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Este blog é um dos produtos da pesquisa de Mestrado "Cuidado, frágil: aproximações e distanciamentos de trabalhadores de um CAPS na atenção ao suicídio" e inclui sugestões de leitura, frases que me marcaram e vídeos que podem ser utilizados por pessoas ou grupos como disparadores para discussão e reflexão da questão do suicídio – seja na prevenção ou na compreensão dos fatores que podem estar por trás deste fenômeno - buscando compreender o sofrimento que está por trás deste acontecimento.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Suicídio e transtorno de personalidade

11 regras gerais para manejo clínico dos indivíduos com transtorno de personalidade, mais voltadas para situação de crise e iminência de incorrerem em tentativa de suicídio.

"1. Dar mais apoio-reasseguramento do que o habitual, ou seja, não evitar dar apoio por temer uma desmobilização para mudança.

2. Construir, conjuntamente com o paciente, objetivos escalonados, evitando metas demasiadamente ambiciosas no curto prazo.

3. Mesmo sabendo que o comportamento suicida envolve motivações alegadas (conscientes) e não alegadas (inconscientes), iniciar a abordagem pelos fatores desencadeantes trazidos pelo paciente.

4. Distorções cognitivas devem ser mostradas e trabalhadas, como, por exemplo, estreitamento de repertório, desesperança, pensamentos tipo tudo ou nada e visão dos obstáculos como intransponíveis.

5. Devem-se reforçar os vínculos saudáveis do paciente.

6. Fortalecer a sensação subjetiva de “pertença” do indivíduo, em termos de grupos, comunidades, instituições.

7. Caso o indivíduo tenha usado uma tentativa de suicídio como maneira de mudar o ambiente e/ou pedir socorro, trabalhar com a finalidade de desenvolver outras estratégias, que não a tentativa de suicídio, para os mesmos fins.

8. Nos casos de psicoterapia, não confundir “neutralidade” terapêutica com “passividade” terapêutica, ou seja, podem ser necessárias medidas ativas por parte do terapeuta. 

9. Fármacos podem ser usados não só para tratamento dos transtornos psiquiátricos que porventura venham a ser diagnosticados, como também para eliminar sintomas alvo, como, por exemplo, impulsividade. Com essa finalidade, dependendo do caso, podem ser usados fluoxetina, estabilizadores de humor ou neurolépticos.

10. Estar atento ao fato de que no início do uso de antidepressivos pode-se ter incremento da ideação suicida. Devemos também evitar fármacos com baixo índice terapêutico.

11. Por último, a regra que consideramos a mais importante: se, num primeiro momento, optamos por apoio, técnicas cognitivas, fármacos, não devemos perder de vista que, se não todos, pelo menos a grande maioria desses pacientes necessita de importante reestruturação psicodinâmica a longo prazo, ou seja, em um segundo tempo técnicas que privilegiem insight são bem-vindas. A percepção de quando transitar o tratamento do primeiro para o segundo tempo e a maneira de conduzi-la é, a nosso ver, um dos principais aprendizados necessários ao clínico que atende pacientes em risco de suicídio."

“Prevenção do Suicídio: Manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental” (BRASIL, 2006)

domingo, 20 de dezembro de 2015

VAMOS FALAR DE SUICÍDIO?

- Publicado em recortes por Sílvia Marques

Deprimidos , bulímicos , anoréxicos, fóbicos são pessoas como outras quaisquer. Eles não são a sua doença. Confundir um depressivo com a depressão é o mesmo que definir alguém pela sua gastrite ou por sua faringite crônica. Atrás da doença, existe um ser humano extremamente sensível e cheio de qualidades que merecem ser apreciadas.


