinham participado da última revisão e os vi tão entusiasmados que não pude senão recorrer à ironia: vocês ampliaram tanto a lista de patologias, eu disse a eles, que eu mesmo me reconheço em muitos desses transtornos. Com frequência me esqueço das coisas, de modo que certamente tenho uma demência em estágio preliminar; de vez em quando como muito, então provavelmente tenho a síndrome do comedor compulsivo; e, como quando minha mulher morreu a tristeza durou mais de uma semana e ainda me dói, devo ter caído em uma depressão. É absurdo. Criamos um sistema de diagnóstico que transforma problemas cotidianos e normais da vida em transtornos mentais.

P. Com a colaboração da indústria farmacêutica...
R. É óbvio. Graças àqueles que lhes permitiram fazer publicidade de seus produtos, os laboratórios estão enganando o público, fazendo acreditar que os problemas se resolvem com comprimidos. Mas não é assim. Os fármacos são necessários e muito úteis em transtornos mentais severos e persistentes, que provocam uma grande incapacidade. Mas não ajudam nos problemas cotidianos, pelo contrário: o excesso de medicação causa mais danos que benefícios. Não existe tratamento mágico contra o mal-estar.

P. O que propõe para frear essa tendência?
R. Controlar melhor a indústria e educar de novo os médicos e a sociedade, que aceita de forma muito acrítica as facilidades oferecidas para se medicar, o que está provocando além do mais a aparição de um perigosíssimo mercado clandestino de fármacos psiquiátricos. Em meu país, 30% dos estudantes universitários e 10% dos do ensino médio compram fármacos no mercado ilegal. Há um tipo de narcótico que cria muita dependência e pode dar lugar a casos de overdose e morte. Atualmente, já há mais mortes por abuso de medicamentos do que por consumo de drogas.

P. Em 2009, um estudo realizado na Holanda concluiu que 34% das crianças entre 5 e 15 anos eram tratadas por hiperatividade e déficit de atenção. É crível que uma em cada três crianças seja hiperativa?
R. Claro que não. A incidência real está em torno de 2% a 3% da população infantil e, entretanto, 11% das crianças nos EUA estão diagnosticadas como tal e, no caso dos adolescentes homens, 20%, sendo que metade é tratada com fármacos. Outro dado surpreendente: entre as crianças em tratamento, mais de 10.000 têm menos de três anos! Isso é algo selvagem, desumano. Os melhores especialistas, aqueles que honestamente ajudaram a definir a patologia, estão horrorizados. Perdeu-se o controle.

P. E há tanta síndrome de Asperger como indicam as estatísticas sobre tratamentos psiquiátricos?
R. Esse foi um dos dois novos transtornos que incorporamos no DSM IV, e em pouco tempo o diagnóstico de autismo se triplicou. O mesmo ocorreu com a hiperatividade. Calculamos que, com os novos critérios, os diagnósticos aumentariam em 15%, mas houve uma mudança brusca a partir de 1997, quando os laboratórios lançaram no mercado fármacos novos e muito caros, e além disso puderam fazer publicidade. O diagnóstico se multiplicou por 40.

P. A influência dos laboratórios é evidente, mas um psiquiatra dificilmente prescreverá psicoestimulantes a uma criança sem pais angustiados que corram para o seu consultório, porque a professora disse que a criança não progride adequadamente, e eles temem que ela perca oportunidades de competir na vida. Até que ponto esses fatores culturais influenciam?
R. Sobre isto tenho três coisas a dizer. Primeiro, não há evidência em longo prazo de que a medicação contribua para melhorar os resultados escolares. Em curto prazo, pode acalmar a criança, inclusive ajudá-la a se concentrar melhor em suas tarefas. Mas em longo prazo esses benefícios não foram demonstrados. Segundo: estamos fazendo um experimento em grande escala com essas crianças, porque não sabemos que efeitos adversos esses fármacos podem ter com o passar do tempo. Assim como não nos ocorre receitar testosterona a uma criança para que renda mais no futebol, tampouco faz sentido tentar melhorar o rendimento escolar com fármacos. Terceiro: temos de aceitar que há diferenças entre as crianças e que nem todas cabem em um molde de normalidade que tornamos cada vez mais estreito. É muito importante que os pais protejam seus filhos, mas do excesso de medicação.