© obvious

Toda sociedade apresenta uma série de temas tabu, isto é, temas que fazem parte da nossa realidade, mas que por serem dolorosos demais preferimos não conversar sobre eles. Mas ignorar um assunto não o torna inexistente.
Deveríamos debater mais sobre tudo o que aflige a raça humana, tentando entender as motivações de quem já pensou seriamente ou até mesmo já tentou cometer o suicídio. Se para muitos a depressão já é um tema constrangedor, imaginem falar sobre alguém que cortou os pulsos ou fez uma mistura inusitada de medicamentos?
Porém, a depressão é o mal do nosso século e em poucos anos muito mais pessoas serão acometidas por esta doença incapacitante, que faz o sol ficar preto e branco. Depressão não é o mesmo que tristeza. Embora, muitas vezes, uma grande tristeza ou perda possa desencadear um processo depressivo.
Depressivos precisam de ajuda médica, remédios, terapia, muito carinho e compreensão. Depressivos não precisam ser julgados ou ignorados. Depressão não é doença contagiosa, embora a convivência com alguém deprimido possa nos afetar, principalmente quando amamos profundamente esta pessoa.
Muitos depressivos pensam em acabar com a própria vida. Muita gente acredita que o suicídio é um ato de extremo egoísmo pois quem deseja se matar não leva em conta a perda que parentes e amigos irão sofrer. É importante ressaltar que o suicida não tem interesse em magoar. Ele simplesmente quer se livrar de uma dor que para ele é intolerável. Julgar um depressivo com vontade de se matar como um egoísta é um julgamento cruel. A percepção do suicida fica muito alterada pela doença e ele precisa ser amparado e amado.
Em fóruns da internet, pessoas pedem dicas de misturas de medicamentos que levam à morte. Algumas pessoas gentis tentam dar bons conselhos, acalmar o coração de quem está alimentando ideias mórbidas. Por outro lado, encontramos comentários de uma crueldade ímpar, em que os autores ridicularizam quem quer morrer.
Quem pensa seriamente em suicídio já está com a autoestima baixa. Ser ridicularizado o torna ainda mais vulnerável. A nossa sociedade precisa começar a entender que problema psicológico é coisa séria sim. Não se resolve depressão lavando roupa. As pessoas não deprimem por falta do que fazer. E é um mito dizer que quem afirma querer se matar, não vai se matar. Muita gente tenta sim o suicídio depois de expor o seu desejo com todas as letras.
Suicídio não é tema engraçado, mas também não deveria ser considerado um tabu. Faz parte da vida como o amor, a paixão, o medo. Também me parece um pouco precipitado taxar um suicida como um simples covarde que não aguenta os trancos da vida. Algumas pessoas por alguma razão que não conheço vem sem as blindagens necessárias para sobreviver à indiferença e à frieza do mundo. Somos preparados para engolirmos e negarmos a própria dor. Homem não pode chorar. Não pode ser sensível. Na verdade, deveríamos ser preparados para desenvolver o amor maior, a piedade, a compreensão que transcende as nossas crenças. Não é porque não sentimos uma dor ou um impulso que ele não possa existir no outro.
Deprimidos , bulímicos , anoréxicos, fóbicos são pessoas como outras quaisquer. Eles não são a sua doença. Confundir um depressivo com a depressão é o mesmo que definir alguém pela sua gastrite ou por sua faringite crônica. Atrás da doença, existe um ser humano extremamente sensível e cheio de qualidades que merecem ser apreciadas. Mas para que para tais qualidades voltem a brilhar, precisamos ajudá-los e amá-los com todo nosso coração.

Fonte: © obvious: http://obviousmag.org/cinema_pensante/2015/07/vamos-falar-de-suicidio.html#ixzz3v4FrSlyJ 
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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Escala Sad Persons

ESCALA SAD PERSONS
(Patterson, W.M.; Dohn, H.H. y otros  (1983). Evaluation of suicidal patients. Psychosomatics).

A Escala de Indicadores de Risco de Suicídio deve ser aplicada por um profissional durante uma entrevista semiestruturada.
Instruções: Ponha um x na alternativa que melhor descreva a situação e experiência do sujeito.


SIM
NÃO
S: Sexo masculino.


A: (Age) Idade < 20 ou >45 anos.


D: Depressão.


P: Tentativa suicida prévia.


E: Abuso de álcool.


R: Falta de pensamento racional (psicoses ou transtornos cognitivos).


S: Falta de apoio social.


O: Plano organizado de suicídio.


N. Não tem companheiro (a).


S: Doença somática.


Pontuação




Resultado
Pontua-se a ausência ou presença. Cada ítem pontua 1 se está presente e 0 se está ausente.

De 0 a 2: Alta médica com acompanhamento ambulatorial.
De 3 a 4.: Acompanhamento ambulatorial intensivo, considerar internação.
De 5 a 6: Recomenda-se internação, principalmente se não há apoio social.
De 7 a 10: Internação necessária.

Em qualquer caso, diante de uma situação de dúvida, é aconselhável uma avaliação psiquiátrica centrada na natureza, frequência, intensidade, profundidade, duração e persistência da ideação suicida.


domingo, 6 de dezembro de 2015

Opinião

Humberto Corrêa: Combater o tabu para evitar o suicídio






O suicídio é um tabu social, mas é também um problema de saúde pública - em escala global.

Um milhão de pessoas se suicidam a cada ano em todo o mundo, o que representa uma morte a cada 1 minuto e 9 segundos. No Brasil, calcula-se que sejam pelo menos 9.000 óbitos por ano, 25 por dia --um número certamente subestimado.