P. Na medicalização da vida, não influi também a cultura hedonista que busca o bem-estar a qualquer preço?
R. Os seres humanos são criaturas muito maleáveis. Sobrevivemos há milhões de anos graças a essa capacidade de confrontar a adversidade e nos sobrepor a ela. Agora mesmo, no Iraque ou na Síria, a vida pode ser um inferno. E entretanto as pessoas lutam para sobreviver. Se vivermos imersos em uma cultura que lança mão dos comprimidos diante de qualquer problema, vai se reduzir a nossa capacidade de confrontar o estresse e também a segurança em nós mesmos. Se esse comportamento se generalizar, a sociedade inteira se debilitará frente à adversidade. Além disso, quando tratamos um processo banal como se fosse uma enfermidade, diminuímos a dignidade de quem verdadeiramente a sofre.

P. E ser rotulado como alguém que sofre um transtorno mental não tem consequências também?
R. Muitas, e de fato a cada semana recebo emails de pais cujos filhos foram diagnosticados com um transtorno mental e estão desesperados por causa do preconceito que esse rótulo acarreta. É muito fácil fazer um diagnóstico errôneo, mas muito difícil reverter os danos que isso causa. Tanto no social como pelos efeitos adversos que o tratamento pode ter. Felizmente, está crescendo uma corrente crítica em relação a essas práticas. O próximo passo é conscientizar as pessoas de que remédio demais faz mal para a saúde.

P. Não vai ser fácil…
R. Certo, mas a mudança cultural é possível. Temos um exemplo magnífico: há 25 anos, nos EUA, 65% da população fumava. Agora, são menos de 20%. É um dos maiores avanços em saúde da história recente, e foi conseguido por uma mudança cultural. As fábricas de cigarro gastavam enormes somas de dinheiro para desinformar. O mesmo que ocorre agora com certos medicamentos psiquiátricos. Custou muito deslanchar as evidências científicas sobre o tabaco, mas, quando se conseguiu, a mudança foi muito rápida.

P. Nos últimos anos as autoridades sanitárias tomaram medidas para reduzir a pressão dos laboratórios sobre os médicos. Mas agora se deram conta de que podem influenciar o médico gerando demandas nos pacientes.
R. Há estudos que demonstram que, quando um paciente pede um medicamento, há 20 vezes mais possibilidades de ele ser prescrito do que se a decisão coubesse apenas ao médico. Na Austrália, alguns laboratórios exigiam pessoas de muito boa aparência para o cargo de visitador médico, porque haviam comprovado que gente bonita entrava com mais facilidade nos consultórios. A esse ponto chegamos. Agora temos de trabalhar para obter uma mudança de atitude nas pessoas.

P. Em que sentido?
R. Que em vez de ir ao médico em busca da pílula mágica para algo tenhamos uma atitude mais precavida. Que o normal seja que o paciente interrogue o médico cada vez que este receita algo. Perguntar por que prescreve, que benefícios traz, que efeitos adversos causará, se há outras alternativas. Se o paciente mostrar uma atitude resistente, é mais provável que os fármacos receitados a ele sejam justificados.

P. E também será preciso mudar hábitos.
R. Sim, e deixe-me lhe dizer um problema que observei. É preciso mudar os hábitos de sono! Vocês sofrem com uma grave falta de sono, e isso provoca ansiedade e irritabilidade. Jantar às 22h e ir dormir à meia-noite ou à 1h fazia sentido quando vocês faziam a sesta. O cérebro elimina toxinas à noite. Quem dorme pouco tem problemas, tanto físicos como psíquicos.



domingo, 22 de maio de 2016


Publicado no Jornal "A Tribuna"
Santos, em 20 de maio de 2016.

"E a vida continua... O processo de luto dos pais após o suicídio de um filho"

Tese de Mestrado de Daniela Reis e Silva
Sob orientação da Profa. Dra. Maria Helena Pereira Franco
PUC-SP 2009


Citação na pág. 122:
“Suicídio não é um ato solitário.
A pessoa amada pensa que está matando apenas a si mesma,
mas ela também mata uma parte de nós.”
(BOLTON, 1997, p. 202).