No nosso país, tivemos um aumento de 30% da mortalidade por suicídio entre jovens, principalmente homens, nas últimas duas décadas. São milhares de brasileiros que perdemos todos os anos. Mas muitas dessas mortes poderiam ter sido evitadas.

Todos nós conhecemos alguém próximo que morreu por suicídio, ou fez uma tentativa grave. A despeito disso, não falamos no assunto, ou o fazemos à boca pequena.

É um assunto proibido. Não temos grande cobertura por parte da mídia, que, na maioria dos casos, acredita, erroneamente, que abordar o assunto incentivaria suicídios.

Não existem campanhas de saúde pública para tratar o tema. Nosso país, ao contrário de outros, ainda não tirou do papel sua estratégia nacional de prevenção ao suicídio.

Quando um assunto é tabu, não o discutimos abertamente, não estudamos, não pesquisamos. Jogamos para debaixo do tapete.

De onde surgiu esse estigma, esse tabu? O suicídio existe desde que existe o ser humano. Temos relatos de suicídios nas mais antigas e variadas culturas. Na nossa cultura, ocidental cristã, o suicídio se transformou pouco a pouco em uma questão problemática.

Santo Agostinho, ao ser nomeado bispo de Hippo, foi confrontado com a igreja donástica, um movimento depois considerado herético que venerava como santas as pessoas que se jogavam de alturas para atingir o céu.

Para enfrentá-los, santo Agostinho, no "Cidade de Deus", vai dar nova abordagem ao sexto mandamento --"não matarás"-- com uma especificação: "Nem a outro nem a si próprio". Essa visão ganha força, e o suicídio se transforma não apenas em pecado, mas no pior dos pecados, a grande sina.

Por exemplo, o suicida não teria direito às honras fúnebres, não poderia ser enterrado em cemitério cristão. Quem tentasse suicídio seria excomungado. Essa visão impregnou corações e mentes.

Nos vários Estados nacionais que vão surgindo na Europa, os códigos penais previam punição ao suicida --por exemplo, pelo confisco dos bens, ou esquartejando o corpo do suicida. Quem tentasse suicídio poderia ser preso e, paradoxalmente, até condenado à morte.

Hoje, a maioria dos Estados não criminaliza mais o suicídio, embora alguns poucos, infelizmente, ainda o façam.


Sabemos hoje que praticamente 100% dos suicidas têm um transtorno psiquiátrico que muitas vezes não fora, entretanto, diagnosticado ou corretamente tratado. O sofrimento causado pela doença psiquiátrica e outros fatores podem levar a pessoa a pensar em se matar.
Identificar rapidamente pessoas com transtornos psiquiátricos, principalmente depressão, pessoas que falam em se matar, e sugerir a elas um tratamento adequado, o mais rapidamente possível, é algo que todos podemos fazer. Pressionar o poder público para estabelecer campanhas e estratégias de prevenção, com segmento de todas as pessoas que fizerem tentativas graves de suicídio, todos nós devemos fazer. Investir em mais estudos e pesquisas sobre o tema nos permitirá melhor compreendê-lo e prevenir o ato.
Discutir o assunto à luz do dia é nossa obrigação. Lutar contra esse estigma, contra esse tabu, salvará muitas vidas.
Daí a importância de se instituir, a partir deste ano, a data 10 de setembro como dia mundial de prevenção ao suicídio, o que foi feito muito acertadamente pela Associação Internacional de Prevenção ao Suicídio (Iasp) e pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

HUMBERTO CORRÊA, 45, é presidente da Comissão de Estudos e Prevenção ao Suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria e representante no Brasil da Associação Internacional de Prevenção do Suicídio.



quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Suicídio na infância e na adolescência

Evelyn Kuczynski
In: Dossiê Suicídio - publicado pela USP


 "[...] o que dizer então da ideia de um(a) jovem que decide dar cabo à própria vida? Para os familiares, é uma espécie de concretização do Caos, pois toda a história que estava aparentemente prevista se desfaz feito fumaça, e os pais têm de enterrar e prantear seu(sua) jovem filho(a).


Tabu frequente nos meios técnicos, a perspectiva de que a Morte pode ser a escolha de uma criança desnorteia e impede a avaliação imparcial necessária por parte dos profissionais que trabalham com esta faixa etária. No entanto, a Realidade nos viola os sentidos e somos obrigados a perceber que, ciclicamente, ocorrem epidemias pontuais de comportamentos suicidas protagonizadas por crianças e adolescentes que nos obrigam a um estudo mais aprofundado das características do comportamento suicida na juventude, principalmente com o intuito de desenvolver abordagens preventivas que reduzam a morbimortalidade associada."