RESUMO
O suicídio é um ato complexo considerado problema de saúde pública, e pouca atenção tem sido dispensada aos sobreviventes. Este trabalho trata do processo de luto de pais por suicídio de um filho por englobar duas variáveis de potencial risco para o desenvolvimento do luto complicado: a perda de um filho e a morte por suicídio. Examina o processo à luz do paradigma sistêmico. Adota uma metodologia de abordagem qualitativa, mediante um estudo de caso que envolve uma mãe enlutada há um ano e três meses. Utiliza como instrumentos uma entrevista semiestruturada e a construção do genograma familiar. A análise temática revela uma riqueza nos dados obtidos, apesar do trauma e do sofrimento envolvidos, mostrando que as características do filho, a história da doença, o suicídio, o choque, a culpa, a paralisia, a saudade, a tristeza, os altos e baixos, a saúde, a resiliência, entre outros aspectos emergentes que aparecem mesclados no discurso da participante, influenciam de maneira recursiva o processo de luto. Conclui que a religiosidade, o apoio profissional, o apoio social, a arte, a construção de significados, o compartilhar, entre outros recursos de enfrentamento, podem contribuir positivamente, mesmo em pouco tempo, para uma mudança nas expectativas para o futuro. Considera que os dados obtidos são apenas o começo do reconhecimento da importância do cuidado de não se rotular negativamente os sobreviventes ao suicídio, além da possibilidade de romper o silêncio e o preconceito que os envolvem, para que possam receber o acolhimento adequado.

Palavras-chave: Luto por suicídio. Luto familiar. Luto parental. Luto complicado. Suicídio.

"Cassorla (2004, p. 29) é enfático ao dizer que o suicida não quer morrer, mas fugir do sofrimento, substituindo-o “[...] por uma ‘vida’ após a morte, prazerosa, por vezes prêmio ou compensação por seus sofrimentos ou sacrifícios terrenos [...]”, independente de crenças ou não-crenças religiosas.
Meleiro e Bahls (2004) afirmam que a crise suicida envolve uma dor emocional tão grande que o indivíduo não consegue suportá-la, tornando-se uma crise relacionada aos três “is”: intolerável, interminável e incapaz. Assim, acredita ser incapaz de resolver o problema e, sem ter nenhuma expectativa de que a situação se modifique, passa a julgá-lo interminável.
Muitas pessoas pensam em morrer, mas não pensam em se matar. Outras pensam em se matar, mas jamais fazem uma tentativa. Meleiro e Bahls (2004) afirmam que a maioria das pessoas que tenta suicídio não morre por essa causa. Para Botega, Rapeli e Cais (2006), as tentativas de suicídio acontecem com pessoas que estão sob tensão, como expressão aguda de seu sofrimento, e, em sua maioria, sem apoio do meio familiar e social." (p. 28)

"Brown (2001) e Caselatto (2002) concordam que a inversão do ciclo vital com a morte antecipada de um filho é considerada o pior tipo de perda, pois a maioria dos pais vê os filhos como extensão de suas esperanças e sonhos de vida, tornando-os foco emocional importante da família. A perda de um ou mais deles pode destruir esperanças, confiança, e trazer desespero para toda uma vida (RANGEL, 2008). Para os pais, de acordo com Klass (1999), a morte de um filho é a perda da esperança da imortalidade. Parkes (2009) considera que, para a maioria das pessoas do mundo ocidental, a morte de um filho é a fonte de pesar mais atormentadora e dolorosa. “Ao perdermos nossos filhos, perdemos a oportunidade de compartilhar a vida deles, seu futuro, suas alegrias e sucessos, além de seu amor por nós” (PARKES, 2009, p. 200)." (p. 89)




Leia na íntegra em:




domingo, 15 de maio de 2016

Vídeo: Cartas suicidas




"Publicado em 9 de mar de 2016
De acordo com a OMS, o Brasil está no oitavo lugar entre os países com maior taxa de suicídios. 

No Em Tese, conversamos sobre as perspectivas do suicídio com o pesquisador Evandro de Melo Catelão. Ele analisou o conteúdo de cartas suicidas e documentos policiais para a sua tese em Letras."