"Estudo que analisou 37 pesquisas mundiais identifica o bullying como uma das principais causas do suicídio de crianças e adolescentes, sendo o suicídio a terceira maior causa de mortalidade no mundo nesta faixa etária, atrás apenas dos acidentes de trânsito e homicídios. Físico ou psicológico, o impacto que gera na vítima é tão expressivo que faz dele, além de um dos principais motivos de suicídios de crianças e adolescentes, também o responsável por cerca de dezenove mil tentativas de suicídios ao ano (nos Estados Unidos). Dezenove por cento dos alunos entrevistados pensaram em se suicidar. Quinze por cento traçaram estratégias para cometer o suicídio, com 8,8% executando os planos suicidas (interrompidos por outrem). Por fim, 2,6% perpetraram tentativas sérias o bastante para exigir intervenções e acompanhamento médico permanente (Kim & Leventhal, 2008)."

" raramente o jovem suicida busca auxílio ao tentar se suicidar. É geralmente levado, muito frequentemente por alguém que tem algum tipo de vínculo com o menor, ou, caso tenha se arrependido em meio à tentativa, pode estar muito apavorado (ou confuso, pelas consequências da tentativa) para fornecer informações fidedignas (Press & Khan, 1997);
  1. durante a realização das perguntas, é importante perceber o entendimento do estágio de desenvolvimento do paciente sobre o conceito de morte (gravidade, motivação e grau de consciência da intenção suicida, crenças sobre letalidade dos meios utilizados, intensidade e persistência da ideação suicida, bem como as medidas que o paciente utilizou para a preparação, para assegurar que esta fosse evitada e que um possível resgate fosse efetuado, antes da atual tentativa). A letalidade da situação final pode ou não corresponder à seriedade das intenções do paciente (Apter & King, 2006);
  2. deve-se evitar ativamente atitudes de censura ou julgamentos precipitados, instituindo-se uma abordagem continente e de cuidado (Rotheram-Borus et al., 1996), o que demonstra sensatez e proporciona maior probabilidade de uma evolução satisfatória, tanto quanto à busca de um tratamento psiquiátrico posterior, quanto a uma maior taxa de adesão e menor incidência de tentativas posteriores de suicídio. Uma abordagem pouco produtiva denota, antes de tudo, a dificuldade do profissional em lidar com seus próprios sentimentos frente a uma situação tão limítrofe, agindo por projeção;
  3. manter uma atitude tranquila e empática facilita a coleta de dados, além de ser interessante permitir que o paciente fale com liberdade, pois dados importantes referentes a alterações de ordem psíquica podem surgir deste tipo de relato. O desempenho intelectual do paciente pode ser acessado com este tipo de observação;
  4. condições de segurança da sala em que o paciente for recebido ou será mantido em observação (“à prova de suicídio”). Não dispensar a contenção física e/ou química para garantir a segurança do paciente, até que possa ser removido para um local mais seguro;
  5. todas as informações obtidas pela observação inicial são valiosas. A atenção deve ser redobrada para sinais de instabilidade autonômica ou descompensação clínica;
  6. informações que não surjam do relato espontâneo devem ser obtidas com perguntas claras, emitidas de maneira tranquila, com uma atitude informal, de forma a não incrementar a ansiedade já presente;
  7. pode-se utilizar escalas estruturadas para avaliar a ideação suicida, baseadas em autorrelato, em auxílio aos dados obtidos na entrevista clínica;
  8. a entrevista não deve ser encerrada antes que se obtenham dados conclusivos a respeito dos seguintes itens: sanidade mental (e diagnósticos ou tratamentos prévios); tentativas anteriores; letalidade da tentativa (atual e/ou prévias); planejamento (suicida) e planos (acadêmico, profissional etc.); comportamentos de risco; uso de álcool e/ou substância psicoativas; conflitos (pessoais e familiares); traumas (psicológicos, físicos, sexuais etc.); impulsividade; recursos na comunidade; exposição (a eventos semelhantes, no âmbito familiar ou na mídia)."
"O bullying (principalmente o cyberbullying, uma de suas variantes cuja prevalência vem crescendo vertiginosamente na atualidade) vem ganhando atenção sem precedentes, correlacionando-se a transtornos mentais, entre eles a ansiedade, a depressão e o suicídio na adolescência. Medidas institucionais e legais deveriam se voltar para esta questão e esforços de prevenção e resposta a este fenômeno deveriam ser instituídos nacionalmente (NASP, 2012).

Muitas vezes, cabe ao profissional questionar, estar presente e disponível, mas também estar preparado para a enxurrada de ansiedades e angústias que povoam essas jovens mentes, que muitas vezes demandam, mais do que tudo, mais do que remédios e internações, uma escuta atenta e sem preconceitos, demandam que a Palavra seja transformada em Ação, que o fantasma que os ronda se torne palpável para enfim suspirarem aliviados e se sentirem protegidos (Souza & Kuczynski, 2012)."


domingo, 29 de novembro de 2015

Em dez anos, suicídio de crianças e pré-adolescentes cresceu 40% no Brasil
Por Maria Fernanda Ziegler e Ocimara Balmant | 10/09/2014 



Dados preocupam porque suicídio é sub-notificado e, além disso, estimam-se 300 tentativas para cada suicídio infantil; especialistas criticam falta de programas de prevenção

"Mas você tem tudo o que quer. Por que fez isso?" Seja em um choro dolorido ou aos gritos de raiva, a frase é comum no pronto socorro de psiquiatria para onde são encaminhadas as crianças e adolescentes que tentaram se matar. Sai da boca dos pais, atônitos com a confissão do filho que se cortou todo ou que ingeriu uma dose cavalar de medicamentos. Pouco falado, o suicídio na infância e adolescência tem crescido nos últimos anos.