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Link da minha Dissertação de Mestrado

"Cuidado, frágil: aproximações e distanciamentos de trabalhadores de um CAPS 
na atenção ao suicídio"

RESUMO


Este trabalho investigou a atenção ao suicídio em um dos NAPS (Núcleos de Atenção Psicossocial) de Santos/SP, visando propor intervenções que possam qualificar a atenção a estes casos. Trata-se de uma pesquisa-intervenção de abordagem cartográfica, na qual foram utilizados diversos instrumentos para a produção dos dados. Pretendeu-se inicialmente compreender a organização do processo de trabalho para atender a esta demanda e para tal foram realizados levantamentos dos registros de atendimentos da triagem no período maio de 2012 a dezembro de 2013,  estudo de prontuários com relato de tentativa de suicídio e/ou ideação suicida e análise do fluxo de atendimento do usuário no serviço. Foram realizadas também entrevistas semiestruturadas com trabalhadores de saúde envolvidos nesse atendimento para compreender suas concepções a respeito do tema. Esses materiais, bem como a implicação da pesquisadora, que também integrava a equipe desta unidade foram analisados em espaços de orientação individual e coletiva. Constatou-se que as ofertas de atenção estavam centradas na medicalização do sofrimento mental e a organização do serviço era predominantemente centrada na oferta de consultas médicas. No que diz respeito ao suicídio, percebeu-se que havia uma simplificação da problemática relacionada ao tema e que seria importante ver de uma forma mais complexa as diferentes perspectivas sobre o suicídio e como oferecer cuidado nesses casos. Os dados iniciais dispararam questionamentos que motivaram a construção de um material que também se constitui como produto de pesquisa, denominado como caixa de afecções (com livros, artigos, filmes, músicas e poesias) que traz diferentes percepções sobre suicídio e foi utilizado nas rodas de conversa, podendo ser consultado e/ou utilizado por profissionais, estudantes e outros que se interessem pelo tema – disponibilizado no blog Falando sobre suicídio (http://falandosobresuicidio.blogspot.com.br). Na fase seguinte da pesquisa, foram realizadas quatro rodas de conversas com a equipe, nas quais os materiais e as questões sistematizadas foram apresentados e dispararam novas conversas que permitiram problematizar as concepções predominantes sobre o tema e repensar o processo de trabalho da equipe na unidade, não apenas em relação à atenção ao suicídio, mas também para as outras demandas de sofrimento mental. Também emerge como aspecto importante, tanto nas entrevistas individuais quanto nas rodas de conversa, o sofrimento dos trabalhadores desse equipamento e a medicalização do sofrimento. Posteriormente, foram entrevistados também os psiquiatras da unidade, dada a importância da consulta médica e da prescrição de medicamentos na organização do serviço para atender a esta e outras demandas. Esta etapa produziu novos dados que contribuíram para a ampliação dessa discussão. As intervenções construídas por esta investigação ocorreram desde os momentos iniciais da pesquisa e se expressam no protagonismo dos trabalhadores, que se mobilizaram para a criação de espaços de encontro e de educação permanente, com o objetivo de analisar seu processo de trabalho e o cuidado produzido. Espera-se contribuir para a reflexão e propostas de cuidado para este importante problema da saúde pública.

Palavras-chave: Suicídio, Educação Permanente, Saúde Mental, Processos de Trabalho em Saúde.




http://www2.unifesp.br/centros/cedess/mestrado/baixada_santista_teses/027_bx_dissertacao_lucianacescon.pdf



domingo, 8 de maio de 2016

“Não me preocupo quando uma pessoa supõe o suicídio como opção, não me comovo com alguém que grita e diz claramente sua vontade de desistir querendo valorizar sua existência. Me preocupo mesmo com quem se cala por não conseguir explicar os verdadeiros motivos de sua tristeza, porque a verdadeira desistência vai além das palavras. A solidão não cabe em uma frase.”

Sean Wilhelm




Sobre os fluxos administrativos imutáveis, frios e impessoais que não comportam seres humanos



"Desculpa, Doutora..?"

"Júlia. Só Júlia." E fui mexer na tela do computador pra ver se tinha esquecido de atender algum paciente.

"Meu nome não tá aí. Eu sei que eu tô pedindo uma coisa que não devia, mas é que tô trabalhando muito e, por isso, não consegui vir durante a semana. Me desculpa. Eu tô sem meu remédio de dormir. Preciso muito que você renove a receita pra mim. Pelo menos até eu conseguir marcar consulta com o médico da minha equipe."

"Tudo bem. 'Senta'."

"Você vai fazer????"

"Vou, uai."

"Nossa. Eu já vim preparada pra pedir pelo amor de Deus."

"Não precisa. Eu vou fazer agora. Só gostaria que você também me entendesse. Vou renovar por 15 dias pra dar tempo de você marcar com seu médico e seguir esse acompanhamento com ele. Ok? Essa medicação precisa ser presceita com muita cautela. É uma situação séria."

"É tão triste ter que calçar a cara pra ficar pedindo esses favores. Uma vez eu tentei parar mas fiquei muito mal. Já tem 3 anos que eu uso. Por isso que vim. Desculpa."

"Não estou te fazendo um favor. Esse é o nosso trabalho. Não precisa pedir desculpa. Esse remédio causa dependência. Não pode parar de usar de uma vez. Por isso que estou renovando e te encaminhando para o seu médico de referência. Ele vai te orientar sobre essa possível retirada."

"Muito obrigada."

"Sua receita. Só mais uma coisinha. Esse remédio tá preenchendo um buraco aí dentro, né. Se tirar o remédio sem olhar pro buraco, não sei não... Respira fundo, dá uma olhada nesse vazio, vê bem o tamanho dele, procura alguma coisa pra colocar lá. Depois, reavalia o remédio."

Seus olhos se encheram de lágrima.

"Tenho vergonha disso. É uma droga. Só que legalizada, né? Tenho muita vontade de parar. Várias pessoas da minha família ficam me criticando, mandando eu parar."

"Essas pessoas também estão cheias de buraco, boba! Elas podem não preencher o buraco delas com remédio, mas elas as vezes estão usando chocolate, comida, marido, religião. Cada um enche o vazio com o que dá conta. Não fica envergonhada, não. Você tá usando o recurso que você tem nesse momento. Isso é LEGÍTIMO! Respeita seus limites. Respeita seu corpo. Vai no seu ritmo."

"Que bom ouvir isso. Muito obrigada"

E foi embora chorando.

E chega a moça da administração:

"Doutora. Desculpa! Eu disse a ela que hoje não era dia de renovar receita. Mas eu me distraí um minutinho e ela entrou aqui. Me desculpa."

"Sem problemas. Pode se distrair sempre. Fecha a porta aí e vambora pra praia"

Texto da (fantástica) médica da Família, Júlia Rocha, em seu Facebook. 

02 de abril de 2016.



domingo, 1 de maio de 2016

"Suicidar é ato inútil e insensato; destrói arbitrariamente o fenômeno individual, 
mas a coisa em si permanece intacta. [...]
O suicida quer a vida; não está descontente senão das contradições em que a vida se lhe oferece."

SCHOPENHAUER in O mundo como vontade e representação
(2001, p.416-417). 




Suicídio da População Trans: Limites entre Vida e Morte



Ontem, assisti a este importante evento que aproximou-me ainda mais de um tema muito importante na questão do suicídio: o suicídio por questões de gênero, podemos dizer que um  suicídio que muitas vezes se apresenta como uma denúncia de sofrimento e desrespeito.

Qualquer aproximação que eu procure fazer será sempre uma sombra do que de fato é vivenciar essa situação no cotidiano, porém vou fazer um resumo das principais falas, para que cada um que tenha interesse pelo tema possa refletir.

Organizado pelo CAIS (Associação Centro de Apoio e Inclusão Social de Travestis e Transexuais) e pelo ILADH – Instituto Latino Americano de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos, a partir de suicídios recentes de trans, o encontro teve como objetivo discutir esta questão.

O Dr. Dráuzio Varella abriu o encontro, referindo-se ao seu contato com travestis no Carandiru (experiência relatada entre outras, no livro "Estação Carandiru". Hoje, observa que é importante quantificar os trans que morreram por suicídio, para destacar sua relevância.