Dados do Mapa da Violência, do Ministério da Saúde, revelam que ele existe e está crescendo. De 2002 a 2012 houve um crescimento de 40% da taxa de suicídio entre crianças e pré-adolescentes com idade entre 10 e 14 anos. Na faixa etária de 15 a 19 anos, o aumento foi de 33,5%. 
"Ao contrário do adulto, que normalmente planeja a ação, o adolescente age no impulso. São comportamentos suicidas para fugir de determinada situação que vez ou outra acabam mesmo em morte", afirma a psiquiatra Maria Fernanda Fávaro, que atua em um Pronto Socorro de psiquiatria em São Caetano do Sul, região metropolitana de São Paulo. Aos cuidados de Maria Fernanda, são encaminhadas as crianças e os adolescentes que chegaram feridas ao hospital após tentarem se matar.
Ao serem perguntados sobre o motivo de terem se mutilado com lâmina de barbear, se ferido com materiais pontiagudos, cortado o pulso ou ingerido mais de duas dezenas de comprimidos, a resposta é rápida, e vaga. "A maioria diz que a vida não tem sentido, que sentem um vazio enorme. Muitos têm quadros associados à depressão", afirma Maria Fernanda. O cenário é tão recorrente, diz a psiquiatra, que há sites, blogs e páginas de rede social que ensinam as melhores técnicas e ferramentas para que a criança tire a própria vida.
Para os mais novos, se matar é, de fato, mais difícil. Dados mostram que, a cada suicídio adulto, há de 10 a 20 tentativas que não acabaram em morte. No caso de crianças, são estimadas 300 tentativas para um suicídio consumado, seja porque elas usam método pouco letal, seja por dificuldade de acesso a instrumentos. "Muitos, quando chegam aqui contam que vêm se cortando a mais ou menos um ano, e a família não sabe disso", diz Maria Fernanda.
Esse desconhecimento familiar não deve ser encarado como descaso, mas precisa ser visto sob a lógica do quanto o tema do suicídio ainda é um tabu na sociedade, afirmam os especialistas. No caso de crianças e adolescentes, a situação ainda é pior: ninguém fala sobre o assunto, apesar de estudos mostrarem que 90% dos jovens atendidos em emergência psiquiátrica chegam lá após tentativas de se matar.
"Existe o mito de que o suicídio se concentra nos países nórdicos. Essas nações realmente lideravam o ranking, mas tomaram atitudes e conseguiram reverter o quadro. Enquanto isso, a gente aqui no Brasil continua sem falar nisso e vê os números crescendo", alerta Carlos Correia, voluntário há mais de 20 anos do Centro de Valorização da Vida, o CVV. 
Dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na semana passada mostraram que o Brasil é o quarto país latino-americano com o maior crescimento no número de suicídios entre 2000 e 2012 e o oitavo do mundo em números absolutos de pessoas que tiram a própria vida. Foram 11.821 suicídios no período, aumento de 10% em relação à década anterior. 
Uma situação que, segundo os especialistas, reflete a falta de programas de prevenção. Apesar de a taxa no Brasil ainda ser inferior a 10 suicídios por 100 mil habitantes – a partir da qual a OMS considera alta, a população é muito grande e, portanto, o número de casos também.
“O que não pode é o Brasil votar em março sobre o relatório da OMS, mas não promover o plano de prevenção ao suicídio”, afirma o médico Carlos Felipe Almeida D’Oliveira, da Rede Brasileira de Prevenção do Suicídio.
O psiquiatra infantil Gustavo Estanislau compara as iniciativas de prevenção brasileiras com as de países desenvolvidos. "Lá fora, existem projetos de prevenção há muito tempo. Eles já têm isso tão bem organizado, que funcionam como um guia. Tem equipes até para agir nas escolas quando, por exemplo, uma criança se mata. No Brasil, não conheço nenhum projeto desse tipo."
A criação de um programa de prevenção ao suicídio eficaz deve ter como prioridades a identificação de fatores de risco, o investimento em serviços especializados e o mapeamento de quais são as populações mais vulneráveis, com atenção àqueles que já cometeram tentativas de suicídio.
Maria Fernanda conta que boa parte das crianças e adolescentes que ela atende no pronto socorro psiquiátrico é reincidente: já tentaram se matar outra vez e, machucados, passaram por um clínico geral que os liberou em seguida. “É a realidade da maioria, porque ainda são poucos os serviços especializados. No hospital convencional, a medida comum é cuidar do ferimento e mandar para casa”, diz.
Quando essa mesma criança que tentou se matar tem acesso a um serviço especializado, o resultado pode mudar seu futuro. “Atendo e avalio se ela mantém o risco suicida. Se ela diz que tentou se matar e continua querendo, a gente interna. Se não há risco, indicamos um acompanhamento ambulatorial. Só não pode é voltar para casa do jeito que chegou”, afirma Maria Fernanda.
Os especialistas afirmam que é preciso prestar atenção a qualquer sinal que a criança ou o adolescente demonstre sobre a vontade de tirar a própria vida. Além de comunicar verbalmente o objetivo de se matar, ele pode apresentar sinais como tristeza prolongada, mudança brusca de comportamento, agressividade e intolerância.
“A primeira coisa a fazer é considerar que há um risco. Não pode achar que é bobagem, coisa momentânea ou feita para chamar atenção. O suicídio tem um aspecto importante, que é a comunicação. Se a pessoa está dizendo que tem um tipo de sofrimento e que não encontra saída, é preciso ficar atento e procurar um serviço de saúde mental”, afirma D’Oliveira, da Rede Brasileira de Prevenção do Suicídio.
Detectado o risco, a primeira providência é conversar. Parece óbvio, mas não é. Na maioria dos casos, os adultos acreditam que se fingirem que não perceberam, a criança ou o adolescente pode mudar de ideia. Outros tantos acham que falar em suicídio é uma ameaça típica da idade. Ambas atitudes estão erradas. “É preciso sempre levar a sério e acreditar no que a criança ou o adolescente diz. É importante ter uma conversa, sem julgamentos, para que ele não se sinta tolhido em falar”, afirma a psicóloga Karen Scavacini, mestre em saúde pública e especialista em prevenção ao suicídio. 
Pode ser que, nessa conversa, o adulto perceba sinais bem sutis, como a dificuldade de tolerância à frustração, falta de sentido na vida, sensação de desamparo e pressão interna. "É também nessa idade, que muitos se dão conta de sua orientação sexual. No caso de se perceberem homossexuais, podem achar que é um problema e que não tem solução", afirma Karen. 
A psicóloga explica que, nesta conversa, é importante que o adulto pergunte se a criança ou o adolescente já pensou em se matar mais de uma vez. “Assim, é possível saber se a ideia já virou um plano e então encaminhar a criança para um atendimento.”
Mesmo porque no momento do atendimento, explica a psicóloga, percebe-se que a vulnerabilidade dessa faixa etária é tão grande que muitos tentam tirar a vida sem ao menos saber o que isso significa. “Crianças mais novas e pré-adolescentes tem uma impulsividade e não têm a capacidade de avaliar que a morte é para sempre.”


quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Apresentação: Cuidado, frágil: atenção ao suicídio de crianças e adolescentes

Estes slides foram apresentados no dia 23/11, a convite do Projeto Voz do Silêncio.
Este importante projeto de Cubatão tem como objetivo atender "crianças, adolescentes que tiveram seus direitos sexuais violados, bem como seus familiares. Além de oferecer atendimento psicossocial, psicológico e jurídico, no ano de 2014, foram feitas palestras e sensibilizações nas escolas da rede municipal de ensino e campanhas de conscientização e prevenção ao abuso e exploração sexual, no terminal rodoviário e nos pátios de caminhões onde transitam um grande número de caminhoneiros."

As diferentes violências (sexual, psicológica, doméstica) aumentam significativamente o risco de suicídio.

Não encontrei livros sobre o assunto, portanto usei artigos como referência.