Depoimentos apontaram que é muito importante compreender o sofrimento do existir trans, percebendo a morte da pessoa que já não tem vida, em uma construção social que diz o tempo todo "Aqui você não é bem-vinda" como uma abertura para o suicídio. "O suicídio aparece como pontuação final para quem não tem vida".
A transfobia muitas vezes "empurra" para o suicídio.

A professora Fernanda Marquetti trouxe sua visão do suicídio como ato transgressor, neste sentido tão próximo da questão trans/homossexual. "Para mim, o suicídio é uma forma de comunicação. O suicídio trans comunica que as intolerâncias sexuais e de gênero são significativas. A violência simbólica e concreta a que é submetida a população trans pode ser respondida com outra manifestação simbólica e violenta como um suicídio".

O professor William S. Peres destaca que é preciso falar em respeito, e não em tolerância. "Os processos de suicídio parecem ser construídos nos percursos de algumas vidas, cercadas pelo sentimento de não pertença, de culpa e de rebaixamento de autoestima, pelo cerceamento de direitos".

O jornalista Neto Lucon falou acerca do suicídio na mídia, dos cuidados que a imprensa traz quando há uma notícia deste tipo e também apresentou alguns casos de suicídios de trans que mobilizaram as pessoas.

Uma das falas de uma destas trans, que posteriormente se matou:

"Como desistir de quem você é?
Isso não significa a própria morte?
E quantas vezes nós morremos esse mês?"

Destaco que o Neto comentou que estas mortes trazem, entre outras repercussões na população trans, o relato de tentativas e a curiosidade de saber como foi o enterro ... na lápide estava escrito o nome de batismo ou o nome social de quem morreu? Fiquei pensando se para algumas pessoas esta parece ser a única forma de legitimar seu nome, de ver respeitada sua identidade de gênero ... oferecendo sua própria vida? 

E todas estas questões falam a respeito de que é preciso criar políticas públicas que respeitem o direito à uma vida digna a todas as pessoas...


"Não é pedir tanto que a gente queira viver como as outras pessoas ... sendo tratadas e tratados como gente ..."   

Finalizando, deixo aqui o bilhete de Leelah Alcorn, uma garota trans de 17 anos que buscou o suicídio em dezembro de 2014, deixando o seguinte bilhete:

"Se você está lendo isso, quer dizer que eu cometi suicídio e obviamente não consegui apagar esse post da minha fila de publicação.

Por favor não fique triste, é para o bem. A vida que eu teria vivido não valia a pena ser vivida… porque eu sou transgênero. Eu poderia entrar nos detalhes para explicar por que eu sinto isso, mas essa mensagem provavelmente já vai ser bem comprida sem isso. Para dizer de forma simples, eu sinto que sou uma garota aprisionada no corpo de um garoto, e eu sinto isso desde que tinha 4 anos. Eu nunca soube que havia um nome para essa sensação, nem que era possível para um garoto se tornar uma garota, então nunca contei isso para ninguém e continuei a simplesmente fazer coisas tradicionalmente “de moleque” para tentar me encaixar.

Quando eu tinha 14 anos, eu aprendi o que queria dizer transgênero e chorei de alegria. Depois de 10 anos de confusão, eu finalmente compreendi quem eu era. Eu imediatamente contei par aminha mãe, e ela reagiu de forma extremamente negativa, me dizendo que isso era uma fase, que eu nunca seria realmente uma garota, que Deus não comete erros, que eu estava errada. Se vocês estiverem lendo isso, pais, por favor não digam isso para seus filhos. Mesmo se você for cristão ou contra pessoas transgênero não diga isso jamais para alguém, especialmente seu filho. Isso não vai realizar nada além de fazê-lo odiar a si mesmo. Foi exatamente isso que aconteceu comigo.

Minha mãe começou a me levar para um terapeuta, mas só me levava para terapeutas cristãos (todos eles muito preconceituosos), então eu nunca tive a terapia que eu realmente precisava para me curar de minha depressão. Eu só tive mais cristãos  me dizendo que eu era egoísta e estava enganada e deveria buscar ajuda em Deus.