 Link dos slides:

http://www.slideshare.net/LucianaFranaCescon/preveno-ao-suicdio-infncia-e-adolescncia

domingo, 22 de novembro de 2015

PREVENÇÃO DO SUICÍDIO: Manual para Professores e Educadores

"Quando possível, a melhor abordagem para a prevenção do suicídio na escola é a elaboração de um trabalho em grupo que inclui professores, médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais da própria escola, trabalhando em conjunto com agentes da comunidade.

Ter pensamentos suicidas uma vez ou outra não é anormal. Eles são parte do processo de desenvolvimento normal da passagem da infância para a adolescência, à medida que se lida com problemas existenciais e se está tentando compreender a vida, a morte e o significado da existência. 

Estudos com questionários mostram que mais da metade dos estudantes do segundo grau já tiveram pensamentos de suicídio. Os jovens precisam conversar sobre esses assuntos com adultos. Pensamentos suicidas se tornam anormais quando a realização desses pensamentos parece ser a única solução dos problemas para as crianças e os adolescentes. Temos então um sério risco de tentativa de suicídio ou suicídio."

"Estudos pós-morte de adolescentes que faleceram por causa violentas indicam que eles não constituem um grupo homogêneo. Eles mostram manifestações súbitas de autodestruição e tendências de risco . Enquanto algumas das mortes podem ter sido causadas por atos não intencionais, outras são de atos intencionais resultantes da dor por estar vivendo".

"Resumidamente, adolescentes meninos cometem suicídio mais freqüentemente que meninas. Todavia, a taxa de tentativas de suicídio é duas a três vezes maior entre meninas. Elas têm mais depressão que os meninos, porém acham mais fácil conversar sobre seus problemas e procurar ajuda, isso provavelmente ajuda a prevenir atos fatais. Os meninos freqüentemente são mais agressivos e impulsivos, e não é raro agirem sob o efeito de álcool e drogas ilícitas, o que provavelmente contribui para atos fatais. 

Fatores de proteção 
Fatores importantes que fornecem proteção contra o comportamento suicida são: 

  • Padrões familiares: bom relacionamento com familiares; • apoio familiar. 
  • Personalidade e estilo cognitivo • boas habilidades/ relações sociais; • confiança em si mesmo , em suas conquistas e sua situação atual; • capacidade de procurar ajuda quando surgem dificuldades, ex. em trabalhos escolares;capacidade de procurar conselhos quando decisões importantes devem ser tomadas; • estar aberto para os conselhos e as soluções de outras pessoas mais experientes; • estar aberto ao conhecimento. 
  • Fatores culturais e sócio-demográficos: • integração social, ex. através de participação em esportes, igrejas, clubes e outras atividades; • bom relacionamento com colegas de escola; • bom relacionamento com professores e outros adultos; • aceita a ajuda de pessoas relevantes.

COMO IDENTIFICAR ESTUDANTES EM CONFLITO E COM POSSÍVEL RISCO DE SUICÍDIO


Identificação do sofrimento
Qualquer mudança súbita ou dramática que afete o desempenho, 
capacidade de prestar atenção ou o comportamento de crianças ou adolescentes
deve ser levado seriamente, como:
• falta de interesse nas atividades habituais;
• declínio geral nas notas;
• diminuição no esforço/interesse;
• má conduta na sala de aula;
• faltas não explicadas e/ou repetidas, ficar “matando aula”;
• consumo excessivo de cigarros (tabaco) ou de bebida alcoólica, ou abuso
de drogas (incluindo maconha);
• incidentes envolvendo a polícia e o estudante violento.

Estes fatores ajudam a identificar estudantes em risco para sofrimento mental 
e social que podem apresentar pensamentos de suicídio que em último caso levar
ao comportamento suicida. 
Se algum desses sinais for identificado por um professor ou orientador escolar,
o grupo coordenador da escola deve ser alertado e medidas devem ser tomadas
para se obter uma avaliação abrangente do estudante, desde que ele indique
sofrimento severo em que o resultado, em alguns casos, pode ser o
comportamento suicida.

COMO SE DEVE MANEJAR OS ESTUDANTES SOB RISCO DE SUICÍDIO?
Fortificando a auto-estima dos estudantes
Ter auto-estima positiva protege crianças e adolescentes contra problemas mentais e desesperança, e faz com que eles consigam lidar adequadamente com dificuldades e situações de vida estressantes.

Para promover uma auto-estima positiva em crianças e adolescentes uma variedade de técnicas pose ser usada. Algumas abordagens recomendadas estão listadas abaixo:

• Experiências de vida positivas que irão ajudar a criar uma identificação positiva nos jovens devem ser acentuadas. Experiências passadas positivas aumentam as chances de um futuro mais autoconfiante nos jovens.

• As crianças e os adolescentes não devem ser constantemente pressionados para fazerem mais, ou melhor.

• Não é suficiente que os adultos digam que amam as crianças; elas precisam se sentir amadas. 

Para atingir uma elevada auto-estima, os adolescentes precisam estabelecer uma independência definitiva da família e colegas; capacidade de se relacionar com o sexo oposto; se preparar para uma ocupação que lhe sustente; e estabelecer uma filosofia de vida significativa e praticável.

  • Promovendo expressão emocional 
As crianças e os adolescentes devem ser ensinados a levarem seus próprios sentimentos seriamente e serem encorajados a confiar em seus pais e outros adultos, como professores, médicos e enfermeiros da escola, amigos, treinadores esportivos, e orientadores religiosos. 

  • Prevenindo comportamento desafiador e a violência escolar 

Meios específicos devem estar à disposição no sistema educacional para prevenir o comportamento desafiador e a violência dentro e ao redor da escola, com a finalidade de se criar um ambiente seguro e sem intolerância. 

  • Provendo informação sobre serviços de saúde 
A disponibilidade de serviços específicos deve ser assegurada através de ampla publicação de números de telefone para, por exemplo, linhas de ajuda para situações de crise e emergências.

  • Encaminhar para profissionais 

Uma imediata, autoritária e decisiva intervenção, por ex. levar o jovem suicida ao clinico geral, ao psiquiatra infantil ou à emergência de um hospital, pode salvar uma vida.

Material na íntegra em:



8 coisas minúsculas que impediram suicídios

"Infelizmente, todos os dias acontecem várias tentativas de suicídios no mundo. Quando a gente ouve falar em algumas delas, ou o desfecho é trágico, ou algum herói apareceu para salvar o dia, como um bombeiro.
A verdade, no entanto, é que nem sempre um herói precisa entrar em cena. Coisas muito menores e mais simples já levaram o crédito por impedir esse ato de desespero conta a própria vida. Por exemplo:

Um beijo

Um menino chinês de 16 anos de idade estava vivendo uma época terrível. Sua mãe havia diso morta e ele estava convencido de que sua madrasta o odiava, provavelmente porque ela roubou todo o dinheiro do seu pai e deixou os dois sem-teto e lutando para permanecerem vivos.
Então ele decidiu pular de uma ponte. A polícia veio, e centenas de curiosos se reuniram para assistir o show e não tentar ajudar.
Em seguida, Liu Wenxiu, uma garçonete de 19 anos de idade que estava passando por lá, pensou: “Hum, que belo dia para salvar uma vida!”. Passando pelos policiais com uma história de que era namorada do menino, conseguiu conversar com ele, ouvir sua história e, em seguida, mostrou-lhe seu pulso direito cicatrizado, o que chamou sua atenção.
Liu contou a ele que também passou por um período igualmente de merda, e que havia feito suas próprias tentativas de suicídio. Sabendo qual é a kriptonita de cada menino de 16 anos de idade, ela deu-lhe um abraço e beijou-o. Nesse momento, ele estava mais do que disposto a deixar os policiais tirarem a faca que estava empunhando e transportá-lo em segurança.
Mais tarde, eles trocaram números de telefone e ela prometeu ligar para saber como ele estava indo.

Um filhote de cachorro
O veterano da Força Aérea norte-americana, David Sharpe, estava sofrendo de problemas de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e raiva muito graves. Ele estava provocando brigas, se automedicando com doses extrapoladas de álcool e perfurando buracos em paredes. Qualquer um que tentasse ajudá-lo era devidamente afastado.
Um dia, ele bateu no fundo do poço. Colocou uma arma em sua boca, fechou os olhos e estava pronto para puxar o gatilho quando um filhote de cachorro lambeu sua orelha.
Ele abriu os olhos e descobriu Cheyenne, a cadela que ele havia adotado há alguns meses, olhando para ele com a cabeça inclinada para um lado. Certamente, é muito difícil de ir adiante com a ação de matar a si mesmo quando um filhote de cachorro está olhando para você.
“Quem vai cuidar de mim?”, Sharpe imaginou o bichinho dizendo a ele, mesmo que ela provavelmente estivesse dizendo “Eu estou com fome” ou sei lá. Fato é que imaginar a voz da filhote Cheyenne pesou na hora, e Sharpe colocou a arma para longe.
Mais tarde, ele descobriu que poderia falar com a cadelinha sobre tudo o que tinha acontecido com ele, sem esconder o jogo, se sentir na defensiva ou se preocupar em ser julgado. "

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