Quando eu fiz 16 anos eu percebi que meus pais nunca mudariam de ideia, e que eu teria que esperar até fazer 18 anos para começar qualquer tipo de tratamento de transição, o que partiu completamente meu coração. Quanto mais você espera, mais difícil é fazer a transição. Eu me sentia sem esperança, sentia que eu ia passar o resto da vida parecendo ser um homem fantasiado de mulher. No meu aniversário de 16 anos, quando eu não recebi a permissão de meus pais para começar a fazer transição, eu chorei até dormir.

Eu passei a ter uma atitude de “foda-se” com relação aos meus pais e me declarei gay na escola, achando que talvez se eu fizesse uma passagem gradual até me declarar trans o choque seria menor. Apesar da reação dos meus aigos ter sido positiva, meus pais ficaram putos. Eles resolveram que eu estava atacando sua imagem, e que eu era um constrangimento para eles. Eles queriam que eu fosse seu garotinho cristão perfeito, e obviamente isso não era o que eu queria.

Então eles me tiraram da escola pública, esconderam meu laptop e meu celular, e me proibiram de entrar em qualquer tipo de mídia social, me isolando completamente dos meus amigos. Provavelmente essa foi a fase da minha vida em que eu fiquei mais deprimida, e estou surpresa que eu não me matei. Eu fiquei completamente sozinha por 5 meses. Nada de amigos, nada de apoio, nada de amor. Apenas a frustração dos meus pais e a cruedade da solidão.

No final do ano escolar, meus pais finalmente mudaram de ideia e devolveram meu celular e permitiram que eu retornasse às mídias sociais. Eu fiquei feliz, finalmente eu tinha meus amigos de volta. Eles ficaram extremamente felizes de me ver e conversar comigo, mas só no começo. Depois de um tempo eles perceberam que estavam cagando e andando para mim, e eu me senti ainda mais sozinha que antes. Os únicos amigos que eu pensava que tinha só gostavam de mim porque me encontravam cinco vezes por semana.

Depois de um verão quase sem amigos além do peso de ter que pensar sobre a faculdade, economizar dinheiro para sair de casa, manter minhas notas altas, ir para a igreja toda semana e me sentir uma merda porque todos lá são contra tudo pelo que eu vivo, eu decidi que já deu. Eu nunca vou conseguir fazer uma transição bem-sucedida, mesmo quando eu sair da casa dos meus pais. Eu nunca serei feliz com a minha aparência ou a maneira como eu vou soar. Eu nunca vou ter amigos o suficiente para ficar satisfeita. Eu nunca vou ter amor o suficiente para ficar satisfeita. Eu nunca vou encontrar um homem que me ame. Eu nunca vou ser feliz. Ou eu vivo o resto da minha vida como um homem solitário que gostaria de ser uma mulher, ou eu vivo minha vida como uma mulher ainda mais solitária que odeia a si mesma.  Não há como ganhar. Não há saída. Eu já estou triste o bastante, eu não preciso que minha vida fique ainda pior. As pessoas dizem que “a vida melhora” mas isso não é verdade no meu caso. A vida piora. A cada dia ela piora.

Essencialmente, é isso, essa é a razão porque eu quero me matar. Desculpe se essa não for uma razão boa o suficiente para você, é boa o suficiente para mim. Quanto ao meu testamento, eu quero que 100% das coisas que eu possuo legalmente sejam vendidas e que o dinheiro (mais o dinheiro que eu tenho no banco) seja doado para movimentos e grupos de apoio aos direitos civis trans, caguei para qual. A única maneira de eu descansar em paz é se um dia pessoas transgênero não forem tratadas como eu fui, sejam tratadas como humanos, com sentimentos válidos e direitos humanos. Gênero precisa ser ensinado nas escolas, quanto mais cedo, melhor. Minha morte precisa ter algum significado. Minha morte precisa ser contabilizada nas estatísticas de pessoas transgênero que cometem suicídio nesse ano. Eu quero que alguém veja essa estatística e pense “isso é uma merda” e dê um jeito nisso. Dê um jeito na sociedade. Por favor.

Adeus


(Leelah) Josh Alcorn
http://ladobi.uol.com.br/2015/01/leelah-alcorn/

Para  que as pessoas não precisem mais morrer para serem ouvidas.